Uso de antibióticos em diarreias de cães e gatos: impactos no microbioma intestinal

por Ana Rita Carvalho Pereira, Médica-veterinária, MSc, em Ciências e Especializada em Gastroenterologia Veterinária
Entenda as recomendações atuais sobre o uso de antibióticos em diarreias de cães e gatos, os impactos no microbioma intestinal e a importância de um manejo clínico baseado em evidências.
Apesar da ampla disponibilidade de antibióticos na medicina veterinária, o uso desses medicamentos para tratar diarreias agudas e crônicas em cães e gatos é frequentemente realizado sem respaldo científico consistente. Estudos recentes demonstram que a prescrição indiscriminada de antibióticos pode causar desequilíbrios graves na microbiota intestinal (disbiose) e contribuir para o aumento da resistência antimicrobiana, um problema de saúde global que afeta tanto animais quanto humanos.
As diretrizes internacionais e pesquisas atuais reforçam que, na maioria dos casos de diarreia aguda sem sinais de infecção sistêmica grave, o tratamento deve ser sintomático e focado no suporte nutricional, com dietas de alta digestibilidade e manejo alimentar adequado. O uso de antibióticos deve ser reservado apenas para situações específicas, como quadros graves com suspeita de sepse. Além disso, a modulação da microbiota intestinal, por meio de probióticos e dietas específicas, tem se mostrado mais eficaz e segura para a recuperação dos pacientes.
Cabe ao médico-veterinário não apenas prescrever o tratamento adequado, mas também atuar como agente de educação dos responsáveis pelo pet, esclarecendo sobre os riscos do uso inadequado de antibióticos e a importância de preservar a saúde intestinal dos pets. A adoção de práticas baseadas em evidências é fundamental para garantir o bem-estar animal e prevenir complicações a longo prazo.
Para uma compreensão aprofundada e detalhada sobre o uso de antibióticos nas diarreias de cães e gatos, seus impactos no microbioma intestinal e as recomendações clínicas baseadas em evidências, convidamos você a acessar o artigo científico completo elaborado pela Dra. Ana Rita Pereira.
Uso de antibióticos nas diarreias e o impacto no microbioma intestinal
Uso de antibióticos nas diarreias agudas e crônicas é uma prática frequente na medicina veterinária, apesar da ausência de literatura científica que a suporte e justifique. No entanto, com diversos estudos recentes desmistificando a microbiota dos cães e dos gatos, novas evidências surgiram demonstrando os efeitos destes medicamentos nas bactérias intestinais, e as consequências de seu uso indiscriminado e injustificado. Atualmente, as principais justificativas gastrointestinais do uso de antibióticos em cães e gatos são a diarreia aguda não complicada, diarreia hemorrágica aguda, giárdia e a diarreia crônica.
As diarreias agudas são as manifestações clínicas mais frequentes no atendimento de clínica médica de cães e gatos em todo mundo. Suas causas são diversas, como imprudências alimentares, reações adversas à alimentos, trocas de dietas, endoparasitos, uso de medicamentos (como antibióticos, anti-inflamatórios e inibidores de bomba de prótons, por exemplo), enteropatógenos e doenças primárias: como infecções, inflamações e até neoplasias. A patofisiologia é pouco compreendida, e dependente da causa, mas considerada multifatorial. No geral, as diarreias agudas são, no geral, leves a moderadas, não levando a distúrbios hemodinâmicos e metabólicos graves. São auto-limitantes e raramente necessitam de internações e procedimentos mais invasivos.
Ainda assim, em ao menos 2 estudos (De Briyne et al., 2013; Lutz et al., 2020) a diarreia aguda é a principal motivação para prescrição de antibióticos sistêmicos em cães, principalmente se esta vem acompanhada de hematoquezia. Porém, já há evidências científicas robustas que comprovam que não há nenhuma indicação do uso de antibióticos em diarreias agudas, com ou sem hematoquezia, na ausência de sinais de sepse (Marks et al., 2011; Allerton et al., 2021; Unterer et al., 2021, ENOVAT 2025). Diversas são as motivações para redução da prescrição de antibioticoterapia nos quadros de diarreia, sendo as principais a resistência antimicrobiana crescente encontrada em animais e humanos. O uso excessivo e inadequado de antimicrobianos em humanos e animais são os principais fatores que levam à resistência antimicrobiana, como descrito em uma metanálise da OMS (Organização Mundial de Saúde) de 2019. Esta resistência leva ao aumento da morbidade, mortalidade e dos custos de assistência médica, devido a infecções bacterianas multirresistente (Antimicrobial Resistance Collaborators, 2022).
