Pancreatite em gatos: o que é, como fazer o diagnóstico e novas diretrizes de conduta
Links rápidos:
- O que é a pancreatite felina?
- Principais causas de pancreatite em gatos
- Possíveis complicações da pancreatite nos gatos
- Prognóstico
- Principais sinais clínicos de pancreatite em gatos
- Como realizar o diagnóstico da pancreatite nos gatos?
- Como tratar a pancreatite felina
- Perguntas e respostas frequentes sobre pancreatite em gatos
- Há mais de 50 anos, a Royal Canin® contribui para a saúde e a longevidade dos pets, unindo tradição, ciência e dedicação!
A pancreatite felina é uma doença que pode ser subdiagnosticada, pois pode apresentar manifestações clínicas inespecíficas e sutis. Saiba como abordar o seu paciente, o que há de novo sobre o tema e entenda como fazer o manejo nutricional.
O pâncreas é uma glândula que possui funções endócrinas e exócrinas essenciais para o bom funcionamento do organismo. O órgão é responsável pela produção de enzimas e hormônios, como a insulina. Entretanto, ele pode ser o foco de algumas afecções.
A pancreatite em gatos é uma das principais doenças que acomete o pâncreas e está presente na rotina da clínica de felinos. Seu diagnóstico pode ser desafiador, mas é a chave para os manejos terapêutico e nutricional adequados do paciente.
Saiba todos os detalhes dessa afecção.
O que é a pancreatite felina?
A pancreatite em gatos é caracterizada por uma inflamação no tecido pancreático, com consequente lesão nas células desse órgão, e atrofia acinar. Esse processo ocorre como consequência de uma ativação precoce das enzimas pancreáticas, resultando na autodigestão do pâncreas. Em animais saudáveis, essas enzimas são ativadas somente quando chegam no lúmen intestinal (ALLENSPACH, 2021).
A pancreatite em felinos, assim como nas demais espécies, pode ocorrer nas formas aguda ou crônica, sendo essa última a mais comum em gatos (BAZELLE & WATSON, 2014).
Em casos mais graves, a lesão pode ocasionar hemorragia e necrose, elevando a morte do animal acometido.
Pancreatite x insuficiência pancreática: entenda a diferença
A pancreatite em gatos está relacionada a um quadro inflamatório agudo ou crônico do pâncreas, desencadeado principalmente pela ativação intrapancreática precoce das enzimas digestivas, que deveriam ser ativadas apenas no lúmen intestinal. Essa ativação indevida resulta em autodigestão do tecido pancreático, edema e infiltrado inflamatório local (TILLEY & SMITH JR., 2014).
Em contrapartida, a insuficiência pancreática exócrina (IPE) está associada à perda funcional e estrutural das células acinares, levando à redução ou ausência da produção de enzimas digestivas essenciais, como amilase, lipase e tripsina. O pâncreas, portanto, não consegue mais desempenhar adequadamente seu papel digestivo (XENOULIS, 2023; URIBE et al., 2025).
Apesar de distintos, ambos os quadros podem estar interligados, visto que uma pancreatite crônica pode culminar em destruição progressiva do parênquima exócrino, desenvolvendo, consequentemente, uma insuficiência pancreática (ALLENSPACH, 2021; XENOULIS, 2023).
Principais causas de pancreatite em gatos
A pancreatite em gatos possui alta prevalência e sua etiologia pode ser considerada idiopática já que, muitas vezes, uma causa de base específica não é identificada (BAZELLE & WATSON, 2014).
Entre as principais possíveis causas da pancreatite felina estão (JENSEN et al., 2014; ALLENSPACH, 2020):
- traumas;
- isquemia pancreática;
- intoxicação por organofosforados e outros componentes presentes em muitos inseticidas;
- agentes infecciosos, como parvovírus felino, toxoplasma gondii e herpesvírus felino, e a peritonite infecciosa felina (PIF);
- anestesia geral recente;
- hipóxia secundária a episódios agudos de insuficiência cardíaca;
- fenômenos alérgicos;
- dieta inadequada;
- outros.
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Existe predisposição racial para o desenvolvimento da pancreatite?
Ainda que algumas literaturas especulem sobre a possibilidade de maior suscetibilidade à pancreatite felina em raças orientais, como o Siamês, em virtude de relatos pontuais, não há evidências científicas consistentes que sustentem tal predisposição (TILLEY & SMITH JR., 2014; MANSFIELD, 2016).
Assim, a pancreatite felina deve ser compreendida como uma condição sem predisposição racial comprovada, cuja ocorrência está mais relacionada a fatores ambientais, alimentares, inflamatórios e sistêmicos do que à genética propriamente dita (BAZELLE & WATSON, 2014).
