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Polidipsia em cães e gatos: o que é e como investigar

Polidipsia em cães e gatos: o que é e como investigar
Atualizado em 27 de outubro de 2026
Tempo de leitura: 10min
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A densidade urinária é o primeiro exame da investigação e resolve boa parte dos diferenciais antes de qualquer teste endócrino; veja o protocolo completo em seis etapas.

Este guia prático define polidipsia e poliúria com os respectivos limiares, organiza a investigação em seis etapas e apresenta as causas em ordem de prioridade diagnóstica. Traz também os critérios atuais de indicação do teste de privação hídrica, hoje raramente indicado, e do ensaio com desmopressina, que o substituiu como método de escolha na diferenciação do diabetes insípido. A conduta central é começar pela densidade urinária e pela anamnese medicamentosa, antes de qualquer teste endócrino.

A polidipsia é uma das queixas espontâneas mais frequentes na consulta de pequenos animais, porque é um dos poucos sinais que o responsável percebe sem orientação prévia. Essa mesma característica cria o problema clínico: o sinal chega à clínica com alta sensibilidade e nenhuma especificidade.

O custo de investigar sem ordem é alto. Testes endócrinos solicitados antes da triagem básica produzem resultados falso-positivos, e a abordagem invertida leva a diagnósticos equivocados em pacientes cuja causa estava na anamnese medicamentosa.

O protocolo abaixo organiza a investigação na ordem em que cada exame tem rendimento.

O que é polidipsia?

Polidipsia é o aumento da ingestão hídrica acima dos limiares de referência da espécie: mais de 100 mL/kg/dia em cães e mais de 50 mL/kg/dia em gatos.¹,²

Em animais hígidos a ingestão é variável e sofre influência da temperatura ambiente, da atividade física e, sobretudo, do tipo de alimento. Pacientes alimentados exclusivamente com alimento úmido ingerem menos água livre, e pacientes em alimento seco ingerem mais, sem que isso configure polidipsia.¹ Essa variação precisa ser descontada antes de classificar o sinal.

Polidipsia ou poliúria? Por que a ordem importa

Poliúria é a produção de urina acima de 50 mL/kg/dia.¹,² Os dois sinais quase sempre aparecem juntos, mas a relação causal entre eles define a investigação.

Na maioria dos casos o quadro primário é a poliúria, e a polidipsia é compensatória: o paciente bebe para repor a perda. Na minoria, a polidipsia é primária e a poliúria é a consequência de uma carga hídrica excessiva.²

A distinção tem consequência prática imediata. Polidipsia sem poliúria aponta para perda hídrica extrarrenal, como diarreia, vômito ou ofegação prolongada, e redireciona toda a investigação para fora do trato urinário.⁴

Protocolo de investigação em seis etapas

  1. Confirmar a polidipsia com medição objetiva. Orientar o responsável a medir o volume ofertado e o volume restante por 2 a 3 dias consecutivos, com fonte única de água. Por quê: a percepção de “está bebendo muito” não distingue aumento real de mudança de rotina ou de alimento. Como avaliar: acima de 100 mL/kg/dia em cães ou 50 mL/kg/dia em gatos, a polidipsia está confirmada.¹,²;
  2. Revisar histórico medicamentoso e reprodutivo antes de qualquer exame. Investigar uso de glicocorticoides, diuréticos e fenobarbital, e registrar status reprodutivo e data do último cio em fêmeas inteiras. Por quê: as causas medicamentosas são dose-dependentes e reversíveis, e a piometra é emergência que a anamnese sugere sozinha.⁴
    Como avaliar: quando possível, suspender ou reduzir o fármaco e reavaliar antes de prosseguir.⁴;
  3. Densidade urinária como primeiro exame. Colher urina preferencialmente da primeira micção do dia, antes de qualquer fluidoterapia. Por quê: a densidade informa a capacidade de concentração renal e é o exame de maior rendimento por custo em toda a investigação. Como avaliar: densidade acima de 1.030 em cães e 1.035 em gatos indica capacidade de concentração preservada e torna improvável a maioria dos diferenciais renais e endócrinos; a faixa de isostenúria, entre 1.008 e 1.012, indica perda dessa capacidade.¹,²,⁴;
  4. Triagem laboratorial dirigida. Hemograma, bioquímica sérica com ureia, creatinina, glicose, enzimas hepáticas, cálcio total e ionizado, eletrólitos, e urinálise completa com cultura quando houver suspeita de pielonefrite. Por quê: identifica diabetes mellitus, doença renal crônica, hipercalcemia, hepatopatia e distúrbios eletrolíticos sem recorrer a teste endócrino.⁴
    Como avaliar: a glicosúria surge quando a glicemia ultrapassa aproximadamente 200 mg/dL em cães e 250 mg/dL em gatos, e é esse excesso de soluto filtrado que produz a diurese osmótica.⁸;
  5. Testes endócrinos, somente após a triagem. Em cães, investigar hiperadrenocorticismo; em gatos idosos, dosar T4 total. Por quê: nenhum dos testes de triagem ou de diferenciação do hiperadrenocorticismo é perfeito, e a suspeita precisa partir do histórico e do exame físico, não do sinal isolado.⁷
    Como avaliar: resultado positivo em paciente sem sinais compatíveis deve ser lido como provável falso-positivo, e não como diagnóstico.⁷;
  6. Diferenciação do diabetes insípido, por último. Ensaio terapêutico com desmopressina em paciente com todos os demais diferenciais excluídos. Por quê: diabetes insípido e polidipsia primária são diagnósticos de exclusão e os menos prevalentes do conjunto.⁴ Como avaliar: o efeito deve ser avaliado após 5 a 7 dias de tratamento, intervalo necessário para reverter o washout medular, com acesso livre à água durante todo o período.⁶
Figura 1. Fluxograma de abordagem diagnóstica à poliúria e polidipsia em cães e gatos, da confirmação do sinal à diferenciação do diabetes insípido. Fonte: Today’s Veterinary Practice, A Stepwise Diagnostic Approach to Polyuria and Polydipsia.
Figura 1. Fluxograma de abordagem diagnóstica à poliúria e polidipsia em cães e gatos, da confirmação do sinal à diferenciação do diabetes insípido. Fonte: Today’s Veterinary Practice, A Stepwise Diagnostic Approach to Polyuria and Polydipsia.

