FeLV em gatos: diagnóstico, prevenção e principais aspectos da leucemia felina
Links rápidos:
- O que é FeLV em gatos?
- A FeLV afeta apenas os gatos?
- Qual é a prevalência e o perfil epidemiológico da FeLV no Brasil?
- Quais fatores favorecem o desenvolvimento da FeLV?
- Como ocorre a transmissão da FeLV?
- Quais são as fases da FeLV e como a doença é classificada?
- Quais síndromes clínicas estão associadas à leucemia felina
- Como é feito o diagnóstico de FeLV em gatos?
- Quais as consequências e o prognóstico de gatos com FeLV?
- Existe tratamento para o paciente FeLV positivo?
- Como prevenir e controlar a FeLV?
- Vacinação contra FeLV: qual o protocolo e quais vacinas múltiplas utilizar?
- Perguntas frequentes sobre a FeLV (vírus da leucemia felina):
- Ciência, tradição e cuidado definem a trajetória de mais de 50 anos da Royal Canin®
A FeLV é uma doença extremamente complexa, e seu diagnóstico é um desafio ao médico-veterinário. Veja mais detalhes sobre essa importante afecção que acomete gatos em todo o mundo.
O vírus da leucemia felina (FeLV) é um dos mais importantes retrovírus em gatos domésticos e, junto do vírus da FIV (Imunodeficiência Viral Felina), é responsável por grande parte dos quadros infecciosos dessa espécie em todo o mundo (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020). Apesar de estarem intimamente relacionados, FeLV e FIV se diferenciam em seu potencial de causar doença clínica, sendo o primeiro considerado mais patogênico que o segundo (HARTMANN, 2012).
Nos últimos anos, campanhas de testagem e o desenvolvimento de vacinas para FeLV contribuíram com o decréscimo da prevalência da doença em muitos países. Em 2016, teve início no Brasil a campanha “Miou, testou”, idealizada pelo médico-veterinário Carlos Gabriel Dias, que incentiva a testagem para FIV e FeLV em todos os gatos atendidos na rotina clínica. Ainda assim, o vírus da leucemia felina demanda cuidado e atenção, tanto do médico-veterinário quanto do responsável pelo pet. Veja um panorama completo sobre a FeLV a seguir.
O que é FeLV em gatos?
O vírus da leucemia felina (FeLV) é um gamarretrovírus envelopado que pertence à subfamília dos oncorretrovírus e não apresenta caráter zoonótico. Ele possui capacidade de replicação em diversos tecidos, tais como medula óssea, epitélio respiratório e glândulas salivares. Quando o sistema imune do animal não se apresenta de forma eficaz após a infecção inicial pelo FeLV, o vírus infecta os precursores hematopoiéticos na medula óssea (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Como em todas as retroviroses, o vírus da leucemia felina necessita do aparato nuclear da célula do hospedeiro para sua replicação. Após a transcrição reversa do RNA viral em DNA, ele é integrado ao genoma do gato infectado, produzindo células-filhas que também contêm o DNA viral. O DNA viral integrado é chamado de “provírus” (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020). Essa habilidade de se tornar parte do DNA do próprio hospedeiro é o fator mais importante para que o vírus da FeLV se perpetue no organismo do gato infectado após a contaminação da medula óssea (GREENE, 2006).
A FeLV afeta apenas os gatos?
A FeLV é uma enfermidade causada por um retrovírus exclusivamente felino e, portanto, não infecta cães, tampouco representa risco para humanos ou outras espécies domésticas (HARTMANN, 2012; LITTLE et al., 2020). Porém, a leucemia felina pode acometer felinos selvagens, incluindo espécies como pumas, linces e outros felídeos silvestres. Esses animais são suscetíveis ao vírus e podem desenvolver infecções regressivas ou progressivas semelhantes às observadas em gatos domésticos (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020; HARTMANN, 2012).
Qual é a prevalência e o perfil epidemiológico da FeLV no Brasil?
A prevalência da FeLV em gatos no Brasil é considerada moderada a elevada, variando conforme fatores populacionais, regionais e comportamentais. Um estudo realizado por Biezus et al. (2025) identificou a presença de infecções progressivas e regressivas pelo vírus da leucemia felina em diferentes proporções, demonstrando que a FeLV circula de maneira significativa no país.