Possíveis complicações da pancreatite nos gatos
A diabetes mellitus pode aparecer secundariamente à pancreatite em gatos, com consequente aparecimento de polidipsia, poliúria e perda de peso. Além disso, a afecção pode estar relacionada à doença inflamatória intestinal, agora conhecida como enteropatia inflamatória crônica, em 50% dos casos (MANSFIELD, 2016; ALLENSPACH, 2021).
Outra complicação é a presença da tríade felina, na qual acontecem, concomitantemente, três enfermidades: pancreatite, colangite e enteropatia inflamatória crônica felina.
Prognóstico
O diagnóstico precoce e instituição do tratamento adequado são essenciais para um melhor prognóstico na pancreatite em gatos.
Sendo assim, o prognóstico possui mais chances de sucesso quando inclui (MANSFIELD, 2016):
- diagnóstico precoce realizado pelo médico-veterinário;
- consultas frequentes ao médico-veterinário para avaliação da evolução do quadro e acompanhamento do paciente;
- realização de exames para acompanhamento;
- colaboração do tutor, que deve seguir corretamente todas as orientações de manejo nutricional e administração de medicamentos.
Principais sinais clínicos de pancreatite em gatos
A pancreatite em gatos é, muitas vezes, uma doença silenciosa. Os sinais clínicos podem ser inespecíficos, mas os mais comumente encontrados incluem (ALLENSPACH, 2021):
- anorexia;
- letargia;
- desidratação;
- hipotermia;
- perda de peso;
- diarreia;
- icterícia;
- febre.
Também pode haver inflamação no fígado e no intestino delgado, além de dor abdominal e vômitos, presentes em cerca de 50% dos casos. Pode-se ainda, raramente, encontrar massa abdominal palpável (ALLENSPACH, 2021; TILLEY & SMITH JR., 2014).
Como realizar o diagnóstico da pancreatite nos gatos?
O diagnóstico de pancreatite em gatos nunca deve ser feito com base em um único indício. Ele deve ser composto pelas informações coletadas minuciosamente na anamnese, além da presença de sinais clínicos, achados em exames laboratoriais e ultrassonografia (ALLENSPACH, 2021).
Diagnóstico definitivo
A imunorreatividade da lipase pancreática felina e a medição da atividade da lipase pelo método DGGR são os testes laboratoriais que oferecem a melhor sensibilidade e especificidade para o diagnóstico de pancreatite em gatos, quando comparados com a identificação histológica de pancreatite como padrão-ouro (ALLENSPACH, 2021).
Diagnóstico diferencial
O diagnóstico assertivo da pancreatite em gatos permite que o paciente receba a melhor abordagem terapêutica. Para isso, o médico-veterinário deve considerar uma lista de doenças para o diagnóstico diferencial, descartando (TILLEY & SMITH JR., 2014):
- distúrbios gastrointestinais (processos obstrutivos, corpo estranho, perfuração, gastroenterite);
- torção esplênica;
- piometra;
- colangiohepatite;
- afecções urinárias (pielonefrite, insuficiência renal, obstrução/ruptura do trato urinário);
- peritonite infecciosa felina (PIF);
- hipoadrenocorticismo;
- neoplasia abdominal.
Lembre-se que é importante investigar se o caso não se trata de tríade felina, no qual tem-se o acometimento simultâneo do pâncreas, do fígado e do intestino delgado.
Como tratar a pancreatite felina
O tratamento medicamentoso da pancreatite em gatos pode variar de acordo com a gravidade da doença e deve levar em consideração se também há outras afecções concomitantes.
Geralmente, o tratamento é sintomático e de suporte, para controle da dor e da náusea, e inclui terapia antiemética, analgesia e fluidoterapia. Em adição, como detalharemos a seguir, deve-se fazer a adequação do manejo nutricional a partir da utilização de dietas que contenham baixos índices de gordura, além de proteínas e demais nutrientes de excelentes valores nutricionais (MANSFIELD, 2016).
A importância do controle de dor no gato com pancreatite
O manejo da dor representa um dos pontos fundamentais no tratamento da pancreatite em gatos, sendo essencial para a recuperação clínica e funcional do trato gastrointestinal, assim como para a redução do estresse fisiológico, que pode desencadear outras doenças como a cistite idiopática felina (ALLENSPACH, 2021; MANSFIELD, 2016).
Assim, o controle analgésico adequado, realizado a partir do uso de opioides (como buprenorfina ou metadona), constitui parte essencial da terapêutica de suporte, impactando diretamente na redução da morbidade, no restabelecimento do apetite e na melhora do prognóstico geral do gato com pancreatite (CRIDGE et al., 2025).
