Pontos-chaves da alergia alimentar em cães

Pontos-chaves da alergia alimentar em cães
×

Links rápidos:

A alergia alimentar em cães, ou dermatite trofoalérgica, é um problema comum que pode representar um grande desafio na clínica de pequenos animais; conheça os principais pontos e saiba como tratar o paciente

Doenças alérgicas de pele e subsequentes infecções secundárias podem representar um tormento para os animais de estimação. Os pets podem ser alérgicos a picadas de insetos, partículas transportadas pelo ar (como bolores, pólens e partes de ácaros) ou alimentos, tema central deste artigo.

A reação alimentar adversa é uma resposta anormal do organismo aos aditivos alimentares ou alimentos ingeridos pelo animal, podendo incluir manifestações clínicas dermatológicas, digestivas, neurológicas e comportamentais (ARAÚJO et al; 2021).

Essas reações podem ser classificadas dois grupos (ARAÚJO et al; 2021):

  • reações imunológicas: caracterizadas pela dermatite trofoalérgica, alergia alimentar ou hipersensibilidade alimentar;
  • reações não-imunológicas: caracterizadas pelas intolerâncias alimentares, que envolvem idiossincrasia alimentar, intoxicação alimentar, anafilaxia alimentar e reação farmacológica e metabólica ao alimento.

O surgimento das alergias alimentares depende de diversos fatores, como hereditariedade e muitos outros. Os sinais clínicos gerados por essas reações adversas ao alimento podem ser semelhantes a outros problemas de saúde, como a dermatite atópica. Além disso, a alergia alimentar em cães pode ocorrer concomitantemente a outro problema no mesmo indivíduo.

As infecções de pele que surgem ao coçar perpetuam o prurido, muito frequente nos casos de alergia alimentar em cães. Também pode haver a presença de extensas regiões alopécicas avermelhadas e erupções cutâneas que são muito mais que sinais de desconforto e uma simples dermatopatia.

Neste artigo abordaremos detalhes da alergia alimentar imunomediada, que são as reações adversas que os cães podem apresentar ao ingerir certos ingredientes presentes nos alimentos, detalhes de como fazer a dieta de eliminação para o diagnóstico e como adequar o manejo alimentar para cães acometidos por essa afecção.

O que causa a alergia alimentar nos cães?

A fisiopatologia exata da alergia alimentar, a terceira enfermidade dermatológica que mais acomete os cães, atrás apenas da dermatite alérgica à picada de pulgas e da dermatite atópica, ainda não está bem definida.

Não há predisposição genética ou de gênero, porém acredita-se que as raças Boxer, Dachshund e Terrier possam ser mais predispostas ao desenvolvimento das dermatites alimentares (ARAÚJO et al; 2021). Além disso, há muitos relatos também nas raças Cocker Spaniel, Labrador, Collie, Schnauzer, Shar Pei, Poodle, West Highland White Terrier, Lhasa Apso e Teckel.

Acredita-se que haja o envolvimento das reações de hipersensibilidade dos tipos I, III e IV e que as habituais fontes proteicas com peso molecular entre 18.000 e 70.000 daltons, como a carne bovina e o frango, além dos carboidratos encontrados na alimentação, sejam potenciais causadores de alergia alimentar do tipo imunomediada (ARAÚJO et al; 2021).

A alergia alimentar em cães também demora para se desenvolver e dar sinais. A maioria dos animais pode comer alimentos ofensivos por anos e serem assintomáticos.

A demora para o surgimento da manifestação da doença pode ocorrer pois, inicialmente, o alérgeno é processado pelos macrófagos, que por sua vez apresentam os antígenos e os fragmentos de alérgenos aos linfócitos T. A imunidade humoral então é ativada e, em seguida, o IgE específico se une aos mastócitos, provocando a sensibilização dessas células. O alérgeno, então, acessa o organismo do cão por meio da superfície da mucosa intestinal. O alérgeno é reconhecido pela IgE na superfície dos mastócitos, formando um complexo e passando a liberar histamina e outros compostos. Essa liberação resulta em inflamação, prurido e distúrbios gastrointestinais.