Quais fatores favorecem o desenvolvimento da FeLV?
Os principais fatores de predisposição para o desenvolvimento da leucemia felina estão relacionados à maturidade da resposta do sistema imune do gato e ao comportamento do animal, incluindo (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020; LITTLE et al., 2020):
- machos intactos;
- gatos mais agressivos;
- acesso à rua;
- contato com outros gatos (por exemplo, abrigos, casas com vários gatos);
- pressão de infecção: gatos que tiveram um contato pontual com um animal infectado pelo FeLV apresentam um curso diferente da doença quando comparados a gatos que convivem por muito tempo com animais contaminados.
Outro ponto relevante é que a FeLV costuma ser mais vista em animais sem raça definida. Algumas hipóteses para isso são a maior conscientização entre criadores profissionais (maior testagem e vacinação contra FeLV) e o fato de que animais de raça pura geralmente são mantidos exclusivamente dentro de casa.
Já em relação ao estágio de vida, os filhotes possuem maior risco de se tornarem progressivamente infectados pelo vírus da leucemia felina. Com a maturidade, os gatos tendem a desenvolver uma maior resistência, desenvolvendo as formas regressiva ou abortiva da doença (HARTMANN, 2012).
Como ocorre a transmissão da FeLV?
A leucemia felina é uma afecção contagiosa, e a transmissão do FeLV ocorre tanto de forma horizontal quanto vertical. O vírus pode ser eliminado em diversos fluidos biológicos, como saliva, secreção nasal, leite, urina e fezes (LITTLE et al., 2020).
A forma primária de transmissão horizontal da FeLV é via saliva, ocorrendo principalmente entre gatos com contato próximo. Sabe-se que tanto o contato social entre gatos que vivem juntos (compartilhamento de vasilhas de água ou alimento e lambeduras mútuas) quanto brigas são as formas mais efetivas de transmissão do vírus da leucemia felina (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020). Ou seja, os gatos com FeLV geralmente adquirem o vírus pela contaminação oronasal e por mordidas de animais contaminados.
Ainda assim, é essencial se atentar a outras formas de transmissão da FeLV. A transmissão iatrogênica via seringas contaminadas, instrumentos cirúrgicos e por transfusão sanguínea também pode ocorrer (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Fêmeas podem infectar suas ninhadas (transmissão vertical) por via transplacentária ou ao lamber e cuidar de seus filhotes (transmissão horizontal). Quando ocorre a infecção intrauterina pelo vírus da leucemia felina, observa-se falha reprodutiva, mas até 20% dos filhotes podem sobreviver ao período neonatal e tornarem-se adultos progressivamente infectados (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020; LITTLE et al., 2020).
Por ser um vírus envelopado, o vírus da leucemia felina é bastante lábil no ambiente, sendo inativado em alguns minutos fora do organismo ou em contato com calor ou desinfetantes (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Quais são as fases da FeLV e como a doença é classificada?
Além de compreender o que é e como o vírus da leucemia felina pode ser transmitido, é importante entender as fases da FeLV e como a doença é classificada de acordo com o curso da afecção.
O vírus da FeLV é primeiramente encontrado nos linfonodos locais e, após atingir linfócitos e monócitos, causa uma viremia primária e pode atingir a medula óssea (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020; LITTLE et al., 2020). Então, pode ocorrer uma nova fase de viremia (viremia secundária), com leucócitos e plaquetas contaminados por FeLV aparecendo na corrente sanguínea (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020; LITTLE et al., 2020).
Uma nova classificação dos possíveis desfechos da infecção por FeLV foi definida com base em estudos moleculares. Cabe ressaltar que tais cursos da doença foram bem caracterizados em estudos experimentais, mas a progressão do quadro nas infecções naturais pode se comportar de forma diferente e, em algumas vezes, confusa (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Infecção abortiva por FeLV
Gatos com infecção abortiva pelo vírus da leucemia felina desenvolvem uma resposta imune humoral e celular eficientes após a replicação inicial nos linfonodos locais da orofaringe, inibindo a replicação viral. Esses gatos nunca se tornarão virêmicos (HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020).
