Calculadora para Recomendação Nutricional

e cálculo de alimento de acordo com o quadro específico do seu paciente.

Conhecer

Calculadora para Recomendação Nutricional
e cálculo de alimento de acordo com o quadro específico do seu paciente.

Conhecer

Lipidose hepática felina: fisiopatogenia, diagnóstico e tratamento

Lipidose hepática felina: fisiopatogenia, diagnóstico e tratamento
Atualizado em 30 de março de 2026
Tempo de leitura: 12min
×

Links rápidos:

A lipidose hepática felina é uma doença hepatobiliar de elevada ocorrência no atendimento clínico. Entenda os tópicos mais relevantes e saiba como abordar o paciente acometido.

O fígado é responsável por desempenhar funções primordiais para a manutenção da homeostase. Dentre elas, podemos citar a participação na digestão, na absorção e no metabolismo de nutrientes, além de armazenamento, desintoxicação, catabolismo e excreção de inúmeros metabólitos.

A lipidose hepática felina é a doença hepática mais comum em gatos, comprometendo severamente a função do fígado, o que resulta em importantes distúrbios metabólicos. O prognóstico pode variar muito, dependendo das condições subjacentes e das comorbidades relacionadas. A taxa de sobrevida global está entre 50% e 85%, mas pancreatite aguda, ptialismo, derrame cavitário, hipoalbuminemia e idade avançada são alguns dos fatores prognósticos negativos descritos (NIVY, 2023).

Compreenda, a seguir, a complexa fisiopatogenia dessa enfermidade e os detalhes de como conduzir os casos de lipidose hepática felina.

O que é lipidose hepática

A lipidose hepática felina, também chamada de “fígado gorduroso”, é uma síndrome bem reconhecida na Medicina Felina e é caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura no fígado.

A condição ocorre quando mais de 50% dos hepatócitos acumulam excesso de triglicerídeos, resultando em colestase grave e disfunção hepática (TILLEY, SMITH JR, 2014).

A lipidose hepática felina pode estar associada com outras doenças subjacentes, como obesidade, pancreatite, diabetes e colangiohepatite, podendo ser ainda idiopática, quando a causa primária não é detectada.

Em gatos, a lipidose hepática frequentemente está relacionada a um histórico de longo período de inapetência, que pode estar associado ao manejo alimentar inadequado, a eventos estressantes ou a fatores crônicos ligados às comorbidades citadas acima.

Fisiopatogenia da lipidose hepática felina

Acredita-se que a etiopatogenia da lipidose hepática felina esteja correlacionada a uma combinação de fatores, como (NELSON, COUTO, 2015):

  • excessiva mobilização periférica de lipídeos;
  • deficiência na formação de lipoproteínas;
  • lipogênese excessiva;
  • aumento da oxidação hepática de ácidos graxos;
  • inibição da oxidação lipídica;
  • inibição da síntese de lipoproteínas de densidade muito baixa (VLDL).

Conforme citado, a lipidose hepática em gatos geralmente surge quando há longos períodos de inapetência (36 horas, por exemplo). Durante a privação alimentar, o glicogênio hepático armazenado previamente servirá como fonte de energia reserva para o organismo.

Se a ingestão alimentar permanecer comprometida mesmo após os estoques de glicogênio hepático serem consumidos, ocorrerá diminuição dos níveis plasmáticos de insulina na tentativa de manter a glicemia e, com isso, há o estímulo à lipólise periférica.

Os ácidos graxos depositados no tecido adiposo são, então, mobilizados para geração de energia, e a taxa de oxidação no fígado aumenta. Com isso, inicia-se uma série de disfunções metabólicas deletérias ao organismo do animal, uma vez que a chegada de lipídios ao fígado excede sua capacidade de oxidação.

A liberação maciça de triglicerídeos na circulação pode levar à disfunção hepatocelular, pois o acúmulo de gordura nos hepatócitos (Figura 1) compromete a função dessas células e afeta toda a integridade do organismo do animal.

Biópsia hepática de felino com lipidose hepática
Figura 1: Biópsia hepática de felino com lipidose hepática evidenciando acúmulo de lipídeos nos hepatócitos. Fonte: FASCETTI, DELANEY, 2012.

Fatores de risco: quais animais estão mais propensos a desenvolver a lipidose hepática?

