Cardiomiopatia Hipertrófica Felina: saiba como conduzir o caso do paciente acometido
Links rápidos:
- O que é a cardiomiopatia hipertrófica felina?
- Quais raças de gatos são mais predispostas à cardiomiopatia hipertrófica?
- Estadiamento da cardiomiopatia hipertrófica nos felinos
- Principais sinais clínicos apresentados
- Etapas do diagnóstico
- Como é feito o tratamento para a cardiomiopatia hipertrófica Felina?
- É possível prevenir o surgimento da doença?
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença de alta prevalência em felinos. Entenda sobre a afecção e saiba como utilizar a combinação entre terapia médica e nutricional no manejo do paciente acometido.
As doenças cardíacas são de grande relevância na clínica de animais de companhia. Embora sejam condições crônicas geralmente sem cura, a terapia médica vem se aprimorando cada vez mais, permitindo oferecer maior qualidade de vida e longevidade aos pacientes cardiopatas.
A cardiomiopatia hipertrófica felina é uma das doenças cardíacas de maior prevalência em gatos. De acordo com o Colégio Americano de Medicina Veterinária Interna (ACVIM, 2020), as cardiomiopatias estão entre as 10 causas mais frequentes de morte em pacientes felinos, sendo que acomete cerca de 15% dos gatos adultos, podendo chegar até 29% na população de animais idosos.
O que é a cardiomiopatia hipertrófica felina?
A cardiomiopatia hipertrófica felina consiste no aumento anormal da musculatura ventricular esquerda, que afeta a estrutura e função cardíaca, resultando em disfunção diastólica e aumento da pressão de enchimento ventricular esquerdo. Como consequência disso, pode ocorrer o aumento atrial e insuficiência cardíaca congestiva (GIL-ORTUÑO et al. 2020).

Entendendo a fisiopatogenia da cardiomiopatia hipertrófica
O coração é composto por quatro câmaras (átrio direito, ventrículo direito, átrio esquerdo e ventrículo esquerdo) e duas válvulas (mitral e tricúspide) que funcionam em perfeita sincronia para distribuir sangue adequadamente para todo o organismo.
No animal saudável, o sangue venoso periférico chega ao coração por meio das veias cavas cranial e caudal, e desemboca no átrio direito. Em seguida, passa pela válvula tricúspide e alcança o ventrículo direito do coração, do qual é direcionado aos pulmões por meio da artéria pulmonar, no qual será oxigenado.
Então, o sangue oxigenado retorna ao coração por meio das veias pulmonares e desemboca no átrio esquerdo, que em seguida permite sua passagem para o ventrículo esquerdo, do qual será ejetado para a artéria aorta e para todos os órgãos periféricos.
Na cardiomiopatia hipertrófica felina ocorre uma disfunção diastólica do ventrículo esquerdo, com consequente comprometimento do preenchimento ventricular. Pode, ainda, haver obstrução da via de saída do ventrículo esquerdo e regurgitação mitral, levando ao aumento atrial esquerdo secundário.
A dinâmica alterada do funcionamento cardíaco compromete a ejeção de sangue para a periferia e interfere na manutenção da homeostase. Sendo assim, a cardiomiopatia hipertrófica felina pode levar à insuficiência cardíaca congestiva (ICC), tromboembolismo arterial, arritmias, e, inclusive, causar a morte súbita do paciente.
Apenas os felinos são acometidos?
A cardiomiopatia hipertrófica pode também acontecer em cães, embora seja muito mais comum nos gatos. Em caninos de raças grandes e gigantes, é mais comum o desenvolvimento de cardiomiopatia dilatada, afecção na qual as fibras miocárdicas perdem a força de contração, levando a dilatação generalizada das câmaras cardíacas.
Quais raças de gatos são mais predispostas à cardiomiopatia hipertrófica?
Em felinos, foram relatadas algumas mutações genéticas relacionadas ao desenvolvimento de cardiomiopatias, sendo duas no gene de ligação da proteína C à miosina (MyBPC3), em gatos das raças Maine Coon e Ragdoll; e outra no gene ALMS1, associado ao desenvolvimento da doença em um gato da raça Sphynx (MEURS et. al., 2021).
Assim, segundo estudos de prevalência relatados nas diretrizes do ACVIM, as raças mais predispostas a desenvolverem cardiomiopatia hipertrófica felina são:
- Maine Coon;
- Ragdoll;
- British Shorthair;
- Persa;
- Bengal;
- Sphynx;
- Norwegian Forest;
- Birman.
É importante ressaltar que felinos homozigotos para essas mutações e parentes de primeiro grau de gatos afetados apresentam risco maior de desenvolvimento de cardiomiopatia hipertrófica felina.
Estadiamento da cardiomiopatia hipertrófica nos felinos
A classificação da cardiomiopatia hipertrófica felina, estabelecida pelas diretrizes ACVIM (2020), é feita da seguinte forma.