Acredita-se que aproximadamente um terço dos gatos desenvolvem esse tipo de infecção por FeLV. Os resultados de testes que detectam o vírus diretamente serão sempre negativos, e o único sinal da exposição ao vírus será a presença de anticorpos específicos (LITTLE et al., 2020). A infecção abortiva possivelmente ocorre em casos de baixa pressão de exposição ao vírus da FeLV, e não há redução da expectativa de vida dos gatos com esse curso clínico. Tais animais desenvolvem uma resposta imune eficiente que pode protegê-los por muitos anos e apresentam uma vida normal (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020; GERALDO, 2021).
Infecção regressiva por FeLV
Gatos com infecção regressiva pelo FeLV apresentam uma resposta imune eficiente, e a replicação viral e a viremia são controladas antes ou logo após a contaminação da medula óssea. Nesses animais, ocorre a integração do provírus ao genoma do gato, tornando-os infectados por toda a vida (carreadores do provírus FeLV). Apesar disso, não há produção ativa do vírus.
Vale dizer que, anteriormente, esses animais eram classificados como “latentes”, pois apresentavam culturas virais positivas de amostras medulares ou de outros tecidos, mas não sanguíneas (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020). Atualmente são classificados na denominação de infecção regressiva. Os resultados dos testes sorológicos para FeLV podem variar significativamente, e o prognóstico é melhor, não necessariamente evoluindo para óbito por causas relacionadas à leucemia felina (GERALDO, 2021).
Contudo, há a possibilidade de reativação do vírus da FeLV, especialmente em gatos imunossuprimidos. Nesses casos, o vírus pode voltar a ser eliminado pela saliva e o animal pode desenvolver doenças relacionadas à FeLV. A reativação da infecção regressiva também pode acontecer durante a gestação e a lactação (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Infecção progressiva por FeLV
A infecção progressiva pelo vírus da leucemia felina é caracterizada por uma ineficiência do sistema imune. A infecção inicial não é contida pelo sistema imunológico, ocorrendo uma intensa replicação viral primeiramente nos linfonodos e, então, na medula óssea e na mucosa e nas glândulas de tecidos epiteliais. A infecção mucosa e glandular está associada à alta eliminação de vírus infectante (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Nesses quadros, há viremia persistente por mais de 12 semanas, e esses animais têm potencial de infectar outros gatos por toda a sua vida. Gatos com infecção progressiva por FeLV geralmente desenvolvem doenças associadas ao vírus que diminuem sua expectativa de vida e possuem prognóstico ruim (GERALDO, 2021). O quadro progressivo é caracterizado por uma imunidade FeLV-específica insuficiente, e esses gatos apresentam níveis baixos ou indetectáveis de anticorpos neutralizantes (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Infecção focal ou atípica por FeLV
Gatos com infecção focal ou atípica pelo vírus da leucemia felina são considerados raros em circunstâncias de infecção natural. Experimentalmente, observa-se que esse quadro ocorre em até 10% dos animais infectados (LITTLE et al., 2020). Nesses animais, a infecção fica restrita a alguns tecidos, como glândulas mamárias, bexiga, olhos, baço, linfonodos ou intestino delgado, onde a replicação local ocorre de forma persistente. Há relatos de transmissão do vírus por via transmamária por uma gata aos seus filhotes, mesmo quando seus resultados sorológicos para FeLV foram negativos (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Quais síndromes clínicas estão associadas à leucemia felina
As síndromes clínicas mais observadas em gatos com FeLV progressiva são o surgimento de neoplasias (principalmente linfoma), a supressão da medula óssea (principalmente anemia) e imunossupressão com surgimento de infecções secundárias. Outras alterações como neuropatias, alterações reprodutivas e doenças imunomediadas também podem ocorrer em gatos infectados pelo vírus da leucemia felina (GREENE, 2006; HARTMANN, 2021).
