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Úlcera de córnea em cães e gatos: manejo e possíveis complicações

Úlcera de córnea em cães e gatos: manejo e possíveis complicações
Atualizado em 30 de março de 2026
Tempo de leitura: 12min
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Úlcera de córnea é uma afecção ocular que pode resultar na perda da visão, caso não tratada de forma rápida e adequada. Saiba como identificar e conduzir um caso de lesão ulcerativa em córnea.

As úlceras de córnea representam uma das principais afecções oftálmicas em cães e gatos, podendo variar de lesões superficiais a profundas, com risco de perfuração corneana, comprometendo significativamente a saúde ocular do paciente (AZEVEDO, 2023).

A intervenção precoce e o tratamento adequado são fundamentais para o bom prognóstico da úlcera de córnea, seja em gatos ou em cães, com a completa recuperação do paciente quando a abordagem é feita com rapidez. Para isso, é essencial que o médico-veterinário tenha conhecimento sobre as causas, o diagnóstico, o manejo e as possíveis complicações dessa enfermidade.

O que é a úlcera de córnea?

A córnea é a camada mais externa do bulbo ocular, responsável por conferir proteção às estruturas internas e transparência ao olho. É composta por quatro camadas: epitélio estratificado, estroma, membrana de Descemet e endotélio (Figura 1).

A úlcera de córnea em gatos e cães, também denominada ceratite ulcerativa, é uma condição oftálmica caracterizada pela perda de integridade da córnea, podendo envolver desde as camadas superficiais (epitélio, estroma) até as mais profundas (Descemet, endotélio).

Em casos mais graves, a lesão pode evoluir para complicações severas, como perfurações oculares, levando a risco significativo de perda da integridade do olho e perda da visão (MAMACHAN et al., 2023).

Imagem histológica de um corte transversal da córnea
Figura 1: Imagem histológica de um corte transversal da córnea. A) Epitélio; B) Estroma; C) Membrana de Descemet; D) Endotélio. Fonte: MAGGS, 2013.

Principais causas de úlcera de córnea em cães e gatos

As causas da úlcera de córnea nesses animais são multifatoriais, podendo estar relacionadas a traumas, doenças primárias e predisposição racial.

Vamos conferir todas essas hipóteses detalhadamente:

1. Traumas

As lesões traumáticas são uma das principais causas de úlcera de córnea em gatos e cães.

Os traumas podem resultar de diversas situações, como brigas entre animais, onde arranhões e mordidas no olho são comuns, ou ainda da presença de corpos estranhos, como pelos, poeira ou partículas de areia, que entram em contato com a superfície ocular e podem provocar abrasões no epitélio corneano.

Além disso, o prurido excessivo, como aquele relacionado a quadros de conjuntivites alérgicas ou em casos de dermatites complicadas, aumenta a predisposição ao trauma ocular devido à necessidade do animal de esfregar ou arranhar a região ao redor dos olhos.

2. Doenças primárias

Doenças primárias também podem desempenhar um papel fundamental na predisposição para o desenvolvimento de úlcera de córnea em gatos e cães.

A ceratoconjuntivite seca, afecção caracterizada pela produção insuficiente de lágrimas, compromete a lubrificação e a proteção da superfície ocular, tornando a córnea mais vulnerável a lesões e infecções, e favorecendo a formação de úlceras. A falta de lágrimas reduz a capacidade de limpeza da superfície ocular, permitindo que partículas de sujeira ou microrganismos fiquem aderidos, facilitando o desenvolvimento de ulceração.

infecções virais, como aquelas causadas pelo herpesvírus felino (FHV-1), também têm grande relevância, uma vez que o vírus pode desencadear o desenvolvimento de úlcera de córnea superficial em gatos (BUSTAMANTE et al., 2018).

3. Predisposição racial / variação anatômica

Raças braquicefálicas, tanto de cães quanto de gatos, devido à sua anatomia facial característica, apresentam maior predisposição para o desenvolvimento de úlcera de córnea.

Animais como o Bulldogs, Pugs, Shih Tzus, Boxers, Persas, entre outros, têm uma conformação craniana que resulta em uma maior exposição do globo ocular. A protrusão do olho pode ser exacerbada pela insuficiência da pálpebra superior em cobrir adequadamente a córnea, o que compromete a proteção natural do olho contra agentes externos.

Além disso, a anatomia dos braquicefálicos frequentemente leva a dificuldades na drenagem lacrimal, resultando em um fluxo inadequado de lágrimas para a lubrificação da superfície ocular. Isso favorece o aparecimento de ceratoconjuntivite seca, que pode, justamente, levar a formação de úlcera de córnea em cães e gatos.

Sinais clínicos de úlcera de córnea em cães e gatos

Os sinais clínicos de úlcera de córnea em cães e gatos podem incluir:

  • prurido ocular;
  • hiperemia conjuntival;
  • blefaroespasmo;
  • epífora ou lacrimejamento excessivo;
  • fotofobia.