Além da resistência antimicrobiana, os antibióticos desencadeiam disbiose intestinal. Disbiose é a alteração qualitativa da microbiota intestinal. A microbiota é o conjunto de microorganismos de um tecido ou órgão, como o trato gastrointestinal. A disbiose pode ser primária ou secundária, sendo esta última muito mais frequente. O uso de antibioticoterapia é a principal causa iatrogênica de disbiose, e a enteropatia crônica a principal afecção causadora de disbiose (Pilla, R., et al, 2020; Pilla, R. & Suchodolski, J.S., 2020). A microbiota intestinal é essencial para saúde do hospedeiro. Ela auxilia no metabolismo, no sistema imune, protege contra patógenos, e afeta diversas funções fisiológicas do organismo, de forma direta e indireta (Pilla, R. & Suchodolski, J.S., 2020). Preservar a microbiota do trato gastrointestinal é de suma importância para o manejo e até prevenção de doenças intestinais agudas e crônicas dos cães e gatos.
Em uma metanálise recentemente publicada (ENOVAT, 2025), foi demonstrado com alto grau de evidência que o uso de antibióticos nas diarreias agudas não muda o desfecho final dos cães com quadros leves a moderados. O que significa que a prescrição de antibioticoterapia não reduz o tempo de desenvolvimento da diarreia, e nem interfere na evolução do quadro. O nível de evidência que demonstra impacto positivo do uso de antibióticos no prognóstico de pacientes com quadros graves de diarreia é considerado baixo. Foram considerados graves somente os casos nos quais os pacientes apresentavam manifestações clínicas como redução de nível de consciência, desidratação clínica e/ou hipovolemia não responsiva a fluidoterapia e febre (temperatura acima de 39,5oC), além de alterações hematológicas com indício de sepse, como leucocitose acima de 25 mil e/ou desvio à esquerda. A presença de sangue nas fezes não muda a gravidade do quadro e nem o protocolo de tratamento. Esta metanálise foi utilizada para desenvolvimento de um guideline para uso de antibióticos na diarreia aguda (ENOVAT, 2025).
Sendo assim, nas diarreias agudas, é consensual que o tratamento a ser realizado é suporte e sintomático, associado ao manejo alimentar do paciente, com dietas de alta digestibilidade, associadas ou não à suplementação de fibra (ENOVAT, 2025). Em um estudo randomizado, para avaliar a resposta terapêutica de cães com diarreia aguda, foi evidenciado que uma dieta gastrointestinal de alta digestibilidade, com ou sem adição de fibra, foi superior ao uso do metronidazol no controle das manifestações clínicas. Menos de 25% dos animais ainda era sintomático após uma semana de tratamento com dieta de alta digestibilidade. No grupo do metronidazol, 70% dos pacientes ainda estavam sintomáticos com 7 dias de tratamento. Sendo assim, não é verdade que metronidazol é a solução e mais rápida para as diarreias agudas (Rudinsky, A.J., et al, 2022). Outro estudo de 16 cães com diarreia aguda, foi comparado o tratamento com amoxicilina com ácido clavulânico e placebo. Não foi demonstrada nenhuma diferença estatística na resposta terapêutica entre os grupos, e todos os cães apresentaram remissão clínica até o 6º dia. No entanto, todos os animais do grupo de antibiótico apresentaram a bactéria E. coli, comensal do trato gastrointestinal de cães, com resistência a amoxicilina com clavulanato. Resistência esta que persistiu por até 3 semanas após término do antibiótico. Nenhum dos cães do grupo placebo apresentou resistência antimicrobiana (Werner, M. et al, 2020).
