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Conheça as principais hemoparasitoses em cães e gatos

Conheça as principais hemoparasitoses em cães e gatos
Atualizado em 24 de fevereiro de 2025
Tempo de leitura: 14min
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Há diversas hemoparasitoses que podem afetar a saúde dos cães e dos gatos. Conheça as principais enfermidades e saiba como fazer a prevenção!

Hemoparasitas são microrganismos capazes de infectar o interior das células sanguíneas e com potencial para desenvolver doenças e complicações severas. Algumas das hemoparasitoses em gatos e cães possuem alta casuística na rotina de atendimento e podem afetar animais de todas as raças e idades.

Assim, cabe ao médico-veterinário a suspeita e a investigação com o intuito de promover tratamento e prevenção.

Vamos abordar mais informações sobre essas principais afecções, como preveni-las e compreender como o manejo nutricional pode auxiliar na recuperação de animais infectados.

O que são hemoparasitoses?

Hemoparasitoses são enfermidades ocasionadas por protozoários ou bactérias capazes de parasitar o interior das células da corrente sanguínea de cães e gatos, podendo afetar severamente a saúde desses animais.

São caracterizadas por um conjunto de sinais clínicos inespecíficos e podem causar alterações laboratoriais bem semelhantes, independentemente do agente causador.

Por isso, é importante fazer o diagnóstico diferencial completo, uma vez que o paciente pode ser acometido por mais de um agente simultaneamente.

Os agentes patogênicos responsáveis pela infecção do animal suscetível são transmitidos durante o repasto sanguíneo de ectoparasitas hematófagos, como carrapatos (ixodídeos) e pulgas. Mas também podem ser transmitidos através de transfusão sanguínea.

Quais são as principais hemoparasitoses em cães e gatos?

Nos tópicos a seguir estão as principais hemoparasitoses que comumente afetam cães e gatos, além de suas características.

1. Erliquiose

Uma das principais hemoparasitoses que afeta cães é a Erliquiose, causada pela bactéria gram-negativa da espécie Erlichia canis, cujo vetor é o carrapato Rhipicephalus sanguineus.

Larvas e ninfas desse ixodídeo infectam-se quando realizam o repasto sanguíneo em um cão com Erliquiose, em fase de riquetsiemia (aumento do número de parasitas na corrente sanguínea).

Em seguida, transmitem a infecção a um cão suscetível, após sofrerem a diferenciação para os estágios de ninfa e adulto.

A Erliquiose canina pode ser classificada em 3 fases: aguda, crônica ou subclínica (assintomática). É caracterizada por uma desordem multissistêmica, que geralmente desencadeia trombocitopenia (diminuição do número de plaquetas sanguíneas).

Seus sinais clínicos consistem em:

  • hiporexia/ anorexia;
  • letargia;
  • perda de peso;
  • mucosas pálidas;
  • petéquias;
  • epistaxe;
  • hematúria;
  • uveíte;
  • poliartrite;
  • disfunções neurológicas.

O diagnóstico dessa hemoparasitose é realizado através de sorologia (pesquisa de anticorpos) por técnicas de IFI (Imunofluorescência Indireta), ELISA e dot-ELISA (kits comerciais de rápido diagnóstico).

O exame de PCR (Reação em Cadeia da Polimerase) também é muito usado por proporcionar alta sensibilidade, detectando qualquer fragmento de DNA da Ehrlichia.

É recomendado um tratamento prolongado (4 semanas) com Doxiciclina, além da instituição de uma terapia de suporte (fluidoterapia e suporte energético) quando necessário.

Glicocorticóides só devem ser prescritos quando não se notar resposta satisfatória, ou quando surgem complicações como anemia imunomediada.

Saiba mais: Confira o artigo completo sobre Erliquiose canina!

2. Babesiose

A Babesiose é uma hemoparasitose causada pelos protozoários do gênero Babesia, que pode acometer cães e gatos.

Nos cães, comumente está associada às espécies Babesia canis canis, B. c. rossi, B. c. vogeli e Babesia gibsoni. Já nos gatos, a principal espécie descrita é a Babesia felis sensu stricto.

A Babesiose canina é transmitida principalmente através da picada de ixodídeos Dermacentor reticulatus, Haemaphysalis elliptica, Rhipicephalus sanguineus, Haemaphysalis longicornis, H. bispinosa.

O vetor contaminado pela Babesia inocula as formas infectantes presentes em sua saliva no momento do repasto sanguíneo. Posteriormente, os parasitas atingem o interior das hemácias, multiplicando-se, e ocasionando o rompimento da célula.

Essa hemólise resultará em uma anemia hemolítica, que poderá se tornar imunomediada, agravando o quadro.

Veja de forma dinâmica o ciclo da Babesiose:

 

Imagem ilustrativa mostra como é o ciclo da babesiose, uma hemoparasitose

Os vetores da Babesiose Felina ainda não foram identificados. Mas sabe-se que nas duas espécies também ocorre contaminação do animal através de transfusão sanguínea.

