Insuficiência cardíaca em cães e gatos: quais os principais sinais de alerta

Insuficiência cardíaca em cães e gatos: quais os principais sinais de alerta

A insuficiência cardíaca é um grave problema de saúde que acomete gatos e cães de todas as idades, principalmente os animais idosos e predispostos. Entretanto, o diagnóstico precoce e o tratamento adequado podem fazer toda a diferença para que o animal tenha mais longevidade e excelente qualidade de vida

O sistema cardiovascular pode ser compreendido como uma bolsa semidistensível mantida pelo coração, que é uma bomba com funções essenciais. Entre as mais importantes estão manter o débito cardíaco adequado, a pressão arterial, o fluxo sanguíneo tecidual e outras que são indispensáveis para o bom funcionamento do organismo.

A insuficiência cardíaca é uma síndrome que acomete gatos e cães. Ela pressupõe a existência de uma doença cardíaca subjacente que pode ser causada por insuficiência do miocárdio, regurgitação valvar e disfunção diastólica (MOTA, 2009).

Os problemas cardíacos que acometem os pets estão entre as principais patologias da rotina clínica, sendo motivo de muita preocupação para os tutores e também para o Médico-Veterinário devido a sua gravidade. A insuficiência cardíaca causa diminuição do débito cardíaco e da pressão sanguínea, podendo resultar em congestão (ICC) ou edema, além de outros problemas. Como consequência, pode reduzir a expectativa de vida do pet, caso não haja manejos e tratamentos adequados (PETRUS, 2020).

É fundamental que uma criteriosa anamnese seja feita durante a consulta veterinária, bem como exames físicos que avaliem possíveis alterações na ausculta cardíaca, com o intuito de identificar precocemente padrões de ritmo e sons anormais.

O Médico-Veterinário também pode solicitar exames complementares, como eletrocardiograma e ecodopplercardiograma ou outros, para confirmar o diagnóstico e também estabelecer um tratamento terapêutico e recomendações de manejo adequados para cada caso.

Veremos a seguir mais detalhes sobre a insuficiência cardíaca em cães e gatos.

Insuficiência cardíaca em cães e gatos

O coração faz parte do sistema cardiovascular, sendo um órgão vital tanto para o organismo do ser humano, como para o dos animais. O coração de cães e gatos é tetracavitário, sendo uma estrutura formada por quatro câmaras: dois átrios e dois ventrículos (PANTOJA et. al, 2018).

Além do bombeamento do sangue, possui outras importantes funções, como o transporte, através de vasos sanguíneos, de oxigênio e outros componentes essenciais para o funcionamento de todos os órgãos. Sendo também responsável pela manutenção da pressão arterial e do débito cardíaco (PANTOJA et. al, 2018).

Cerca de 11% das enfermidades diagnosticadas em gatos e cães são cardiopatias que podem causar a insuficiência cardíaca nos animais (PETRUS, 2020). A IC, como é conhecida na linguagem clínica, é considerada uma síndrome mecânica e neuroendócrina, na qual a função de bombeamento cardíaco é afetada, podendo ser congênita ou adquirida e geralmente é crônica (PANTOJA et. al, 2018).

Pode ser gerada por diferentes doenças que possam desencadear desordens estruturais ou funcionais no miocárdio, como hipertrofia, fibrose, relaxamento incompleto de unidades contráteis e rigidez miocárdica (PANTOJA et. al, 2018).

A IC causa diversos prejuízos na capacidade do enchimento ventricular e da ejeção sanguínea, além da estase do sangue nos pulmões e também no sistema venoso, bem como a intolerância do animal ao esforço, à fadiga, entre outros (PANTOJA et. al, 2018).

Com o passar do tempo, a insuficiência cardíaca pode ser agravada em decorrência dos problemas cardiovasculares pré-existentes, como por exemplo a disfunção sistólica ou diastólica, a sobrecarga de volume e as arritmias. Então, pode evoluir para um quadro de insuficiência cardíaca congestiva, que é formada por uma alteração do fluxo sanguíneo em virtude dos mecanismos compensatórios gerados na IC, acarretando na congestão do sistema cardiovascular (PETRUS, 2020).

