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Diarreia em gatos: principais causas, manejo e particularidades dos felinos

Diarreia em gatos: principais causas, manejo e particularidades dos felinos
Publicado em 17 de julho de 2025
Tempo de leitura: 13min
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A diarreia em gatos é uma manifestação clínica frequente, que exige investigação sistemática e manejo individualizado. Saiba como abordar casos na rotina clínica.

A diarreia felina consiste em um sinal clínico caracterizado pelo aumento da frequência, fluidez e/ou volume das fezes, que pode estar associado a alterações do trato gastrointestinal ou de órgãos extraintestinais.

As causas podem ser diversas, e é essencial que o médico-veterinário avalie o paciente e estabeleça o manejo correto desse sintoma, levando em conta todas as particularidades dos felinos.

Neste artigo, compreenda as causas mais comuns de diarreia em gatos e saiba como conduzir terapias eficazes, melhorando o prognóstico e cuidando do bem-estar do paciente acometido.

A importância da abordagem correta da diarreia nos gatos

Reconhecer um quadro de diarreia em gatos e atuar da forma correta é fundamental para evitar desidratação e agravamento da condição primária. Além disso, a abordagem clínica adequada possibilita que o médico-veterinário ofereça o tratamento individualizado a cada paciente.

Também é essencial frisar que a conduta terapêutica diante da diarreia em felinos difere significativamente daquela adotada em cães. A abordagem da diarreia em gatos exige atenção às particularidades fisiológicas e comportamentais da espécie, bem como às nuances da microbiota intestinal felina (BAI et al., 2023; LENOX, 2021).

O médico-veterinário deve ter conhecimento técnico quanto a sensibilidades específicas a determinados fármacos, posologias ajustadas, riscos de anorexia e sobre a tendência felina à lipidose hepática diante de períodos prolongados sem ingestão alimentar (YOZOVA, 2023).

Principais causas de diarreia em felinos

A diarreia em gatos pode ser causada por alterações primárias intestinais ou por distúrbios sistêmicos que impactam a função gastrointestinal. A seguir, detalharemos as principais etiologias.

1. Doença inflamatória intestinal (DII)

A doença inflamatória intestinal (DII) é uma condição crônica, de natureza imunomediada, caracterizada pela infiltração de células inflamatórias na mucosa gastrointestinal, irritando e inflamando cronicamente o intestino.

As manifestações clínicas podem incluir diarreia crônica, perda de peso, vômitos e alterações no apetite.

2. Linfoma gastrointestinal felino

O linfoma intestinal é a neoplasia mais comum do trato gastrointestinal felino, geralmente de baixo grau (linfoma de pequenas células).

Os sinais clínicos são inespecíficos e se sobrepõem aos da DII, sendo muitas vezes indistinguíveis clinicamente, caracterizando um grande desafio diagnóstico para o médico-veterinário.

3. Doenças virais

Algumas doenças virais como o panleucopenia felina (parvovírus felino), a peritonite infecciosa felina (coronavírus felino – FCoV) e a imunodeficiência viral felina (FIV) podem causar diarreia em gatos. A panleucopenia, em especial, causa destruição das criptas intestinais e grave imunossupressão, com diarreia profusa, vômitos e leucopenia acentuada.

Um estudo realizado na Universidade de Teramo, na Itália, detectou um ou mais vírus em 86,2% das amostras fecais de gatos com sinais clínicos entéricos, destacando o papel dos vírus na etiologia da diarreia em gatos (DI PROFIO et al., 2023).

4. Doenças bacterianas

A diarreia em gatos também pode ter como causa infecções bacterianas. Salmonella spp., Campylobacter spp., Clostridium perfringens e Escherichia coli podem estar relacionadas ao quadro.

Embora o cultivo e a contagem do número de bactérias intestinais tenham sido considerados os métodos para o diagnóstico de crescimento bacteriano intestinal excessivo, sua relevância clínica deva ser cuidadosamente interpretada, pois esses métodos tecnicamente são sujeitos a erros significativos (CRUZ, 2022).