Quais causas priorizar na investigação

OrdemGrupoExemplosPor que investigar primeiro
1MedicamentosaGlicocorticoides, diuréticos, fenobarbitalDose-dependente e reversível; identificada apenas pela anamnese
2EmergencialPiometra em fêmea inteiraRisco de morte; endotoxinas de E. coli interferem na resposta tubular ao ADH
3Endócrina prevalenteDiabetes mellitus, hiperadrenocorticismo (cão), hipertireoidismo (gato idoso)Maior prevalência na faixa etária típica da queixa
4RenalDoença renal crônica, pielonefriteAlta prevalência no idoso; a densidade urinária já orienta a triagem
5Metabólica e eletrolíticaHipercalcemia, hipocalemia, hepatopatia, hipoadrenocorticismoApontadas pela bioquímica da etapa 4
6Diabetes insípido e polidipsia primáriaCentral, nefrogênico, polidipsia psicogênicaDiagnósticos de exclusão, os menos prevalentes

 

Sobre o hiperadrenocorticismo, a classificação que o campo adota é por origem, e não pelo eixo primário/secundário, aplicado de forma contraditória na literatura: hipófise-dependente, responsável por 80% a 85% dos casos; adrenal-dependente, por 15% a 20%; e iatrogênico, por administração exógena de glicocorticoides.⁷ Em qualquer das formas, o excesso de cortisol compromete a ação do ADH no túbulo renal e produz poliúria com polidipsia compensatória.²

Sobre o diabetes mellitus, a classificação em insulinodependente e não insulinodependente saiu de uso. A distinção relevante na clínica é outra: cães praticamente sempre dependem de insulina desde o diagnóstico, e a maioria dos gatos também requer insulinoterapia, ainda que a remissão seja possível com manejo dietético e controle de peso adequados.⁸

Quando o teste de privação hídrica está indicado — e quando não está

Este é o ponto do protocolo com maior potencial de dano, e vale separá-lo.

O teste de privação hídrica não é um teste de função renal. Ele avalia a liberação de vasopressina em resposta à desidratação e a resposta renal a esse estímulo, e serve apenas para diferenciar diabetes insípido central, diabetes insípido nefrogênico e polidipsia primária.

Três pontos definem a conduta atual:

  • Deixou de ser o método de escolha. Historicamente o diagnóstico se apoiava no teste de privação hídrica e na resposta à administração de ADH; o método de escolha passou a ser o ensaio terapêutico com desmopressina⁵;
  • É raramente indicado, e as contraindicações vão além da doença renal. O teste nunca deve ser realizado em paciente com azotemia preexistente, hipernatremia ou desidratação evidente ao exame físico⁴;
  • Os riscos não são teóricos. O procedimento é demorado e está associado a desidratação grave, hipernatremia e morte⁶.