Contudo, nem sempre é possível determinar se o surgimento de uma doença é decorrente diretamente da infecção pelo FeLV. Além disso, gatos progressivamente infectados podem ter uma vida saudável por vários anos, apesar da redução da sua expectativa de vida geral (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Gatos com infecção regressiva por FeLV não apresentam redução na expectativa de vida, a menos que a infecção seja reativada e eles se tornem virêmicos. Nesses casos, os animais apresentam os mesmos riscos de desenvolverem as síndromes clínicas que acometem gatos progressivamente infectados (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
A supressão de medula óssea e o surgimento de linfoma também podem ocorrer em gatos com infecção regressiva por leucemia felina. Nessas situações, o próprio provírus pode causar uma alteração no mecanismo celular ou ter uma ação oncogênica, levando ao desenvolvimento de tumores sem a replicação ativa do vírus (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020).
Como é feito o diagnóstico de FeLV em gatos?
O diagnóstico da FeLV em gatos exige uma abordagem sistemática que combina anamnese detalhada, exames laboratoriais adequados e a interpretação integrada dos resultados, considerando os diferentes desfechos clínicos possíveis: infecção progressiva, regressiva, abortiva ou focal.
Vale ressaltar que o status da FeLV de todos os gatos atendidos deve ser avaliado, seja numa consulta de um animal saudável que será vacinado e/ou introduzido em um lar com outros gatos, ou no atendimento de um felino doente, suspeito ou não para leucemia felina. Essa é a forma mais comum de diagnóstico da doença (LITTLE et al., 2020).
Anamnese e histórico do paciente com suspeita de FeLV
A anamnese e o histórico do paciente direcionam o médico-veterinário para as particularidades do protocolo diagnóstico da FeLV. Por isso, é importante investigar os fatores que podem aumentar significativamente o risco de infecção pelo vírus da leucemia felina, tais como (HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020; HARTMANN, 2012; GREENE, 2006):
- origem do animal;
- estilo de vida (acesso ao ambiente externo, convivência com múltiplos gatos ou introdução recente de novo animal ao domicílio);
- idade;
- episódios recorrentes de doenças, infecções secundárias, emagrecimento, linfadenomegalia, infertilidade ou alterações hematológicas prévias;
- vacinação e testagem prévia para FeLV.
Quais exames são indicados para o diagnóstico de FeLV?
As principais formas de diagnóstico da leucemia felina em gatos são os testes que buscam o antígeno FeLV p27 (testes sorológicos de ELISA e alguns testes rápidos), o RNA viral (RT-PCR) ou o DNA do provírus (PCR). O diagnóstico da FeLV pode variar significativamente de acordo com o curso da infecção e o momento da vida do animal. Os resultados serão negativos enquanto o vírus não estiver circulante (infecção regressiva ou “latência”) e potencialmente positivos em quadros de infecção progressiva e infecção regressiva reativada (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020). Justamente por essa transição entre as fases da FeLV, uma única testagem não deve ser considerada suficiente em casos suspeitos.
Teste antígeno FeLV p27
Resultados positivos ou questionáveis no teste de antígeno FeLV p27 devem ser confirmados imediatamente, principalmente se houver pouca prevalência ou se o risco de exposição for baixo. Para a confirmação, é preferível que outro método diagnóstico seja utilizado, como o teste antígeno p27 de outro laboratório ou RT-PCR em saliva, ou PCR no sangue para busca de provírus (HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020).
Se o resultado for positivo para FeLV, o gato apresenta antigenemia e tem potencial de transmissão do vírus no momento do teste. O teste deve ser repetido após 6 semanas e, se ainda for FeLV positivo, o animal deve ser testado novamente em mais 6 semanas para determinar se a infecção é progressiva com antigenemia/viremia persistente ou se se trata de uma infecção regressiva com antigenemia/viremia transitória. Gatos FeLV positivos devem ser sempre separados de gatos FeLV negativos até que eventualmente se tornem negativos.
Um resultado negativo no teste de antígeno p27 é bastante confiável em países com baixa prevalência de FeLV. Isso pode indicar que o gato não foi exposto ao vírus, que é imune (pela proteção vacinal, por exemplo), que apresenta infecção regressiva, infecção abortiva ou que não se tornou ainda positivo por ter tido contato recente com o vírus da leucemia felina (HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020). A detecção de antígenos FeLV no sangue periférico após a infecção leva de 3 a 6 semanas para ocorrer. Se a exposição recente não puder ser excluída, um novo teste deve ser realizado em 6 semanas, mantendo o animal em isolamento até lá.