Inclusive nas diarreias hemorrágicas agudas, ou síndrome da diarreia hemorrágica aguda (SDHA), que anteriormente era chamada de “gastroenterite hemorrágica”. Estas sabidamente são secundárias a disbiose causada pela toxina Net E do Clostridium perfringens, e geralmente acometem animais de pequeno porte e jovens. Estas podem desencadear diarreias graves com sangue, êmese, desidratação moderada a grave e, raramente, óbito (Unterer, S., et al, 2024). No entanto, quando tratamento é instituído prontamente, mais de 90% dos casos apresentam desfecho favorável, e a taxa de mortalidade é menor que 3% (Mortier, F. et al, 2015). O tratamento mais indicado para a SDHA é fluidoterapia intravenosa, antieméticos, dietas de alta digestibilidade e probióticos. Em um estudo comparativo de 2011 com 60 cães apresentando SDHA, não houve diferença estatística entre o grupo medicado com amoxicilina com clavulanato e grupo placebo, ao serem avaliadas a resposta terapêutica, a duração da hospitalização e a taxa de mortalidade (Unterer, S., et al, 2024).
O metronidazol é um antibiótico e antiprotozoário frequentemente utilizado no tratamento das diarreias aguda e crônicas, sendo relatado seu uso em 47 a 65% dos casos de diarreias agudas (Singleton et al., 2019; Pegram et al., 2023). No entanto, a indicação ideal para esta classe de antibioticoterapia deveria ser no tratamento de microorganismos anaeróbicos e microaerófilos, uma vez que sua atividade é dependente da redução prévia a intermediários tóxicos de curta duração em um ambiente com baixo teor de oxigênio (Leitsch, 2019). Apesar disso, em um estudo retrospectivo de 2025, no qual foram avaliados os principais motivos das indicações do metronidazol em cães e gatos pelos veterinários, foi demonstrado que 42% das indicações do metronidazol foram com objetivo anti-inflamatório e imunomodulador. Neste artigo, os veterinários prescritores apontaram que seu principal uso era no tratamento de diarreias crônicas, seguidas de agudas e até pancreatite, com ou sem sinais de processos infecciosos concomitantes, como pode ser visualizado no gráfico 1 (Ng, J., et al, 2025).
Há robustas evidências que o metronidazol, assim como muitos outros antibióticos, levam a disbiose em animais saudáveis (Pilla, R., et al, 2020; Whittemore, J.C., 2021; Marshall-Jones, Z.V., et al, 2024) e doentes (Stubing, H., et al, 2024, Ng, J, et al, 2025). O uso do metronidazol, em específico, leva a alterações graves no microbioma e metaboloma dos cães e gatos, reduzindo a diversidade de bactérias importantíssimas para a saúde dos animais (como o P. Hiranonis), que pode perdurar por semanas após seu uso (Pilla, R., et al, 2020). Em um estudo em filhotes, metronidazol combinado com sulfadimetoxina afetou negativamente os marcadores da funcionalidade intestinal, aumentando a inflamação e comprometendo a função da barreira intestinal em filhotes (Melotto, K.S.K., et al, 2025). Em humanos, o uso de antibióticos pode ser um fator desencadeador do desenvolvimento da doença inflamatória intestinal (Faye AS, et al, 2023), evidência esta, já encontrada também em gatos (Stavroulaki, E.M., 2021), que desenvolveram enteropatia crônica quando submetidos ao uso destes antibióticos ainda jovens.
O uso do metronidazol foi desencorajado inclusive no tratamento de giárdia em cães e gatos, sendo o febendazol mais indicado de acordo com guideline europeu de tratamento das infecções parasitárias ESCCAP, de 2025 (ESCCAP, 2025) e no guideline do uso responsável de antimicrobianos (BSAVA, 2024).

Gráfico 1: Porcentagem do uso do metronidazol em cães e gatos (Ng, J, et al, 2025).
