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Febre maculosa (Rickettsia): entenda o ciclo da doença e como proteger gatos e cães

Febre maculosa (Rickettsia): entenda o ciclo da doença e como proteger gatos e cães
Atualizado em 30 de abril de 2025
Tempo de leitura: 13min
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A Febre Maculosa é uma zoonose grave, de caráter multissistêmico, que pode afetar diversas espécies de mamíferos. Conheça as características da doença e saiba como orientar os tutores de pet.

A Febre Maculosa é uma doença endêmica em várias regiões do Brasil. Seu agente etiológico pode acometer animais de todas as espécies – cães, gatos e, inclusive, humanos – promovendo uma séria afecção, cujo prognóstico está diretamente relacionado ao diagnóstico assertivo e à instituição do tratamento precoce.

Como um dos profissionais diretamente relacionado à saúde pública, o papel do médico-veterinário vai além de cuidar de um animal enfermo. É importante que ele entenda todos os aspectos da Febre Maculosa, a transmissão da doença e o desenvolvimento do quadro de sinais clínicos para orientar os tutores de animais de estimação e ajudar a conscientizar a população em geral sobre as medidas preventivas eficazes para evitar a doença.

O que é Febre Maculosa?

Febre Maculosa é uma doença infectocontagiosa de caráter zoonótico de notificação obrigatória às autoridades locais de saúde (PORTARIA Nº 264 do Ministério da Saúde, de 17 de fevereiro de 2020), cuja investigação epidemiológica deve-se iniciar em até 48 horas após a notificação.

Causada por bactérias gram-negativas do gênero Rickettsia, como a Rickettsia rickettsii e a Rickettsia parkeri, a Febre Maculosa é transmitida aos mamíferos através da picada de carrapatos infectados. Assim, pode-se desenvolver uma doença febril aguda com sinais clínicos inespecíficos, que acomete vários sistemas do organismo.

Qual carrapato transmite Febre Maculosa (Rickettsia)?

A transmissão da Febre Maculosa no Brasil está relacionada à picada de carrapatos do gênero Amblyomma, sendo as espécies A. sculptum (conhecida como carrapato estrela, antigo Amblyomma cajennense), A. aureolatum e A. ovale as de maior importância na inoculação da doença.

O Amblyomma caracteriza-se por fazer seu repasto sanguíneo em diversas espécies de hospedeiros, como equinos, bovinos, caprinos, suínos, roedores silvestres (como Hydrochaeris hydrochaeris – capivaras), cães, gatos, marsupiais (como Didelphis sp – gamba) e primatas, inclusive o homem.

Segundo MORAES-FILHO (2017), o A. sculptum é encontrado nos biomas do Cerrado, no Pantanal e em áreas degradadas da Mata Atlântica, nos estados da região Sudeste e Centro-Oeste, na Bahia, no Paraná e em Santa Catarina.

O A. aureolatum é encontrado nas regiões de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e no Sul do Brasil, preferencialmente na Floresta Pluvial Atlântica. Essas duas espécies são responsáveis pela transmissão da R. rickettsii, agente etiológico patogênico de maior importância, capaz de promover a Febre Maculosa de maior gravidade.

Já o A. ovale, conforme descrito por FACCINI-MARTINEZ et. al. (2018), está presente nas áreas de Mata Atlântica nas regiões Sul, Sudeste e Nordeste, e é responsável pela transmissão da R. parkeri, que causa a Febre Maculosa com manifestações clínicas menos graves quando comparada à Rickettsia anteriormente citada.

Confira, a seguir, as três principais espécies do carrapato vetor da Febre Maculosa.

Principais espécies do carrapato vetor da Febre Maculosa
Figura 1: 1) Amblyomma sculptum; 2) Amblyomma aureolatum; 3) Amblyomma ovale. Fonte: MORAES-FILHO, 2017.

O carrapato do cão (Rhipicephalus sanguineus) pode transmitir a doença?

Qualquer espécie de carrapato pode potencialmente abrigar a Rickettsia e, consequentemente, transmitir a Febre Maculosa. Dessa forma, o Rhipicephalus sanguineus, carrapato do cão, também pode ser caracterizado como vetor, desde que esteja infectado por essa bactéria. E ainda locais infestados por R. sanguineus também podem representar áreas de risco de contrair essa afecção.