Quais os principais alimentos que causam alergia em cães?

Os principais alimentos que causam alergia em cães são as proteínas e os carboidratos complexos, incluindo (ARAÚJO et al; 2021):

  • carne bovina;
  • frango;
  • cordeiro;
  • produtos lácteos;
  • ovos;
  • soja ou glúten (de trigo);
  • arroz, milho e batata, apesar de serem menos comuns;
  • outros.

Os ingredientes que podem causar alergia em cães também podem estar presentes na formulação dos alimentos que possuem qualidade superior, como as rações super premium. Mesmo com esse tipo de alimentação, alguns cães podem apresentar alergia ou algum outro tipo de reação alimentar adversa, sendo recomendada a troca do alimento por dietas à base de proteínas hidrolisadas, como veremos adiante.

Como a alergia alimentar se manifesta nos pets?

Cada vez que um cão acometido ingere alimentos contendo potenciais alérgenos, os anticorpos reagem com os antígenos. Logo pode acontecer a manifestação dos sinais clínicos, mas também há casos de animais assintomáticos ou que não apresentam sinais muito evidentes aos olhos dos tutores, como já mencionamos e trazemos mais detalhes a seguir.

O sistema imunológico é responsável por proteger o organismo contra substâncias tóxicas e microrganismos presentes nos alimentos. Porém, o sistema imunológico dos cães com alergia produz anticorpos contra substâncias que normalmente não causariam tais reações adversas, apresentando uma resposta exacerbada a determinado alérgeno alimentar/ingrediente presente na formulação do alimento.

Os cães possuem mecanismos naturais para a prevenção de alergias alimentares, como:

  • durante a digestão, as proteínas são transformadas em fragmentos não antigênicos;
  • o tecido linfóide associado ao trato gastrointestinal pode suprimir a resposta imunológica à proteína alimentar;
  • a camada mucosa presente na parede intestinal possui função de barreira física, impedindo significativamente a absorção de grandes moléculas.

Porém, poderá haver uma reação alimentar adversa quando há o comprometimento dos mecanismos de defesa naturais, como quando ocorre o aumento da permeabilidade da mucosa e da absorção de macromoléculas ou grandes proteínas, permitindo o acesso desses alérgenos ao organismo do cão. Vale ressaltar que o mesmo ocorre nos gatos com alergia alimentar.

Em uma reação alérgica de causa alimentar, os anticorpos são produzidos contra uma parte específica do alimento ingerido, podendo ser uma proteína ou carboidrato complexo.

Como para o desenvolvimento de alergia é necessária a produção de anticorpos, geralmente as alergias alimentares se manifestam após diversos contatos prévios com o agente alérgico. Sendo assim, o animal pode apresentar uma reação alérgica a um alimento que já tenha sido ingerido outras vezes sem apresentar problemas.

Principais sinais clínicos

As alergias alimentares nos cães podem provocar alterações variadas nos sistemas orgânicos, provocando o surgimento de diversas manifestações clínicas dermatológicas e gastrointestinais crônicas. Porém, os sinais clínicos dermatológicos são vistos com mais frequência.

Os sinais clínicos mais comuns nos casos de dermatite trofoalérgica em cães incluem (ARAÚJO et al; 2021):

  • prurido intenso, não sazonal, constante, generalizado ou localizado. Geralmente, acomete a região das orelhas, face, patas, áreas axilares ou inguinais, pescoço e períneo;
  • otite recorrente ou externa crônica, ambas podendo ser uni ou bilaterais;
  • infecções de pele bacterianas crônicas;
  • infecções de pele crônicas por leveduras;
  • fístula interdigital ou perianal;
  • dermatite úmida/piotraumática.

As manifestações clínicas gastrointestinais decorrentes de alergias alimentares são menos comuns, mas quando surgem, os cães podem apresentar (ARAÚJO et al; 2021):

  • êmese;
  • borborigmos intestinais/gases;
  • ruídos estomacais;
  • hiporexia ou anorexia, resultando em perda de peso;
  • dor abdominal intermitente ou desconfortos;
  • presença de melena ou hematoquezia.