5. Endoparasitas

Infecções por Giardia spp., Toxocara cati, Cystoisospora spp. e Tritrichomonas foetus são causas frequentes de diarreia felina, sobretudo em filhotes, animais imunossuprimidos e que vivem em gatis.

Um estudo realizado em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, identificou uma prevalência de 40,04% de endoparasitas em gatos domiciliados, sendo que 36,61% apresentaram um gênero parasitário e 3,42% apresentaram associação de dois ou mais gêneros (MARQUES et al., 2024).

6. Doença Renal Crônica

A doença renal crônica (DRC) pode levar ao desenvolvimento de sinais gastrointestinais como a diarreia em gatos.

Tal sinal clínico pode ser decorrente de desequilíbrio dos eletrólitos sanguíneos, do acúmulo das toxinas urêmicas e de alterações na microbiota intestinal.

7. Pancreatite

Embora de difícil diagnóstico, a pancreatite felina está frequentemente presente na clínica veterinária. É caracterizada pela ativação intrapancreática de enzimas digestivas, inflamação local e liberação de mediadores sistêmicos, podendo cursar com vômitos, dor abdominal, letargia e diarreia em gatos.

A pancreatite pode, ainda, ocorrer concomitantemente à colangite e enterite, compondo a chamada tríade felina.

8. Intoxicações

A ingestão de plantas tóxicas, medicamentos humanos, produtos de limpeza ou alimentos impróprios pode causar irritação gastrointestinal severa, desencadeando quadros de diarreia em felinos.

Gatos são particularmente sensíveis a agentes tóxicos devido à menor atividade de enzimas hepáticas como a glucuroniltransferase, responsável por conjugar substâncias tóxicas com ácido glucurônico, facilitando sua excreção.

9. Dieta

Mudanças abruptas na dieta, alimentos com baixa digestibilidade, hipersensibilidades alimentares ou dietas caseiras mal balanceadas podem desencadear quadros de diarreia em gatos, de forma aguda ou crônica.

Outras possíveis causas

A diarreia em gatos ainda pode ter como causa:

  • estresse e mudanças ambientais (ex.: mudança de casa, chegada de outro animal etc.);
  • uso recente de antibióticos, resultando em desequilíbrio da microbiota intestinal;
  • disbiose intestinal (BAI et al., 2023);
  • hipertireoidismo;
  • insuficiência hepática.

O diagnóstico assertivo e o fornecimento de suporte ágil ao gato com diarreia são essenciais

A rápida intervenção clínica diante de um quadro de diarreia em gatos é fundamental para evitar desidratação, desnutrição, desequilíbrios eletrolíticos e agravamento da condição primária.

Outro ponto de atenção é que os felinos possuem um número reduzido de néfrons funcionais em comparação a outras espécies, o que os torna particularmente vulneráveis a insultos hemodinâmicos, como hipovolemia e hipotensão (YOZOVA, 2023).

Mesmo quadros diarreicos leves podem evoluir rapidamente para agravamento da função renal, especialmente em pacientes geriátricos ou com doença renal crônica.

Exames mais utilizados em casos de diarreia em felinos

Em casos de diarreia em gatos, a abordagem diagnóstica inicial deve incluir exames básicos que ajudam a avaliar o estado geral do paciente e orientar condutas terapêuticas iniciais.

No entanto, exames complementares mais específicos são indicados de acordo com a hipótese clínica, como nos casos de suspeita de pancreatite, DII, linfoma, ou disfunções hepatobiliares (INDARJULIANTO et al., 2022).

Abaixo, detalhamos quais exames podem ser solicitados em casos de pacientes felinos com diarreia.

1. Ultrassom abdominal

O exame ultrassonográfico é uma ferramenta essencial na investigação da diarreia em gatos. Ele permite a avaliação da espessura e da arquitetura das paredes intestinais. Ainda é possível avaliar a presença de linfonodomegalia mesentérica, líquido livre abdominal, conteúdo gastrointestinal alterado e alterações compatíveis com colite.

O ultrassom abdominal também pode auxiliar na diferenciação diagnóstica entre DII e linfoma intestinal, embora a confirmação exija biópsia (ZORNOW et al., 2023).

