Enteropatia Crônica Canina (ou Doença Inflamatória Intestinal): conheça as particularidades da afecção
Links rápidos:
- Entendendo a atualização de nomenclatura: de doença inflamatória intestinal canina (DII) para enteropatia crônica
- O que é a doença inflamatória intestinal (DII), agora chamada de enteropatia crônica (EC)?
- Principais causas de enteropatia crônica inflamatória nos cães
- Há diferenças entre DII em cães e em gatos?
- Como diagnosticar a doença inflamatória intestinal nos cães
- A importância de investigar doenças concomitantes ou primárias
- Tratamento para a doença inflamatória intestinal em cães
- Prognóstico da enteropatia crônica inflamatória canina (ou DII)
- Perguntas frequentes sobre enteropatia crônica em cães
- A Royal Canin® alia ciência e tradição há mais de 50 anos, promovendo saúde aos animais!
Entenda como a enteropatia crônica canina impacta o bem-estar animal e saiba como conduzir um caso suspeito na rotina clínica.
A doença inflamatória intestinal em cães (DII), atualmente chamada de enteropatia inflamatória crônica, é uma afecção que traz impacto significativo na qualidade de vida dos pacientes e desafios diagnósticos importantes na rotina clínica. Ela pode se manifestar de diferentes formas, desde um leve desconforto gastrointestinal até quadros severos de perda de peso, vômitos e diarreia refratária.
A abordagem dessa enteropatia exige atenção multifatorial, englobando questões imunológicas, dietéticas e até mesmo predisposições genéticas. Com isso, é uma afecção que exige conduta diagnóstica e terapêutica ampla e individualizada (JERGENS & HEILMANN, 2022).
Entendendo a atualização de nomenclatura: de doença inflamatória intestinal canina (DII) para enteropatia crônica
A medicina veterinária segue em constante evolução, e um termo que sofreu atualização foi o “doença inflamatória intestinal em cães”. Por muitos anos a enfermidade recebeu apenas esse nome e teve como referência a sigla DII.
Entretanto, falar doença inflamatória intestinal em cães ou DII em cães pode ser confuso, pois a afecção em pacientes caninos tem condução e tratamento diferentes da doença em humanos, por exemplo. Diante disso, é indicado usar o termo guarda-chuva “enteropatia crônica” (EC) (DANDRIEUX, 2016). Ou seja, trata-se de uma doença crônica do trato intestinal que tem como característica a presença de inflamação.
Apesar dessa atualização, o termo “doença inflamatória intestinal” ainda é muito buscado e segue presente na rotina de diversos profissionais. Por isso, ainda faremos referência a ele ao longo do texto.
O que é a doença inflamatória intestinal (DII), agora chamada de enteropatia crônica (EC)?
A doença consiste em uma irritação crônica da mucosa do trato gastrointestinal do cão, caracterizada por infiltração de células inflamatórias, classificada histologicamente conforme o infiltrado celular predominante (linfocítico-plasmocitário, eosinofílico ou granulomatoso) (DANDRIEUX, 2016; JERGENS & HEILMANN, 2022).
É um distúrbio idiopático que pode se manifestar de forma leve a severa, levando à vasodilatação da mucosa, aumento da permeabilidade intestinal e baixa absorção de nutrientes (RANA, 2022).
Principais causas de enteropatia crônica inflamatória nos cães
A enteropatia crônica inflamatória canina é multifatorial e pode estar associada a diversos fatores, como:
- disbiose intestinal e alterações da microbiota: a desregulação do eixo microbiota-imunidade intestinal pode levar a uma resposta inflamatória descontrolada. Alterações no perfil microbiano foram consistentemente observadas em cães com a afecção (AMBROSINI et al., 2020; FERRONI et al., 2024);
- exposição precoce a fatores ambientais: eventos que podem acontecer na fase de filhote, como dieta inadequada, ausência de vermifugação ou uso precoce de antimicrobianos, podem estar associados ao desenvolvimento da doença em cães na vida adulta (HEMIDA et al., 2021);
- hipersensibilidade alimentar: a resposta inflamatória à presença contínua de antígenos alimentares é um fator citado na fisiopatologia da doença inflamatória intestinal em cães, agora chamada de enteropatia crônica (AMBROSINI et al., 2020; DANDRIEUX, 2016).
