Úlcera de córnea em cães e gatos: manejo e possíveis complicações
Links rápidos:
- O que é a úlcera de córnea?
- Principais causas de úlcera de córnea em cães e gatos
- Sinais clínicos de úlcera de córnea em cães e gatos
- O diagnóstico de úlcera de córnea deve ser feito durante a consulta
- Úlcera de córnea cães e gatos: como é feito o tratamento?
- Possíveis complicações de úlceras de córnea em gatos e cães
- Como orientar os tutores sobre a saúde ocular do pet
- Nutrição como aliada do bem-estar geral de gatos e cães
Úlcera de córnea é uma afecção ocular que pode resultar na perda da visão, caso não tratada de forma rápida e adequada. Saiba como identificar e conduzir um caso de lesão ulcerativa em córnea.
As úlceras de córnea representam uma das principais afecções oftálmicas em cães e gatos, podendo variar de lesões superficiais a profundas, com risco de perfuração corneana, comprometendo significativamente a saúde ocular do paciente (AZEVEDO, 2023).
A intervenção precoce e o tratamento adequado são fundamentais para o bom prognóstico da úlcera de córnea, seja em gatos ou em cães, com a completa recuperação do paciente quando a abordagem é feita com rapidez. Para isso, é essencial que o médico-veterinário tenha conhecimento sobre as causas, o diagnóstico, o manejo e as possíveis complicações dessa enfermidade.
O que é a úlcera de córnea?
A córnea é a camada mais externa do bulbo ocular, responsável por conferir proteção às estruturas internas e transparência ao olho. É composta por quatro camadas: epitélio estratificado, estroma, membrana de Descemet e endotélio (Figura 1).
A úlcera de córnea em gatos e cães, também denominada ceratite ulcerativa, é uma condição oftálmica caracterizada pela perda de integridade da córnea, podendo envolver desde as camadas superficiais (epitélio, estroma) até as mais profundas (Descemet, endotélio).
Em casos mais graves, a lesão pode evoluir para complicações severas, como perfurações oculares, levando a risco significativo de perda da integridade do olho e perda da visão (MAMACHAN et al., 2023).

Principais causas de úlcera de córnea em cães e gatos
As causas da úlcera de córnea nesses animais são multifatoriais, podendo estar relacionadas a traumas, doenças primárias e predisposição racial.
Vamos conferir todas essas hipóteses detalhadamente:
1. Traumas
As lesões traumáticas são uma das principais causas de úlcera de córnea em gatos e cães.
Os traumas podem resultar de diversas situações, como brigas entre animais, onde arranhões e mordidas no olho são comuns, ou ainda da presença de corpos estranhos, como pelos, poeira ou partículas de areia, que entram em contato com a superfície ocular e podem provocar abrasões no epitélio corneano.
Além disso, o prurido excessivo, como aquele relacionado a quadros de conjuntivites alérgicas ou em casos de dermatites complicadas, aumenta a predisposição ao trauma ocular devido à necessidade do animal de esfregar ou arranhar a região ao redor dos olhos.
2. Doenças primárias
Doenças primárias também podem desempenhar um papel fundamental na predisposição para o desenvolvimento de úlcera de córnea em gatos e cães.
A ceratoconjuntivite seca, afecção caracterizada pela produção insuficiente de lágrimas, compromete a lubrificação e a proteção da superfície ocular, tornando a córnea mais vulnerável a lesões e infecções, e favorecendo a formação de úlceras. A falta de lágrimas reduz a capacidade de limpeza da superfície ocular, permitindo que partículas de sujeira ou microrganismos fiquem aderidos, facilitando o desenvolvimento de ulceração.
Já infecções virais, como aquelas causadas pelo herpesvírus felino (FHV-1), também têm grande relevância, uma vez que o vírus pode desencadear o desenvolvimento de úlcera de córnea superficial em gatos (BUSTAMANTE et al., 2018).
3. Predisposição racial / variação anatômica
Raças braquicefálicas, tanto de cães quanto de gatos, devido à sua anatomia facial característica, apresentam maior predisposição para o desenvolvimento de úlcera de córnea.
Animais como o Bulldogs, Pugs, Shih Tzus, Boxers, Persas, entre outros, têm uma conformação craniana que resulta em uma maior exposição do globo ocular. A protrusão do olho pode ser exacerbada pela insuficiência da pálpebra superior em cobrir adequadamente a córnea, o que compromete a proteção natural do olho contra agentes externos.
Além disso, a anatomia dos braquicefálicos frequentemente leva a dificuldades na drenagem lacrimal, resultando em um fluxo inadequado de lágrimas para a lubrificação da superfície ocular. Isso favorece o aparecimento de ceratoconjuntivite seca, que pode, justamente, levar a formação de úlcera de córnea em cães e gatos.