2. Exames hematológicos

O hemograma completo pode revelar leucocitose, anemia, eosinofilia (em casos de parasitoses ou enteropatias eosinofílicas) ou linfopenia.

Já os exames bioquímicos, como ALT, FA, GGT, ureia, creatinina e bilirrubinas, ajudam a detectar envolvimento hepático e renal, além de orientar a escolha e o monitoramento da fluidoterapia.

A dosagem de eletrólitos séricos (Na⁺, K⁺, Cl⁻) é essencial, especialmente em pacientes com doença renal crônica e/ou vômitos associados.

3. Coproparasitológico

Ao abordar um quadro de diarreia em gatos, o exame coproparasitológico deve ser sempre solicitado, mesmo em pacientes com histórico de vermifugação recente. Isso se justifica pela existência de parasitas que não são abrangidos por esquemas convencionais, como Tritrichomonas foetus ou Giardia spp. (MARQUES et al., 2024).

A identificação precisa do agente permite a instituição do tratamento adequado e eficaz para cada caso.

Como tratar diarreia em gatos: principais particularidades e condutas

O tratamento da diarreia em gatos deve considerar duas frentes principais: o suporte clínico imediato e a resolução da causa base.

O suporte inicial inclui:

  • correção de desidratação e distúrbios eletrolíticos;
  • estímulo ao apetite (com atenção ao risco de lipidiose hepática).

Já a reidratação deve considerar tanto a reposição do déficit hídrico quanto a manutenção das perdas contínuas, preferencialmente com soluções balanceadas isotônicas. Em casos de hipocalemia, comum em diarreias persistentes, a reposição deve ser feita com cautela (YOZOVA, 2023).

Para completar, a nutrição do gato com diarreia deve ser baseada em dietas de alta digestibilidade, com proteínas de qualidade e níveis de energia adequados para manutenção de um peso corporal saudável.

A Royal Canin® possui uma linha Gastrointestinal exclusivamente formulada para ser utilizada como alimento coadjuvante para gatos com perturbações digestivas.

A Gastrointestinal Feline é um alimento indicado para auxiliar na redução de distúrbios agudos de absorção intestinal e na recuperação do estado nutricional saudável em animais convalescentes. Possui ingredientes de alta digestibilidade, nível aumentado de eletrólitos, alta concentração de nutrientes essenciais e alta densidade energética.

Já a Gastrointestinal Hydrolysed Protein é uma dieta indicada para compensar a má digestão e reduzir intolerâncias a ingredientes e nutrientes. Possui alta digestibilidade, fontes de proteína hidrolisada e fontes de carboidratos selecionados.

Alimentos da linha gastrointestinal podem ser indicados em casos de diarreia em gatos

Além disso, o tratamento da causa subjacente depende da confirmação diagnóstica e pode incluir antiparasitários, dietas de exclusão, imunossupressores, quimioterapia (para linfoma) ou terapias antivirais e antibacterianas, dependendo do caso.

Quando o uso de antibióticos deve ser indicado?

A antibioticoterapia pode ser usada em casos de diarreia com sinais sistêmicos, como febre, letargia, anorexia intensa e leucocitose, ou naqueles com confirmação laboratorial de agentes patogênicos invasivos (CRUZ, 2022).

Aqui temos um ponto de atenção: o uso indiscriminado de antibióticos pode promover disbiose intestinal, agravando o quadro clínico, além de favorecer a resistência bacteriana.

Casos de diarreia em gatos leves a moderadas, sem repercussão sistêmica, tendem a responder apenas com suporte clínico e manejo nutricional.

Por que o uso da escopolamina em gatos (Buscopan®) não é recomendado?

O uso da escopolamina em gatos, princípio ativo de medicamentos como o Buscopan®, não é recomendado devido ao alto risco de efeitos adversos. Por ser um anticolinérgico, promove redução da motilidade intestinal e pode levar à íleo paralítico.

Além disso, a espécie apresenta maior sensibilidade a efeitos colaterais colinérgicos, como midríase e taquicardia.

Confira outras dúvidas comuns sobre diarreia em gatos

Para completar, respondemos questões a pacientes felinos com diarreia que podem fazer parte da rotina clínica.

