Enteropatia Inflamatória Crônica: saiba como conduzir a doença inflamatória intestinal em gatos
Links rápidos:
- O que é a doença inflamatória intestinal felina (ou enteropatia inflamatória crônica)?
- Principais sinais clínicos de gatos com enteropatia inflamatória crônica
- Entendendo a relação entre a DII em gatos e o linfoma gastrointestinal
- Diagnóstico da doença inflamatória intestinal crônica em gatos: passo a passo
- Tratamento da doença inflamatória intestinal crônica nos felinos (ou enteropatia inflamatória crônica)
- A importância do acompanhamento especializado em casos de DII
- Perguntas e respostas frequentes relacionadas a enteropatia inflamatória crônica felina (ou DII em gatos)
- Com mais de 50 anos de história, a Royal Canin® é referência em nutrição e saúde animal!
A enteropatia inflamatória crônica felina é uma enfermidade cujo diagnóstico pode ser desafiador para o médico-veterinário. Entenda como abordar o caso, desde o reconhecimento até o tratamento.
Na medicina felina, as enteropatias crônicas, termo que abrange a doença inflamatória intestinal em gatos, o linfoma de células T intestinais de baixo grau e a enteropatia responsiva à alimentação, são enfermidades comuns, cuja incidência tem se mostrado cada vez mais alta (MARSÍLIO2, 2021, MARSÍLIO et al., 2023).
Neste artigo, vamos traçar um panorama completo sobre uma dessas enteropatias, a de caráter inflamatório. Trata-se de uma afecção que pode comprometer significativamente a qualidade de vida do paciente, com manifestações clínicas que variam de vômitos intermitentes a significativa perda de peso, exigindo uma abordagem diagnóstica criteriosa para que o profissional institua corretamente a conduta terapêutica.
E vale ressaltar que a afecção teve tanto a conduta clínica quanto a nomenclatura atualizadas. O termo “doença inflamatória intestinal (DII)” é algo que está caindo em desuso quando abordamos pequenos animais. A nomenclatura atualizada é “enteropatia inflamatória crônica” (ASSUMPÇÃO, 2025).
Entretanto, como muitos profissionais ainda se referem à afecção como doença inflamatória intestinal (DII), vamos manter ambos os termos ao longo deste conteúdo.
A seguir, compreenda, em detalhes, essa enteropatia crônica em gatos, desde os principais sinais clínicos até as opções mais atuais de tratamento.
O que é a doença inflamatória intestinal felina (ou enteropatia inflamatória crônica)?
A doença inflamatória intestinal em gatos (DII), agora conhecida como enteropatia inflamatória crônica felina (EIC), é caracterizada por uma infiltração anormal de células inflamatórias na mucosa intestinal, resultando em alterações estruturais e funcionais crônicas do trato gastrointestinal.
A etiologia exata da doença não é totalmente compreendida, mas acredita-se que envolva uma interação complexa de predisposição genética, fatores ambientais e desregulação do sistema imunológico, levando à disbiose (XIE et al., 2024).
Segundo Drut et al. (2024), a disbiose da microbiota intestinal pode ser caracterizada pela diminuição de Bifidobacterium spp. e Bacteroidetes spp., e pelo aumento de Desulfovibrio spp., enquanto a alteração dos metabólitos inclui aumento de ácidos graxos poli-insaturados, aumento de esfingomielina, diminuição de esterol e diminuição de triptofano.
DII em gatos e em cães: entenda as principais diferenças dessa enteropatia crônica nas espécies
A enteropatia crônica inflamatória, ou a antiga doença inflamatória intestinal, também acomete cães, mas há diferenças clínicas e diagnósticas relevantes entre as espécies. Em gatos, a doença tende a manifestar sinais clínicos menos exuberantes inicialmente, com predomínio de vômitos recorrentes em relação à diarreia — o oposto do que se observa comumente nos caninos, nos quais a diarreia é a manifestação gastrointestinal mais relevante.
Outro aspecto característico da medicina felina é a sobreposição clínica e histopatológica entre a enteropatia crônica e o linfoma intestinal de baixo grau, o que representa um desafio diagnóstico considerável e exige a abordagem profissional mais criteriosa e multimodal (MARSILIO et al., 2023).
Leia mais: Guia completo sobre a enteropatia crônica (DII) em cães
Principais sinais clínicos de gatos com enteropatia inflamatória crônica
Os sinais clínicos mais observados em pacientes felinos incluem:
- vômitos crônicos/intermitentes;
- perda de peso;
- anorexia, hiporexia ou apetite seletivo;
- diarreia intermitente e alteração da consistência das fezes.