Dependendo do caso, o cão pode ter diarreia e alterações comportamentais, como hiperatividade e agressividade. Caso a patologia evolua e se torne crônica, também poderá haver sinais cutâneos como eritema, descamação, hiperpigmentação, liquenificação e alopecia (ALÉSSIO et al; 2017).

Diagnóstico de alergia alimentar em cães

O diagnóstico consiste primeiro no descarte de outras suspeitas e no tratamento de doenças sistêmicas ou secundárias, quando identificadas. O exame parasitológico de raspado cutâneo serve como triagem para auxiliar no diagnóstico de infecções parasitárias cutâneas.

Posteriormente, é necessário realizar o teste por exclusão de alimentos, com provocação subsequente, para diagnóstico definitivo da alergia alimentar no cão. Vejamos a seguir como são realizadas essas duas importantes etapas do diagnóstico.

Como realizar a dieta de eliminação para diagnóstico

O melhor e mais preciso método de diagnóstico da alergia alimentar em cães é fornecer ao animal uma dieta hipoalergênica por oito semanas, como ensaio de eliminação. As rações hipoalergênicas para cães utilizam em sua formulação proteínas hidrolisadas, que por por sua vez possuem baixo peso molecular e, portanto, são as opções ideais para a realização desse teste, uma vez que o organismo geralmente não reconhece esse tipo de proteína como um potencial alérgeno.

A cooperação do tutor é crucial para o sucesso dessa etapa. Ele deve ser instruído a oferecer ao animal apenas água e a dieta de eliminação (alimento recomendado pelo Médico-Veterinário) – nenhum outro alimento ou substância aromatizada deve ser oferecido durante o período, mesmo que em pouca quantidade. Durante esse tempo, guloseimas, suplementos vitamínicos com sabor, medicamentos mastigáveis ​​com sabor, suplementos de ácidos graxos e brinquedos para mastigar devem ser eliminados.

O tutor deve ser instruído também a manter um registro diário da dieta e anotar observações relacionadas aos sinais clínicos do animal. Isso vai facilitar a interpretação do Médico-Veterinário no momento do retorno à clínica.

Depois que o cão estiver na dieta por um período adequado de tempo (após 8 semanas) e tiver mostrado alguma resposta positiva, a dieta do animal deve ser trocada novamente para dar início ao teste provocativo.

Como realizar a dieta provocativa para diagnóstico

Depois que o pet responde à dieta de eliminação, ele deve ser desafiado com sua dieta anterior para confirmar o diagnóstico de alergia alimentar. Os sinais clínicos geralmente aparecem cerca de duas semanas após a reintrodução da dieta regular do animal. Quando isso ocorrer, o animal deve retornar à consulta e, então, o profissional irá recomendar que o mesmo volte a ser alimentado com a dieta de eliminação novamente, que por sua vez irá trazer resultados positivos, confirmando então o diagnóstico da alergia alimentar no cão.

Tratamento para alergia alimentar em cães

Uma vez realizado o teste de eliminação e a exposição provocativa de formas bem-sucedidas, o Médico-Veterinário deve prescrever o alimento hipoalergênico mais indicado ao caso, de acordo com o quadro e a evolução clínica do cão.

O manejo nutricional correto visa a eliminação da exposição aos alérgenos que o cão apresenta sensibilidade, e a dieta prescrita pelo Médico-Veterinário provavelmente será oferecida por toda a vida do pet, visando o fornecimento de nutrição balanceada e completa para manutenção da saúde e bem-estar.

As dietas hidrolisadas possuem ácidos graxos essenciais em suas formulações, auxiliando no fortalecimento do estado natural da pele do cão, reduzindo possíveis irritações cutâneas. Além disso, reduzem a exposição do animal às proteínas possivelmente alergênicas, pois contam com tamanho molecular reduzido de forma significativa para que o sistema imunológico do pet não identifique as proteínas e não desencadeie reações alérgicas.

