Endocardiose em cães: principais aspectos das doenças valvares crônicas

Endocardiose em cães: principais aspectos das doenças valvares crônicas

A endocardiose mitral é a alteração cardíaca mais comum na clínica veterinária. Entenda seu estadiamento e o papel de uma dieta específica no manejo de cães com este diagnóstico

As doenças cardíacas aparecem no topo da casuística de diagnósticos mais comuns em cães nos Estados Unidos e na Europa. Estima-se que aproximadamente 10% dos animais da espécie atendidos na prática clínica apresentam doença cardíaca1, 2.

Já vale ressaltar aqui que as doenças que acometem o coração podem ser de origem congênita ou adquirida. A forma mais frequente dentre as alterações cardíacas adquiridas é a doença valvar crônica, que pode ser secundária a várias alterações nas diferentes válvulas relacionadas ao coração1, 2.

Considerando as doenças valvares, as mais comuns são: insuficiência crônica de mitral, insuficiência tricúspide, estenose de mitral, insuficiência aórtica, insuficiência pulmonar e endocardite bacteriana. Dentre elas, a endocardiose de mitral é responsável pela grande maioria dos casos clínicos, contabilizando aproximadamente 75% dos casos de cães cardiopatas norte americanos1, 2.

Diante desses dados, fica clara a relevância da endocardiose em cães na clínica veterinária. Veremos mais detalhes a seguir sobre esta importante afecção.

O que é a endocardiose e quem são os animais predispostos

A endocardiose de mitral (também referida como doença mixomatosa de mitral, doença valvar mitral e degeneração de mitral) teve sua patogenia recentemente revisada, e hoje sabe-se que ela afeta comumente a valva atrioventricular esquerda (mitral). Porém, em aproximadamente 30% dos casos pode haver comprometimento da valva tricúspide ou atrioventricular direita2.

Veja quais são os cães mais acometidos pela doença1, 2:

  • machos (risco aumentado em 1,5x)
  • cães pequenos (com menos de 20 kg)
  • meia idade a idosos, quando a progressão costuma ser lenta, mas pode ser imprevisível

Além disso, podemos citar como raças predispostas: Cavalier King Charles Spaniel, Dachshund, Poodles Toy e miniatura, Chihuahuas e ass raças Terrier. A doença também pode acometer raças maiores e, nesses casos, a progressão geralmente é mais rápida.

Já os cães de porte grande cardiopatadas apresentam, com muito mais frequência, a cardiomiopatia dilatada, e não a endocardiose.

Para completar, essa afecção não é observada em gatos.

Insuficiência valvar mitral

Ao estudar o comportamento da insuficiência valvar mitral em algumas raças, percebeu-se que há um componente genético importante para o surgimento da endocardiose mitral, responsável pelo desencadeamento da remodelação da válvula. A doença é caracterizada por alterações no colágeno do aparato valvar, que inclui os folhetos valvares e as cordas tendíneas2, 3.

A degeneração estrutural da válvula é caracterizada pelo seu engrossamento e pelo surgimento de nódulos. Assim, a coaptação (fechamento) da válvula fica prejudicada e, ao invés de todo o sangue ser conduzido à artéria aorta, a porção que foi regurgitada volta ao átrio esquerdo (regurgitação sanguínea progressiva). Quanto maior a regurgitação, maiores serão as consequências hemodinâmicas da insuficiência mitral3.

Por sua vez, essa regurgitação crônica leva ao remodelamento cardíaco, gerando a disfunção ventricular e a insuficiência cardíaca congestiva2.

A seguir, veremos quais são os principais sinais clínicos desta alteração e quais exames solicitar para o seu diagnóstico.

Sinais clínicos e diagnóstico

O primeiro sinal clínico observado durante a consulta é a ausculta de sopro cardíaco que, muitas vezes, é um achado de exame físico em um animal assintomático, demonstrando que a doença valvar ainda está em sua fase inicial. A queixa de tosse já indica que a doença está numa fase um pouco mais avançada, pois ocorre secundariamente ao remodelamento cardíaco pelo aumento do átrio esquerdo, acarretando na compressão dos brônquios3. O animal também pode apresentar intolerância ao exercício e cansaço fácil.

Sinais mais graves, como dispneia intensa, tosse baixa, ansiedade, respiração com a boca aberta (para melhorar a oxigenação) e cianose, já indicam quadros mais complicados, de insuficiência cardíaca congestiva esquerda, possivelmente com a instalação de edema pulmonar. Tais animais devem receber atendimento de emergência para serem estabilizados rapidamente3. Somente após a estabilização do quadro, mais exames devem ser solicitados, pois há risco de morte iminente. Ao investigar o histórico clínico do paciente, pode haver relato de quadros de síncopes e de emagrecimento progressivo1.

Em quadros iniciais ou após a estabilização do paciente grave, deve-se solicitar o ecocardiograma com Doppler, que avalia a morfologia e a função cardíaca, além de mensurar a velocidade do sangue através das estruturas do coração3. Essa avaliação é importante para o correto estadiamento da endocardiose no momento do diagnóstico, conforme veremos a seguir, bem como para avaliar a progressão do quadro clínico. Radiografias torácicas são recomendadas para a avaliação traqueal e pulmonar e também para verificar causas de tosse não-cardíaca, além da mensuração da pressão arterial sistêmica2.