Detecção molecular de RNA viral FeLV (RT-PCR) em saliva
Gatos positivos por antígeno p27 são geralmente positivos também para RNA viral em amostras de saliva, indicando antigenemia ativa no momento do teste. O grande diferencial do RT-PCR salivar no diagnóstico de FeLV é que o RNA viral pode ser detectado aproximadamente 2 semanas antes que o antígeno p27, sendo útil especialmente na fase inicial da infecção. Além disso, as amostras salivares podem ser usadas para testar colônias por pool de amostras de vários animais.
Cabe ressaltar que o RT-PCR salivar é pouco utilizado no Brasil no diagnóstico da leucemia felina, devido ao custo mais elevado em comparação à pesquisa sorológica do antígeno p27. Quando as amostras positivas são obtidas de um pool, todos os gatos devem ser testados individualmente para identificação do animal disseminador do vírus da FeLV (HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020).
Detecção molecular de DNA proviral FeLV (PCR) no sangue
Gatos contaminados que desenvolvem a infecção progressiva ou regressiva pelo FeLV carreiam em seu DNA a inserção do provírus, servindo como uma “tatuagem” genética que indica que o animal está infectado ou já se infectou com o vírus da leucemia felina.
O teste de PCR no sangue é muito importante para detectar as infecções regressivas por FeLV e para confirmar animais realmente negativos em casas com múltiplos gatos. Além disso, deve ser usado para triar gatos doadores de sangue, pois há possibilidade de transmissão do vírus via transfusão sanguínea em doadores portadores do provírus. A janela entre a infecção pelo FeLV e a detecção do provírus no sangue é de apenas 1 a 2 semanas (HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020).
Sorologia ou PCR para FeLV? Conheça as diferenças entre os exames
O teste sorológico para FeLV é altamente sensível e rapidamente executável, sendo o método recomendado para triagem inicial de todos os gatos. Entretanto, um resultado negativo não exclui completamente a infecção pelo vírus da leucemia felina, especialmente quando o animal está na fase muito inicial da exposição. Por isso, as diretrizes recomendam repetir a sorologia após 30 a 60 dias em casos de risco epidemiológico ou suspeita clínica persistente (BEALL, M.J. et al.; LITTLE et al., 2020).
A PCR e a RT-PCR para FeLV são extremamente úteis para identificar infecções regressivas ou casos em que o vírus não circula de forma significativa na corrente sanguínea. Porém, nem sempre o vírus da leucemia felina está presente em concentração detectável no sangue do animal acometido, tornando a PCR um exame com possibilidade de falso-negativo (HARTMANN, 2012; HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020).
Quais as consequências e o prognóstico de gatos com FeLV?
A infecção pelo vírus da leucemia felina pode evoluir de diferentes formas, e cada uma delas determina impactos clínicos distintos e prognósticos variados. A severidade das manifestações e a expectativa de vida do gato com FeLV dependem diretamente do tipo de infecção estabelecida, da resposta imunológica individual e de fatores ambientais e sanitários (HARTMANN, 2012; LITTLE et al., 2020; HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020).
As principais consequências clínicas da infecção por FeLV podem incluir (GREENE, 2006):
- supressão da medula óssea (anemia não regenerativa, neutropenia, trombocitopenia, pancitopenia)
- imunossupressão e infecções secundárias
- neoplasias (linfomas, leucemias)
- outras manifestações sistêmicas (neuropatias, alterações reprodutivas, doenças imunomediadas, enteropatias crônicas, glomerulopatias)
A expectativa de vida de gatos atendidos com infecção progressiva de FeLV e que não foram eutanasiados próximo ao diagnóstico foi de 2 a 4 anos (LITTLE et al., 2020).
Existe tratamento para o paciente FeLV positivo?
Embora não exista um tratamento antiviral curativo para a leucemia felina, é fundamental acompanhar de perto o paciente FeLV positivo. Gatos com FeLV devem receber avaliações clínicas frequentes a cada 6 meses, visando detectar quaisquer alterações em sua saúde. Recomenda-se que o hemograma completo seja feito a cada 6 meses (pelo risco de alterações hematológicas relacionadas ao vírus da leucemia felina), e um check-up bioquímico completo e a avaliação da urina devem ser realizados anualmente (LITTLE et al., 2020).
