Ixodidiose: como prevenir infestações e lidar com picadas de carrapatos

Ixodidiose: como prevenir infestações e lidar com picadas de carrapatos

Ectoparasitas frequentes em pets representam importante ameaça à saúde dos animais e também para os seres humanos; entenda!

Os carrapatos compreendem um grande grupo de artrópodes hematófagos e são uns dos principais ectoparasitas que frequentemente acometem gatos e cães. A infestação por carrapatos é muito comum em animais de estimação e pode ser sazonal em zonas temperadas ou durante todo o ano em regiões mais quentes.

Os carrapatos possuem a seguinte classificação taxonômica:

  • Filo – Arthropoda
  • Classe – Arachnida
  • Subclasse – Acari
  • Ordem – Ixodida
  • Famílias – Ixodidae e Argasidae

Ixodidiose é o termo técnico que se refere ao quadro de infestação causada por carrapatos. Eles podem ser vetores de muitos agentes patogênicos – como vírus, bactérias, protozoários e helmintos – que podem ser responsáveis pelo desenvolvimento de doenças no animal. Alguns desses agentes também apresentam importante potencial zoonótico.

Conhecer os tipos de carrapatos e quais doenças eles podem transmitir é de extrema importância para a prática da medicina veterinária e também para a manutenção da saúde pública.

Confira a seguir os principais tipos de carrapatos de interesse em pequenos animais e suas respectivas características.

Tipos de carrapato

De acordo com Beugnet (2018), a maioria dos carrapatos de relevância clínica em gatos e cães no mundo inteiro são da família Ixodidae (carrapatos duros) e dos seguintes gêneros:

  • Ixodes: espécie hematófaga com maior distribuição na Europa. É responsável pela transmissão de diversos agentes patogênicos que também causam doenças em seres humanos, como anaplasmose, meningoencefalite e doença de Lyme.
  • Rhipicephalus: carrapato encontrado em climas quentes e áreas urbanas, inclusive dentro das residências. A espécie Rhipicephalus sanguineus é a mais comum em cães, e pode transmitir agentes causadores da Babesiose e da Erliquiose nesta espécie. Esse carrapato faz seu ninho em frestas, rodapés, batentes de porta, atrás de quadros e embaixo de estrados de camas.
  • Dermacentor: é uma espécie mais adaptada a temperaturas frias. Apresenta distribuição cosmopolita. A espécie Dermacentor nitens é conhecida como o carrapato-da-orelha-do-cavalo.
  • Amblyomma: carrapato encontrado mais em climas tropicais úmidos. Diferentes espécies de Amblyomma são responsáveis pela transmissão de bactérias do gênero Rickettsia, causadoras da febre maculosa.
  • Haemaphysalis: é o segundo maior gênero em número de espécies no mundo e geralmente parasita mamíferos silvestres.

Conhecer as diferentes espécies de carrapatos além das mais comuns em gatos e cães é extremamente importante durante a anamnese, pois muitos pets viajam com frequência e podem ter contato com diferentes espécies de carrapatos em zonas rurais, por exemplo.

Ciclo do carrapato

Os carrapatos são hematófagos e apresentam três estágios de desenvolvimento: larva, ninfa e adulto. Cada fase requer apenas uma alimentação no hospedeiro antes de se transformar no próximo estágio, e ao contrário de outros ectoparasitas (como as pulgas, por exemplo), os carrapatos se desenvolvem para o próximo estágio do seu ciclo reprodutivo no ambiente e não no animal.

As larvas que eclodem dos ovos parasitam principalmente pequenos mamíferos e répteis, que são os primeiros hospedeiros. As larvas então descem do hospedeiro e se desenvolvem para o estágio de ninfa no ambiente. Depois disso, as ninfas parasitam pequenos e grandes mamíferos, podendo transmitir agentes patogênicos a estes hospedeiros.

As ninfas se transformam em adultos machos e fêmeas no ambiente e, com isso, o ciclo reprodutivo recomeça. As fêmeas e os machos acasalam no hospedeiro, e o acasalamento pode ocorrer antes ou durante a refeição da fêmea. Somente a fêmea se alimenta de sangue no hospedeiro, e cada uma pode colocar até 3 mil ovos de uma única vez. Após a oviposição, que ocorre em até 72 horas após o repasto, a fêmea morre.