Principais atualizações no tratamento da pancreatite nos gatos
Atualmente, o tratamento de suporte permanece sendo a base do manejo clínico da pancreatite em gatos, incluindo fluidoterapia intravenosa, analgesia, controle de náuseas, nutrição enteral precoce e monitoramento de comorbidades (SANTOS & ANDRADE, 2023).
Embora a antibioticoterapia tenha sido utilizada no passado, seu uso atualmente é reservado a casos com suspeita de infecção bacteriana secundária ou abscesso pancreático, uma vez que a maioria das pancreatites felinas é estéril e não infecciosa (ALLENSPACH, 2021).
Suporte nutricional adequado para gatos com pancreatite também é fundamental
Os gatos com pancreatite podem ter náuseas e ficar inapetentes por longos períodos, com elevação do risco de lipidose hepática e outras doenças decorrentes da hiporexia ou anorexia.
O suporte nutricional precoce é considerado um dos pilares da terapia de pancreatite felina. Uma dieta rica em nutrientes de qualidade e vitaminas contribui para a elevação da imunidade e da proteção do tecido, ajudando também no combate à inflamação e contribuindo para a manutenção geral da saúde animal (CRIDGE et al., 2025; JENSEN & CHAN, 2014).
Em casos de anorexia, a alimentação enteral deve ser introduzida o mais rápido possível. Entretanto, essa prática pode ser contraindicada para animais com vômitos crônicos.
Para tratamento a médio e longo prazo, a esofagostomia ou gastrostomia podem ser opções indicadas para manejo nutricional, a depender da situação. Nos primeiros dias de tratamento, geralmente os tubos nasoesofágicos são uma estratégia eficiente para nutrição do paciente com pancreatite felina (ALLENSPACH, 2021).

Nutrientes do paciente felino com pancreatite
Vale destacar alguns pontos nutricionais importantes que devem ser levados em consideração ao planejar a nutrição do felino com pancreatite, conforme exposto a seguir:
Proteínas
Apesar da necessidade reduzida de proteínas na dieta, recomenda-se o fornecimento de quantidade suficiente para recuperação e reposição de tecidos danificados pela inflamação e auxiliar na prevenção da perda de massa muscular. Dietas que contenham proteína hidrolisada devem ser preferencialmente utilizadas, uma vez que possuem alta digestibilidade e são digeridas mais facilmente.
Além disso, alguns estudos mostram que em dietas muito restritivas em proteína há menor ingestão dos aminoácidos arginina e metionina, limitando a síntese de lipoproteína pelo fígado, aumentando as chances do animal desenvolver lipidose hepática (KLAUS et al; 2009).
Gorduras
Gatos possuem alta capacidade de digerir e utilizar elevadas quantidades de gordura. O mais importante é a qualidade e digestibilidade da gordura do que o seu baixo teor no alimento para essa espécie.
A gordura na dieta não aparenta ser um fator importante de manejo nutricional do paciente felino com pancreatite. Recomenda-se o consumo de níveis moderados de gordura pela dieta (CRIDGE et al., 2025).
Energia
Deve ser adequada para a manutenção dos processos fisiológicos. Gatos podem desenvolver lipidose hepática caso a quantidade de calorias fornecida não esteja adequada para o quadro do animal (KLAUS et al; 2009).
Antioxidantes
Utilização de antioxidantes como vitamina C, vitamina E e vitamina A auxiliam na diminuição do estresse oxidativo das células, aumentando a proteção tecidual, auxiliando também no combate da inflamação (JENSEN et al; 2014).
Alimentos que podem ser indicados no quadro
Para os quadros de pancreatite felina, a primeira indicação é o alimento Gastrointestinal Hydrolysed Protein, uma fórmula que conta com a presença de proteína hidrolisada com baixo peso molecular, oferece alto teor energético, quantidade balanceada de fibras e é capaz de atender ao paladar exigente dos felinos, desenvolvido para compensar a má digestão e reduzir intolerâncias a ingredientes e nutrientes.
Já Hypoallergenic Feline S/O. é outra opção de alimentação, especialmente em casos de reação adversa a alimentos. Ela é formulada com ingredientes como ácidos graxos (EPA/DHA), proteína hidrolisada com baixo peso molecular e carboidratos cuidadosamente selecionados, visando a redução de sensibilidades alimentares que geralmente estão presentes nesses pacientes. Alimento Gastrointestinal Hydrolysed Protein pode ser indicado para gatos com enteropatia inflamatória crônica (DII) Alimento Hypoallergenic Feline

Existe diferença no tratamento da pancreatite em cães e em gatos?