Quando necessário, o tratamento de suporte deve ser instituído conforme as manifestações clínicas do paciente com FeLV. Medicações que agem diretamente no retrovírus, como as usadas em humanos infectados pelo vírus do HIV, não demonstraram ainda resultados animadores, tanto por questões de eficácia quanto por questões de custos, toxicidade e prazo de utilização (WESTMAN et al., 2024). Contudo, o AZT é um dos poucos antivirais utilizados em pacientes com FIV e FeLV e pode reduzir a carga viral e melhorar o status clínico e imunológico de alguns pacientes. Estudos avaliando o uso de interferon ainda não comprovaram benefícios aos pacientes com leucemia felina (LITTLE et al., 2020).
O fornecimento de um ótimo suporte nutricional é fundamental para a manutenção da saúde de gatos com FeLV, mesmo quando eles ainda estão clinicamente saudáveis. A nutrição adequada contribui para a preservação da condição corporal, da função imunológica e da qualidade de vida do paciente ao longo do acompanhamento clínico, sendo parte integrante do manejo do gato FeLV positivo.
Para felinos em quadros convalescentes, recomenda-se a instituição de nutrição adequada precocemente, evitando o surgimento/agravamento de caquexia. Devemos lembrar que o metabolismo do paciente crítico está alterado, por isso ele necessita de alimentação específica.
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Como prevenir e controlar a FeLV?
O controle efetivo da leucemia felina baseia-se na identificação precoce, na segregação adequada e na prevenção da transmissão entre gatos, considerando a alta eficiência de disseminação do vírus da FeLV em ambientes onde há convivência próxima.
Por essa razão, recomenda-se a testagem de todos os gatos para FeLV na primeira consulta, antes da vacinação, após potenciais exposições e sempre que houver sinais clínicos compatíveis com retroviroses (HARTMANN & HOFMANN-LEHMANN, 2020). A classificação correta do status infeccioso é essencial: gatos com infecção regressiva por FeLV podem reativar a viremia em situações de imunossupressão, tornando-se transmissores. Já os felinos positivos no teste antígeno p27 devem ser mantidos sob manejo ambiental rigoroso, separados dos demais gatos e sem acesso à rua (HOFMANN-LEHMANN & HARTMANN, 2020).
A quarentena de novos gatos antes da introdução definitiva ao grupo deve ser obrigatória, com testagem inicial para FeLV e repetição após algumas semanas, considerando o período de janela diagnóstica e o risco de resultados falso-negativos em infecções muito recentes (LITTLE et al., 2020).
Nesse contexto, a vacinação contra FeLV desempenha papel importante como medida adicional de controle da leucemia felina. Embora nenhuma vacina seja 100% eficaz, imunizar gatos soronegativos previamente testados reduz significativamente o risco de infecção, sendo especialmente recomendada para (GERALDO JR, 2021):
- gatos com acesso ao ambiente externo;
- gatos que convivem com animais de status infeccioso desconhecido;
- animais que vivem em lares, abrigos ou gatis com risco epidemiológico elevado.
A vacinação não deve ser aplicada em gatos FeLV positivos, e os reforços devem seguir o protocolo recomendado pelo fabricante e pelas diretrizes internacionais.
Vacinação contra FeLV: qual o protocolo e quais vacinas múltiplas utilizar?
A vacinação é uma das ferramentas mais importantes na prevenção da leucemia felina, e sua indicação deve considerar o contexto epidemiológico brasileiro e o estilo de vida de cada animal.
A vacinação contra FeLV deve ocorrer em todos os filhotes até um ano de idade e em adultos considerados grupo de risco, sendo aqueles com acesso à rua, em constante contato com outros gatos e que frequentam creches e hotéis. Antes de iniciar o protocolo, é indispensável resultado negativo em teste diagnóstico para FeLV.
Como é o protocolo vacinal contra FeLV?
O protocolo vacinal tem início às 9 semanas de idade, com múltiplas doses até 16 semanas de vida. Uma nova dose é aplicada aos 6 meses e, posteriormente, em intervalo anual, quando deve ser avaliado se o felino continuará com a vacina quíntupla ou se transitará para a tríplice ou quádrupla.