Os carrapatos são parasitas extremamente resistentes e podem permanecer viáveis por meses no ambiente, esperando por condições ambientais mais favoráveis para se desenvolver. Por isso a higienização adequada com dedetização é uma medida essencial no controle deste parasita.

Ao observar a presença de um carrapato no animal, o recomendado é levá-lo ao Médico-Veterinário para que a remoção do parasita possa ser feita de maneira cuidadosa, utilizando-se uma pinça curva e sem a aplicação de qualquer produto tópico, que poderia causar lesões na pele e piorar o aspecto da picada de carrapato.

O recomendado é girar a pinça e remover o carrapato delicadamente, tomando o cuidado para que as estruturas de seu aparelho bucal não permaneçam fixadas no pet, o que poderia causar irritação e reações alérgicas no animal.

Doenças do carrapato que podem afetar os pets

Os carrapatos podem estar infectados com um ou mais agentes patogênicos que são responsáveis pelo desenvolvimento de doença clínica em gatos e cães domésticos. Não é preciso que os animais apresentem uma infestação do parasita para correr o risco de infecção; basta a picada de apenas um carrapato infectado.

As doenças transmitidas por estes vetores, chamadas popularmente de “doenças do carrapato”, incluem erliquiose e babesiose, as mais frequentes na clínica de pequenos animais, além de anaplasmose, hepatozoonose, rangeliose e micoplasmose.

A seguir, veja mais detalhes da erliquiose e da babesiose.

Erliquiose

A erliquiose canina é mais comum. Trata-se de uma doença infecciosa causada pela bactéria gram-negativa Ehrlichia canis, que é uma riquétsia. A E. canis é um parasita celular obrigatório de células hematopoiéticas. Sua transmissão ocorre mais frequentemente pela picada do carrapato Rhipicephalus sanguineus infectado, mas pode ocorrer também por transfusão sanguínea, embora menos comum.

Após a transmissão, o período de incubação varia de 7 a 21 dias. Durante a fase aguda podem surgir sinais clínicos inespecíficos como febre, corrimento óculo-nasal, uveíte anterior, epistaxe, depressão, polidipsia, linfadenopatia, desidratação, esplenomegalia e diarreia. Os exames bioquímicos mostram uma hiperbilirrubinemia, assim como um aumento das enzimas TGP e fosfatase alcalina, indicando comprometimento hepático.

Se o sistema imune do animal for eficiente, teremos uma forma crônica assintomática, o que caracteriza o animal como “portador são”. A fase crônica da erliquiose assume as características de uma doença autoimune. Geralmente nesta fase, o animal tem os mesmos sinais da fase aguda porém atenuados, encontrando-se apático, caquético e com susceptibilidade aumentada a infecções secundárias em consequência do comprometimento imunológico.

O diagnóstico geralmente é feito através de anamnese, sinais clínicos e achados hematológicos. Na história clínica normalmente é relatada a presença de carrapato no animal e sinais clínicos compatíveis com erliquiose.

O tratamento consiste na administração de antibióticos, sendo a doxiciclina o fármaco de primeira escolha na maioria dos casos (McClure et al., 2010). O tratamento pode durar de 3 a 4 semanas nos casos agudos e até 8 semanas nos casos crônicos. Frequentemente deverá ser instituído um tratamento de suporte para controle das manifestações clínicas.

O prognóstico depende da fase em que a doença for diagnosticada e do início da terapia. Quanto antes se iniciar o tratamento, melhor o prognóstico.

Babesiose

A babesiose é outra importante hemoparasitose frequente em cães. O carrapato R. sanguineus também é um dos principais transmissores da Babesia canis, que é um protozoário. Os carrapatos da espécie Dermacentor também já foram relatados como transmissores. Também há a possibilidade de transmissão via transfusão sanguínea.

A babesiose pode se manifestar como uma doença branda ou com complicações a depender da cepa infectante e da imunocompetência do hospedeiro. A Babesia ocasiona lise das hemácias devido a multiplicação do parasita no interior dos eritrócitos. Os animais parasitados geralmente apresentam anemia, mucosas pálidas, cansaço, falta de ar, febre, inapetência, perda de peso e aumento de volume abdominal.