Dentre os principais fatores de risco para o desenvolvimento de lipidose hepática felina, destacam-se o sobrepeso ou a obesidade e os períodos prolongados de jejum (acima de 36 horas). Saiba mais a seguir:

A influência do sobrepeso e da obesidade no desenvolvimento da lipidose hepática nos gatos

Gatos com sobrepeso ou obesos podem apresentar grande quantidade de ácidos graxos liberados rapidamente dos depósitos de gordura periféricos e viscerais quando expostos a um período de hiporexia ou anorexia (VALTOLINA & FAVIER, 2017).

Para completar, diferentemente dos cães, que podem tolerar períodos de jejum prolongado, os felinos apresentam menor reserva hepática para gliconeogênese, levando à ativação exacerbada da lipólise em resposta ao déficit energético. Esse mecanismo resulta na rápida infiltração gordurosa no parênquima hepático, agravando a disfunção hepatocelular (WEBB, 2018).

No final, podemos dizer que boa parte dos gatos que desenvolvem lipidose hepática felina são obesos que passaram por um período de privação alimentar, no qual houve intensa mobilização de gordura periférica proveniente de seu acúmulo excessivo de tecido adiposo. Portanto, quanto maior o percentual de gordura corporal, maior a chance do desenvolvimento de lipidose hepática.

Além disso, a obesidade em felinos leva à resistência insulínica e ao diabetes, doença que também estimula o aumento da mobilização dos triglicerídeos para o fígado, agravando ainda mais o quadro.

Saiba mais sobre obesidade em gatos e cães e acesse materiais exclusivos sobre controle de peso em nossa página especial.

Obesidade e sobrepeso podem estar relacionadas à lipidose hepática e outras doenças. Saiba mais sobre controle de peso em nossa página especial

 

Outros fatores que podem desencadear a lipidose hepática

Outros fatores como estresse, enfermidades sistêmicas concomitantes e alterações no manejo alimentar podem precipitar quadros de anorexia, levando ao desenvolvimento da lipidose hepática felina (NIVY, 2023).

Por que os gatos são mais acometidos do que os cães?

Embora as causas não estejam completamente esclarecidas, a lipidose hepática felina é mais comum do que em pacientes caninos.

Além da questão excesso de peso e do jejum citadas acima, algumas diferenças anatômicas e metabólicas nos gatos explicam parcialmente as razões que os tornam mais susceptíveis a essa enfermidade.

A presença do ducto pancreático e sua unificação com ducto biliar antes de entrar no duodeno, por exemplo, é um dos fatores que explicam a possibilidade da lipidose hepática felina se desenvolver secundariamente a outras afecções do fígado ou do pâncreas, como colestase, colangiohepatite, insuficiência hepática, pancreatite e diabetes.

Principais sinais clínicos da lipidose hepática felina

As manifestações clínicas mais frequentemente observadas em pacientes com lipidose hepática felina são:

  • perda de peso;
  • ptialismo;
  • hiporexia ou anorexia;
  • vômitos;
  • icterícia;
  • constipação ou diarreia;
  • letargia.
Caso de icterícia em gato com lipidose hepática
Figura 2: Icterícia em um gato macho castrado de 4 anos com lipidose hepática idiopática. A icterícia pode ser identificada na terceira pálpebra (a), na mucosa gengival (b), e na orelha (c). Fonte: NIVY, 2023.

Como diagnosticar a lipidose hepática felina

O diagnóstico de lipidose hepática felina é baseado na identificação de alterações clínicas associada ao histórico de anorexia prolongada ou qualquer fator que cause desequilíbrio nutricional, como modificações dietéticas severas para redução de peso, por exemplo.

No exame físico, o médico-veterinário pode identificar obesidade, hepatomegalia, desidratação, icterícia e/ou fraqueza (ventroflexão do pescoço/decúbito).

A ultrassonografia é o exame de imagem de escolha para pacientes com suspeita de lipidose hepática felina, podendo evidenciar a hepatomegalia e o aumento difuso da ecogenicidade do fígado.

Em conjunto, análises laboratoriais de amostras sanguíneas podem detectar alterações bioquímicas por meio da mensuração de enzimas hepáticas. Além disso, a biópsia hepática possibilita diferenciar a lipidose hepática felina de outras afecções do fígado e confirmar o diagnóstico da doença.