Todo gato com diarreia deve consumir ração gastrointestinal?

Não. A indicação de dietas terapêuticas depende da causa, intensidade, duração e impacto clínico da diarreia sobre o paciente.

Como saber se a diarreia é crônica ou aguda?

A classificação da diarreia como aguda ou crônica é fundamental para direcionar o raciocínio clínico, o plano diagnóstico e o tratamento. A principal diferença está na duração e na progressão dos sinais clínicos.

A diarreia aguda tem duração inferior a 14 dias, início repentino e pode estar associada a vômitos, letargia, hiporexia/anorexia.

Já a diarreia crônica tem duração superior a 2-3 semanas, pode variar de intermitente a persistente, elevando o risco de perda de peso, hipoproteinemia e alterações sistêmicas.

Qual a diferença entre a diarreia de intestino grosso e delgado?

As características do conteúdo fecal, volume e frequência de defecação ajudam a definir qual porção do intestino está alterada, o que é de grande valia para relacionar a causa da diarreia em gatos.

Confira abaixo a diferença entre as características clínicas da diarreia de intestino grosso e delgado (NELSON & COUTO, 2015):

Característica Clínica Diarreia Intestino Delgado Diarreia Intestino Grosso  
Polifagia Às vezes Rara a ausente 
Volume das fezes Aumentado Algumas vezes reduzido 
Muco nas fezes Raro Algumas vezes 
Presença de sangue Melena (raro)  Hematoquezia (algumas vezes)  
Perda de peso Comum, especialmente se crônica Rara 
Vômito Pode ser observado Pode ser observado 
Peristaltismo Podem estar presentes Menos frequentes 
Tenesmo  Raro Algumas vezes 

 

Os probióticos sempre são indicados em quadros de diarreia?

Não. Os probióticos não são indicados em todos os quadros de diarreia em gatos, mas seu uso pode ser altamente benéfico em muitas situações, desde que baseado em avaliação clínica e diagnóstico apropriado.

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Referências:

BAI, H. et al. Identification of Gut Microbiome and Metabolites Associated with Acute Diarrhea in Cats. Microbiology Spectrum, 2023. Acesso em: 18 jun. 2025.

CRUZ, L.M. Indicação do uso de antimicrobianos no tratamento da diarreia em gatos: revisão de literatura. UFRGS, 2022. Acesso em: 18 jun. 2025.

DI PROFIO, F. et al. Exploring the Enteric Virome of Cats with Acute Gastroenteritis. Vet. Sci., v.10, n.5, 2023. Acesso em: 18 junho 2025.

INDARJULIANTO, S. et al. Study of Digestive Tract Diseases in Cats. Advances in Biological Sciences Research, v.22, 2022. Acesso em: 18 jun. 2025.

KATHRANI, A. Dietary and Nutritional Approaches to the Management of Chronic Enteropathy in Dogs and Cats. Vet. Clin. Small Anim., v.51, n.1, 2021. Acesso em: 18 jun. 2025.

LENOX, C.E. Nutritional Management for Dogs and Cats with Gastrointestinal Diseases. Veterinary Clinics of North America, v.51, n.3, 2021. Acesso em: 18 jun. 2025.

MARQUES, S.M.T.; LEITE, C.L.; MATTOS, M.J.T. Prevalência de endoparasitos em gatos com tutores em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Rev. Agrária Acadêmica – Imperatriz, MA, v.7, n.5, 2024. Acesso em: 18 jun. 2025.

NELSON, R.W.; COUTO, C.G. Medicina Interna de Pequenos Animais. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 5 ed., 2015.

YOZOVA, I. Prescrevendo fluidos intravenosos para gatos. Vetfocus, n.32.3, 2023. Acesso em: 18 jun. 2025.

ZHA, M.; ZHU, S.; CHEN, Y. Probiotics and Cat Health: A Review of Progress and Prospects. Microoganisms, v.12, n.6, 2024. Acesso em: 18 jun. 2025.

ZORNOW, K.A. et al. Fecal S100A12 concentrations in cats with chronic enteropathies. Journal of Feline Medicine and Surgery, v.25, n.3, 2023. Acesso em: 18 jun. 2025.

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