As manifestações clínicas nos caninos são diversas, podendo incluir:

  • prostração;
  • hiporexia ou anorexia;
  • êmese;
  • mucosas pálidas;
  • febre;
  • perda de peso;
  • esplenomegalia;
  • linfonodomegalia;
  • icterícia;
  • petéquias;
  • anemia;
  • trombocitopenia;
  • distúrbios neurológicos.

Já nos felinos, a hemoparasitose geralmente causará sinais clínicos mais brandos, tais como:

  • anorexia;
  • letargia;
  • fraqueza;
  • pelagem áspera.

Testes sorológicos como a imunofluorescência indireta (IFI) são muito utilizados para o diagnóstico da Babesiose canina, assim como a PCR, que proporciona o diagnóstico em infecções agudas, crônicas e subclínicas.

Na Babesiose felina, a PCR é o método de escolha para detectar essa hemoparasitose (HARTMANN, 2022).

O tratamento dos animais infectados depende da severidade da afecção. Pode ser instituída uma terapia de suporte, incluindo fluidoterapia, restabelecimento do balanço eletrolítico e transfusão sanguínea.

Nos cães, usa-se fármacos como a Doxiciclina e o Dipropionato de Imidocarb de forma isolada ou associada. Nos gatos, a droga de escolha é o Fosfato de Primaquina (medicação antimalária).

Saiba mais: Confira o artigo completo sobre Babesiose canina!

3. Anaplasmose

A hemoparasitose Anaplasmose é uma enfermidade que acomete cães, causada pelo Anaplasma phagocytophilum e pelo Anaplasma platys, bactérias gram-negativas que podem ser transmitidas pelos vetores Ixodes ricinus e Rhipicephalus sanguineus.

A infecção do animal ocorre após a inoculação desse microrganismo através da picada de um carrapato infectado, durante ou entre seus estágios de desenvolvimento. Então, o Anaplasma penetra nos eritrócitos e neutrófilos, onde irão formar mórulas.

Posteriormente, o cão pode apresentar um quadro febril intermitente, decorrente da variação cíclica do número de plaquetas e de parasitas no sangue. Dessa forma, além da febre, poderemos observar:

  • hiporexia/anorexia;
  • letargia;
  • mucosas hipocoradas ou pálidas;
  • abdômen rígido/ tenso;
  • vômitos;
  • diarreia;
  • trombocitopenia.

O diagnóstico pode ser feito através da visualização de mórulas intracelulares no esfregaço sanguíneo e testes sorológicos como IFI, ELISA e dot-ELISA. Porém, a PCR é o método mais específico para detecção da Anaplasmose.

O tratamento instituído deve ser a base de Doxiciclina. Mas vale ressaltar que outras hemoparasitoses causadas por ixodídeos podem estar associadas quando o cão apresenta sinais clínicos moderados ou graves, ou quando não há resposta imediata à Doxiciclina.

Saiba mais: Confira o artigo completo sobre Anaplasmose em gatos e cães!

4. Mycoplasmose

A Mycoplasmose ou Hemobartonelose é uma hemoparasitose responsável por desencadear anemia hemolítica em gatos. É causada por bactérias gram-negativas das espécies Mycoplasma haemofelis, Candidatus Mycoplasma haemominutum e Candidatus Mycoplasma turicencis.

Em felinos, a anemia tem sido frequentemente atribuída a doenças infecciosas e outras com doença primária imunomediada que se pensa ser menos comum. No entanto, foi descrito em um estudo que aproximadamente 75% dos gatos com anemia regenerativa ou não regenerativa não tinham causa infecciosa identificável (ISHAK et al., 2007).

Acredita-se que a transmissão dessa hemoparasitose se dá principalmente pela picada de pulgas Ctenocephalides felis. Uma vez infectado, o gato pode apresentar a forma aguda ou crônica da Mycoplasmose, e pode desenvolver as seguintes alterações:

  • mucosas hipocoradas/ pálidas;
  • hiporexia/ anorexia;
  • letargia;
  • perda de peso progressiva;
  • desidratação;
  • anemia.

Após a constatação da clínica do animal e dos resultados de exames laboratoriais (hematológicos), a PCR será o método de escolha para o diagnóstico definitivo.

O tratamento da doença inclui o uso de Doxiciclina ou Enrofloxacina (quando o gato for intolerante à Doxiciclina). Também pode ser necessário terapia de suporte e transfusão sanguínea.

Saiba mais: Confira o artigo completo sobre a Micoplasmose felina

5. Febre Maculosa

O agente etiológico da Febre Maculosa é a Rickettsia rickettsii, bactéria gram negativa intracelular obrigatória, cujo principal vetor é o carrapato Amblyomma cajennense.

A transmissão dessa hemoparasitose para um cão suscetível ocorre após a picada de carrapatos portadores desse parasita, infectando, então, os eritrócitos e causando uma doença clínica bem semelhante à Erliquiose.

Porém, um estudo demonstrou que a Febre Maculosa possui maior sazonalidade e, em geral, ocasiona alterações clínicas mais graves. (GREENE at al, 1985).

