FIV: Imunodeficiência Viral Felina em detalhes

FIV: Imunodeficiência Viral Felina em detalhes

A FIV é uma doença que acomete os gatos domésticos e outras 18 espécies de felídeos e 2 de hyaenídeos em todo o mundo (ZANI, 2017). É uma afecção muito relevante na saúde animal devido a sua forma de transmissão e a ausência de cura do felino infectado até o presente momento.

Não há comprovação científica da transmissão do vírus da imunodeficiência felina para cães e seres humanos. Porém, devido a alta complexidade da doença em felinos, o seu diagnóstico pode representar um grande desafio ao Médico-Veterinário.

Neste artigo iremos abordar as principais formas de diagnóstico e manejo do paciente acometido pelo vírus.

O que é a FIV Felina?

A Imunodeficiência Viral Felina, popularmente conhecida como “Aids felina” ou “FIV”, é uma infecção por um retrovírus que possui forma e estrutura do gênero lentivírus (ZANI, 2017). O agente agressor é responsável por acometer indivíduos da espécie felina, incluindo gatos domésticos com ou sem acesso à rua, em qualquer idade e em âmbito global.

O vírus da imunodeficiência felina é do tipo RNA de fita simples, envelopado e é menos resistente no ambiente (COGO, 2019).

Para evitar o seu reconhecimento pelas células de defesa, o vírus da imunodeficiência felina ataca os linfócitos, que são o seu alvo primário. Poderá também se replicar em linfócitos T CD4+ e CD8+, linfócitos B, megacariócitos, células neuronais e macrófagos (COGO, 2019).

Apesar da doença estar relacionada em alguns aspectos ao vírus da Leucemia Felina (FeLV), diferencia-se pelos requisitos bioquímicos da sua transcriptase reversa.

Os indivíduos infectados pela FIV podem apresentar sinais clínicos ou serem assintomáticos. Em casos mais graves, o animal pode ir a óbito (COGO, 2019). Os animais acometidos ficam susceptíveis a infecções oportunistas e outras doenças neurológicas secundárias devido a deficiência no sistema imunológico.

Atualmente, não há vacinas realmente eficazes para a FIV no Brasil e o seu uso é controverso mesmo nos países que já possuem disponibilidade vacinal. A dificuldade na produção de uma vacina realmente eficaz ocorre devido a grande diversidade genética dos lentivírus com poder de mutações no hospedeiro.

Como ocorre a transmissão do vírus da imunodeficiência felina

A FIV pode ser propagada por via venérea ou inoculação da saliva através das mordeduras e arranhaduras entre felinos acometidos e não acometidos. Também pode haver transmissão entre mães e filhotes pelo contato direto da amamentação ou via transplacentária. Há ainda a transmissão por fômites (objetos), portanto é essencial que seja realizada a esterilização correta dos materiais utilizados em procedimentos cirúrgicos.

A propagação ocorre de forma mais frequente em animais de gatis ou aglomerações, quando não há o devido controle no local. Além disso, indivíduos que possuem contato direto com outros felinos não testados ou positivos e animais que tenham acesso à rua devido às frequentes brigas também podem ser acometidos.

Principais sinais clínicos da FIV

Os sinais clínicos podem ser inespecíficos, variando de acordo com a fase e forma com que a infecção se apresenta no paciente. Além disso, infecções oportunistas secundárias recorrentes ou crônicas devido a imunossupressão podem tornar o animal soropositivo suscetível ao adoecimento com maior dificuldade de recuperação.

O indivíduo pode apresentar perda de peso, anorexia, letargia, febre e linfadenomegalia e outros sinais passíveis de serem identificados durante a consulta. Alterações em exames laboratoriais também podem ser observadas e incluem anemia e linfopenia com neutropenia. Também pode ser identificada a presença de micoplasmose associada (LITTLE, 2020).

Dependendo da fase da doença, como por exemplo na latente, os animais podem não apresentar sinais clínicos. Porém, em alguns casos eles podem apresentar linfadenomegalia generalizada e estomatite. Já na fase de disfunção imune progressiva, os sinais clínicos anteriores voltam e a carga viral fica mais elevada e com grande propensão para o surgimento de doenças oportunistas.

Algumas doenças secundárias podem surgir em decorrência das complicações relacionadas às infecções crônicas e imunossupressão, tais como (GONÇALVES, 2019):

  • enterite;
  • dermatites;
  • gengivite, úlceras na cavidade oral e periodontite (animais que apresentam recorrência devem ser testados para diagnóstico diferencial de FIV e FeLV);
  • doenças respiratórias crônicas;
  • criptosporidiose;
  • maior tendência ao desenvolvimento de toxoplasmose;
  • encefalite (acomete aproximadamente 5% dos indivíduos, podendo apresentar distúrbios comportamentais, demência, convulsões e dificuldade de locomoção.

