Hipertireoidismo em gatos: do diagnóstico ao tratamento

Hipertireoidismo em gatos: do diagnóstico ao tratamento

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O hipertireoidismo em gatos – uma condição crônica e multifatorial que pode trazer diversas complicações para a vida do animal – está entre as principais endocrinopatias encontradas na clínica de felinos. Saiba mais detalhes sobre o hipertireoidismo em gatos 

A tireoide é uma glândula endócrina que produz hormônios que afetam o metabolismo e regulam as funções do corpo. A temperatura corporal normal, a frequência cardíaca, o peso, o comportamento, a função imunológica e a saúde dos órgãos dependem em grande parte dos níveis normais dos hormônios da tireoide.  

Nos animais, quando há alterações dos níveis dos hormônios (com níveis muito altos ou muito baixos), pode haver, também, alterações nas funções influenciadas pela tireoide, o que resulta no aparecimento de diversos sinais clínicos.  

O que é o hipertireoidismo?  

O hipertireoidismo é uma doença causada por uma glândula tireoide hiperativa, e essa hiperatividade causa uma desordem na glândula que secreta hormônio tireoidiano em excesso 

O primeiro registro dessa síndrome clínica ocorreu em 1979, mas estudos recentes apontam um crescimento contínuo na incidência do hipertireoidismo felino (AAPF, 2016).   

O que causa o hipertireoidismo nos gatos? 

O hipertireoidismo felino é o distúrbio endócrino mais comum em gatos de meia-idade e mais velhos, e ocorre em cerca de 10% dos pacientes felinos com mais de 10 anos de idade (AAFP, 2016, Miller et. al., 2019).  

Os gatos normalmente têm duas glândulas tireoides, uma de cada lado do pescoço. Uma ou ambas as glândulas podem ser afetadas (Figura 1). 

Hipertireoidismo em gatos
Figura 1. Esquema representando glândula tireoide saudável e glândula tireoide com atividade excessiva (PDSA, 2018)

No Brasil ainda há poucos estudos sobre a prevalência da doença. Um deles foi realizado em um hospital veterinário de São Paulo durante o período de 2013 a 2015 e identificou uma incidência de 3,3% da doença nos gatos com idade superior a 8 anos. 

Hipertireoidismo em gatos X hipertireoidismo em cães 

O hipertireoidismo em gatos ocorre devido a uma hiperplasia adenomatosa benigna, normalmente bilateral, da glândula tireoide. Quando as glândulas estão hiperplásicas, há produção em excesso dos hormônios tireoidianos.   

Já a alteração de tireoide mais comum nos cães é o hipotireoidismo: quando há deficiência de hormônio tireoidiano. O quadro de hipotiroidismo em cães ocorre, geralmente, em animais idosos. 

O quadro de hipertireoidismo em cães não é comum, mas pode ocorrer como resultado de um carcinoma de tireoide endocrinologicamente ativo.  

Animais predispostos à doença 

Felinos idosos possuem maior predisposição ao hipertireoidismo. Conforme citado anteriormente, este é um distúrbio endócrino comum em gatos idosos e afeta até 10% dos gatos com mais de 10 anos de idade – sendo que 95% dos felinos diagnosticados com hipertireoidismo têm mais de nove anos de idade.  

Apesar de a idade ser um dos principais fatores predisponentes, felinos com oito meses de idade já foram diagnosticados com a doença.  

Não há predisposição racial ou sexual para a condição, mas vale citar que o gato Siamês e do Himalaia têm menor risco de desenvolver hipertireoidismo (Miller et. al., 2019). 

Principais sinais clínicos de hipertireoidismo nos gatos 

Os hormônios tireoidianos regulam a produção de calor e o metabolismo de carboidratos, proteínas e lipídios. Com a secreção excessiva de hormônios tireoidianos, há um aumento geral na taxa metabólica e no metabolismo energético, com efeitos abrangentes em múltiplos sistemas orgânicos.  

