Parvovirose canina: saiba como diagnosticar, tratar e prevenir a doença
Links rápidos:
- O que é a parvovirose canina?
- Compreendendo a ação do parvovírus canino: conheça as 3 fases da doença
- O que causa parvovirose em cães: principais fatores desencadeantes
- Principais sinais clínicos de parvovirose em cães
- Diagnóstico da parvovirose canina e a importância de descartar outras doenças
- Como é feito o tratamento da parvovirose canina?
- Formas de prevenção da parvovirose canina
A parvovirose canina é uma doença sistêmica grave com sinais clínicos gastroentéricos, que afeta principalmente filhotes. Entenda como abordar o paciente acometido por essa enfermidade!
A parvovirose canina apresenta distribuição mundial e, apesar dos avanços na vacinação, o controle e a prevenção continuam sendo desafiadores para médicos-veterinários e tutores de cães. A relevância da doença é evidenciada devido ao alto potencial de propagação do vírus e sua gravidade, podendo apresentar alto índice de mortalidade e morbidade.
Ter um diagnóstico assertivo e estabelecer o tratamento adequado são fatores imprescindíveis para que o paciente tenha sua saúde restabelecida, já que a taxa de sobrevivência dos animais com tratamento correto pode chegar a 95% dos casos (MELO et al., 2021).
O que é a parvovirose canina?
A parvovirose canina é uma enfermidade altamente infectocontagiosa, causada pelo Canine parvovirus tipo 2 (CPV-2), um vírus DNA fita simples não envelopado pertencente à família Parvoviridae.
O parvovírus canino tipo 2 tem predileção por células em intensa atividade mitótica, como as do epitélio intestinal. Logo, a infecção cursa com necrose do epitélio intestinal, levando à destruição das vilosidades, comprometimento da barreira mucosa e translocação bacteriana, o que predispõe a infecções bacterianas secundárias, endotoxemia e sepse.
A parvovirose canina possui alta taxa de mortalidade, acometendo com maior frequência cães filhotes entre 6 semanas e 4 meses de idade, especialmente os não vacinados ou oriundos de mães não imunizadas. Animais imunossuprimidos ou em condições de estresse também apresentam maior suscetibilidade à infecção, em virtude do comprometimento do sistema imunológico (MARIGA et al., 2022).
Evolução e mutação da parvovirose canina no Brasil
O parvovírus canino do tipo 1 (CPV-1) foi detectado em alguns cães por volta da década de 70. As análises filogenéticas apontaram uma íntima relação com o vírus da parvovirose felina, também conhecida como panleucopenia felina. Nessa época, os animais acometidos podiam apresentar alguma dificuldade respiratória leve e, até mesmo, sofrerem eventuais abortos no caso de fêmeas prenhes (SANTANA et al, 2019).
As hipóteses sobre o surgimento do parvovírus canino tipo 2 (CPV-2) sugerem que provavelmente houve uma mutação do vírus da panleucopenia felina e adaptação ao novo hospedeiro canino. Entretanto, as variantes antigênicas CPV-2a e CPV-2b emergiram na década de 80, substituindo o subtipo primário CPV-2, que está mais associado aos quadros graves de enterite hemorrágica (SANTANA et al, 2019).
Com o passar do tempo, mais variantes virais se manifestaram, como a CPV-2c e outras, fato que torna o parvovírus canino extremamente resistente (MELO et al, 2021).
No Brasil, a disseminação da doença na população canina ocorreu na década de 80, sendo que o primeiro caso canino foi diagnosticado e identificado na cidade de Campinas, em São Paulo. Atualmente, acredita-se que os tipos CPV-2b e CPV-2c sejam os parvovírus responsáveis pela maioria dos casos de Parvovirose Canina no país (MELO et al, 2021; SANTANA et al, 2019).
Os gatos também pegam parvovírus? Veja as diferenças da parvovirose felina
Os gatos podem pegar parvovírus, mas trata-se de um tipo diferente aquele que afeta o cão.
A parvovirose felina, mais conhecida como panleucopenia felina, é considerada uma doença altamente contagiosa, causada pelo vírus da panleucopenia felina, outro parvovírus pertencente à família Parvoviridae (FONSECA, 2019).
O vírus da panleucopenia felina caracteriza-se por também infectar células de rápida multiplicação, com predileção para as células da medula óssea e do epitélio intestinal, causando supressão da medula óssea e sinais clínicos gastrointestinais.
Resumindo, as doenças de pacientes felinos e caninos são causadas por vírus distintos e, portanto, a parvovirose de cão não pega em gato.
Compreendendo a ação do parvovírus canino: conheça as 3 fases da doença
Do ponto de vista clínico e patofisiológico, a infecção pelo parvovírus canino tipo 2 pode ser compreendida em três fases distintas. A identificação dessas fases é fundamental para que o médico-veterinário estabeleça qual método de diagnóstico será capaz de detectar a infecção, possibilitando a adoção de medidas terapêuticas direcionadas.