Fases da doença

Assim como na FeLV, a FIV possui diferentes fases durante o percurso da doença, porém a viremia tende a ser um pouco mais branda do que na FeLV (LITTLE, 2020).

O vírus da leucemia felina possui alguns subtipos, sendo A, B, C, D e E. Há ainda estudos em andamento para o mapeamento de outras variações que surgem através das mutações. Este é um dos motivos pelo qual o desenvolvimento de uma vacina eficaz ainda é difícil.

Detalhamos abaixo das fases conhecidas da doença:

Fase Primária ou Aguda

Na fase aguda ou primária, após a inoculação do vírus ocorre o início da replicação. Os macrófagos podem identificá-lo e impedir a viremia. Porém, caso não haja a identificação viral, com cerca de 15 dias após a inoculação já é possível identificar a FIV no exame do tipo PCR.

Essa fase pode durar por até 3 meses e nela os sinais clínicos podem aparecer de forma branda ou não, porém geralmente são autolimitantes.

Fase Assintomática ou Latente

O indivíduo pode passar meses ou anos da sua vida na fase assintomática ou latente. Esse período pode se prolongar por até 10 anos, considerando alguns fatores, como a idade do animal, a exposição a doenças secundárias e a utilização de imunossupressores. Nesta etapa, ocorre a diminuição gradual de linfócitos T CD4+ e aumento de linfócitos T CD8+.

O indivíduo pode não apresentar os sinais clínicos nessa fase. Portanto, é essencial que caso não tenha sido testado ou haja suspeita da doença, o gato seja testado para confirmação do diagnóstico.

Fase de Disfunção Imune Progressiva

A fase de disfunção imune progressiva é considerada como a fase terminal da doença, pois há um acúmulo muito grande dos complexos-imunes. A fase é sintomática e com a apresentação da carga viral mais elevada. Nesse momento, as doenças oportunistas, a imunossupressão e também as neoplasias podem surgir, aumentando os riscos do animal vir a óbito.

Todavia, a FIV felina ocorre de forma mais branda do que a FeLV, uma vez que a fase latente possui pode ser muito prolongada.

O gato com FIV pode conviver com outros gatos?

Felinos não testados ou positivos para a doença não devem ter nenhum tipo de contato com gatos que não tenham sido testados ou estejam infectados pelo vírus da imunodeficiência felina devido ao elevado risco de propagação da doença. Já os indivíduos positivos para FIV podem conviver com outros felinos soropositivos.

É essencial que o Médico-Veterinário informe os tutores que possuem interesse em adquirir, adotar ou resgatar animais sobre a necessidade de realização da testagem para FIV, FeLV e outras doenças. Também poderá dar orientações ao tutor sobre a forma correta de manejos do pet e do ambiente em que vive, visto que o animal soropositivo para FIV ou outras doenças transmissíveis deverá permanecer em ambiente em que não possua contato com outros indivíduos da mesma espécie não testados ou negativos.

Quais gatos são predispostos?

Os animais com FeLV são predispostos a contraírem também o vírus da FIV. Entretanto, podem ser acometidos pelo vírus da imunodeficiência felina os gatos de qualquer raça e idade, sendo mais comum em animais com idade superior a cinco anos devido a fase de latência da doença.

Também são predispostos os felinos que:

  • convivem com outros gatos em gatil sem o devido controle;
  • não são testados para FIV e FeLV e convivem com outros animais não testados ou positivos;
  • possuem acesso à rua, pois podem morder e arranhar felinos soropositivos e se contaminarem;
  • não são castrados e podem adquirir a infecção por via venérea;
  • são filhotes e possuem contato direto com suas mães soropositivas através da amamentação ou por terem adquirido a infecção por via transplacentária;
  • realizam procedimentos clínicos e cirúrgicos em clínicas e hospitais veterinários que não seguem o processo correto de higienização e esterilização dos materiais (infecção via fômites).

Em resumo, fatores como a região, idade, sexo e forma como os indivíduos vivem são determinantes para a incidência e prevalência dos casos da FIV.

Como realizar o diagnóstico da FIV em gatos

O diagnóstico da FIV é um desafio para o Médico-Veterinário, visto que a doença apresenta diversas fases e o animal pode ser assintomático em grande parte da sua vida. Portanto, o profissional deve realizar a anamnese e um conjunto de exames clínicos e laboratoriais para fechar o diagnóstico de FIV.

O teste rápido sorológico (ELISA) na FIV é essencial para o diagnóstico quando há uma viremia mais elevada. Todavia, diante de um primeiro resultado negativo, a repetição do exame poderá ser realizada após 60 dias do primeiro teste, pois os gatos podem não ter desenvolvido anticorpos contra a doença ainda num primeiro momento, resultando em falso negativo.

O teste Elisa detecta o antígeno p27 para FeLV e os anticorpos para FIV. Já o PCR, detecta o DNA viral, o RNA viral (RT-PCR) ou ambos (DNA e RNA). Porém, na fase assintomática ou de latência, o PCR pode não ser eficaz para a identificação do vírus.