Alguns pacientes podem apresentar dor abdominal ou alterações comportamentais secundárias ao desconforto gastrointestinal crônico (MARSILIO1, 2021; DRUT et al., 2024).
A importância de não subestimar quadros eméticos nos felinos
É comum que tutores e até profissionais normalizem episódios esporádicos de vômito em gatos. No entanto, sabe-se que vômitos mensais — mesmo que isolados — podem ser indicativos de doenças subjacentes como doença inflamatória intestinal felina, ou a chamada enteropatia inflamatória crônica, linfoma intestinal ou hipertireoidismo.
O reconhecimento precoce desses quadros é essencial para evitar a progressão da doença e instituir o tratamento adequado (MARSILIO et al., 2023).
Entendendo a relação entre a DII em gatos e o linfoma gastrointestinal
A enteropatia inflamatória crônica (ou DII em gatos) e o linfoma intestinal de baixo grau compartilham manifestações clínicas e alterações histológicas semelhantes. O linfoma T epitelial de baixo grau, em particular, pode ser indistinguível da DII linfocítica sem o uso de testes adicionais como imunohistoquímica e PCR para reordenamento gênico (MARSILIO et al., 2023).
Embora ainda se investigue se essa enteropatia crônica em gatos pode evoluir para linfoma, sabe-se que a inflamação crônica intestinal pode gerar alterações moleculares que favorecem processos neoplásicos (DRUT et al., 2024).
Leia ainda: Como diagnosticar e conduzir casos de linfoma em gatos
Diagnóstico da doença inflamatória intestinal crônica em gatos: passo a passo
O diagnóstico da doença inflamatória intestinal em gatos, ou enteropatia inflamatória crônica, exige uma abordagem médico-veterinária minuciosa, incluindo a avaliação de dados clínicos integrada a uma lista de métodos diagnósticos disponíveis.
1. Anamnese
Uma anamnese detalhada deve incluir a frequência e padrão dos sinais gastrointestinais (vômitos, diarreia, apetite, perda de peso), além de histórico dietético, uso de medicamentos e doenças prévias.
É importante investigar sinais sutis e crônicos que possam levar à suspeita dessa enteropatia crônica e que muitas vezes passam despercebidos pelos tutores.
2. Exame físico
Ao exame clínico de um paciente suspeito para a doença, em conjunto com a aferição de todos os parâmetros vitais, o médico-veterinário deve registrar o escore de condição corporal (ECC), visto que a perda de peso progressiva é frequente na DII (SABINO & ASSUMPÇÃO, 2025).
A avaliação da pelagem também fornece informações indiretas sobre o estado nutricional e metabólico do paciente — pelagem opaca, quebradiça ou com falhas pode refletir má absorção de nutrientes, que pode ser decorrente de inflamação intestinal persistente.
Além disso, é importante avaliar a hidratação e coloração das mucosas. Por sua vez, a palpação abdominal pode revelar dor à manipulação.
3. Exames complementares
O diagnóstico da doença inflamatória intestinal em gatos deve considerar uma série de exames complementares com o intuito de descartar outras causas de sinais gastrointestinais. É essencial excluir causas infecciosas, parasitárias, endócrinas e neoplásicas (MARSILIO et al., 2023).
Dentre esses exames complementares, podemos citar:
Exames de imagem
A ultrassonografia abdominal é uma ferramenta importante para avaliar espessamento da parede intestinal, perda de estratificação, linfadenopatia mesentérica e líquido livre.
Embora não permita a diferenciação definitiva entre enteropatia inflamatória crônica, ou DII em gatos, e linfoma, é essencial na triagem do paciente e para obtenção de informações sobre outros órgãos abdominais, como fígado, vesícula biliar, pâncreas, baço e trato urinário. (QUESTA et al., 2024).
Exames Hematológicos
Os exames hematológicos de um animal com enteropatia inflamatória crônica felina são úteis para avaliar o estado geral do paciente e orientar o suporte clínico.
O hemograma e perfil bioquímico do paciente com DII podem revelar sinais indiretos como anemia, eosinofilia e hipoalbuminemia (MARSILIO2, 2021).
Histopatológico (biópsia intestinal)
Quando é identificada alguma alteração significativa em exames de imagem, a biópsia intestinal, obtida por endoscopia ou laparotomia, é realizada para o diagnóstico definitivo da enteropatia inflamatória intestinal em gatos e para o diagnóstico diferencial com o linfoma (MARSILIO et al., 2023).