Entendendo o ciclo da doença e como ocorre a transmissão

A manutenção do ciclo de vida da Rickettsia depende do carrapato, considerado reservatório e amplificador do parasita, através da transmissão transovariana, transestadial (entre as mudas) e quando o carrapato se infecta durante a fase de vida parasitária ao picar um hospedeiro afetado com Febre Maculosa. Os carrapatos mantêm-se infectados por toda sua vida, que geralmente dura de 18 a 36 meses.

Então, o vetor portador da Rickettsia inocula esse parasita em um hospedeiro suscetível, durante seu repasto sanguíneo. Para que a transmissão efetiva da Febre Maculosa aconteça, o Amblyomma precisa permanecer fixado no animal por um período mínimo, que pode variar de 10 minutos até 6 horas.

Após a inoculação, a bactéria invade o endotélio vascular, multiplicando-se, podendo desencadear hemorragia microvascular, trombocitopenia, permeabilidade vascular aumentada e, até mesmo, vasculite disseminada em diferentes órgãos e tecidos.

Veja o ciclo da Febre Maculosa de forma didática no esquema abaixo:

Ciclo da febre maculosa

O período de incubação (entre a infecção e o aparecimento dos sinais clínicos) da Febre Maculosa pode variar de 2 a 14 dias. Adicionalmente, a afecção apresenta uma sazonalidade, tendo maior incidência nos meses de junho a setembro, e pode acometer todos os animais (equinos, bovinos, caprinos, suínos, roedores, aves, cães, gatos, marsupiais e primatas), inclusive o homem.

Os equinos, as capivaras e os gambás são considerados hospedeiros mamíferos amplificadores, ou seja, são animais susceptíveis à infecção por Rickettsia que mantêm níveis sanguíneos da bactéria suficientes para causar a contaminação de carrapatos que nele se alimentem. Daí a importância em conscientizar a população a não manter muita proximidade com esses animais em regiões nas quais o Amblyomma possa ser encontrado.

Também é importante alertar que não há transmissão da Febre Maculosa diretamente entre os animais ou entre os animais e os humanos, pois essa doença é transmitida exclusivamente por seus vetores, os carrapatos.

Principais áreas endêmicas de Febre Maculosa no Brasil

A partir da década de 1980, observou-se o crescimento do número de casos de Febre Maculosa, assim como o aumento das áreas de transmissão. Dessa forma, essa doença tornou-se um problema impactante para a saúde pública do Brasil.

As áreas endêmicas caracterizam-se por apresentarem condições propícias para a manutenção do ciclo de vida do carrapato vetor, principalmente da espécie Amblyomma. Nelas também há presença abundante de hospedeiros amplificadores.

Portanto, hoje, a Febre Maculosa é endêmica em várias regiões do país. Em 2024, foram confirmados 513 casos da doença em humanos, dos quais 392 eram da região Sudeste (MINISTÉRIO DA SAÚDE, s.d.). Sendo assim, alguns dos estados brasileiros mais afetados por essa enfermidade são:

  • São Paulo;
  • Minas Gerais;
  • Rio de Janeiro;
  • Santa Catarina.

No mapa abaixo podemos, ainda, evidenciar a taxa de letalidade da Febre Maculosa em cada estado brasileiro (MINISTÉRIO DA SAÚDE, s.d.):

Letalidade da Febre Maculosa em cada estado brasileiro
Figura 2: Taxa de letalidade da Febre Maculosa por região/UF no período de 2014 a 2024. Fonte: MINISTÉRIO DA SAÚDE, s.d.

Vale ressaltar que, além dos animais sentinelas para Febre Maculosa já conhecidos (a capivara e os equinos), o cão pode ser um animal de extrema importância para compreensão da epidemiologia, bem como para a prevenção de zoonoses transmitidas por carrapatos.

O exame dos caninos em áreas sob avaliação indicará muitas das espécies de carrapatos prevalentes na região, assim como a exposição a Rickettsias por meio da sorologia.

Para maiores informações, acesse o site do Ministério da Saúde do Brasil.

Como a Febre Maculosa acomete os mamíferos

A Febre Maculosa é uma zoonose que acomete diversas espécies de mamíferos, inclusive cães, gatos e humanos. Apesar de compartilharem a suscetibilidade à doença, as manifestações clínicas podem ser distintas, como será abordado detalhadamente a seguir.