O diagnóstico de úlcera de córnea deve ser feito durante a consulta

O diagnóstico de úlcera de córnea é simples e realizado com exame oftálmico através do teste de fluoresceína. Por isso, é importante que os médicos-veterinários tenham sempre este colírio disponível em consultório.

Como realizar o teste de fluoresceína: passo a passo

O teste de fluoresceína é um procedimento simples e rápido que permite a identificação precisa de lesões na córnea, fundamental não apenas para o diagnóstico de úlcera de córnea em gatos e cães como para escolha do tratamento adequado (CHAMBERS et al., 2020).

O passo a passo recomendado para o teste de fluoresceína é o seguinte.

  1. Limpar a superfície ocular com solução fisiológica estéril.
  2. Aplicar uma gota de fluoresceína na superfície ocular.
  3. Observar o paciente. Se ele estiver acometido, nota-se uma coloração verde fluorescente na região da úlcera de córnea (Figura 2).
Exemplos de úlcera de córnea superficial e profunda em pacientes caninos
Figura 2: Esquerda – Úlcera superficial em cão. Direita – Úlcera profunda em cão, com exposição de Membrana de Descemet. Fonte: MACHADO et al., 2019.

Exames complementares podem ser aliados, principalmente em casos mais complexos

Em quadros mais complicados de úlcera de córnea em gatos e cães, caracterizados por lesões extensas, profundas ou de difícil cicatrização, a realização de exames complementares pode ser essencial para um diagnóstico preciso, possibilitando o manejo clínico individualizado e o tratamento mais adequado para cada paciente.

Embora o teste de fluoresceína seja o método padrão para a identificação de úlcera de córnea, a persistência da lesão ou a falta de resposta ao tratamento inicial pode indicar a presença de infecções resistentes, exigindo uma abordagem diagnóstica mais detalhada.

Nessas situações, oftalmologistas veterinários podem recorrer, por exemplo, à cultura microbiológica e antibiograma, permitindo a identificação do agente infeccioso e a determinação do antibiótico mais eficaz para o tratamento.

Úlcera de córnea cães e gatos: como é feito o tratamento?

O tratamento da úlcera de córnea em gatos e cães depende da gravidade da lesão. Diante disso, é importante que o clínico geral consiga identificar casos complexos e saiba quando devem ser encaminhados ao especialista em oftalmologista veterinária.

Abaixo, veja algumas condutas que podem ser tomadas em casos de pacientes com úlcera de córnea.

1. Tratamento medicamentoso

O tratamento medicamentoso da úlcera de córnea em cães e gatos é fundamental para promover a cicatrização da lesão e prevenir complicações, como infecções secundárias e perfuração do globo ocular.

É essencial a utilização de colírios lubrificantes, sendo a melhor opção aqueles semelhantes à lágrima (Tears, Lacri, Hyabak, Systane etc.), capazes de promover a hidratação adequada da córnea, levando à formação de uma camada protetora que auxilia na cicatrização e proporcionando alívio para o desconforto ocular. O uso de colírio de EDTA 0,35% também auxilia a regeneração epitelial da córnea.

Em conjunto, é indicado o uso de antibióticos tópicos para prevenir ou tratar infecções secundárias que podem surgir em casos de úlcera de córnea. A tobramicina é uma opção comum devido à sua eficácia contra bactérias frequentemente envolvidas em infecções oculares.

Vale ressaltar que é importante evitar o uso indiscriminado de antibióticos de amplo espectro, devido ao risco de o animal desenvolver resistência bacteriana.

Em casos mais graves ou quando a úlcera não responde ao tratamento inicial, o paciente deve ser encaminhado ao oftalmologista veterinário para que, a partir do exame oftálmico completo e possíveis exames complementares, o profissional consiga instituir a abordagem terapêutica eficaz.

O acompanhamento regular do animal acometido é crucial para monitorar a evolução da úlcera de córnea e ajustar o tratamento conforme necessário (BUSTAMANTE et al., 2018).

2. Manejo do paciente com úlcera de córnea

Em casos de úlcera de córnea em cães e gatos, o médico-veterinário deve instruir ao tutor que, além de seguir corretamente o protocolo terapêutico prescrito, o uso contínuo do colar elizabetano até a alta médica é crucial para garantir uma recuperação eficaz e prevenir o agravamento da lesão corneana.

O colar elizabetano irá evitar que o animal esfregue ou toque no olho afetado, o que pode resultar na piora da úlcera de córnea, além de aumentar o risco de infecção bacteriana secundária.

Possíveis complicações de úlceras de córnea em gatos e cães

As úlceras de córnea em gatos e cães podem levar a uma série de complicações graves caso não sejam tratadas adequadamente ou se o tratamento não for iniciado precocemente.