Principais cardiopatias em cães

Em um estudo retrospectivo envolvendo 10.805 cães com alterações cardiovasculares atendidos em uma clínica veterinária entre os anos de 2007 e 2012 foi constatado que 100% dos indivíduos apresentavam sinais compatíveis com insuficiência cardíaca. Entre eles, 67,7% enquadravam-se no grupo de animais com idade mais avançada, representando maior acometimento na fase senil (BORGES et. al, 2016).

Dentre as principais cardiopatias que acometem os cães, as mais comuns são: endocardiose valvar e cardiomiopatia dilatada (PETRUS, 2020).

A cardiomiopatia dilatada é uma afecção de causa idiopática e que afeta principalmente os cães de raças grandes e gigantes. As fibras miocárdicas perdem a força de contração e levam a dilatação generalizada das câmaras cardíacas (PETRUS, 2020). Enquanto a endocardiose acomete mais animais idosos e de raças pequenas.

Em ambos os casos, essas doenças cardíacas podem se agravar, evoluindo para um quadro de insuficiência cardíaca congestiva, podendo levar o animal a problemas mais graves de saúde e também ao óbito.

No caso dos cães, as queixas mais comuns relatadas pelo tutor na anamnese são a tosse e a dispneia ou a intolerância ao exercício. Outros sinais clínicos podem ser observados, como cansaço, fraqueza, emagrecimento, abaulamento abdominal (causado por ascite) e hiporexia. O indivíduo também pode apresentar cianose, síncope e outros.

Principais cardiopatias em gatos

A cardiopatia mais comum que pode acometer gatos e causar insuficiência cardíaca é a cardiomiopatia hipertrófica. Essa doença é hereditária em algumas famílias de gatos e pode ser transmitida de forma autossômica dominante (PETRUS, 2020).

O gato com insuficiência cardíaca pode apresentar cansaço, dispneia, perda de peso, abaulamento abdominal, fraqueza, cianose, síncope, bem como outros sinais clínicos, exceto tosse (MOTA, 2009). Nos felinos, a tosse geralmente está ligada a problemas respiratórios, sem ter nenhuma relação com as doenças cardíacas, como ocorre com os cães.

Em alguns casos, o agravamento do quadro também pode levar à insuficiência cardíaca congestiva ou ao tromboembolismo aórtico, sendo ambos quadros emergenciais e que, constantemente, levam o animal a óbito. No caso de suspeita por tromboembolismo aórtico, deve-se realizar diagnóstico diferencial com problemas ortopédicos. Pela falta de perfusão ocasionada com a presença do trombo na bifurcação da aorta, os membros estarão com temperatura fria e sem pulso, podendo apresentar também cianose.

Fatores envolvidos no aparecimento de cardiopatias em cães e gatos

Diferente do que ocorre em seres humanos, o aparecimento das doenças cardíacas em gatos e cães tem como principais causas fatores genéticos e raciais. Tanto que nos seres humanos é muito comum o infarto do miocárdio, que geralmente está relacionado a formação de ateromas, causando a manifestação aguda. Já nos animais, os problemas cardiovasculares geralmente são degenerativos. Quadros de infarto do miocárdio podem ocorrer, porém são menos comuns nos animais de companhia, ocorrendo com maior frequência em espécies de animais selvagens, estando relacionados a quadros de miopatia de captura.

A obesidade, a idade e a presença de outras doenças sistêmicas são outros fatores predisponentes para o aparecimento e o agravamento das doenças cardíacas nos cães e gatos (PETRUS, 2020).

Raças de cães mais acometidas por doenças cardíacas

Animais de todas as raças podem ter cardiopatias. Entretanto, estudos mostram que algumas raças de cães são mais predispostas à problemas cardíacos gerais do que outras em função dos fatores genéticos, dentre elas:

  • Boxer
  • Bulldog Inglês
  • Cocker Spaniel
  • Schnauzer miniatura
  • Pastor Alemão
  • Samoieda
  • Golden Retriever
  • West Highland White Terrier
  • Labrador Retriever
  • Poodle
  • Yorkshire Terrier
  • Rottweiller

Sabe-se que endocardiose valvar acomete principalmente os cães idosos e de raças pequenas como Poodle, Dachshund, Shih-tzu, Schnauzer miniatura, Cavalier King Charles Spaniel, Cocker Spaniel e outras, atingindo geralmente as valvas atrioventriculares – tendo em 75% dos casos acometimento na mitral/lado esquerdo (PETRUS, 2020).