Principais alterações encontradas em exames de gatos com lipidose hepática

Em quadros de lipidose hepática felina, o médico-veterinário pode evidenciar que a maioria dos pacientes apresenta elevação significativa da fosfatase alcalina (FA) e poucos deles terão qualquer elevação notável na gama-glutamiltransferase (GGT). Já a alanina aminotransferase (ALT) e aspartato aminotransferase estarão de leve a moderadamente elevadas (WEBB, 2018).

Hipocalemia, hipomagnesemia, hipertrigliceridemia e alterações em um ou mais parâmetros de coagulação podem estar presentes. Outros achados incluem ainda: hipoalbuminemia, hiperamonemia, ureia baixa no sangue.

No hemograma, pode-se evidenciar poiquilócitos e corpúsculos de Heinz, juntamente com anemia não regenerativa de leve à moderada. Já a urinálise do paciente com lipidose hepática felina pode apresentar bilirrubinúria e lipidúria.

Conforme dito anteriormente, o ultrassom abdominal constitui uma importante ferramenta para o diagnóstico da lipidose hepática felina, evidenciando aumento do fígado, parênquima hiperecóico e pouca visibilidade das paredes da veia porta intra-hepática.

Diagnóstico diferencial

Segundo Tilley & Smith Jr. (2014), o diagnóstico diferencial da lipidose hepática felina deve considerar doenças que também podem ocasionar as mesmas manifestações clínicas, tais como:

Tratamento para a lipidose hepática felina

Por ser uma doença grave que pode causar sérias complicações e até mesmo levar o animal a óbito, o diagnóstico da lipidose hepática em gatos e a intervenção terapêutica devem ser realizados em tempo hábil para aumentar as chances de sucesso no tratamento.

A base do tratamento da lipidose hepática felina é o suporte nutricional e o controle da náusea. A intervenção nutricional é ponto-chave para restabelecer o metabolismo de nutrientes e será abordada com mais detalhes a seguir.

O manejo terapêutico inicial também deve incluir a correção de desequilíbrios hidroeletrolíticos para evitar complicações.

Vale ressaltar que a resolução da lipidose hepática felina associada com comorbidades como pancreatite e infecções depende do sucesso no tratamento do distúrbio concomitante.

A importância da abordagem nutricional adequada

A abordagem nutricional é a base da terapia do paciente com lipidose hepática felina e tem como objetivo fornecer uma nutrição eficaz ao animal convalescente (WEBB, 2018). Para isso, um meio de alimentação enteral pode ser necessário.

Se o gato não pode ser anestesiado com segurança para a colocação de uma sonda esofágica, um tubo nasoesofágico deve ser colocado, e uma fórmula enteral adequada deve ser administrada até que o gato esteja estabilizado para a colocação de uma sonda mais duradoura, que deve permanecer até que o paciente restabeleça a alimentação espontânea.

Vale ressaltar que a alimentação forçada com seringas está em desuso e é contraindicada, pois pode causar aversão alimentar e gerar mais estresse para o gato.

Alimento RECOVERY, da Royal Canin®, pode fazer parte do manejo alimentar do animal

Como acabamos de mencionar, animais convalescentes já acometidos pela lipidose hepática felina necessitam do restabelecimento do aporte nutricional adequado. Nesses casos, o alimento RECOVERY® pode ser recomendado.

Sua formulação exclusiva contém alta densidade de energia, permitindo atender os requerimentos energéticos enquanto ajuda a reduzir a quantidade de alimento oferecido ao paciente crítico. O alto nível de proteína ajuda a manter a massa muscular, e sua textura permite uma fácil administração, possibilitando o uso através de sondas.

Embalagem do alimento Recovery da Royal Canin

Como prevenir a Lipidose Hepática Felina

Uma vez que a lipidose hepática felina pode se desenvolver secundariamente a doenças crônicas, é importante adotar o monitoramento médico-veterinário de gatos que apresentam condições prévias que favoreçam o desenvolvimento desta afecção, intervindo sempre que necessário para que a lipidose hepática felina não se instale.

Adotar uma dieta completa e balanceada que atenda às necessidades nutricionais específicas dos felinos é de extrema importância para a manutenção do metabolismo saudável destes animais.

Os tutores devem ser instruídos a observar o apetite de seu animal em casa, certificando-se que a quantidade necessária seja ingerida de acordo com porte, idade e estilo de vida do pet.

