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Enteropatia Inflamatória Crônica (EIC) em Cães: Diagnóstico, Exames e Manejo Terapêutico | Diretrizes ACVIM

Enteropatia Inflamatória Crônica (EIC) em Cães: Diagnóstico, Exames e Manejo Terapêutico | Diretrizes ACVIM
Atualizado em 29 de abril de 2026
Tempo de leitura: 6min
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Este artigo apresenta as diretrizes do ACVIM para a abordagem clínica da Enteropatia Inflamatória Crônica (EIC) em cães. O protocolo enfatiza o diagnóstico por exclusão e posiciona os testes com dietas terapêuticas como intervenção de primeira linha. Os achados reforçam a modulação do microbioma e a nutrição como pilares do tratamento, restringindo o uso de glicocorticoides e antibióticos para casos refratários ou condições específicas.

O que é a Enteropatia Inflamatória Crônica (EIC) em cães?

A Enteropatia Inflamatória Crônica (EIC) engloba um grupo de distúrbios gastrointestinais persistentes ou recorrentes, caracterizados por inflamação da mucosa intestinal, sendo responsável por cerca de 20% a 30% das consultas em clínica de pequenos animais.

A patogênese da EIC é multifatorial e envolve a interação entre suscetibilidade genética, resposta imunológica desregulada, fatores ambientais e alterações no microbioma intestinal. O Colégio Americano de Medicina Interna Veterinária (ACVIM) recomenda o abandono do termo “Doença Inflamatória Intestinal (DII)” na medicina veterinária, a fim de evitar paralelos inadequados com a condição humana.

Diante da complexidade e do potencial de progressão para quadros graves, como a enteropatia perdedora de proteínas (PLE), o ACVIM publicou diretrizes baseadas em evidências para orientar a prática clínica.

Abordagem clínica e diagnóstico da EIC

A EIC acomete com maior frequência cães de meia-idade, embora apresentações responsivas à dieta sejam comuns em animais jovens. Raças como Pastor Alemão, Soft-coated Wheaten Terrier e Shar-pei Chinês apresentam predisposição genética. As manifestações clínicas variam conforme o segmento do trato gastrointestinal afetado, incluindo diarreia crônica, vômitos, alterações no apetite e perda de peso.

O exame físico é essencial para o estadiamento inicial. A avaliação do Escore de Condição Corporal (ECC) e do Escore de Condição Muscular (ECM) permite identificar desnutrição, enquanto sinais como ascite e edema periférico sugerem hipoalbuminemia e indicam pior prognóstico. A gravidade clínica deve ser mensurada por índices padronizados, como CIBDAI ou CCECAI.

A EIC é um diagnóstico de exclusão. A investigação inicial deve incluir hemograma completo, perfil bioquímico com eletrólitos, urinálise (com relação proteína/creatinina em casos de hipoalbuminemia) e exame parasitológico de fezes.

Exames complementares e exclusão de diagnósticos diferenciais

Para excluir doenças concomitantes ou condições que mimetizam a EIC, recomenda-se a avaliação de cobalamina (vitamina B12), folato, marcadores pancreáticos (cPL e cTLI) e cortisol sérico basal.

A ultrassonografia abdominal é indicada especialmente em pacientes com escores clínicos elevados (≥ 6), perda de peso significativa ou ausência de resposta à dieta, auxiliando na exclusão de obstruções e doenças extraintestinais.

A endoscopia digestiva com biópsia deve ser considerada após a exclusão dessas condições e falha nas tentativas dietéticas, ou precocemente em casos com anorexia grave e hipoalbuminemia, sendo fundamental para confirmação histopatológica.

