Abordagem nutricional em animais cardiopatas: muito além do sódio

Abordagem nutricional em animais cardiopatas: muito além do sódio

A nutrição pode reduzir a quantidade de fármacos, diminuir ocorrência de complicações, melhorar a qualidade de vida e retardar a progressão da doença; saiba mais

Gatos e cães de todas as idades e portes podem sofrer de doenças cardíacas. No entanto, existem diferenças importantes entre as cardiopatias de humanos e as de animais de estimação, inclusive em relação à origem e ao tratamento.

Diferente do que ocorre em medicina humana, o surgimento das doenças cardíacas em gatos e cães tem como principais causas fatores genéticos e raciais. De forma geral, cães de porte pequeno e médio são mais predispostos a desenvolverem doenças valvares crônicas adquiridas (também chamadas de endocardiose ou doença mixomatosa da valva mitral), enquanto cães de porte grande e gatos são mais predispostos a desenvolverem doenças do miocárdio.

A obesidade, a idade e a presença de outras doenças sistêmicas são outros fatores predisponentes para o aparecimento ou agravamento das doenças cardíacas. Em ambos os casos, geralmente a doença evolui para insuficiência cardíaca congestiva (ICC).

As cardiopatias são classificadas em estágios adotados globalmente de acordo com as diretrizes internacionais estabelecidas pelo American College of Veterinary Internal Medicine (ACVIM).

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Manifestações clínicas

Uma vez que a doença cardíaca evolui para ICC, os sinais clínicos mais comuns em gatos e cães serão:

  • Tosse;
  • Cansaço;
  • Intolerância ao exercício;
  • Dificuldade para respirar;
  • Cianose;
  • Síncope;
  • Ascite;
  • Hiporexia;
  • Perda de peso;
  • Má condição de pelagem

Abordagem terapêutica

As cardiopatias podem ser administradas clinicamente com sucesso em grande parte dos casos, desde que instituído tratamento adequado. A eficácia de alguns medicamentos é bem estabelecida em pacientes veterinários, e a terapia farmacológica é realizada na maioria dos casos sintomáticos, geralmente com bloqueadores da enzima conversora de angiotensina e/ou bloqueadores dos receptores de angiotensina.

Os objetivos do tratamento são:

  • Controlar as manifestações clínicas;
  • Contribuir para evitar episódios de crise;
  • Retardar o progresso da doença;
  • Promover qualidade de vida;
  • Aumentar o tempo de sobrevida.

A nutrição como aliada em caso de cardiopatias

Além do uso de fármacos, a nutrição também é um componente da terapia clínica. Pesquisas científicas mostram que fatores dietéticos podem ser capazes de modular ou retardar a progressão da doença cardíaca, minimizando o número de medicamentos necessários e contribuindo para a melhoria da qualidade de vida dos animais.

No passado, o objetivo da terapia nutricional era focada exclusivamente na restrição de sódio. Isso era devido ao número limitado de fármacos disponíveis para tratamento, e nesta condição, a restrição de sódio era benéfica na redução de acúmulo de fluidos em animais com ICC. Atualmente, com medicações mais eficazes, a restrição severa de sódio não é mais recomendada em todos os estágio da doença cardíaca, mesmo porque tal medida ativaria os mecanismos compensatórios clássicos como o sistema renina-angiotensina-aldosterona (SRAA), que quando estimulado de forma persistente, causando efeitos indesejados e deletérios à saúde do animal.

Abordagem integral por meio de alimento específico

Por meio da utilização de nutrientes-chave, a intervenção dietética procura fornecer quantidades ótimas de energia, minimizar o estresse oxidativo, reduzir a inflamação, manter o equilíbrio eletrolítico e melhorar a performance cardíaca. A nutrição pode reduzir a quantidade de fármacos que são utilizados para controle das consequências das cardiopatias, diminuir ocorrência de complicações, melhorar a qualidade de vida e retardar a progressão da doença.

Os pontos-chave na terapia coadjuvante com dieta específica para cardiopatas são:

Manutenção do peso corporal ideal: pacientes cardiopatas geralmente apresentam perda de peso denominada “caquexia cardíaca”. Este é um processo multifatorial causado pelos efeitos adversos da anorexia, do aumento das necessidades energéticas e de alterações metabólicas como a elevação de citocinas inflamatórias (ex: fator de necrose tumoral, interleucina-1) correlacionados com a severidade da doença. Por este motivo, a dieta deve fornecer nível ótimo de calorias para auxiliar na manutenção do peso e evitar este processo catabólico.

Manutenção da massa magra: restrição proteica não deve ser recomendada. Assim, a dieta deve fornecer quantidades adequadas de proteínas de alta digestibilidade para preservar a massa muscular. Além disso, as proteínas fornecem os aminoácidos essenciais para gatos e cães. A taurina é um aminoácido essencial na dieta do gato, e sua deficiência é associada ao surgimento de cardiopatias na espécie. Embora não essencial para o cão, a taurina é bastante conhecida pelo seu poder antioxidante no organismo, pois provou apresentar efeitos inotrópicos positivos em animais com insuficiência cardíaca experimentalmente induzida, o que sugere que sua suplementação pode ser benéfica em pacientes cardiopatas. O tutor sempre deve ser questionado sobre qual dieta fornece ao animal, e o médico-veterinário deve analisar com cautela pacientes que recebem dietas não-convencionais, uma vez que estas podem apresentem maior possibilidade de estarem desbalanceadas.