Veja, a seguir, o ciclo da Febre maculosa:

Representação gráfica do ciclo da Febre Maculosa

 

Os sinais clínicos mais comuns são:

  • febre;
  • depressão;
  • hiporexia/anorexia;
  • petéquias;
  • trombocitopenia;
  • leucocitose;
  • alterações oftálmicas (uveíte);
  • distúrbios neurológicos.

Para fechar o diagnóstico, recomenda-se a realização de testes sorológicos por Imunofluorescência Indireta (IFI) ou da PCR.

O tratamento de eleição é a Doxiciclina, acrescido por fluidoterapia, reposição de eletrólitos e transfusão sanguínea quando necessário.

Saiba mais: Confira o artigo completo sobre Febre maculosa!

Hemoparasitoses em cães e gatos: a importância de conhecer o ciclo de vida dos carrapatos

As hemoparasitoses em cães e gatos, conforme descrito anteriormente, estão intrinsecamente ligadas à presença de vetores, especialmente carrapatos. Compreender as etapas do ciclo de vida dos ixodídeos é essencial para o controle efetivo dessas afecções.

A transmissão dos patógenos Babesia, Ehrlichia, Anaplasma, Mycoplasma e Rickettsia está diretamente ligada à dinâmica de repasto do ectoparasita, que precisa de um período mínimo de fixação e alimentação para liberar os agentes na corrente sanguínea do hospedeiro.

Estudos indicam que o tempo necessário para transmissão varia de acordo com o patógeno. Por exemplo, no caso de Babesia, pode ser necessária uma fixação mínima de 24 a 48 horas para a inoculação das formas infectantes (GREENE, 2015).

No entanto, mesmo um único carrapato infectado representa risco significativo, destacando a importância de evitar infestações, independentemente de sua magnitude.

Por isso, a adoção de medidas preventivas, como o uso contínuo de ectoparasiticidas eficazes e o manejo ambiental para reduzir a densidade dos vetores, é essencial para interromper o ciclo de transmissão.

Veja, detalhadamente, o ciclo do carrapato:

Representação gráfica do ciclo do carrapato

A relação com épocas de chuva: primavera e verão representam um sinal de alerta!

As hemoparasitoses podem ser consideradas doenças sazonais, ou seja, que aumentam sua incidência em determinadas épocas do ano, pois ocorre uma maior proliferação dos ectoparasitas sob clima quente e úmido, como nas estações primavera e verão.

Apesar da sazonalidade do problema, é crucial ressaltar que a proteção do paciente deve ser contínua, pois mesmo durante períodos de menor proliferação, como outono e inverno, os carrapatos se mantem presentes no ambiente.

Como lidar com reinfecções?

Reinfecções por hemoparasitoses são uma realidade e podem se manifestar de diferentes formas, desde novos episódios clínicos até alterações persistentes, como esplenomegalia crônica, mesmo após tratamento adequado.

Nesses casos, é essencial confirmar o diagnóstico por meio de exames laboratoriais, incluindo alguns cuidados no manejo desses pacientes, como:

  • revisão do protocolo terapêutico: garantir que o tratamento inicial seguiu as diretrizes para cada patógeno específico e, em casos de suspeita de resistência ou persistência, ajustar a terapia conforme necessário;
  • avaliação do sistema imunológico: animais imunocomprometidos podem apresentar maior predisposição à persistência ou reinfecção. Suporte imunológico pode ser uma abordagem complementar em casos recorrentes;
  • monitoramento contínuo: realizar exames periódicos para avaliar recidivas ou presença de alterações hematológicas e clínicas, como esplenomegalia;
  • controle ambiental rigoroso: reinfecções frequentemente estão associadas à exposição contínua aos vetores, reforçando a necessidade de controle eficaz no ambiente e uso regular de antiparasitários.

Para animais que apresentam esplenomegalia persistente, mesmo após a resolução aparente da infecção, recomenda-se um acompanhamento clínico rigoroso, com suporte terapêutico voltado para a saúde hepatoesplênica e manejo de possíveis complicações secundárias.

Como prevenir as hemoparasitoses em cães e gatos?

A melhor maneira de promover a prevenção das hemoparasitoses em cães e gatos é o controle da infestação por ectoparasitas, pulgas e carrapatos.

Para isso, devemos nos preocupar tanto com a prescrição de produtos adequados para uso direto em cães e gatos (orais, spot-on ou coleiras), quanto com o controle ambiental.

O controle ambiental possui importante papel, já que na maior parte do tempo de seu ciclo evolutivo, pulgas e carrapatos estão instalados em lugares e superfícies. Quando essa medida não for possível, deve-se evitar a exposição do animal a esses locais.

Por sua vez, é fundamental que seja instituído o uso regular dos fármacos ectoparasitas, conforme indicado em bula.

Além disso, a constante inspeção do animal, realizada pelos tutores, tem grande importância para verificarmos a eficácia das medidas adotadas, permitindo realizar uma mudança no planejamento preventivo quando for preciso.

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Referências:

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