Nas enteropatias crônicas (EC), as contraindicações da prescrição de antibióticos são semelhantes. As enteropatias crônicas são uma síndrome multifatorial, crônica, associada a manifestações clínicas de emese, diarreia, hiporexia, náusea e perda de peso por mais de 3 semanas. Em sua maioria, as ECs são associadas a infiltrados inflamatórios crônicos na mucosa e submucosa do trato gastrointestinal. Anteriormente, os antibióticos eram utilizados como parte do protocolo de classificação, diagnóstico e tratamento das EC (Dandrieux, J.R.S, 2016). As EC eram, portanto, classificadas como enteropatia responsiva dieta, enteropatia responsiva antibióticos, enteropatia responsiva imunossupressores e, por fim, as enteropatias não responsivas a nada (Dandrieux, J.R.S, 2016). No entanto, novas evidências surgiram apontando que os pacientes mantidos na antibioticoterapia para os quadros de diarreia crônica, passavam a não apresentar mais resposta terapêutica, como foi evidenciado no estudo da Dra Allenspach, ainda no mesmo ano (2016). Neste estudo, todos os pacientes inicialmente responsivos a antibioticoterapia (33 de 103 animais com EC) foram reclassificados em responsivos a imunossupressores, pois pararam de responder à antibioticoterapia. Além da falta de resposta terapêutica dos pacientes, a evidência de disbiose após a utilização de antibiótico corroborou para este tratamento ser contraindicado em diarreias crônicas.
Sendo assim, uma nova proposta de classificação para as EC foi publicada em 2024 (figura 1) (Dupouy-Manescau N., et al, 2024), no qual foi eliminado o tratamento com antibioticoterapia, e adicionada a modulação da microbiota intestinal. Esta modulação pode ser realizada com prebióticos, probióticos, simbióticos e transplante de matéria fecal.
Atualmente, a principal estratégia terapêutica dos pacientes com EC é a modulação dietética. Para isto, é necessária uma abordagem sistemática junto aos responsáveis do animal, através da avaliação do histórico alimentar completo do paciente, avaliando as dietas já oferecidas ao animal, extras alimentares, composição de cada dieta e resposta do paciente a elas (Dupouy-Manescau N., et al, 2024).

Figura 1: Nova proposta de classificação das enteropatias crônicas. FRE= Enteropatia responsiva dieta; ARE= enteropatia responsiva antibióticos; IRE= enteropatia responsiva a imunossupressores; NRE= enteropatia não responsiva a nada; MrMRE= Enteropatia responsiva a modulação de microbiota; PLE= enteropatia associada a perda proteica.
As enteropatias responsivas à dieta são as enteropatias crônicas mais prevalentes, ou seja, pacientes que obtém resposta clínica satisfatória após iniciada dieta terapêutica, como a hipoalergênica, por exemplo. Rações com proteína hidrolisada são as dietas de primeira escolha, às quais cerca de 65% dos cães apresentam melhora clínica (Allenspach, K., et al, 2016; Volkmann, M., et al, 2017; Rodrigues, S.D. et al, 2025). Dietas com adição de mix de fibras também são altamente recomendadas aos pacientes com enteropatia crônica e manifestações clínicas secundárias à colite, como diarreia crônica com presença de muco e sangue, dor abdominal e gases. Dietas com teor de gordura reduzido e alta digestibilidade são indicadas em casos de enteropatia associada a perda proteica, como as linfangiectasias. Hoje, o principal manejo terapêutico das enteropatias crônicas é o manejo alimentar. No qual até 89% dos pacientes com esta afecção apresentam melhora do quadro inflamatório e clínico (Dupouy-Manescau N., et al, 2024).
Sendo assim, os antibióticos não devem ser prescritos para o tratamento de diarreias agudas ou crônicas, exceto em casos específicos os quais são identificados sinais graves de infecção sistêmica e sepse. Os antibióticos levam a quadros graves de resistência antimicrobiana e disbiose, com consequências a curto, médio e longo prazo aos pacientes submetidos à eles, além de serem menos eficazes quando comparados ao manejo com dietas específicas e modulação da microbiota intestinal.
Sobre a autora
Ana Rita Carvalho Pereira
Médica-veterinária, MSc, em Ciências e Especializada em Gastroenterologia Veterinária
Graduada pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) em 2010, com residência em Clínica Médica pela Universidade Estadual Paulista (UNESP – Botucatu) entre 2010 e 2012. Possui pós-graduação em Gastroenterologia pela Anclivepa-SP e mestrado em Ciências pelo Departamento de Clínica Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP (FMVZ/USP), concluído em 2024.
É sócia da Gastrovet-SP, coordenadora da Pós-graduação em Gastroenterologia do IEP Ranvier – SP, membro da Comparative Gastroenterology Society (CGS) desde 2019 e certificada pelo Feline VMA como Cat Friendly Veterinarian Advocate. Atua com foco em gastroenterologia veterinária, ensino e consultoria.
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