Sinais clínicos de úlcera de córnea em cães e gatos
Os sinais clínicos de úlcera de córnea em cães e gatos podem incluir:
- prurido ocular;
- hiperemia conjuntival;
- blefaroespasmo;
- epífora ou lacrimejamento excessivo;
- fotofobia.
O diagnóstico de úlcera de córnea deve ser feito durante a consulta
O diagnóstico de úlcera de córnea é simples e realizado com exame oftálmico através do teste de fluoresceína. Por isso, é importante que os médicos-veterinários tenham sempre este colírio disponível em consultório.
Como realizar o teste de fluoresceína: passo a passo
O teste de fluoresceína é um procedimento simples e rápido que permite a identificação precisa de lesões na córnea, fundamental não apenas para o diagnóstico de úlcera de córnea em gatos e cães como para escolha do tratamento adequado (CHAMBERS et al., 2020).
O passo a passo recomendado para o teste de fluoresceína é o seguinte.
- Limpar a superfície ocular com solução fisiológica estéril.
- Aplicar uma gota de fluoresceína na superfície ocular.
- Observar o paciente. Se ele estiver acometido, nota-se uma coloração verde fluorescente na região da úlcera de córnea (Figura 2).

Exames complementares podem ser aliados, principalmente em casos mais complexos
Em quadros mais complicados de úlcera de córnea em gatos e cães, caracterizados por lesões extensas, profundas ou de difícil cicatrização, a realização de exames complementares pode ser essencial para um diagnóstico preciso, possibilitando o manejo clínico individualizado e o tratamento mais adequado para cada paciente.
Embora o teste de fluoresceína seja o método padrão para a identificação de úlcera de córnea, a persistência da lesão ou a falta de resposta ao tratamento inicial pode indicar a presença de infecções resistentes, exigindo uma abordagem diagnóstica mais detalhada.
Nessas situações, oftalmologistas veterinários podem recorrer, por exemplo, à cultura microbiológica e antibiograma, permitindo a identificação do agente infeccioso e a determinação do antibiótico mais eficaz para o tratamento.
Úlcera de córnea cães e gatos: como é feito o tratamento?
O tratamento da úlcera de córnea em gatos e cães depende da gravidade da lesão. Diante disso, é importante que o clínico geral consiga identificar casos complexos e saiba quando devem ser encaminhados ao especialista em oftalmologista veterinária.
Abaixo, veja algumas condutas que podem ser tomadas em casos de pacientes com úlcera de córnea.
1. Tratamento medicamentoso
O tratamento medicamentoso da úlcera de córnea em cães e gatos é fundamental para promover a cicatrização da lesão e prevenir complicações, como infecções secundárias e perfuração do globo ocular.
É essencial a utilização de colírios lubrificantes, sendo a melhor opção aqueles semelhantes à lágrima (Tears, Lacri, Hyabak, Systane etc.), capazes de promover a hidratação adequada da córnea, levando à formação de uma camada protetora que auxilia na cicatrização e proporcionando alívio para o desconforto ocular. O uso de colírio de EDTA 0,35% também auxilia a regeneração epitelial da córnea.
Em conjunto, é indicado o uso de antibióticos tópicos para prevenir ou tratar infecções secundárias que podem surgir em casos de úlcera de córnea. A tobramicina é uma opção comum devido à sua eficácia contra bactérias frequentemente envolvidas em infecções oculares.
Vale ressaltar que é importante evitar o uso indiscriminado de antibióticos de amplo espectro, devido ao risco de o animal desenvolver resistência bacteriana.
Em casos mais graves ou quando a úlcera não responde ao tratamento inicial, o paciente deve ser encaminhado ao oftalmologista veterinário para que, a partir do exame oftálmico completo e possíveis exames complementares, o profissional consiga instituir a abordagem terapêutica eficaz.
O acompanhamento regular do animal acometido é crucial para monitorar a evolução da úlcera de córnea e ajustar o tratamento conforme necessário (BUSTAMANTE et al., 2018).
2. Manejo do paciente com úlcera de córnea
Em casos de úlcera de córnea em cães e gatos, o médico-veterinário deve instruir ao tutor que, além de seguir corretamente o protocolo terapêutico prescrito, o uso contínuo do colar elizabetano até a alta médica é crucial para garantir uma recuperação eficaz e prevenir o agravamento da lesão corneana.
O colar elizabetano irá evitar que o animal esfregue ou toque no olho afetado, o que pode resultar na piora da úlcera de córnea, além de aumentar o risco de infecção bacteriana secundária.
Possíveis complicações de úlceras de córnea em gatos e cães
As úlceras de córnea em gatos e cães podem levar a uma série de complicações graves caso não sejam tratadas adequadamente ou se o tratamento não for iniciado precocemente.