Febre Maculosa em animais mamíferos (gatos e cães)

A Febre Maculosa em gatos e cães pode ser clínica ou subclínica. Ao atingir o interior dos vasos sanguíneos, a Rickettsia, parasita intracelular obrigatório, começa a se reproduzir, levando ao desenvolvimento de sinais clínicos como:

  • prostração;
  • anorexia;
  • febre;
  • edema de extremidades, inclusive dos lábios, escroto, prepúcio e orelhas;
  • mialgia e dor articular;
  • epistaxe;
  • petéquias/equimoses (hematomas);
  • linfonodomegalia generalizada.

Com a evolução do quadro de Febre Maculosa, pode-se observar o agravamento do paciente, a partir do acometimento do sistema respiratório (tosse, dispneia), do sistema nervoso (disfunção vestibular, convulsões, coma) e do sistema cardiovascular (arritmias, vasculite, hipotensão, CID, choque).

Febre Maculosa em seres humanos

De forma análoga às manifestações clínicas da febre Maculosa em cães e gatos, acontecem os sinais clínicos nos humanos, que podem desenvolver:

  • febre;
  • cefaleia intensa;
  • mialgia;
  • inapetência;
  • letargia;
  • náuseas/vômitos;
  • exantema nos punhos e tornozelos, que se alastra para todo o corpo;
  • edema de pés e mãos.

Em casos mais avançados da Febre Maculosa em humanos, também podemos observar comprometimento respiratório (insuficiência respiratória aguda), renal (insuficiência renal aguda), neurológico (meningite, encefalite), vascular e hepático.

Atendi um animal com suspeita de Febre Maculosa, e agora?

Diante de um cão ou gato (e até mesmo outros mamíferos) com sinais clínicos suspeitos para Febre Maculosa, é importante que o médico-veterinário faça uma anamnese minuciosa, com intuito de investigar se o animal vive em uma região endêmica, se frequentou ou viajou para uma área de risco de contágio, se apresenta uma infestação por carrapatos e se teve algum contactante que viva ou tenha tido contato com áreas endêmicas.

Em conjunto, um exame clínico detalhado é importante para a posterior requisição dos exames complementares, tanto de exames que ajudam a elucidar o estado de saúde geral do paciente (hemograma, bioquímico e urinálise) como a solicitação do exame específico para fechar o diagnóstico de Febre Maculosa.

Principais alterações encontradas em exames de gatos e cães com Febre Maculosa

Os exames complementares inespecíficos, como hemograma, bioquímico e urinálise, não fecham diagnóstico da Febre Maculosa em cães e gatos, mas podem revelar algumas alterações importantes como:

  • trombocitopenia;
  • aumento moderado da ALT (alanina aminotransferase);
  • hipoalbuminemia;
  • proteinúria;
  • hematúria.

Exame específico para Rickettsia em gatos e cães

Para o diagnóstico definitivo de Febre Maculosa e instituição do tratamento específico para o paciente, o profissional deve solicitar a realização do teste de pesquisa de anticorpos para Rickettsia, pela Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI) ou da PCR (Reação em Cadeia Polimerase).

Tratamento para Rickettsia em gatos e cães

A Febre Maculosa pode ser tratada com sucesso quando for diagnosticada precocemente e o tratamento com antibioticoterapia adequada (doxiciclina) for instituído.

Portanto, é importante que os tutores de pets, inclusive dos silvestres, estejam atentos a qualquer alteração comportamental que possa estar relacionada aos sinais clínicos da enfermidade, principalmente quando há ou houve exposição a áreas de risco/endêmicas.

A terapêutica apropriada e imediata é um fator determinante para um bom prognóstico e para a diminuição da letalidade, geralmente levando à recuperação completa.

A Febre Maculosa desenvolve uma imunidade sólida e duradoura nos indivíduos que se recuperam, prevenindo-os de novas infecções pela mesma bactéria (MORAES-FILHO, 2017).

A importância da anamnese profunda e detalhada durante a consulta veterinária

A anamnese é uma etapa essencial em qualquer consulta veterinária, funcionando como a base para a compreensão do histórico clínico do paciente e para o direcionamento adequado da suspeita clínica, dos exames e, consequentemente, do tratamento do paciente.

Mesmo em consultas de rotina e realização de checkups, uma anamnese detalhada é indispensável, pois muitas afecções possuem períodos de incubação ou latência prolongados, assim como a Febre Maculosa, podendo passar despercebidas em avaliações superficiais.

Perguntas detalhadas devem incluir se o pet já viajou no passado ou se tem o hábito de viajar, se frequenta praias ou áreas rurais, e quais cidades costuma visitar. Essas informações são cruciais, pois algumas doenças possuem distribuição geográfica específica, como a Febre Maculosa e a dirofilariose, que estão associadas a regiões endêmicas e à exposição a seus respectivos vetores.