As recomendações internacionais da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA) classificam as vacinas em essenciais e não essenciais. Para a leucemia felina, a classificação depende da incidência de casos em cada região.
Além das vacinas múltiplas, a imunização deve ser concluída com a vacina antirrábica, obrigatória por lei e alinhada ao conceito de Saúde Única, que integra saúde animal, humana e ambiental.
Perguntas frequentes sobre a FeLV (vírus da leucemia felina):
O que é FeLV em gatos?
A FeLV é um retrovírus que infecta gatos domésticos e selvagens, com diferentes cursos de infecção (abortiva, regressiva, progressiva).
Qual o tratamento indicado para gatos com FeLV?
Não há tratamento antiviral curativo para FeLV. A indicação é instituir terapia de suporte conforme as manifestações clínicas, incluindo manejo de infecções secundárias, anemia e comorbidades.
Existe vacina para FeLV em gatos?
Sim. A vacinação para FeLV é indicada para gatos soronegativos, especialmente aqueles com risco de exposição.
Qual o melhor exame para o diagnóstico de FeLV em gatos?
O teste inicial recomendado é a sorologia para detecção do antígeno p27 no sangue, por ser rápido, sensível e adequado para triagem. Outros exames podem ser necessários.
PCR ou sorologia para FeLV: qual exame escolher?
A escolha do exame para FeLV depende da fase da enfermidade. A sorologia é o exame de escolha para triagem, enquanto a PCR é usada para confirmar diagnóstico. Porém, o vírus pode estar ausente do sangue em algumas fases, levando a falso-negativos na PCR.
Gato com FeLV pode conviver com outros gatos?
Gato com FeLV só pode conviver com outros gatos também positivos, pois há alto risco de transmissão. Gatos positivos não devem ter acesso à rua e devem ser mantidos separados de gatos negativos.
Qual a diferença entre infecção regressiva e progressiva na FeLV?
Na infecção de FeLV regressiva, o gato controla a replicação viral, tornando-se não virêmico. Na progressiva, há viremia persistente, maior risco de doenças e alta transmissibilidade.
Quando repetir o teste para FeLV após resultado negativo?
Recomenda-se repetir o teste para FeLV em 30 a 60 dias, para excluir infecção recente ainda na janela diagnóstica.
Como acontece a transmissão da FeLV entre gatos?
A transmissão da leucemia felina acontece, principalmente, por contato próximo e prolongado entre gatos, via saliva, secreções nasais, mordidas, compartilhamento de comedouros e lambeduras, além da transmissão vertical.
Ciência, tradição e cuidado definem a trajetória de mais de 50 anos da Royal Canin®
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Referências:
BEALL, M.J. et al. Feline leukemia virus lifetime study: whole blood samples increase detection of low positive cats with extended long-term survival. J. Feline Med. Surg., v.27, n.11, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41215536/. Acesso em: 17 nov. 2025.
BIEZUS, G. et al. Survival analysis and clinical abnormalities in cats with progressive or regressive feline leukemia virus (FeLV) infection in Brazil. PLoS One, v.20, n.7, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40591622/. Acesso em: 17 nov. 2025.
GERALDO JR, C. A. Novo guideline de doenças retrovirais AAFP 2020 – Parte 1 – FIV e FeLV. Zoetis Brasil, 2021. Disponível em: https://www2.zoetis.com.br/prevencaocaesegatos/posts/novo-guideline-de-doencas-retrovirais-aafp-2020-parte-1-fiv-e-felv. Acesso em: 17 nov. 2025.
GREENE, C. E. Infectious diseases of the dog and cat. 3. ed. St. Luis: Saunders Elsevier, 2006.
HARTMANN, K. Clinical Aspects of Feline Retroviruses: A Review. Viruses. v. 4, n.11, 2012. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/23202500/. Acesso em: 17 nov. 2025.
HARTMANN, K.; HOFMANN-LEHMANN, R. What’s New in Feline Leukemia Virus Infection. Veterinary Clinics – Small Animal Practice. v. 50, n.5, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32680664/. Acesso em: 17 nov. 2025.
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