Predisposição racial: existe relação entre a enteropatia crônica canina e as raças?
Sim. Diversos estudos sugerem que algumas raças caninas são mais suscetíveis ao desenvolvimento de DII em cães, ou seja, enteropatia intestinal crônica inflamatória. Dentre elas, podemos citar Boxer (predisposto à colite granulomatosa), Pastor Alemão (com tendência à resposta inflamatória exacerbada) e o Shar Pei (associado à enteropatia eosinofílica).
Tal predisposição pode envolver alterações genéticas que afetam tanto a barreira intestinal quanto a resposta imune local (JERGENS & HEILMANN, 2022; HEMIDA et al., 2021).
Há diferenças entre DII em cães e em gatos?
Ambas as espécies podem apresentar a afecção, embora a doença tenha importantes diferenças no que diz respeito às causas e às manifestações clínicas, exigindo que o médico-veterinário realize abordagens diagnósticas e terapêuticas distintas.
Conforme vimos anteriormente, a DII em cães, agora pode ser chamada de EC em cães, pode estar associada a fatores como alergias alimentares, predisposição genética e desregulação imunológica, além de apresentar a diarreia como sinal clínico predominante.
Já em gatos, os distúrbios alimentares de sensibilidade costumam desempenhar um papel mais importante no desenvolvimento da doença, sendo os vômitos as manifestações mais comuns.
Além disso, o diagnóstico da enteropatia crônica felina pode ser mais desafiador, exigindo a realização de exames complementares mais invasivos, como biópsias intestinais, para descartar outras possíveis enfermidades, como o linfoma intestinal (MARSILIO et al., 2023; JERGENS & HEILMANN, 2022).
Como diagnosticar a doença inflamatória intestinal nos cães
O diagnóstico é feito por exclusão, exigindo uma sequência de exames que descartem causas infecciosas, parasitárias, endócrinas, dietéticas ou neoplásicas (JERGENS & HEILMANN, 2022).
A confirmação definitiva ocorre por meio de biópsia intestinal com histopatológico, que determina o tipo e o grau de inflamação (JERGENS & HEILMANN, 2022).
Quais são os exames complementares mais indicados?
Para casos suspeitos de enteropatia crônica inflamatória, ou doença inflamatória intestinal em cães, como já foi denominada, alguns exames complementares devem ser solicitados pelo médico-veterinário, com o intuito de avaliar o estado geral do paciente e de fazer o diagnóstico diferencial para outras enfermidades.
Sendo assim, os exames mais indicados nesses casos são:
Exames de imagem
A ultrassonografia abdominal é uma ferramenta importante para identificar alterações na parede intestinal, como espessamento parietal e perda de estratificação, linfonodomegalias e alterações em fígado, baço e pâncreas. A colonoscopia e a endoscopia, por sua vez, permitem a coleta de biópsias e avaliação direta da mucosa intestinal (JERGENS & HEILMANN, 2022).
Exames hematológicos
Em casos de doença inflamatória intestinal em cães, os exames de sangue podem evidenciar anemia, eosinofilia, hipoproteinemia, hipoalbuminemia e alterações como aumento na contagem de monócitos ou neutrófilos (JERGENS & HEILMANN, 2022).
Levando em consideração que as proporções hematológicas de algumas células são preditores de doença inflamatória intestinal em humanos, um estudo realizado com cães atendidos em um hospital escola detectou que a contagem de monócitos em conjunto com a razão de monócitos para linfócitos, a proporção de neutrófilos para linfócitos e a razão de plaquetas para linfócitos podem ser úteis no diagnóstico e no monitoramento da doença inflamatória intestinal em cães (MARCHESI et al., 2024).
Exame coproparasitológico e bacteriológico
Tais testes laboratoriais são fundamentais para exclusão de infecções parasitárias e bacterianas, sendo recomendada a coleta de múltiplas amostras em dias alternados.