Quando falamos em cardiomiopatia dilatada, é importante lembrar que ocorre mais frequentemente nos cães das raças grandes ou gigantes como Boxer, Labrador, Dogue Alemão e Dobermann (PETRUS, 2020).

A estenose subaórtica e a persistência do ducto arterioso são outras cardiopatias que podem atingir os cães.

Raças de gatos mais acometidas por doenças cardíacas

Dentre as raças de gatos que podem ter mais predisposição genética a cardiomiopatia hipertrófica, estão:

  • Maine Coon
  • Ragdoll
  • British Shorthair
  • Persa
  • Bengal
  • Sphynx
  • Norwegian Forest
  • Birman

Entretanto, a doença pode acometer os felinos de outras raças ou sem raça definida que também tenham predisposição genética.

Insuficiência cardíaca x insuficiência cardíaca congestiva

Para um diagnóstico correto e precoce, é primordial que o Médico-Veterinário faça a diferenciação das diversas doenças cardíacas que podem causar a insuficiência cardíaca e, até mesmo identificar a ocorrência da ICC.

Na insuficiência cardíaca ocorre a incapacidade do bombeamento adequado de sangue pelo coração, diminuindo o débito cardíaco. Com isso, o organismo passa a gerar mecanismos compensatórios de curto ou longo prazo, para que seja recuperado o débito cardíaco. Ou seja, o coração perde a função de bombeamento adequado, mas de forma equilibrada.

Já a insuficiência cardíaca congestiva ocorre quando há uma evolução da insuficiência cardíaca, causando congestão, com consequente aumento das pressões vasculares. Geralmente, acomete o lado esquerdo (ICCE) e como sinal clínico adicional, nesse caso, ocorrerá a dispneia intratorácica (expiratória). Nos casos de acometimento do lado direito (ICCD), a consequência será efusão pleural e/ou ascite. Quando houver ascite, poderá apresentar também edema periférico.

Diagnóstico de insuficiência cardíaca e ICC

A confirmação da suspeita diagnóstica baseia-se na anamnese detalhada com a identificação dos sinais clínicos e nos exames físicos minuciosos, incluindo a ausculta com o intuito de identificar alterações no ritmo e sons cardíacos.

Os exames clínicos, como o eletrocardiograma e o ecodopplercardiograma, são imprescindíveis no diagnóstico das cardiopatias e quadros de insuficiência cardíaca ou ICC. Eles oferecem informações essenciais, como o tamanho do coração do animal e o grau de regurgitação e de disfunção de contratilidade, permitindo um diagnóstico mais assertivo. Entretanto, outros exames complementares, como radiografia de tórax e ecocardiografia, também podem ser solicitados pelo Médico-Veterinário, de acordo com cada caso.

Animais em quadros emergenciais devem ser avaliados quanto a real possibilidade da realização de exames imediatos. Em muitos casos, é recomendado que estabilize o animal com o uso de fármacos e protocolos clínicos antes da realização dos exames complementares, pois o estresse gerado durante o procedimento pode levar o animal à óbito.

Tratamento de insuficiência cardíaca e da ICC

O tratamento deve ser prescrito pelo Médico-Veterinário de forma individual, baseando-se nas necessidades de cada paciente e também no grau da doença.

Geralmente, não há cura para as cardiopatias adquiridas e o tratamento visa reduzir a formação de edema (ICC), efusão e sobrecarga cardíaca, além de aumentar o débito cardíaco, bem como prolongar e melhorar a qualidade de vida do paciente.

O uso de alguns fármacos pode ser indicado de acordo com cada caso, podendo envolver Inotrópicos positivos, diuréticos, inibidores da ECA (IECAS) e outros, conforme recomendação do profissional.