1. Fase de incubação
O período de incubação do parvovírus canino geralmente ocorre entre 4 e 14 dias. Aqui, o animal acometido ainda não apresenta manifestações clínicas.
Nessa fase, o PCR em fezes pode de detectar o DNA viral, mas também pode apresentar resultado falso negativo.
2. Fase de replicação
Após o período de incubação, temos a fase de replicação. Inicialmente, a multiplicação do parvovírus acontece nas tonsilas faríngeas, e ele se dissemina por todo o sistema linfático e circulatório do animal, afetando diversos órgãos, como timo, baço, fígado, medula óssea e criptas intestinais. A estrutura do epitélio intestinal pode ser, visualmente, a mais prejudicada, sendo a região das criptas a mais afetada.
O PCR fecal pode, ocasionalmente, detectar material genômico viral, mas a sensibilidade é limitada.
3. Fase de viremia
A fase de viremia da Parvovirose Canina pode ocorrer em um intervalo de 3 a 5 dias pós-infecção, e os animais acometidos já podem disseminar o vírus através das fezes, antes mesmo do aparecimento dos sinais clínicos. Essa eliminação fecal pode ter durabilidade superior a 10 dias (SANTANA et al., 2019).
O paciente pode apresentar sinais clínicos, como veremos a seguir. O hemograma pode revelar leucopenia leve a moderada (linfopenia e neutropenia) e evidenciar anemia arregenerativa.
Nesse período, o diagnóstico pode ser obtido pelo ELISA, que detecta a presença de antígenos virais nas fezes do cão. No entanto, para confirmar casos duvidosos, é indicado o PCR em tempo real (RT-PCR) em sangue.
O que causa parvovirose em cães: principais fatores desencadeantes
Como já vimos, a parvovirose em cães é causada pelo vírus Canine parvovirus tipo 2 (CPV-2). Além disso, trata-se de uma é altamente contagiosa, e a transmissão ocorre por via oronasal e por meio de fezes, ambientes contaminados e fômites (MARIGA et al, 2022).
O período neonatal, logo após o desmame, geralmente é o de maior susceptibilidade dos cães para a parvovirose canina e outras doenças, como as parasitárias (SANTANA et al, 2019).
E alguns fatores ambientais, de manejo e até genéticos podem ser apontados como desencadeantes da parvovirose em cães. Saiba mais a seguir.
Protocolo de vacinação inadequado ou ausente
Animais não vacinados, que não receberam o protocolo vacinal completo ou que receberam vacinas em período atrasado ou de qualidade duvidosa podem ser mais susceptíveis a contrair o parvovírus canino e desenvolver a Parvovirose Canina.
O transporte incorreto das vacinas e/ou o armazenamento inadequado também podem interferir no sucesso do protocolo vacinal, tornando o animal mais suscetível à infecção.
Outro aspecto crítico frequentemente negligenciado na rotina veterinária é a vacinação de animais sem adequada avaliação clínica prévia. A aplicação de vacinas em animais clinicamente debilitados, imunossuprimidos ou com infecções subclínicas pode desencadear eventos adversos ou agravar quadros patológicos latentes.
Falhas na soroconversão da vacina
A soroconversão é o processo pelo qual o sistema imunológico do animal responde à vacinação com a produção de anticorpos específicos em níveis protetores. No entanto, esse processo depende de uma série de variáveis intrínsecas e extrínsecas que podem comprometer o sucesso da imunização, mesmo quando as boas práticas de vacinação são seguidas.
Por isso, apesar da ampla eficácia das vacinas disponíveis contra o parvovírus canino, um paciente corretamente vacinado também possui o risco de desenvolver Parvovirose Canina.
Influência genética: algumas raças de cães podem ter maior predisposição ao parvovírus
Algumas raças de cães podem ter maior predisposição genética à Parvovirose Canina, como (MELO et al., 2021):
- Dobermann;
- American Pit Bull Terrier;
- Pastor Alemão;
- Labrador Retriever;
- Rottweiler.
Principais sinais clínicos de parvovirose em cães
Dentre os principais sinais clínicos observados no cachorro com parvovirose estão:
- melena/hematoquezia;
- febre;
- êmese;
- diarreia;
- necrose linfoide dos tecidos afetados (linfonodos periférico, timo e baço);
- anorexia ou hiporexia;
- emagrecimento;
- sialorréia;
- caquexia;
- dor à palpação abdominal;
- polidipsia, oligodipsia ou adipsia;
- prolapso retal;
- letargia, depressão ou prostração;
- lesões devido ao processo inflamatório;
- desidratação.
Diagnóstico da parvovirose canina e a importância de descartar outras doenças
O diagnóstico da Parvovirose Canina deve ser conduzido com critério, especialmente em filhotes ou cães jovens que apresentam sinais gastrointestinais agudos.