Como a ROYAL CANIN® auxilia no diagnóstico e tratamento de cães com alergia alimentar

A ROYAL CANIN® oferece alimentos coadjuvantes completos e exclusivos, em versões secas e úmidas, para os cães que possuem reações adversas a alimentos. O portfólio da marca para o tratamento de reações adversas a alimentos inclui:

linha Hypoallergenic para cães

Entretanto, aproximadamente 6% dos cães com quadros de alergias alimentares não respondem bem ao tratamento com o alimento hipoalergênico, são os casos refratários de hipersensibilidade alimentar. Para confirmar se o animal apresenta um quadro complexo e refratário, a ROYAL CANIN® conta em seu portfólio com o alimento Anallergenic, nas versões para cães e gatos. Esse é o alimento de escolha para o teste de eliminação, para traçar o diagnóstico e pode ser utilizado posteriormente ao diagnóstico nos casos refratários.

embalagem do alimento Anallergenic para cães

O Anallergenic Canine conta com oligopeptídeos de baixo peso molecular e proteína extensamente hidrolisada para evitar o risco do desencadeamento de reações alérgicas. Além disso, possui formulação que contribui para o fortalecimento da barreira cutânea e complexo antioxidante para ajudar a neutralizar os radicais livres.

Conheça os benefícios e indicações do Anallergenic Canine da ROYAL CANIN® com mais detalhes.

Para facilitar as prescrições aos seus pacientes, utilize também a nossa Calculadora para Prescrições, que é uma ferramenta gratuita para auxiliar o Médico-Veterinário na rotina.

Recomendações aos tutores

Tratar a alergia alimentar em cães é desafiador, pois é imprescindível que o tutor se dedique 100% para auxiliar no diagnóstico assertivo e também durante o tratamento, evitando novos episódios de manifestações clínicas.

O Médico-Veterinário deve orientar o tutor sobre o correto manejo nutricional do pet, pois certos tipos de alimentos que são oferecidos ao cão podem não ser nutritivos além de gerar reações alimentares adversas, como as alergias. Esses alimentos pouco nutritivos e muitas vezes com alto teor calórico podem gerar outros problemas de saúde, como obesidade, diabetes mellitus e outros.

É imprescindível que o tutor ofereça ao pet apenas os alimentos recomendados pelo Médico-Veterinário, eliminando completamente o fornecimento de qualquer alimento que não foi prescrito, mesmo que em pequenas quantidades, como, os petiscos, sachês convencionais, pedaços de carne, ossos e outros alimentos de consumo humano ou animal.

Caso haja mais de um animal no mesmo ambiente em que vive o cão alérgico, como outros cães e gatos, é importante que o animal não tenha livre acesso aos demais comedouros. O alimento para o cão alérgico provavelmente não irá trazer problemas para outro cão que o consuma, mas o consumo de outros alimentos (de cão ou gato) pelo cão alérgico poderá trazer problemas para o animal com alergia alimentar.

Nesses casos, o tutor deve oferecer pequenas porções de alimentos a todos os animais da casa ao longo do dia e observá-los durante as refeições, evitando que pet alérgico se alimente no comedouro dos demais animais.

Conheça também o portfólio completo da ROYAL CANIN® e ofereça as melhores opções para o suporte nutricional de gatos e cães que não possuem restrições.

Referências bibliográficas

ALÉSSIO, Beatriz Crepaldi et al. Hipersensibilidade alimentar em um cão. Anais da X Mostra Cientifica FAMEZ, UFMS, Campo Grande, p. 134-136, 2017. Disponível em: https://famez.ufms.br/files/2015/09/HIPERSENSIBILIDADE-ALIMENTAR-EM-UM-C%C3%83O-1.pdf. Acesso em: 15 ago. 2022.

ARAÚJO, Aline Peixoto et al. Dermatite alérgica alimentar em cães. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v. 7, n. 08, p. 76325-76338, 2021. Disponível em: https://www.brazilianjournals.com/index.php/BRJD/article/download/33810/pdf?__cf_chl_tk=eMqoFtmoJ5W7luGSsb51kT.QW2FCH9NvHNAz3QR3pZg-1660613978-0-gaNycGzNCRE. Acesso em: 15 ago. 2022.