Tanto o tratamento da pancreatite em gatos quanto em cães deve ser baseado na abordagem terapêutica adequada e individualizada. Em ambas as espécies é recomendado terapia de suporte, controle da dor e das náuseas.
A principal diferença está no manejo nutricional do paciente acometido. Cães com pancreatite se beneficiam de uma dieta com baixo teor de gordura, como a Royal Canin® Gastrointestinal Low Fat Small Dog e Gastrointestinal Low Fat Canine. Tal característica não foi evidenciada cientificamente em gatos, sendo, portanto, recomendado o uso de dietas com proteína hidrolisada (CRIDGE et al., 2025).
Perguntas e respostas frequentes sobre pancreatite em gatos
Abaixo, respondemos as principais dúvidas sobre a afecção:
Qual o tratamento para pancreatite em gatos?
O tratamento de gatos com pancreatite inclui fluidoterapia, analgesia, controle de náuseas e manejo nutricional.
Qual antibiótico usar para tratar pancreatite em gatos?
Não é recomendado o uso de antibiótico para tratar a pancreatite em si. Porém, caso haja infecções concomitantes, o antibiótico deverá ser escolhido de forma individual.
Qual exame diagnostica a pancreatite nos gatos?
Os exames de imunorreatividade da lipase pancreática felina e medição da atividade da lipase pelo método DGGR são indicados para traçar o diagnóstico da pancreatite felina, sempre em conjunto com achados clínicos e de outros exames complementares.
Como diferenciar pancreatite aguda de crônica em gatos?
A pancreatite aguda em gatos pode apresentar sinais clínicos como anorexia, vômitos e dor abdominal, enquanto a forma crônica geralmente se manifesta de forma insidiosa, com letargia, perda de peso e anorexia intermitente.
Gato com pancreatite deve comer ração gastrointestinal?
Depende do alimento. Pode ser um indicada uma solução nutricional da linha gastrointestinal, desde que contenha proteína hidrolisada na formulação, como é o caso da Gastrointestinal Hydrolysed Protein, da Royal Canin®.
Gatos com pancreatite devem ser internados?
Devido à importância da reidratação e demais manejos destes pacientes, recomenda-se a internação nos primeiros dias de tratamento.
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Referências:
ALLENSPACH, K. Pancreatite aguda felina. Royal Canin Academy, 2021. Disponível em: https://academy.royalcanin.com/pt/veterinary/acute-feline-pancreatitis. Acesso em: 14 out 2025.
BAZELLE, J.; WATSON, P. Pancreatitis in cats: Is it acute, is it chronic, is it significant? Journal of Feline Medicine and Surgery, v.16, n.5, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24794036/#:~:text=Practical%20relevance%3A%20Pancreatitis%20is%20a,is%20said%20to%20be%20idiopathic. Acesso em: 14 out. 2025.
CRIDGE, H.; PARKER, V.J.; KATHRANI, A. Nutritional management of pancreatitis and concurrent disease in dogs and cats. Journal of the American Veterinary Medical Association, v.262, n.6, 2025. Disponível em: https://avmajournals.avma.org/view/journals/javma/262/6/javma.23.11.0641.xml. Acesso em: 14 out. 2025.
JENSEN, B.K.; CHAN, L.D. Nutritional management of acute pancreatitis in dogs and cats. Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, Sweden, v.24, n.3, 2014. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/24690138/. Acesso em: 14 out. 2025.
KLAUS, A.J.; RUDLOFF, E.; KIRBY, R. Nasogastric tube feeding in cats with suspected acute pancreatitis: 55 cases (2001-2006). Journal of Veterinary Emergency and Critical Care, v. 19, n. 4, 2009. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25164632/. Acesso em: 14 out. 2025.
MANSFIELD, C. The challenges of pancreatitis in cats: a diagnostic and therapeutic conundrum. In: LITTLE, S.E., August’s Consultations in Feline Internal Medicine. St. Louis: Elsevier, volume 7, 2016.
SANTOS, B.G.S.; ANDRADE, J.S. Feline pancreatitis: profile analysis and comorbidities in patients of a veterinary hospital diagnosed in Caxias do Sul-RS between the period of 2021-2022. Research, Society and Development, v.12, n.7, 2023. Disponível em: https://rsdjournal.org/index.php/rsd/article/view/42464. Acesso em: 14 out. 2025.
TILLEY, L.P.; SMITH JR., F.W.K. Consulta Veterinária em 5 Minutos – Espécies canina e felina. São Paulo: Manole, 5 ed., 2014.
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XENOULIS, P.G. Insuficiência pancreática exócrina felina. Royal Canin Academy, 2023. Disponível em: https://academy.royalcanin.com/pt/veterinary/feline-exocrine-pancreatic-insufficiency. Acesso em: 14 out. 2025.

