Tríade Felina: o que é e como manejar o paciente acometido?
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A tríade felina é um problema que abrange três afecções inflamatórias simultaneamente, sendo comum nos gatos devido às particularidades anatômicas e fisiológicas dessa espécie. Entenda melhor o assunto!
A tríade ou triadite felina é uma condição clínica que acomete gatos e envolve a inflamação simultânea de três órgãos: o intestino delgado, o fígado e vias biliares e o pâncreas. Este quadro, também conhecido como tríade inflamatória felina, representa um desafio significativo para médicos-veterinários devido à sobreposição de sinais clínicos e à complexidade do manejo terapêutico.
Relatos de casos que investigam a afecção começaram a surgir em meados da década de 1990 (WEISS et al., 1996). Aproximadamente 30 a 50% dos gatos com pancreatite ou colangite/hepatite também são diagnosticados com tríade felina (LIDBURY et al., 2020).
Compreender as particularidades desta condição é essencial para um diagnóstico preciso e um tratamento eficaz. Saiba mais!
O que é a Tríade Felina?
A tríade felina é caracterizada pela ocorrência concomitante de três doenças inflamatórias:
- enterite (inflamação do intestino delgado);
- colangite (inflamação dos ductos biliares);
- e pancreatite (inflamação do pâncreas).
É uma doença específica dos gatos, propensão que pode ser justificada devido às particularidades evidenciadas nessa espécie, como a estreita relação anatômica e funcional entre intestino, fígado e pâncreas – o que provavelmente colabora com a ocorrência da inflamação conjunta desses órgãos (NELSON, COUTO, 2015).
Quando diagnosticada precocemente, o prognóstico da tríade felina geralmente varia de reservado a bom, mas vale citar que alguns pacientes permanecem resistentes ao tratamento ou podem apresentar recorrência (CATTIN, 2015).
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Confira o vídeo a seguir e aprofunde-se sobre o tema!
Principais causas e fatores agravantes da Tríade Felina
Apesar de ser diagnosticada com certa frequência, ainda não se tem informações concretas sobre a etiologia multifatorial da tríade felina. A inflamação pode começar em qualquer um dos três órgãos envolvidos e, devido à interação anatômica e funcional, se propagar nos outros.
Segundo Cerná et al. (2020), outras características do trato gastrointestinal felino também estão relacionadas ao desenvolvimento da tríade felina. O intestino delgado curto, a alta carga bacteriana e a característica anatômica pela qual o ducto pancreático se junta ao ducto biliar comum (antes de entrar na papila duodenal) aumentam o risco de refluxo bacteriano e inflamação parenquimatosa.
A inflamação também pode ser uma sequela da translocação bacteriana intestinal e/ou bacteremia sistêmica. Vamos entender mais detalhadamente as três inflamações que constituem a tríade felina:
Inflamação Intestinal
A enteropatia crônica ou doença inflamatória intestinal (DII) é uma condição crônica caracterizada pela infiltração de células inflamatórias na mucosa intestinal. A patogênese da enteropatia crônica em gatos ainda é desconhecida, mas pode ser resultado de uma complexa interação envolvendo o microbioma intestinal, componentes alimentares, genética, desregulação do sistema imunológico e fatores ambientais.
Classificada a partir da gravidade da inflamação gastrointestinal (por meio de biópsia endoscópica) em leve, moderada ou acentuada (WASHABAU et al., 2010), é uma afecção que pode afetar animais de todas as idades, embora ocorra principalmente em gatos de meia-idade.
Colangite
A colangite consiste na inflamação dos ductos biliares que, quando se estende para o parênquima hepático, caracteriza a colangiohepatite. Pode ser classificada como:
- neutrofílica (associada a infecções bacterianas);
- linfocítica (presumivelmente imunomediada);
- ou crônica (associada à infestação por parasitas hepáticos).
Pancreatite
A pancreatite é a inflamação do pâncreas, que pode ser aguda ou crônica. A pancreatite aguda pode ser caracterizada por inflamação neutrofílica com edema intersticial associado e necrose da gordura mesentérica; enquanto a pancreatite crônica pode ser caracterizada por inflamação linfocítica, fibrose e atrofia acinar.
Em muitos casos, a etiologia da pancreatite em gatos é considerada idiopática, porém, algumas causas possíveis incluem:
- isquemia pancreática;
- infecções (panleucopenia felina, peritonite infecciosa felina (PIF) e etc.);
- traumas;
- intoxicação;
- e anestesia geral recente, entre outros.