Outro ponto importante é a verificação dos protocolos de controle de ectoparasitas. O médico-veterinário deve perguntar qual produto é utilizado, qual o intervalo de aplicação, e se já houve falhas na eficácia no passado, independentemente do tempo transcorrido. Essas informações ajudam a identificar possíveis resistências ou lacunas no manejo, que podem predispor o animal a importantes doenças.

A prevenção é a melhor escolha! Saiba como orientar a população e tutores de pets!

A fase não parasitária dos carrapatos – período em que ocorre a postura dos ovos no ambiente, a eclosão das larvas, as mudas entre os estágios de desenvolvimento e a busca pelo próximo hospedeiro – corresponde a cerca de 90% do ciclo de vida do ixodídeo. Portanto, o manejo ambiental exerce um importante papel no controle da proliferação das espécies de Amblyomma.

Veja os detalhes sobre o ciclo do carrapato:

ciclo do carrapato

Dessa forma, tentar eliminar condições ambientais adequadas para o carrapato relacionado à Febre Maculosa, assim como limitar o acesso de hospedeiros a esses locais, promove o declínio no número de vetores e a prevenção de novas infecções.

No entanto, outras atividades para prevenção devem ser instituídas, como a orientação da população sobre as regiões endêmicas para Febre Maculosa e divulgação de medidas de proteção individuais, como o uso de EPIs (botas, calças e camisas compridas, preferencialmente de cores claras) e repelentes.

Entre os animais domésticos, deve-se dar atenção especial aos que possam ter acesso a áreas de vegetação circunjacentes, inclusive em viagens, e seguir a mesma linha de orientação: restringir o acesso às matas e evitar/controlar infestações por carrapatos. Os pets podem ainda utilizar produtos ou coleiras específicos, conforme prescrição do médico-veterinário.

Mesmo adotando as medidas anteriores, vale ressaltar que o tutor deve fazer uma inspeção minuciosa, nele e em seu animal, caso tenham se submetido a áreas com risco de contágio e presença de carrapatos. E quando os vetores forem encontrados aderidos ao corpo, a remoção deve ser feita de forma cuidadosa, com o auxílio de uma pinça, evitando esmagar o vetor.

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Referências:

BRASIL, J.; ANGERAMI, R.N.; DONALISIO, M.R. Factors associated with the confirmation and death for Brazilian spotted fever in an important endemic area of the State of São Paulo, 2007-2021. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., v.57, 2024. Acesso em: 24 jan. 2025.

DONALISIO, M.R. et al. Mapping Brazilian spotted fever: Linking etiological agent, vectors, and hosts. Acta Tropica, v.207, 2020. Acesso em: 24 jan. 2025.

FACCINI-MARTINEZ, A.A.; OLIVEIRA, S.V.; CERUTTI JUNIOR, C.; LABRUNA, M.B. Febre Maculosa por Rickettsia parkeri no Brasil: condutas de vigilância epidemiológica, diagnóstico e tratamento. Journal of Health and Biological Sciences, v. 6, i. 3, 2018. Acesso em: 24 jan. 2025.

FERREIRA, V. O que é a febre maculosa, doença que está provocando óbitos em SP? Instituto Oswaldo Cruz, 2023. Acesso em: 24 jan. 2025.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Febre Maculosa. Acesso em: 24 jan. 2025.

MORAES-FILHO, J. Febre maculosa brasileira. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, v.15, n.1, p. 38-45, 1 jan. 2017. Acesso em: 24 jan. 2025.

OTOMURA, F.H. et. al. Anticorpos anti-rickettsias do grupo da febre maculosa em equídeos e caninos no norte do Estado do Paraná, Brasil. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.62, i.3, 2010. Acesso em: 24 jan. 2025.

SECRETARIA DA SAÚDE DO ESTADO DO PARANÁ. Febre Maculosa. Acesso em: 24 jan. 2025.

VARELLA, D; FUNDAÇÃO OSWALDO CRUZ. Febre Maculosa Brasileira. Biblioteca Virtual em Saúde – Ministério da Saúde, 2018. Acesso em: 24 jan. 2025.

WALKER, D.H.; ISMAIL, N. Emerging and re-emerging rickettsioses: endothelial cell infection and early disease events. Nat. Rev. Microbiol., v.6, i.5, 2008. Acesso em: 24 jan. 2025.

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