A análise deve incluir colorações específicas e pode considerar testes moleculares (como reordenamento gênico) para diferenciação entre inflamação e neoplasia linfoide (DRUT et al., 2024).
Outros exames
Exames coproparasitológicos, cultura fecal, testes para Giardia spp., FeLV / FIV e T4 total devem ser incluídos na investigação inicial.
Testes de cobalamina e folato também são indicados, uma vez que distúrbios na absorção intestinal são frequentes nessa enteropatia crônica inflamatória (MARSILIO2, 2021).
Tratamento da doença inflamatória intestinal crônica nos felinos (ou enteropatia inflamatória crônica)
O manejo terapêutico da doença deve ser individualizado, considerando a gravidade dos sinais clínicos, a resposta à terapia dietética e a presença de comorbidades.
O tratamento da até então chamada doença inflamatória intestinal em gatos é geralmente baseado em três pilares: intervenção dietética, imunossupressão farmacológica e modulação da microbiota intestinal.
O corticosteroide de escolha é a prednisolona, que apresenta boa eficácia na maioria dos casos moderados a graves. Quando há resposta inadequada ou intolerância ao corticosteroide, pode-se associar clorambucila como agente imunossupressor adjuvante (MARSILIO2, 2021; MARSILIO et al., 2023).
Terapias alternativas, como o uso de células-tronco mesenquimais derivadas de tecido adiposo, têm mostrado resultados promissores em casos refratários ou que não toleram os efeitos adversos dos corticosteroides, promovendo modulação imunológica e reparo tecidual com menor risco de efeitos colaterais (WEBB & WEBB, 2022; XIE et al., 2024).
É importante lembrar que, no passado, a antibioticoterapia era indicada no tratamento da doença inflamatória intestinal em gatos. Porém, antibióticos não são mais recomendados, já que a enfermidade não tem caráter infeccioso. O uso de antimicrobianos pode, ainda, atrapalhar na modulação da microbiota intestinal (MARSÍLIO2, 2021).
A importância do manejo alimentar na enteropatia inflamatória crônica em felinos
A base do manejo inicial da enteropatia inflamatória crônica, até então conhecida como doença inflamatória intestinal em gatos é a intervenção dietética, muitas vezes com resultados tão expressivos quanto a terapêutica farmacológica. Uma dieta altamente digestível, balanceada e isenta de potenciais alérgenos pode reduzir o estímulo antigênico intestinal e controlar a resposta inflamatória (DRUT et al., 2024).
Estudos mostram que a modulação da microbiota por meio da dieta influencia diretamente a resposta imunológica da mucosa intestinal, ajudando a promover remissão clínica em muitos pacientes (QUESTA et al., 2024).
Quando indicar o alimento hidrolisado?
A ração hidrolisada é indicada como primeira escolha dietética em muitos casos de enteropatia inflamatória crônica em gatos, especialmente quando há suspeita de enteropatia por hipersensibilidade alimentar. A presença de proteínas hidrolisadas ajuda a reduzir a antigenicidade e a facilitar a digestão, contribuindo para a melhora clínica e resolução de sinais gastrointestinais.
No entanto, nem todos os casos necessitam exclusivamente de alimentação hidrolisada a longo prazo. Alguns gatos podem se beneficiar de dietas com proteínas novas (novel protein) ou dietas intestinais altamente digestíveis, desde que haja monitoramento da resposta clínica. A escolha deve considerar o histórico alimentar do paciente, exames laboratoriais e tolerância individual (MARSILIO2, 2021; MARSILIO et al., 2023).
Quando indicado, a Royal Canin® possui em seu portfólio o alimento Gastrointestinal Hydrolysed Protein, composto por proteína hidrolisada de soja de alta digestibilidade, que ajuda a reduzir o risco de sensibilidades alimentares que podem causar sinais gastrointestinais recorrentes.
O alimento ainda oferece alto teor energético, ingredientes altamente digestíveis e nível adaptado de eletrólitos, EPA+DHA, um complexo sinérgico de antioxidantes, fibras balanceadas e prebióticos para ajudar a promover uma microbiota intestinal equilibrada, favorecer a saúde digestiva e o trânsito intestinal.
Além disso, a solução nutricional ajuda a promover um ambiente urinário desfavorável à formação de cristais e cálculos (S/O Index).

A importância do acompanhamento especializado em casos de DII
Já vimos o quão complexo pode ser traças o diagnóstico de doença inflamatória intestinal em gatos, tanto que novos estudos seguem sendo feitos e até a nomenclatura foi atualizada para uma melhor compreensão da afecção.