A inflamação pancreática pode se estender ao ducto pancreático e até mesmo ao esfíncter de Oddi, causando colangite e, potencialmente, obstrução biliar extra-hepática.
Por sua vez, a colangite que ocorre como doença primária pode causar uma inflamação que se estende ao esfíncter de Oddi e ao ducto pancreático e, portanto, é um fator de risco para pancreatite (CERNÁ et al., 2020).
Vale dizer que a pancreatite crônica ainda pode levar ao desenvolvimento de insuficiência pancreática exócrina e diabetes mellitus (PERIUS et al., 2021).
Principais sinais clínicos
Os sinais clínicos da tríade felina são variados e inespecíficos, incluindo (RUDOLPH, 2018):
- hiporexia/anorexia;
- perda de peso;
- letargia;
- vômitos;
- diarreia;
- desidratação;
- dor abdominal;
- icterícia.
Devido à sobreposição de sintomas entre as três condições inflamatórias, a interpretação da apresentação clínica do paciente pelo médico-veterinário pode ser complexa e confusa.
Diagnóstico de Tríade Felina
O diagnóstico da tríade felina requer uma abordagem multimodal, incluindo anamnese e exame clínico detalhados, exames laboratoriais e exames de imagem. O diagnóstico definitivo é feito através de biópsias e histopatológico dos órgãos afetados.
Exames sanguíneos podem revelar elevações nas enzimas hepáticas, na lipase pancreática, anemia, alterações na série branca e alterações nos níveis de proteína sérica (CATTIN, 2015).
Na tabela 1 temos os achados hematológicos e bioquímicos mais comumente observados em pacientes com tríade felina.

O diagnóstico por imagem através da ultrassonografia abdominal é útil para identificar alterações estruturais nos órgãos envolvidos, podendo evidenciar parênquima hepático heterogêneo difuso (tipicamente hiperecoico), às vezes com dilatações segmentares nos ductos biliares intra-hepáticos e extra-hepáticos, sugestivos de obstruções repetidas (MAROLF, 2012).
Além disso, o exame de radiografia abdominal – em conjunto ou não com a ultrassonografia – pode ser usado para confirmar hepatomegalia e fluido abdominal livre, se presente.
A análise histopatológica através de biópsias é o método padrão ouro para a confirmação do diagnóstico de tríade felina, a partir da confirmação da inflamação do intestino, fígado e pâncreas, ajudando, também, a determinar a causa subjacente (HENZ et al., 2022). Porém, nem sempre o paciente apresenta um quadro clínico estável para ser submetido a procedimentos anestésicos e cirúrgicos.
Diagnóstico Diferencial
O diagnóstico diferencial em gatos com suspeita de tríade felina deve considerar outras condições que podem causar sinais clínicos semelhantes, assim como (LIDBURY et al., 2020):
- pancreatite isolada;
- doença inflamatória intestinal isolada;
- colangite isolada;
- hepatite;
- quadros de intoxicação;
- neoplasia abdominal;
- infecções bacterianas ou virais isoladas.
Como é realizado o tratamento para Tríade Felina?
O tratamento da tríade felina deve ser focado numa abordagem individual de cada paciente, considerando a gravidade da inflamação em cada órgão envolvido. A terapêutica pode incluir:
- antibióticos: amoxicilina e ácido clavulônico, metronidazol;
- imunossupressores: prednisolona, ciclosporina;
- antieméticos: maropitant, ondansetrona, metoclopramida;
- analgésicos: buprenorfina, metadona, gabapentina, maropitant;
- fluidoterapia: para corrigir a desidratação, desequilíbrio eletrolítico e apoiar a função renal;
- vitaminas: cobalamina, vitamina k;
- nutracêuticos: SAMe (para casos de hepatite e como antioxidante);
- estimulantes do apetite: mirtazapina.
A importância do manejo nutricional para o paciente acometido
O manejo nutricional do paciente é um componente crucial no tratamento da tríade felina. A dieta recomendada deve ser nutricionalmente completa, de alta digestibilidade, a base de proteínas hidrolisadas e fontes de carboidratos especialmente selecionadas, ajudando a controlar a inflamação intestinal e os sinais clínicos gastrointestinais (BEYNEN, 2022).