O uso de inibidores da ECA tem entre suas características o benefício da utilização a longo prazo, auxiliando na melhora da tosse em cães, tolerância a exercícios e redução do esforço respiratório.

Nos casos de ascite e/ou efusão pleural, alguns procedimentos clínicos podem ser necessários, como a paracentese para quadros de ascite, visando drenar o líquido livre na cavidade abdominal. Esse procedimento exige o esvaziamento total da bexiga do animal antes da paracentese e, geralmente, é feito guiado por ultrassom.

Em alguns casos, os procedimentos cirúrgicos são indicados, como na persistência do ducto arterioso (ou PDA). Como é uma anomalia anatômica geralmente descoberta durante a fase inicial da vida do pet, a correção cirúrgica tem como objetivo corrigir o fluxo sanguíneo e é suficiente para a cura total do animal.

No tratamento das doenças cardíacas, algumas alterações no manejo do animal podem ser recomendadas pelo Médico-Veterinário, como alterações no tipo de alimento e outros tipos de cuidados essenciais.

Qualidade de vida para cães e gatos com doenças cardíacas

Além do uso de medicamentos, o tratamento de cães com quadros de doenças cardíacas pode incluir também o uso de uma dieta específica. Embora a restrição de sódio seja a adequação nutricional mais conhecida, a deficiência ou o excesso de certos nutrientes podem contribuir para o desenvolvimento de doenças cardíacas, além da obesidade, caquexia ou outros problemas de saúde.

Mesmo sem a possibilidade de cura para a insuficiência cardíaca, pesquisas científicas recentes mostram que fatores dietéticos podem ser capazes de modular ou retardar a progressão das doenças cardiovasculares degenerativas, aumentando a longevidade e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos animais.

Entretanto, o Médico-Veterinário precisa avaliar o quadro de saúde do pet conforme o estágio da doença e considerar também as particularidades de cada paciente para a prescrição da alteração nutricional, se for necessária.

Objetivos do uso dos alimentos específicos para pets com insuficiência cardíaca

Alimentos com formulação adequada para gatos e cães com insuficiência cardíaca são essenciais para o tratamento em determinados casos, visando:

  • evitar a perda de peso progressiva;
  • manter adequada ingestão de alimentos;
  • contribuir para uma melhor qualidade de vida;
  • prevenir o fornecimento excessivo de sódio e cloro;
  • fornecer adequadamente nutrientes que contribuem com a melhora da função cardíaca, como: proteínas; taurina; arginina; ácidos graxos ômega 3; l-carnitina e vitaminas do Complexo B.

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Referências bibliográficas

PANTOJA, Jéssica de Carvalho et al. Alimentação de cães e gatos cardiopatas. PUBVET. v.12, n.11, p.1-8, 2018. Disponível em: http://www.pubvet.com.br/artigo/5277/alimentaccedilatildeo-de-catildees-e-gatos-cardiopatas. Acesso em: 27 mai. 2022.

PETRUS, Lilian Caram. Abordagem prática do tratamento da insuficiência cardíaca congestiva em cães. Vetsmart, São Paulo, 2020. Disponível em: https://www.vetsmart.com.br/cg/estudo/13925/abordagem-pratica-do-tratamento-da-insuficiencia-cardiaca-congestiva-em-caes-dra-lilian-caram-petrus#:~:text=A%20terapia%20diur%C3%A9tica%20deve%20ser,e%20bem%20tolerado%20por%20c%C3%A3es. Acesso em: 27 mai. 2022.

MOTA, Rui Pedro Lima dos Santos. Abordagem à síndrome de insuficiência cardíaca no cão e no gato. 2009, p. 1-56. Dissertação (UTAD) – Bacharel em Medicina Veterinária – Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, Portugal, 2009. Disponível em: https://hospvetmontenegro.com/sv/dw/teses/tese_2.pdf. Acesso em: 27 mai. 2022.

BORGES, Olívia M.M. et al. Estudo clínico e de fatores de risco associados às alterações cardiovasculares em cães. Pesquisa Veterinária Brasileira, v.36, n.11, p.1095-1100, 2016. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pvb/a/HkvRx64c3Jf4Drc4V75Cqsg/?lang=pt. Acesso em: 28 mai. 2022.