Outros exames
Visando o diagnóstico da DII em cães, lembrando que agora a doença é conhecida como enteropatia crônica inflamatória (EC), o profissional pode ainda considerar a requisição de dosagens de cobalamina, ácido fólico e TLI (Trypsin-Like Immunoreactivity), que são úteis para avaliar integridade da mucosa intestinal e descartar insuficiência pancreática exócrina (JERGENS & HEILMANN, 2022).
A importância de investigar doenças concomitantes ou primárias
Muitas condições podem mimetizar ou coexistir com a enteropatia crônica em cães, levando a uma alteração crônica no intestino. Dentre elas, podemos citar:
- pancreatite crônica;
- insuficiência pancreática exócrina;
- hipoadrenocorticismo;
- neoplasias intestinais;
- entre outras.
Dessa forma, o diagnóstico diferencial é essencial para se chegar ao diagnóstico correto de DII e, então, instituir um tratamento eficaz, evitando terapias desnecessárias (RANA, 2022).
Tratamento para a doença inflamatória intestinal em cães
O tratamento da doença inflamatória intestinal canina (esse tipo de enteropatia crônica, como temos explicado ao longo do conteúdo) vem sendo revisado e atualizado, principalmente no que diz respeito ao uso de medicamentos.
Entretanto, em linhas gerais podemos afirmar que ele envolve uma combinação de medidas que visam reduzir a inflamação no trato gastrointestinal, controlando ou cessando as manifestações clínicas relacionadas à enfermidade.
É importante ressaltar que a parceria entre o médico-veterinário e o tutor é primordial para que se encontre a melhor abordagem terapêutica para cada caso, de forma individualizada.
Dito isso, é essencial levar em conta dois pilares quando se fala de tratamento da doença inflamatória intestinal em cães.
1. Manejo alimentar
O manejo alimentar é a base do tratamento da DII canina, e isso permanecesse mesmo com a atualização na nomenclatura da doença. O uso de alimentação hidrolisada é altamente eficaz para o tratamento a longo prazo dessa enfermidade, sendo indicado como primeira abordagem em muitos casos.
Vale explicar que a dieta hidrolisada é considerada hipoalergênica porque o processo de hidrólise interrompe as estruturas proteicas para limitar os alérgenos existentes e epítopos alergênicos, tornando improvável que o alimento estimule o sistema imunológico (OLIVRY & BIZIKOVA, 2010).
Ambrosini et al. (2020) demonstraram um aumento significativo nos metabólitos que protegem a integridade da membrana intestinal em cães com doença inflamatória intestinal após o tratamento por mais de 70 dias com dieta hidrolisada.
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2. Medicamentos
O uso de corticosteroides (como prednisolona) é indicado em casos moderados a graves ou naqueles que não respondem à dieta. Em casos refratários, pode-se considerar o uso de outros medicamentos imunossupressores (como ciclosporina e clorambucil) (JERGENS & HEILMANN, 2022).
Novas terapias com células-tronco mesenquimais vêm sendo estudadas, mas sua heterogeneidade e limitação clínica ainda dificultam sua aplicação rotineira (TESHIMA, 2024).
Vale ressaltar que, antigamente, era recomendado o tratamento com antibióticos. Porém, essa conduta não é mais utilizada, pois na ausência de uma etiologia infecciosa, o tratamento antimicrobiano não desempenha nenhum papel. Além disso, o uso indiscriminado de medicamentos antibacterianos traz riscos de consequências prejudiciais tanto para o paciente individual (resistência antimicrobiana, interrupção a longo prazo das populações bacterianas intestinais, potencial agravamento dos sinais gastrointestinais) quanto para o público em geral (JERGENS & HEILMANN, 2022; CERQUETELLA et al., 2020).
Acompanhamento multidisciplinar com especialistas também é essencial na enteropatia crônica
A condução de casos dessa enteropatia crônica pode ser desafiadora, exigindo atuação conjunta entre clínico geral, gastroenterologista, nutrólogo e profissional especializado em diagnóstico por imagem.