Manejo terapêutico e resposta clínica na EIC

A abordagem terapêutica da EIC deve ser escalonada, baseada no fenótipo de resposta individual do paciente:

  1. Manejo nutricional (primeira linha): Os testes com dietas terapêuticas representam o principal pilar diagnóstico e terapêutico. Dietas com proteína hidrolisada, ingredientes limitados, alto teor de fibras ou baixo teor de gordura devem ser utilizadas de forma exclusiva por, no mínimo, 2 semanas. Recomenda-se a realização de até três tentativas dietéticas antes da progressão para outros tipos de terapias, como a farmacológica ou a modulação de microbioma, por exemplo.
    Considerando que o manejo dietético é a base da abordagem da enteropatia crônica, a escolha da dieta deve ser estratégica e alinhada ao fenótipo clínico do paciente. Entre as opções terapêuticas disponíveis, destacam-se formulações desenvolvidas para suporte gastrointestinal e investigação dietética:
    – Dietas com proteína hidrolisada ou altamente restrita, como ROYAL CANIN® Hypoallergenic e Anallergenic, indicadas para ensaios dietéticos em pacientes com suspeita de reação adversa ao alimento.
    – Linha ROYAL CANIN® Gastrointestinal Canine, incluindo variações como Gastrointestinal High Fibre e Low Fat, formuladas para diferentes apresentações clínicas, como distúrbios digestivos inespecíficos, necessidade de modulação de fibras ou controle lipídico em condições como linfangiectasia intestinal.
    A seleção da dieta deve ser sempre individualizada, considerando o histórico clínico, os sinais predominantes e os objetivos terapêuticos em cada fase do manejo.
  2. Modulação do microbioma: Probióticos e simbióticos podem ser associados em casos de resposta parcial à dieta. O uso empírico de antibióticos, como tilosina ou metronidazol, deve ser evitado devido ao risco de disbiose persistente, sendo reservado para situações específicas, como colite granulomatosa bacteriana confirmada por cultura.
  3. Terapia imunomoduladora: Indicada apenas em casos refratários à dieta ou em pacientes com PLE grave. Glicocorticoides (prednisolona, prednisona ou budesonida) devem ser administrados em associação à dieta. Em casos sem resposta adequada, podem ser utilizados fármacos de resgate, como ciclosporina ou clorambucil.
  4. Suplementação: Pacientes com hipocobalaminemia devem receber suplementação imediata de vitamina B12, por via oral ou parenteral, visando restaurar a função absortiva intestinal.

Monitoramento e evolução clínica

A monitorização clínica deve ser realizada a cada 1 a 2 semanas, com acompanhamento de peso corporal, ECC, ECM e escores clínicos (CIBDAI/CCECAI). Reduções superiores a 75% nesses índices indicam remissão clínica.

Pacientes responsivos à dieta devem mantê-la por 12 a 14 semanas, podendo ser necessária sua continuidade a longo prazo em casos de PLE para prevenção de recaídas.

As diretrizes destacam que a intervenção nutricional frequentemente promove melhora clínica mais consistente e segura a longo prazo quando comparada ao uso precoce de glicocorticoides. Casos associados à linfangiectasia intestinal exigem dietas altamente digestíveis com teor reduzido a ultrabaixo de gordura.

Além disso, evidências crescentes sobre os efeitos negativos da disbiose induzida por antibióticos reforçam a necessidade de uso criterioso desses fármacos na prática clínica

 

Considerações finais e aplicação clínica

O manejo da EIC em cães requer uma abordagem estruturada, progressiva e baseada em evidências. O sucesso terapêutico está diretamente relacionado à exclusão criteriosa de diagnósticos diferenciais e à implementação rigorosa das dietas terapêuticas como primeira linha de intervenção.

Exames invasivos e terapias imunomoduladoras têm papel relevante, porém devem ser introduzidos de forma racional, respeitando a resposta individual do paciente às intervenções nutricionais e à correção de deficiências metabólicas, como a vitamina B12.

Na prática clínica, este protocolo reforça a nutrição como ferramenta diagnóstica e terapêutica central, posicionando-a como elemento decisivo na condução e no prognóstico da Enteropatia Inflamatória Crônica.

Leia o artigo completo na publicação oficial do ACVIM: https://academic.oup.com/jvim/article/40/1/aalaf017/8429723?searchresult=1

Referências bibliográficas:
Heilmann, R. M., et al. (2026). ACVIM–endorsed statement: consensus statement and systematic review on guidelines for the diagnosis and treatment of chronic inflammatory enteropathy in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine.

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