O diagnóstico é baseado na identificação do protozoário no interior nas hemácias através do esfregaço sanguíneo em lâmina que, apesar de possível, nem sempre é viável, principalmente em infecções pela B. canis que cursam com parasitemias mais baixas.

O tratamento de eleição para a babesiose canina é o dipropionato de imidocarb.

Os carrapatos dos cães podem ser transmitidos aos humanos?

Os carrapatos possuem um hospedeiro favorito, porém na ausência dele, podem se alimentar do sangue de outra espécie, inclusive do ser humano. A maioria destes carrapatos são encontrados em zonas rurais, como sítios e fazendas, ou em áreas com muita mata e, principalmente, presença de grandes animais (como cavalos e bovinos).

Como citado anteriormente, o carrapato Amblyomma cajennense, popularmente conhecido como carrapato-estrela, é responsável pela transmissão da Rickettsia rickettsii, causadora da febre maculosa, doença que pode evoluir para um quadro grave e levar o ser humano a óbito. Por esta razão, Médicos-Veterinários têm o papel fundamental de orientar os tutores dos animais sobre a possibilidade da transmissão da doença e também de se protegerem durante o exercício da sua profissão.

Como prevenir a ixodidiose

Os pets podem estar expostos aos carrapatos dentro e fora de casa. Por isso, a prevenção de pulgas e carrapatos regular é fundamental para evitar a transmissão de doenças graves aos animais e também aos seres humanos, especialmente em épocas mais quentes, nas quais a temperatura e a umidade favorecem a proliferação de algumas espécies.

O controle do carrapato deve ser feito com o uso regular de fármacos acaricidas, que eliminam carrapatos existentes e previnem novas infestações. Atualmente há uma grande variedade de produtos disponíveis no mercado pet em forma de soluções em pipeta para uso tópico, tabletes orais e coleiras antiparasitárias, conhecidas como coleiras antipulgas, mas que também são eficazes contra outros parasitas como carrapatos e mosquitos (no caso das coleiras com ação repelente). O tempo de duração da proteção e o espectro de ação do produto irá depender do tipo de molécula utilizada em sua fórmula.

Além do controle regular com medicamentos ectoparasiticidas, os tutores devem sempre ser orientados pelo Médico-Veterinário para que procurem por carrapatos em seus pets após retornarem de passeios fora de casa. A limpeza e o manejo do ambiente domiciliar também são importantes formas de controle da ixodidiose em cães e outros animais. Quando os carrapatos são encontrados no animal, eles devem ser cuidadosamente removidos e o tratamento acaricida deve ser instituído.

O papel da nutrição no combate das doenças do carrapato

Como em qualquer enfermidade, a nutrição adequada colabora para que o indivíduo possa desenvolver um sistema imunológico competente e capaz de combater a doença de base. Os nutrientes advindos da dieta fornecem energia para os processos metabólicos, proteínas que são utilizadas para a produção de anticorpos, hormônios e que também participam do processo de cicatrização tecidual.

A nutrição adequada provê nutrientes e substratos também para a saúde intestinal e a manutenção da microbiota, que podem sofrer interferência das medicações utilizadas no tratamento das doenças transmitidas por carrapatos. A ROYAL CANIN® estuda e desenvolve fórmulas personalizadas cada vez mais precisas para atender as necessidades nutricionais específicas dos animais em estado de enfermidade, colaborando na recuperação mais rápida do paciente.

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Referências bibliográficas

DIAS, V.A.C.M.; FERREIRA, F.L.A. Babesiose canina. Publicações em Medicina Veterinária e Zootecnia, 2016.

BEUGNET, F.; HALOS, L.; GUILLOT, J. Textbook of clinical parasitology in dogs and cats. Servet Editorial, 2018.

BEUGNET, F.; MOREAU, Y. Babesiosis. Rev Sci Tech, 2015.

MCCLURE, J.C.; CROTHERS, M.L.; SCHAEFER, J.J. et al. Efficacy of a doxycycline treatment regimen initiated during three different phases of experimental ehrlichiosis. American Society for Micriobiology, 2010.

SILVA, I.P.M. Erliquiose canina – Revisão de Literatura. Revista Científica de Medicina Veterinária, 2015.