Estadiamento da endocardiose em cães

O estadiamento da doença cardíaca enfatiza fatores de risco e fatores estruturais que atuam como pré-requisitos para o desenvolvimento da insuficiência cardíaca congestiva e auxiliam o tratamento e o prognóstico do paciente. Neste caso, o estadiamento da endocardiose mitral é dividido em quatro estágios:

Estágio A: identifica cães com alto risco de desenvolvimento de doença cardíaca, mas que ainda não apresentam qualquer alteração estrutural no coração (por exemplo, cães da raça Cavalier King Charles Speniel ou outras raças predispostas sem sopro cardíaco).

Estágio B: cães com doença cardíaca estrutural (por exemplo, sopro cardíaco com alteração valvar), mas sem manifestações clínicas causadas por insuficiência cardíaca. Avaliações radiográficas e ecocardiográficas são realizadas para mensurar as estruturas cardíacas e determinar se há remodelamento significativo ou não. Esse estágio é subdividido em:

  • Estágio B1: cães assintomáticos e sem sinais de remodelamento cardíaco em exames de raios-X e ecocardiográfico ou com remodelamento discreto. Recomenda-se reavaliações periódicas a cada 6-12 meses.
  • Estágio B2: cães assintomáticos, mas que apresentam aumento importante de câmaras cardíacas.

Estágio C: pacientes com manifestações clínicas atuais ou prévias de insuficiência cardíaca congestiva causadas pela endocardiose mitral.

Estágio D: pacientes em estágio terminal de endocardiose mitral, insuficiência cardíaca refratária ao tratamento preconizado.

Tratamento e consequências da endocardiose nos cães

O tratamento medicamentoso em longo prazo do paciente com insuficiência cardíaca congestiva visa2:

  • melhorar a hemodinâmica;
  • desacelerar a evolução da doença;
  • aumentar a sobrevida;
  • diminuir os sinais de insuficiência cardíaca;
  • aumentar a tolerância ao exercício;
  • promover a manutenção do peso corporal;
  • melhorar a qualidade de vida.

Uma nova diretriz sobre o tratamento de cães com endocardiose mitral foi publicada em 2019. Nesse material é possível encontrar detalhes sobre qual manejo deve ser instituído conforme cada fase do paciente, além de detalhes sobre como estadiar o paciente corretamente.

Em linhas gerais, institui-se o uso de pimobendam a partir do estágio B2, bem como a utilização de dieta nutricionalmente balanceada para cães com insuficiência cardíaca congestiva. O uso de inibidores da ECA nesse estágio não é unânime. Além disso, demais medicamentos não são indicados2.

Conforme o avançar da doença e, consequentemente, da insuficiência cardíaca congestiva, é recomendado o uso de inibidores da ECA, de beta-bloqueadores e de diuréticos, além do pimobendam e de dieta específica balanceada. Outras medicações podem ser acrescentadas conforme o caso1, 2.

Como deve ser a nutrição do cão com doença valvar crônica

Animais que estejam no estágio B2 já se beneficiam de uma dieta especificamente formulada para pacientes com falência cardíaca. É importante ressaltar que tais dietas não são recomendadas para a alteração de endocardiose mitral especificamente, mas, sim, para atuar no quadro de insuficiência cardíaca congestiva decorrente da doença valvar. O uso de uma dieta específica para tais quadros visa promover a qualidade de vida do paciente e, em alguns casos, minimizar alguns dos efeitos clínicos da doença cardíaca1.

Oferecer uma dieta palatável é o primeiro passo para que a anorexia seja revertida. Alternar entre alimentos secos e úmidos, aquecer o alimento e oferecer pequenas porções várias vezes ao dia são ferramentas que podem estimular o consumo voluntário1. A manutenção de um bom escore corporal é fundamental para um melhor prognóstico do paciente. Cabe ressaltar que a caquexia é muito mais fácil de ser prevenida do que de ser tratada2.

Ainda, tais formulações devem apresentar restrição adequada de sódio, serem formuladas com proteínas de alta qualidade (fundamentais para prevenir a caquexia cardíaca) e suplementadas com antioxidantes. Cães com insuficiência cardíaca crônica podem apresentar baixos valores de EPA e DHA, portanto a suplementação com ácidos graxos ômega-3 é recomendada (o benefício destes ácidos graxos foi documentado em diversas alterações cardíacas em cães)1.

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Alimentos Cardiac nas versões seca e úmida

Referências bibliográficas

1. CASE, L. P. et al. Canine and Feline Nutrition. 3. ed. Maryland Heights: Mosby Elsevier, 2011. p. 511-516.

2. KEENE, B. W.; Atkins, C. E.; Bonagura, J. D. et al. ACVIM consensus guidelines for the diagnosis and treatment of myxomatous mitral valve disease in dogs. Journal of Veterinary Internal Medicine, v. 33, n. 3, 1127-1140, maio/jun. 2019.

3. TULESKI, G. L. R. O que é endocardiose? Disponível em: http://www.cardiovet.ufpr.br/endocardiose.html,. Publicado em 24 de jun de 2016. Acessado em 26 de mar de 2020.