Afinal, procedimentos como endoscopia, colonoscopia e biópsia guiada por imagem devem ser realizados por profissionais experientes, garantindo maior precisão diagnóstica e terapêutica.
A ação conjunta desses profissionais, além da colaboração do tutor, contribui para toda a condução de casos de DII.
Prognóstico da enteropatia crônica inflamatória canina (ou DII)
O prognóstico da enteropatia crônica inflamatória, ou doença inflamatória intestinal canina, depende da gravidade do quadro, do tempo de evolução, da resposta à dieta e ao tratamento medicamentoso. Muitos pacientes conseguem alcançar remissão clínica duradoura, especialmente quando o diagnóstico é precoce e a terapia é instituída de forma sistemática.
Entretanto, a doença tem caráter crônico e pode exigir ajustes terapêuticos ao longo da vida (JERGENS & HEILMANN, 2022).
Perguntas frequentes sobre enteropatia crônica em cães
Veremos, a seguir, algumas das dúvidas mais corriqueiras sobre a doença.
1. É possível confirmar a doença inflamatória intestinal (DII) em cães – enteropatia crônica inflamatória – apenas com exames de imagem?
Não. Embora exames de imagem, como a ultrassonografia, sejam uma ferramenta de suporte que pode fornecer pistas sobre a DII em cães e ajudar a descartar outras condições, a confirmação definitiva só ocorre com biópsia intestinal e histopatologia.
2. A doença inflamatória intestinal canina tem cura ou é sempre crônica?
A atualização na nomenclatura da doença também nos dá essa resposta. Trata-se de uma enteropatia crônica, mas que pode ser controlada com tratamento adequado e monitoramento contínuo, permitindo que o paciente tenha uma boa qualidade de vida.
3. Existe relação entre a alimentação e a manifestação da DII em cães?
Sim. Ainda que a causa exata dessa enteropatia crônica canina seja desconhecida, fatores ambientais e dietéticos podem estar relacionados a condição. A dieta pode tanto desencadear a inflamação intestinal quanto ser uma ferramenta crucial no manejo e tratamento da DII (AMBROSINI et al., 2020).
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Referências:
AMBROSINI, Y.M. et al. Treatment With Hydrolyzed Diet Supplemented With Prebiotics and Glycosaminoglycans Alters Lipid Metabolism in Canine Inflammatory Bowel Disease. Front. Vet. Sci., 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32851029/. Acesso em: 06 ago. 2025.
CERQUETELLA, M. et al. Proposal for rational antibacterial use in the diagnosis and treatment of dogs with chronic diarrhoea. J. Small Anim. Pract., v.61, n.4, 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32065388/. Acesso em: 14 ago. 2025.
DANDRIEUX, J.R.S. Inflammatory bowel disease versus chronic enteropathy in dogs: are they one and the same? Journal of Small Animal Practice, v.57, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27747868/ . Acesso em: 5 set. 2025
FERRONI, L. et al. Apple vescicles: Revolutionary gut microbiota treatment for Inflammatory Bowel Disease. Food Bioscience, v.62, 2024. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2212429224014822. Acesso em: 06 ago. 2025.
HEMIDA, M. et al. Early Life Modifiable Exposures and Their Association With Owner Reported Inflammatory Bowel Disease Symptoms in Adult Dogs. Front. Vet. Sci., 2021. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/33598486/. Acesso em: 06 ago. 2025.
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MARCHESI, M.C. et al. Monocytes Count, NLR, MLR and PLR in Canine Inflammatory Bowel Disease. Animals, v.14, n.6, 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2615/14/6/837. Acesso em: 06 ago. 2025.
OLIVRY, T.; BIZIKOVA, P. A systematic review of the evidence of reduced allergenicity and clinical benefit of food hydrolysates in dogs with cutaneous adverse food reactions. Ver. Dermatol, v.21, n.1, 2010. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/19552700/. Acesso em: 06 ago. 2025.
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TESHIMA, T. Heterogeneity of mesenchymal stem cells as a limiting factor in their clinical application to inflammatory bowel disease in dogs and cats. The Veterinary Journal, v.304, 2024. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1090023324000297. Acesso em: 06 ago. 2025.