Suprindo essas recomendações, o novo alimento Gastrointestinal Hydrolysed Protein da Royal Canin® foi especialmente desenvolvido para gatos adultos que necessitem de uma solução nutricional para compensar a má digestão e reduzir intolerâncias a ingredientes e nutrientes.

A fórmula da Gastrointestinal Hydrolysed Protein inclui proteína hidrolisada de alta digestibilidade, reduzindo o risco de sensibilidades alimentares que podem causar sinais gastrointestinais recorrentes (vômito, fezes amolecidas, diarreia).
O alimento fornece alto teor energético, auxiliando na redução da quantidade de alimento que deve ser oferecida por refeição, diminuindo, consequentemente, a sobrecarga intestinal.
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Vale ressaltar que animais convalescentes que não estejam se alimentando espontaneamente devem receber alimentação assistida por meio de sonda nasoesofágica ou sonda de esofagostomia.
Para isso, recomenda-se o uso da Royal Canin® Recovery, alimento úmido com textura apropriada para administração via sondas, cuja alta densidade de energia supre os requerimentos energéticos ao mesmo tempo em que ajuda a reduzir a quantidade de alimento oferecido ao paciente crítico, e o alto nível de proteína auxilia na manutenção da massa muscular.

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Tríade Felina: existe prevenção?
Embora a prevenção da tríade felina não seja completamente possível devido à natureza multifatorial da condição, os médicos-veterinários podem alertar os tutores sobre algumas medidas podem ajudar a reduzir o risco de desenvolvimento da doença (RUDOLPH, 2018).
Entre elas, destacam-se o fornecimento de uma alimentação balanceada e apropriada para gatos, evitando alimentos que possam desencadear respostas inflamatórias, e a manutenção de um ambiente seguro, evitando a exposição a substâncias tóxicas e situações de estresse que possam contribuir para o desequilíbrio das funções orgânicas.
O monitoramento periódico do paciente através de consultas veterinárias regulares e check-ups também ajudam nos cuidados com a saúde geral, permitindo detectar precocemente qualquer problema e instruir os tutores sobre o melhor manejo profilático para o seu gato.
Referências:
BEYNEN, A.C. Diet and feline triaditis. Dier-en-Arts, n.4, 2022. Acesso em: 24 julho 2024.
CATTIN, I. Tríade Felina. Veterinary Focus, v.23, n.2, 2015.
CERNÁ, P.; KILPATRICK, S.; GUNN-MOORE, D.A. Feline comorbidities: What do we really know about feline triaditis? Journal of Feline Medicine and Surgery, v.22, i.11, 2020. Acesso em: 24 julho 2024.
HENZ, E.S. et al. Tríade felina, necropsia e aspectos histológicos: relato de caso. XXXI Congresso de Iniciação Científica UFPEL, 2022. Acesso em: 24 julho 2024.
LIDBURY, J.A.; MOOYOTTU, S.; JERGENS, A.E. Triaditis – Truth and Consequences. Veterinary Clinics: Small Animal Practice, v.50, i.5, 2020. Disponível em: https://www.vetsmall.theclinics.com/article/S0195-5616(20)30055-3/abstract. Acesso em: 24 julho 2024.
MAROLF, A.J. et al. Achados ultrassonográficos de colangite felina. J Am Anim Hosp Assoc, v.48, 2012.
NELSON, R.W.; COUTO, C.G. Medicina interna de pequenos animais. Rio de Janeiro: Elsevier, 5 ed., 2015.
PERIUS, L.G. et al. Feline triaditis: use of mesenchimal stem cells derived from adipose tissue in control of inflammatory response and repair of tissue injuries: case report. Brazilian Journal of Development, v.7, n.9, 2021. Acesso em: 24 julho 2024.
RUDOLPH, L.W. Feline triaditis. BSAVA Congress Proceedings, 2018. Acesso em: 24 julho 2024.
WASHABAU, R.J. et al. Endoscopic, Biopsy, and Histopathologic Guidelines for the Evaluation of Gastrointestinal Inflammation in Companion Animals. J. Vet Inter Med.. v.24, n.1, 2010. Acesso em: 24 julho 2024.
WEISS, D.J.; GAGNE, J.M.; ARMSTRONG, P.J. Relação entre doença hepática inflamatória e doença inflamatória intestinal, pancreatite e nefrite em gatos. J Am Vet Med Assoc, v.209, 1996.