Os sinais clínicos podem variar de leves a graves, dependendo da duração e magnitude do aumento da produção de hormônios tireoidianos. Assim, ao observar os seguintes comportamentos ou problemas no gato, o tutor deve entrar contato com um profissional veterinário para investigar a possibilidade de que o felino tenha hipertireoidismo: 

  • nódulo palpável na tireoide; 
  • perda de peso; 
  • perda de massa muscular; 
  • apetite normal ou aumentado; 
  • vômitos; 
  • poliuria ou polidipsia; 
  • hiperatividade; 
  • alterações cardíacas (taquicardia, taquipneia, hipertensão sistêmica, sopro cardíaco); 
  • diarreia;  
  • hiperatividade; 
  • agressividade/Irritabilidade ou tolerância reduzida ao manejo; 
  • mudança no aspecto de pele e pelagem (ocorre em até 30% dos animais), como queda excessiva, emaranhamento do cabelo e aumento da taxa de crescimento das unhas. 

Diagnosticando o hipertireoidismo felino 

O diagnóstico do hipertireoidismo em gatos pode ser um verdadeiro desafio para o médico-veterinário, uma vez que os primeiros sinais clínicos são sutis e podem ser descartados em função da semelhança com os sinais clínicos associados ao envelhecimento normal do animal. 

Por isso, é importante lembrar que levar o felino para consultas semestrais, quando idoso, possibilita a detecção precoce do hipertireoidismo e outras doenças relacionadas à idade.   

Como o hipertireoidismo felino pode ocorrer de forma concomitante, é interessante a realização de uma rotina de exames laboratoriais e da pressão arterial, pois eles podem detectar anormalidades antes que os sinais clínicos apareçam. Por exemplo, os exames de sangue podem revelar a elevação dos hormônios da tireoide para estabelecer um diagnóstico de hipertireoidismo.  

Algumas enfermidades podem dificultar o diagnóstico da doença ao manter os níveis de T4 dentro dos valores de referência esperados. Portanto, é sempre importante avaliar o animal de forma geral, visando levantar possibilidades diagnósticas mais assertivas. 

Ocasionalmente, diagnósticos adicionais podem ser necessários para confirmar a condição. Como o hipertireoidismo pode ocorrer junto com outras condições médicas e afetar outros órgãos, é imperativo um exame abrangente do coração, dos rins e de outros sistemas orgânicos do gato. 

Diante da suspeita da doença, o médico-veterinário deve solicitar exames complementares, sendo os principais:

  • hemograma: animais acometidos podem ter a presença de corpúsculos de Heinz, aumento no número de eritrócitos (podendo estar diretamente relacionado à tireotoxicose, visto que os hormônios tireoidianos estimulam a secreção de eritropoietina), elevação leve do hematócrito e macrocitose; 
  • análises bioquímicas: pode haver aumento de enzimas como ALT, FA, AST, CK, além de aumento de triglicerídeos e das concentrações séricas de ureia. No entanto, a frutosamina sérica é significativamente mais baixa nos gatos com hipertireoidismo; 
  • urinálise: pode haver alterações como a redução da densidade urinária, proteinúria, indicativos de infecção urinária e cetonúria. 

Avaliação hormonal: T4 livre ou T4 total? 

Além dos exames citados, saber a dosagem do hormônio tireoidiano também é essencial para um diagnóstico definitivo. 

A mensuração de T4 total é o exame mais utilizado para confirmar o diagnóstico de hipertireoidismo em felinos. Isso porque este exame é extremamente específico para o diagnóstico da condição e, quando os valores estão elevados, podem confirmar a condição.  

Porém, vale citar que em 10% dos felinos com hipertireoidismo – e até 40% dos animais com quadro de hipotireoidismo leve – podem apresentar valores de T4 total dentro do intervalo de referência. 

A mensuração do T4 livre, portanto, serve como uma ferramenta auxiliar para diagnosticar felinos com suspeita de hipertireoidismo que apresentam níveis de T4 total dentro da normalidade – já que níveis elevados de T4 livre não confirmam, necessariamente, o diagnóstico.  

Vale, aqui, citar que em 6% a 12% dos casos de hipertireoidismo em gatos pode haver falso positivo devido à alta sensibilidade do teste (Bruyette, 2020).  

Assim, o médico-veterinário deve lembrar que a análise do T4 livre deve ser feita em conjunto com o T4 total, pois o diagnóstico de hipertiroidismo é confirmado quando há elevação leve dos níveis de T4 total em associação com níveis altos de T4 livre.  