- Estágio A: gatos predispostos à doença, mas que ainda não apresentam evidências de alterações ao ecocardiograma nem presença de sinais clínicos;
- Estágio B: gatos com cardiomiopatia, porém sem manifestações clínicas, podendo ainda ser subdividido nos estágios:
B1: com baixo risco de insuficiência cardíaca congestiva e tromboembolismo;
B2: com alto risco de ICC e tromboembolismo;
A subdivisão entre estágio B1 e B2 é feita de acordo com as mensurações ecocardiográficas do átrio esquerdo. - Estágio C: gatos com cardiomiopatia e que apresentam sinais clínicos;
- Estágio D: gatos com cardiomiopatia refratária ao tratamento.
Principais sinais clínicos apresentados
Muitos pacientes com cardiomiopatia hipertrófica felina são assintomáticos. Porém, os seguintes sinais clínicos podem estar presentes:
- dispneia ao esforço;
- fadiga;
- palpitações;
- arritmias;
- síncope.
Etapas do diagnóstico
Estabelecer o diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica felina pode ser desafiador ao clínico veterinário. Após anamnese e exame físico completos, exames complementares são necessários para confirmar o diagnóstico.
O ecocardiograma é o exame de imagem de escolha para investigação da doença por analisar a morfologia do coração, estimar a função sistólica e diastólica e determinar se há regurgitação mitral. Dessa forma, é possível tanto confirmar o diagnóstico quanto avaliar a progressão da enfermidade.

Outros testes diagnósticos podem contribuir para identificar possíveis causas, além de detectar a presença de comorbidades e auxiliar no estadiamento da doença. Um exemplo é a dosagem de troponina I cardíaca, cuja concentração aumentada reflete a gravidade da cardiomiopatia hipertrófica felina (HORI et.al., 2018).
Todos os gatos com cardiomiopatia devem realizar eletrocardiograma e acompanhamento da pressão arterial sistêmica e, se possível, devem ser realizadas mensurações das concentrações sanguíneas de taurina e tiroxina.
Como é feito o tratamento para a cardiomiopatia hipertrófica Felina?
O tratamento do paciente com cardiomiopatia hipertrófica felina consiste no conjunto de terapia medicamentosa e manejo, baseado no estadiamento da afecção (FUENTES et.al., 2020).
No estágio A, não há indicação de tratamento. A partir do estágio B, adotam-se medidas para melhorar a capacidade do ventrículo esquerdo em encher e bombear sangue, de retardar o aparecimento da ICC e reduzir o risco de complicações.
Assim, fármacos bloqueadores dos receptores beta, bloqueadores dos canais de cálcio e inibidores da ECA (Enzima Conversora de Angiotensina) são bastantes utilizados (BELO et.al., 2022).
Vale ressaltar que o paciente com cardiomiopatia hipertrófica felina deve ser acompanhado periodicamente, para averiguar a evolução da doença e adequar o manejo e terapia, com intuito de promover qualidade de vida e maior longevidade.
Nutrição do felino com cardiomiopatia hipertrófica
A nutrição é um importante complemento para a terapia médica em pacientes diagnosticados com cardiomiopatia hipertrófica felina. O manejo dietético deve ser personalizado de acordo com o estágio da doença, dando ênfase aos seguintes pontos:
- reverter a anorexia e fornecer quantidade de calorias suficientes para evitar deficiências;
- obter benefícios funcionais de nutrientes específicos que auxiliem na saúde do coração;
- contribuir para redução da dose de fármacos empregados no manejo de cardiopatias;
- reduzir a progressão da doença;
- promover qualidade de vida ao paciente;
- aumentar a longevidade.
Hoek e colaboradores (2019) avaliaram o efeito de uma dieta formulada com redução do teor de carboidratos, suplementada com óleo de peixe, com o objetivo de minimizar a concentração sérica de insulina, que pode estar relacionada com o grau de atrofia ventricular.
Assim, constataram uma redução significativa da espessura da parede ventricular em gatos diagnosticados com cardiomiopatia hipertrófica felina que receberam a dieta por 12 meses.
Ainda que mais estudos sejam necessários para corroborar a tese de que a nutrição desempenha papel-chave no manejo clínico de pacientes cardiopatas, as evidências científicas encontradas até o momento sugerem que nutrientes específicos e a manutenção da boa condição corporal exercem um papel importante no tratamento coadjuvante, promovendo melhora da qualidade e da expectativa de vida.
É possível prevenir o surgimento da doença?
A cardiomiopatia hipertrófica felina é uma doença de etiologia idiopática, cujo desenvolvimento pode ser favorecido por uma base genética com uma provável predisposição genética (LEAL, 2023). Portanto, mais estudos são necessários para definir parâmetros sobre a sua prevenção.
Referências bibliográficas
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