Os animais com menos de 6 meses podem testar falso negativo pela presença de anticorpos maternos e baixa carga viral. Portanto, no caso da suspeita de FIV, deve-se testar o animal após os 6 meses de idade (COGO, 2019).

Durante a consulta, o Médico-Veterinário deve avaliar cada caso e recomendar qual teste será mais adequado para o diagnóstico daquele paciente.

Tratamento do paciente FIV positivo

Até o momento, não há tratamento 100% eficaz para o combate da doença. Todavia, o felino infectado poderá ultrapassar os dez anos de idade após ser diagnosticado.

Embora não exista cura para a doença, uma das formas de tratamento é a utilização de imunomoduladores (Intérferons), como por exemplo o Roferon e Centron, que podem ser intravenosos ou manipulados para uso oral, e podem ser indicados pelo veterinário dependendo do caso. Esses medicamentos visam a diminuição da carga viral (LITTLE, 2020). Esse é o melhor tratamento específico para as retroviroses (FIV e FeLV) atualmente, porém ainda é pouco explorado no Brasil.

Os flavonóides já foram citados como opção de tratamento no passado, porém o uso não é recomendado nas literaturas atuais.

No caso da presença de sinais clínicos, devem ser associados os tratamentos sintomáticos de acordo com cada caso.

Manejo alimentar dos animais acometidos

Em algum momento durante o percurso da doença, o animal pode ter anorexia e emagrecimento como sinais clínicos, e é essencial oferecer ao gato alimentos ricos em nutrientes, principalmente como forma de prevenção para o surgimento de doenças secundárias. Desta forma, proteínas, lipídeos, fibras e demais componentes presentes na formulação do alimento irão auxiliar na manutenção e, consequente, melhora do estado de saúde do paciente.

Os alimentos úmidos podem ser valiosos, principalmente nos momentos em que os gatos estiverem debilitados, já que possuem excelente palatabilidade e uma quantidade maior de água, auxiliando também na hidratação e no trato urinário do felino.

Para animais debilitados ou internados, o alimento Recovery ROYAL CANIN® é uma excelente opção para um manejo nutricional adequado ao estado de saúde do paciente.

Embalagem do alimento Recovery da Royal Canin

Quais recomendações o Médico-Veterinário deve passar ao tutor?

Embora a FIV não possua cura até o momento, o acompanhamento clínico se faz necessário em todas as fases da doença para que o animal possa ter uma boa qualidade de vida e para dar ao tutor as devidas recomendações de cuidados. Durante as consultas também serão alinhados tópicos como a necessidade de testar e separar animais soropositivos de soronegativos ou não testados e restringir o acesso do animal à rua para não ter contato direto com animais fora do seu convívio.

A castração durante a juventude do animal é importante para inibir os comportamentos territorialistas e, consequentemente, as brigas. Desta forma, a propagação da doença por mordidas, arranhaduras e inoculação reduz de forma considerável na região.

O manejo alimentar do gato com FIV deve ser composto por uma dieta rica em nutrientes, com o intuito de prevenir o surgimento das infecções secundárias. Acesse a linha completa de produtos da ROYAL CANIN® para gatos saudáveis e debilitados e conheça todas as opções disponíveis para a dieta dos pacientes. Utilize também a ferramenta gratuita Calculadora de Prescrições para auxiliar na recomendação.

Referências bibliográficas

COGO, Ana Clara et al. Defeitos imunológicos secundários. In: IMUNOLOGIA VETERINÁRIA, 2019, São Paulo. Seminário. São Paulo: UNESP, 2019, p. 1-45. Disponível em: https://www.fcav.unesp.br/Home/departamentos/patologia/HELIOJOSEMONTASSIER/seminario-defeitos-imunologicos-secundarios.pdf. Acesso em: 21 abr. 2022.

ZANI, André Luis da Silva et al. Análise de subtipos recombinantes do Vírus da Imunodeficiência Felina identificados em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. In: FEIRA DE INOVAÇÃO TECNOLÓGICA, 2017, Rio Grande do Sul. Seminário. São Paulo: UFRGS, 2017. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/177530. Acesso em: 21 abr. 2022.

GONÇALVES, Rayane Jardim. Vírus da imunodeficiência felina e vírus da leucemia felina. 2019, p. 6-22. Dissertação (UNICEPLAC) – Bacharel em Medicina Veterinária – Centro Universitário do Planalto Central Apparecido dos Santos, Gama, 2019. Disponível em: https://dspace.uniceplac.edu.br/bitstream/123456789/203/1/Rayane_Gon%C3%A7alves_0002586.pdf. Acesso em: 21 abr. 2022.

LITTLE, Susan. et al. 2020 AAFP FELINE RETROVIRUS TESTING AND MANAGEMENT GUIDELINES. JFMS, v. 22, p. 05-30, 2020. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/pdf/10.1177/1098612X19895940. Acesso em: 27 abr. 2022.