Para completar, essa é uma enteropatia crônica que envolve aspectos imunológicos, microbiológicos, nutricionais e diferenciais oncológicos. Somando todos esses fatores, o acompanhamento multidisciplinar é essencial.
Envolver clínico geral, profissionais especializados em gastroenterologia, nutrólogo, médico-veterinário especializado em medicina felina e, em alguns casos, oncologista garante uma abordagem mais precisa, melhora no prognóstico e redução de recidivas (MARSILIO et al., 2023; XIE et al., 2024).
Perguntas e respostas frequentes relacionadas a enteropatia inflamatória crônica felina (ou DII em gatos)
Veja, a seguir, algumas das dúvidas mais corriqueiras que o médico-veterinário pode ter a respeito da enteropatia inflamatória crônica (doença inflamatória intestinal em gatos).
1. É normal os gatos vomitarem?
Não. Apesar de culturalmente aceitarmos que “gatos vomitam”, episódios frequentes ou recorrentes — mesmo que mensais — não devem ser considerados normais, sendo indispensável a investigação clínica.
2. Gatos com doença inflamatória intestinal devem comer apenas ração hidrolisada?
A ração hidrolisada é frequentemente indicada como dieta inicial para diagnóstico e controle da DII em gatos. Porém, alguns felinos apresentam boa resposta a dietas com proteínas novas ou intestinais de alta digestibilidade. A decisão deve ser baseada na resposta clínica individual, histórico alimentar e exclusão de outras causas.
3. A enteropatia inflamatória crônica em gatos pode evoluir para linfoma?
Ainda que não haja consenso definitivo, a inflamação crônica da mucosa intestinal pode estar associada a alterações moleculares que predispõem à neoplasia, especialmente ao linfoma T epitelial de baixo grau. Por isso, o controle precoce e eficaz da doença intestinal inflamatória é fundamental para minimizar esse risco potencial (MARSILIO et al., 2023; DRUT et al., 2024).
4. É possível diagnosticar a doença inflamatória intestinal felina sem biópsia?
Não de forma definitiva. A biópsia intestinal com exame histopatológico é o padrão-ouro para diagnóstico da DII em gatos, permitindo diferenciar entre inflamação e neoplasia. Outros exames são importantes para suspeita e exclusão de causas secundárias, mas não substituem o exame histológico.
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Referências:
DRUT, A. et al. Gut microbiota in cats with inflammatory bowel disease and low-grade intestinal T-cell lymphoma. Front. Microbiol., v.15, 2024. Disponível em: https://www.frontiersin.org/journals/microbiology/articles/10.3389/fmicb.2024.1346639/full. Acesso em: 06 ago. 2025.
MARSILIO, S.1 Differentiating Inflammatory Bowel Disease from Alimentary Lymphoma in Cats: Does It Matter? Vet. Clin. North Am. Small Anim. Pract., v.51, n.1, 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33187624/. Acesso em: 06 ago. 2025.
MARSÍLIO, S.2 Feline chronic enteropathy. J. of Small Animal Practice, v.62, n.6, 2021. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jsap.13332. Acesso em: 07 ago. 2025.
MARSILIO, S. et al. ACVIM consensus statement guidelines on diagnosing and distinguishing low-grade neoplastic from inflammatory lymphocytic chronic enteropathies in cats. J. Vet. Intern. Med., v.37, n.3, 2023. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37130034/. Acesso em: 06 ago. 2025.
QUESTA, M. et al. Unbiased serum metabolomic analysis in cats with naturally occurring chronic enteropathies before and after medical intervention. Scientific Reports, v.14, n.6939, 2024. Disponível em: https://www.nature.com/articles/s41598-024-57004-2. Acesso em: 06 ago. 2025.
SABINO, K.S.; ASSUMPÇÃO, A.E. Abordagem diagnóstica e terapêutica em enteropatia inflamatória crônica felina: Revisão. Pubvet, v.19, n.01, 2025. Acesso em: 08 set. 2025.
WEBB, T.L.; WEBB, C.B. Comparing adipose-derived mesenchymal stem cells with prednisolone for the treatment of feline inflammatory bowel disease. J. Feline Med. Surg., v.24, n.8, 2022. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35713592/. Acesso em: 06 ago. 2025.
XIE, Q. et al. Mesenchymal stem cells: a novel therapeutic approach for feline inflammatory bowel disease. Stem Cell Research & Therapy, v.15, n.409, 2024. Disponível em: https://stemcellres.biomedcentral.com/articles/10.1186/s13287-024-04038-y. Acesso em: 06 ago. 2025.