O ensaio com desmopressina também tem limites. Não deve ser realizado em paciente hiponatrêmico, e o acesso à água deve permanecer livre durante todo o período, porque pacientes com diabetes insípido nefrogênico não respondem e desidratam rapidamente.⁴

Considerações adicionais

No gato. O hipertireoidismo é diferencial obrigatório no paciente idoso e não entra na triagem inicial do cão.⁴ O limiar de polidipsia é mais baixo, e a ingestão hídrica do gato em alimento úmido pode mascarar o aumento.

Polidipsia psicogênica. É diagnóstico de exclusão e, no cão, costuma associar-se a alteração de rotina, confinamento ou ansiedade. A suspeita só se sustenta após a exclusão dos demais diferenciais, e o paciente mantém capacidade de concentrar a urina quando o acesso à água é controlado sob supervisão.²

Sinais de alerta que mudam a conduta imediatamente: fêmea inteira com polidipsia e secreção vulvar ou letargia; polidipsia com perda de peso e apetite preservado; azotemia com isostenúria; hipercalcemia; e desidratação ao exame físico em paciente poliúrico. Em qualquer deles, deve-se interromper a investigação ambulatorial e tratar como quadro agudo.

Manejo nutricional e hídrico

O manejo hídrico integra o protocolo, e não o substitui. O aumento da oferta de água e o estímulo à ingestão são conduta de suporte em pacientes com doença renal crônica, urolitíase e diabetes insípido nefrogênico, nos quais a poliúria é obrigatória e a restrição hídrica é contraindicada.

Estratégias com efeito demonstrável na rotina:

  • Alimento úmido – a maior proporção de água na composição aumenta a ingestão hídrica total em relação ao alimento seco;
  • Fontes múltiplas de água – distribuídas e afastadas do local de alimentação, conduta especialmente relevante no felino;
  • Água corrente – fontes com circulação aumentam o consumo voluntário em parte dos gatos;
  • Monitoramento objetivo – manter a medição do volume ingerido como parâmetro de acompanhamento, não apenas como instrumento diagnóstico.

Produtos e recursos disponíveis

A ROYAL CANIN® dispõe de uma linha de alimentos úmidos para cães e gatos, com apresentações por fase de vida e por condição clínica.

Os alimentos úmidos apresentam proporção elevada de água na composição e constituem recurso para aumentar a ingestão hídrica total de pacientes nos quais o estímulo ao consumo de água integra o manejo. A linha veterinária conta com apresentações úmidas formuladas para condições específicas, incluindo suporte renal e urinário.

É importante enfatizar que o médico-veterinário é o melhor profissional para estipular o manejo mais adequado e individualizado para cada paciente diagnosticado.

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Diante de polidipsia, a sequência que resolve a maior parte dos casos é anterior a qualquer teste endócrino: confirmar o sinal por medição, revisar a anamnese medicamentosa e reprodutiva, e colher densidade urinária. As três etapas custam pouco e eliminam a maioria dos diferenciais.

Dois pontos merecem incorporação à rotina. O primeiro é que teste endócrino solicitado antes da triagem produz falso-positivo com frequência suficiente para gerar diagnóstico equivocado, e a suspeita precisa partir do quadro clínico.⁷ O segundo é que o teste de privação hídrica é raramente indicado, nunca é teste de função renal e está contraindicado em azotemia, hipernatremia e desidratação; o ensaio com desmopressina o substituiu como método de escolha.⁵,⁶

Referências

  1. SHIEL, R. Polyuria and Polydipsia. In: ETTINGER, S.J.; FELDMAN, E.C. Textbook of Veterinary Internal Medicine, 8ª ed. Elsevier Saunders, 2017. 
  2. NELSON, R.W.; COUTO, C.G. Small Animal Internal Medicine, 6ª ed. Elsevier, 2019. 
  3. HAGMAN, R. Pyometra in Small Animals. Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice, v.48, n.4, p.639-661, 2018. 
  4. TODAY’S VETERINARY PRACTICE. A Stepwise Diagnostic Approach to Polyuria and Polydipsia. 
  5. MERCK VETERINARY MANUAL (MSD). Endocrine System — Diabetes Insipidus in Animals; Urinary System.
  6. CLINICIAN’S BRIEF. Central Diabetes Insipidus.
  7. BEHREND, E.N.; KOOISTRA, H.S.; NELSON, R.; REUSCH, C.E.; SCOTT-MONCRIEFF, J.C. Diagnosis of Spontaneous Canine Hyperadrenocorticism: 2012 ACVIM Consensus Statement (Small Animal). Journal of Veterinary Internal Medicine, v.27, n.6, p.1292-1304, 2013.
  8. AAHA DIABETES MANAGEMENT GUIDELINES FOR DOGS AND CATS. Journal of the American Animal Hospital Association, 2018, com atualizações de 2022. DOI 10.5326/JAAHA-MS-6822.
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