Quando o animal apresenta níveis de T4 total baixo associado a níveis altos de T4 livre, no entanto, o médico-veterinário deve considerar doenças não-tireoidianas. 

A importância do diagnóstico diferencial 

A realização de diagnóstico diferencial com outras doenças deve ser realizada devido a inespecificidade dos sinais clínicos em animais idosos. Entre as condições que podem servir para essa diferenciação, podemos citar: 

Como tratar o hipertireoidismo felino 

O tratamento do hipertireoidismo em gatos pode ser dividido em manejo não curativo e curativo.  

O manejo não-curativo visa o controle da doença através de uso de medicamentos ou dieta, e é o método mais utilizado atualmente, por ser um tratamento conservador e com resultados satisfatórios. 

  • Medicamentos antitireoidianos: utilizados com o objetivo de inibir a produção de hormônios tireoidianos. Metimazol é o fármaco de escolha, devido ao menor potencial para o surgimento de efeitos colaterais, mas também pode ser usado o carbimazol.  
  • Dieta com restrição de iodo: embora o mercado pet esteja em ascensão mundial, atualmente o acesso a alimentos com restrição de iodo é extremamente restrito no mercado brasileiro, o que faz com que esse tipo de terapia não seja realizado com frequência no país. 

Já o tratamento curativo é realizado por meio de cirurgias e/ou terapias radioativas, incluindo as seguintes abordagens:

  • tireoidectomia: é a técnica cirúrgica para remoção de parte ou de toda a glândula tireoide. 
  • iodo radioativo: consiste na administração de baixa dosagem de iodo radioativo para que o tecido da tireoide superativo o absorva, destruindo o tecido afetado e preservando a parte fisiologicamente normal, que continuará em pleno funcionamento.

Manejo alimentar do gato com hipertireoidismo 

Apesar da existência de alimentos coadjuvantes para o paciente hipertireoideo, no Brasil, o acesso a dietas especificas para animais com hipertireoidismo é restrito. Porém, o fornecimento de alimentos de qualidade pode contribuir para manter a saúde geral do animal. 

A Royal Canin® possui, no seu portfólio, uma linha completa de produtos para gatos saudáveis. São alimentos que auxiliam no funcionamento adequado de importantes órgãos, como rins e fígado, que são essenciais para que o indivíduo consiga metabolizar e excretar fármacos – ajudando para que respondam melhor aos tratamentos preconizados, não somente para o hipertireoidismo, mas também para diversas outras patologias. 

Além dos alimentos, a Royal Canin também disponibiliza a ferramenta Calculadora para Prescrições para auxiliar na recomendação do alimento ideal para os seus pacientes. 

Referências bibliográficas 

American Association of Feline Practitioners. Guidelines for the Management of Feline Hyperthyroidism, 2016. Acesso em: 13/01/2024.  

Barbieri, C. R. Avaliação de fatores de risco para o desenvolvimento de hipertireoidismo felino: o possível papel dos disruptores endócrinos. 2018, p. 11-55. Dissertação – Bacharel em Medicina Veterinária – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018. Acesso em: 13/01/2024 

Bruyette, D. Feline Hyperthyroidism. In Clinical Small Animal Internal Medicine. 2020. Acesso em 15/01/24 

Cunha, M. G. M. C. M., Pippi, N. L., Gomes, K., Beckmann, D. V. Hipertireoidismo felino – Revisão Bibliográfica. Ciência Rural, Santa Maria, v.38, n.5, p.1486-1494, 2008. Acesso em: 13/01/2024. 

IDEXX Laboratories. What every clinician should know about feline thyroid disease. 2022. Acesso em: 13/01/2024. 

Miller, M., Randolph, J., F., Peterson, M. E., Hyperthyroidism: clinical signs and physical examination findings. In: Feline Endocrinology, 2019. Acesso em: 13/01/2024. 

Littler, R. Investigation and management of hyperthyroidism in dogs and cats. Vet Times, 2009. Acesso m: 14/01/2024. 

PDSA. Hyperthyroidism in cats. 2018. Acesso em: 14/04/2024.