Infecções secundárias podem agravar ainda mais a lesão na córnea, levando a uma inflamação intensa, com produção de secreção purulenta, que dificulta a cicatrização. A infecção pode se espalhar rapidamente para outras estruturas oculares, e, até mesmo, causar infecções sistêmicas se não tratadas adequadamente;
Em casos de úlcera de córnea profunda ou perfurada, é indicada intervenção cirúrgica, feita através de um enxerto pediculado conjuntival (Figura 3), com o intuito de ajudar na reconstituição do epitélio corneano e preservar a integridade do globo ocular, dificultando a progressão da lesão e a perda da visão.

Quando há perfuração corneana comprometendo a integridade e a função do globo ocular, é indicada a enucleação, técnica cirúrgica que consiste na remoção do globo ocular afetado.
Por isso, a identificação precoce das complicações e o manejo adequado são cruciais para evitar a progressão da úlcera de córnea para essas condições graves. O acompanhamento veterinário regular e o tratamento adequado com antibióticos, analgésicos e outras terapias específicas são essenciais para garantir a recuperação da úlcera de córnea em gatos e cães e evitar danos irreversíveis (AZEVEDO, 2023).
Como orientar os tutores sobre a saúde ocular do pet
Orientar os tutores sobre a saúde ocular do pet é fundamental para a prevenção de condições que possam afetar a visão e o bem-estar do paciente. Existem, portanto, algumas estratégias eficazes para manter os olhos saudáveis e prevenir doenças como a úlcera de córnea em cães e gatos. São elas:
- Manter a higiene ocular e periocular adequada: a limpeza regular dos olhos é essencial para evitar o acúmulo de secreções, poeira e outros detritos que podem causar irritações ou infecções. Animais de pelos longos devem ter os pelos da região periocular frequentemente aparados, evitando que eles entrem em contato com a superfície ocular.
- Consultas periódicas ao médico-veterinário: é importante que animais predispostos a problemas oculares, como os de raças braquicefálicas ou aqueles com histórico de doenças oculares, realizem acompanhamento regular, possibilitando que o profissional detecte, precocemente, qualquer problema ocular e de saúde no geral.
Nutrição como aliada do bem-estar geral de gatos e cães
A nutrição equilibrada através do fornecimento de uma alimentação adequada e balanceada desempenha um papel fundamental na manutenção da geral e da imunidade do pet.
Dietas enriquecidas com nutrientes antioxidantes, como ácidos graxos ômega 3 e 6, também ajudam a nutrir a pele de animais com sensibilidade cutânea e tendência a irritações e coceira, prevenindo traumas oculares que levam à úlcera de córnea.
A Royal Canin® oferece ao médico-veterinário uma linha de alimentos específicos para diferentes necessidades nutricionais. São alimentos completos e balanceados para atender as demandas nutricionais de gatos e cães em diferentes fases e estilos de vida.*
Conheça melhor o nosso portfólio e as nossas linhas de alimentos coadjuvantes e para animais saudáveis. Utilize a nossa Calculadora de Recomendação Nutricional, ferramenta exclusiva e gratuita que tem como objetivo facilitar a escolha do melhor produto e da quantidade ideal para cada paciente.
* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade.
Referências:
AZEVEDO, M.A.C. Queratoplastia como tratamento cirúrgico de úlceras de córnea, descemetocelos, perfurações e outras afeções corneanas em cães e gatos. Repositório Universidade de Évora, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.
BUSTAMANTE, M.G.M. et al. Medical management of deep ulcerative keratitis in cats: 13 cases. Journal of Feline Medicine and Surgery, 2018. Acesso em: 20 mar. 2025.
DAMASCENO, A.G.; JOFFILY, D. Enxerto de pedículo conjuntival para o tratamento de úlceras corneanas profundas e perfuradas em cães. Pubvet, v.17, n.03, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.
LOIRE, C. Prevalence of different corneal ulcers in dogs – Retrospective study. The University of Zagreb Faculty of Veterinary Medicine, 2024. Acesso em: 20 mar. 2025.
MACHADO, F.L.; PEREIRA, F.M.; SOUSA, F.A. Patologias Oftálmicas: ceratite ulcerativa. Revista Educação, Saúde & Meio Ambiente, v.2, n.6, 2019. Acesso em: 24 mar. 2025.
MAGGS, D. J. Cornea and Sclera. In: MAGGS, D.J.; MILLER, P.E.; OFRI, R. Slatter’s Fundamentals of Veterinary Ophthalmology., Saint Louis: Elsevier, 5 ed., 2013.
MAMACHAN, M. et al. An overview of ulcerative keratitis in Dogs and Cats. Veterinary Today, v.1, n.8, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.
MARCON, I.L.; SAPIN, C.F. Causes and corrections of corneal ulcer in pet animals – Literature review. Research, Society na Development, v.10, n.7, 2021. Acesso em: 20 mar. 2025.
VERDENIUS, C.Y. et al. Corneal stromal ulcerations in a referral population of dogs and cats in the Netherlands (2012–2019): Bacterial isolates and antibiotic resistance. Veterinary Ophthalmology, v.27, n.1, 2023. Acesso em: 20 mar. 2025.