Infecções secundárias podem agravar ainda mais a lesão na córnea, levando a uma inflamação intensa, com produção de secreção purulenta, que dificulta a cicatrização. A infecção pode se espalhar rapidamente para outras estruturas oculares, e, até mesmo, causar infecções sistêmicas se não tratadas adequadamente;

Em casos de úlcera de córnea profunda ou perfurada, é indicada intervenção cirúrgica, feita através de um enxerto pediculado conjuntival (Figura 3), com o intuito de ajudar na reconstituição do epitélio corneano e preservar a integridade do globo ocular, dificultando a progressão da lesão e a perda da visão.

Enxerto pediculado em córnea central no olho esquerdo de um cão pequinês com úlcera de córnea
Figura 3: Enxerto pediculado em córnea central no olho esquerdo de um cão pequinês. Fonte: DAMASCENO & JOFFILY, 2023.

Quando há perfuração corneana comprometendo a integridade e a função do globo ocular, é indicada a enucleação, técnica cirúrgica que consiste na remoção do globo ocular afetado.

Por isso, a identificação precoce das complicações e o manejo adequado são cruciais para evitar a progressão da úlcera de córnea para essas condições graves. O acompanhamento veterinário regular e o tratamento adequado com antibióticos, analgésicos e outras terapias específicas são essenciais para garantir a recuperação da úlcera de córnea em gatos e cães e evitar danos irreversíveis (AZEVEDO, 2023).

Como orientar os tutores sobre a saúde ocular do pet

Orientar os tutores sobre a saúde ocular do pet é fundamental para a prevenção de condições que possam afetar a visão e o bem-estar do paciente. Existem, portanto, algumas estratégias eficazes para manter os olhos saudáveis e prevenir doenças como a úlcera de córnea em cães e gatos. São elas:

  • Manter a higiene ocular e periocular adequada: a limpeza regular dos olhos é essencial para evitar o acúmulo de secreções, poeira e outros detritos que podem causar irritações ou infecções. Animais de pelos longos devem ter os pelos da região periocular frequentemente aparados, evitando que eles entrem em contato com a superfície ocular.
  • Consultas periódicas ao médico-veterinário: é importante que animais predispostos a problemas oculares, como os de raças braquicefálicas ou aqueles com histórico de doenças oculares, realizem acompanhamento regular, possibilitando que o profissional detecte, precocemente, qualquer problema ocular e de saúde no geral.

Nutrição como aliada do bem-estar geral de gatos e cães

A nutrição equilibrada através do fornecimento de uma alimentação adequada e balanceada desempenha um papel fundamental na manutenção da geral e da imunidade do pet.

Dietas enriquecidas com nutrientes antioxidantes, como ácidos graxos ômega 3 e 6, também ajudam a nutrir a pele de animais com sensibilidade cutânea e tendência a irritações e coceira, prevenindo traumas oculares que levam à úlcera de córnea.

A Royal Canin® oferece ao médico-veterinário uma linha de alimentos específicos para diferentes necessidades nutricionais. São alimentos completos e balanceados para atender as demandas nutricionais de gatos e cães em diferentes fases e estilos de vida.*

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* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade.

Referências:

AZEVEDO, M.A.C. Queratoplastia como tratamento cirúrgico de úlceras de córnea, descemetocelos, perfurações e outras afeções corneanas em cães e gatos. Repositório Universidade de Évora, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.

BUSTAMANTE, M.G.M. et al. Medical management of deep ulcerative keratitis in cats: 13 cases. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2018. Acesso em: 20 mar. 2025.

DAMASCENO, A.G.; JOFFILY, D. Enxerto de pedículo conjuntival para o tratamento de úlceras corneanas profundas e perfuradas em cães. Pubvet, v.17, n.03, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.

LOIRE, C. Prevalence of different corneal ulcers in dogs – Retrospective study. The University of Zagreb Faculty of Veterinary Medicine, 2024. Acesso em: 20 mar. 2025.

MACHADO, F.L.; PEREIRA, F.M.; SOUSA, F.A. Patologias Oftálmicas: ceratite ulcerativa. Revista Educação, Saúde & Meio Ambiente, v.2, n.6, 2019. Acesso em: 24 mar. 2025.

MAGGS, D. J. Cornea and Sclera. In: MAGGS, D.J.; MILLER, P.E.; OFRI, R. Slatter’s Fundamentals of Veterinary Ophthalmology., Saint Louis: Elsevier, 5 ed., 2013.

MAMACHAN, M. et al. An overview of ulcerative keratitis in Dogs and Cats. Veterinary Today, v.1, n.8, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.

MARCON, I.L.; SAPIN, C.F. Causes and corrections of corneal ulcer in pet animals – Literature review. Research, Society na Development, v.10, n.7, 2021. Acesso em: 20 mar. 2025.

VERDENIUS, C.Y. et al. Corneal stromal ulcerations in a referral population of dogs and cats in the Netherlands (2012–2019): Bacterial isolates and antibiotic resistance. Veterinary Ophthalmology, v.27, n.1, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.

O conteúdo do Portal VET da Royal Canin® é destinado à profissionais de saúde veterinária.

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