Por outro lado, excessos também devem ser evitados, já que a obesidade é um dos fatores de risco de desenvolvimento da lipidose hepática felina, além de ser uma condição inflamatória crônica que predispõe ao surgimento de outras complicações deletérias à saúde dos animais.

Com mais de 50 anos de tradição, a Royal Canin é referência em nutrição animal

Com mais de 50 anos de tradição, a Royal Canin® é referência global em nutrição animal, oferecendo soluções alimentares cientificamente formuladas para atender às necessidades específicas de gatos e cães em todas as fases da vida.

A nutrição adequada desempenha um papel essencial na manutenção da saúde dos pets, prevenindo doenças e contribuindo para a longevidade. Além disso, dietas formuladas com níveis controlados de gorduras, proteínas de alta digestibilidade e um aporte adequado de nutrientes ajudam a manter o peso ideal, evitando o sobrepeso e a obesidade, um dos principais fatores predisponentes à lipidose hepática felina. E no caso de animais acometidos, o alimento RECOVERY® pode trazer benefícios.

Vale lembrar que a Royal Canin® oferece ao médico-veterinário uma linha de alimentos específicos para diferentes necessidades nutricionais. São alimentos completos e balanceados para atender as demandas nutricionais de gatos e cães em diferentes fases e estilos de vida.*

Conheça melhor o nosso portfólio e as nossas linhas de alimentos coadjuvantes e para animais saudáveis. Utilize a nossa ferramenta de Recomendação Nutricional para facilitar a escolha do melhor produto e da quantidade ideal de alimento para cada paciente.

* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade. 

Referências:

BROWN, B.; MAULDIN, G.E.; ARMSTRONG, J.; MOROFF, S.D.; MAULDIN, G.N. Metabolic and hormonal alterations in cats with hepatic lipidosis. J Vet Intern Med, v.14, i.1, 2000. Acesso em: 19 mar. 2025.

FASCETTI, A.J.; DELANEY, S.J. Applied Veterinary Clinical Nutrition. p.235-250. Wiley-Blackwell, 2012.

KUZI, S. et al. Prognostic markers in feline hepatic lipidosis: a retrospective study of 71 cats. Veterinary Record, v.181, n.19, 2017. Acesso em: 19 mar. 2025.

MARKS, S. Nutritional management of hepatobiliary diseases. In: FASCETTI, A.; DELANEY, S. Applied Veterinary Clinical Nutrition. Wiley-Blackwell, 2012.

MEYER, H.P.; TWEDT, D.C.; ROUDEBUSH, P.; DILL-MACKY, E. Hepatobiliary disease. In: Small Animal Clinical Nutrition, 2010.

NATIONAL RESEARCH COUNCIL OF THE NATIONAL ACADEMIES PRESS. Nutrient Requirements of Dogs and Cats. Washington D.C., 2006. Acesso em: 19 mar. 2025.

NELSON, R.W.; COUTO, C.G. Medicina interna de pequenos animais. Rio de Janeiro: Elsevier, 5 ed., 2015.

NIVY, R. Lipidosis hepática en el gato. Vetfocus, v.33.2, 2023. Acesso em: 19 mar. 2025.

TILLEY, L.P.; SMITH JR., F.W.K. Consulta Veterinária em 5 Minutos – Espécies canina e felina. São Paulo: Manole, 5 ed., 2014.

VALTOLINA, C.; FAVIER, R.P. Feline Hepatic Lipidosis. Veterinary Clinics Of North America: Small Animal Practice, v.47, n.3, 2017.

VIEIRA, E.S.; MELLO, O.A.; OLIVEIRA, M.B. Parâmetros ultrassonográficos e clínicos em caso de lipidose hepática felina: Relato de caso. Acesso em: 19 mar. 2025.

WALLACE, O.P. et al. Association of time to start of enteral nutrition and outcome in cats with hepatic lipidosis. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.38, n.6, 2024. Acesso em: 19 mar. 2025.

WEBB, C.B. Hepatic lipidosis: Clinical review drawn from collective effort. Journal of Feline Medicine and Surgery, v.20, i.3, 2018. Acesso em: 19 mar. 2025.

O conteúdo do Portal VET da Royal Canin® é destinado à profissionais de saúde veterinária.