Estimular apetite por meio da alta palatabilidade: fornecer alimento de alta palatabilidade é fundamental para pacientes cardiopatas que apresentam anorexia ou hiporexia. Oferecer pequenas refeições ao dia, utilizar a versão úmida e aquecer o alimento são estratégias que podem contribuir para a ingestão voluntária da quantidade adequada.

Baixo teor de sódio: estudos conduzidos na década de 1960 (época em que o número de fármacos disponíveis era limitado), demonstraram que dietas com baixo teor de sódio resultaram na redução da ICC em cães. No entanto, as opções farmacológicas disponíveis atualmente permitem que seja reduzida a restrição severa deste nutriente essencial na dieta de gatos e cães. Atualmente, teores moderados são recomendados na dieta (<100 mg/100 kcal), pois a restrição severa em estágio iniciais pode ativar mecanismos compensatórios deletérios ao organismo dos animais, como o sistema renina-angiotensina-aldosterona.

Carnitina: a carnitina é uma amina quaternária composta por dois aminoácidos essenciais, a lisina e a metionina e está presente em altas concentrações nos músculos esquelético e cardíaco. A L-carnitina (forma biologicamente ativa) funciona como um veículo de transporte de ácidos graxos do exterior para dentro da mitocôndria. Em determinadas raças (Boxers, Doberman Pinschers e Cocker Spaniels Americanos) foram relatadas deficiências miocárdicas deste nutriente, mas na grande maioria destes casos, os níveis plasmáticos de carnitina estão dentro dos limites normais. Estas evidências sugerem a possível existência de um defeito no transporte de membrana que impede a L-carnitina de entrar no interior das células miocárdicas. De uma forma geral, ao fornecer a L-carnitina na dieta pode-se melhorar a produção de energia e o desempenho da função miocárdica.

Arginina: aminoácido essencial e precursor da síntese endógena de óxido nítrico, responsável pela manutenção do tônus vascular normal. A disfunção endotelial tem sido relacionada em cães e humanos com ICC. A suplementação de arginina parece melhorar o trabalho cardíaco em pacientes com doença cardíaca.

Antioxidantes: em cães com insuficiência cardíaca, independente da causa, há um aumento do estresse oxidativo e redução de antioxidantes, particularmente de vitamina E. Essas alterações sugerem um desequilíbrio entre dano oxidativo e proteção por antioxidantes em cães com ICC, culminando com a produção de radicais livres que possuem efeitos citotóxicos e inotrópicos negativos. Desta forma, na dieta desses animais recomenda-se a adição de antioxidantes como a vitamina E e C, entre outros.

Ômega-3: O ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosahexaenóico (DHA) são ácidos graxos essenciais derivados de fontes marinhas e seus efeitos combinados visam à redução da ação dos mediadores pró-inflamatórios. Aportes extras de ácidos graxos poliinsaturados da família ômega-3 (EPA e DHA) contribuem para diminuir a produção de citocinas inflamatórias e melhorar o apetite em gatos com doenças do miocárdio. Estudos revelaram que cães com ICC apresentavam diminuição das concentrações de EPA e DHA plasmáticas em comparação com cães saudáveis. Um estudo recente revelou que o EPA e DHA derivado de óleos de peixe administrados durante um período de seis semanas reduziu a severidade e frequência de arritmias em cães da raça Boxer que sofrem de cardiomiopatia ventricular direita arritmogênica.

Magnésio e potássio: a hipomagnesemia associada ao uso de certos medicamentos pode potenciar as arritmias cardíacas, diminuir a contratilidade cardíaca e contribuir para a fraqueza muscular. Este fenômeno é, com frequência, observado em cães de raça Cavalier King Charles Spaniel. Pacientes cardiopatas devem receber dietas com adequada concentração de magnésio. Com relação ao potássio, uma maior quantidade para compensar as perdas urinárias secundárias à terapêutica diurética, não é mais necessária. Com o uso de inibidores da ECA, que aumentam a absorção renal de potássio, as dietas específicas para cães cardiopatas devem conter níveis moderados de potássio para evitar tanto a hipocalemia quanto a hipercalemia compatível com a terapia.

A ROYAL CANIN® possui em seu portfólio o alimento CARDIAC CANINE, em suas versões seca e úmida, para cães com manifestações clínicas de ICC. De acordo com o ACVIM, a intervenção dietética é recomendada a partir do estágio C da doença. Contudo, o alimento CARDIAC CANINE pode ser instituído a partir do estágio B2, considerando não somente a redução nos teores de sódio, mas também a prevenção da caquexia e os benefícios de diversos nutrientes para a função cardíaca, conforme mencionados neste artigo.

alimento CARDIAC CANINE

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Referências bibliográficas

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