Portanto, além de compreender as fases da doença, como já destacamos, e seguir com os exames adequados, é fundamental que o médico-veterinário descarte outras enfermidades que apresentam sintomatologia semelhante. Dentre elas, podemos citar:
- cinomose canina (fase digestiva);
- coronavirose canina;
- gastroenterites bacterianas;
- parasitoses gastrointestinais;
- intoxicações alimentares ou químicas;
- pancreatite;
- obstruções intestinais (corpos estranhos).
Assim, ao atender um paciente com suspeita de contaminação por parvovírus, o profissional pode solicitar exames de triagem como hemograma completo, bioquímica sérica, ultrassonografia abdominal, exame coproparasitológico e/ou radiografias abdominais para ter uma melhor compreensão do caso.
Lembrando que a confirmação da parvovirose se dá através do teste rápido do tipo imunocromatográfico (ELISA fecal) ou do PCR fecal ou sanguíneo.
Como é feito o tratamento da parvovirose canina?
Geralmente, quando há suspeita de parvovirose canina, é comum que o médico-veterinário já inicie o tratamento enquanto aguarda os resultados dos exames. Alguns animais podem necessitar de internação para um melhor suporte.
A fluidoterapia é indicada em todos os casos para restaurar o volume e composição dos líquidos corporais, reidratando o paciente que apresenta diarreias e vômitos como sinais clínicos e que teve perda significativa dos fluídos corporais.
O uso de fármacos, como antieméticos, antiácidos, protetores de mucosa, antibióticos, probióticos, analgésicos e antiespasmódicos, pode ser recomendado, dependendo dos sinais clínicos apresentados e da presença de outras doenças concomitantes.
O prognóstico é reservado, e o tempo de recuperação do cachorro com parvovirose pode variar de acordo com o caso. Porém, com a realização correta do tratamento, o restabelecimento da saúde do animal tende a ocorrer em poucos dias.
Vale ressaltar que a parvovirose tem cura e a taxa de sobrevivência dos animais que realizam adequadamente o tratamento pode chegar a 95% (MELO et al, 2021).
Isolamento e controle de ambiente em ambientes clínicos e hospitalares são medidas essenciais
A conformação estrutural do parvovírus canino confere ao agente alta resistência físico-química, tornando-o capaz de persistir por meses no ambiente e altamente tolerante aos produtos de limpeza, como sabões, detergentes e álcool.
Diante dessa resistência viral significativa e da elevada taxa de transmissibilidade da parvovirose canina, é recomendado que os cães acometidos sejam isolados de outros animais, tanto em ambiente hospitalar quanto domiciliar.
O uso de equipamentos de proteção individual como aventais descartáveis, luvas e protetores de calçados, e a higiene rigorosa dos ambientes e fômites com soluções desinfetantes eficazes à base de compostos clorados (hipoclorito de sódio a 1%) ou quaternários de amônio associados a glutaraldeído são estratégias fundamentais para evitar a disseminação do vírus.
O papel da nutrição no tratamento do cão com parvovírus
O manejo nutricional adequado do paciente com Parvovirose Canina é essencial. A nutrição de filhotes e adultos diagnosticados com a enfermidade deve ser instituída com o intuito de favorecer a saúde digestiva, o trânsito intestinal, a reidratação e, ainda no caso de filhotes, o ótimo crescimento.
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Para os animais debilitados e internados, o uso do alimento úmido Recovery ROYAL CANIN® poderá ser recomendado, visando proporcionar um melhor suporte energético.

Já para os cães adultos, o alimento deve ser recomendado de acordo com seu porte, raça e condições gerais.
Formas de prevenção da parvovirose canina
A vacinação de cães filhotes e adultos é considerada a medida de prevenção mais eficaz, pois visa fortalecer e desenvolver o sistema imunológico do animal para combater o vírus e impedir sua replicação.
Portanto, o profissional deve orientar o tutor sobre a importância de seguir o protocolo vacinal corretamente, pois a vacina deve ser aplicada por médicos-veterinários e no tempo e intervalos recomendados.
No caso de filhotes e pacientes não vacinados que foram diagnosticados com parvovirose canina, é recomendado que o tutor seja orientado sobre a importância da vacinação futura, após a total recuperação do animal.
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Referências:
FONSECA, N.D. Infecção por parvovírus felino em filhote: relato de caso. Universidade de Brasília, 2019.
LARSON, L. et al. Early administration of canine parvovirus monoclonal antibody prevented mortality after experimental challenge. Journal of the American Veterinary Medical Association, v.262, n.4, 2024. Acesso em: 14 maio 2025.
MARIGA, C. et al. Análise clínica de cães com parvovirose. Pubvet, v.16, n.1, 2022. Acesso em: 14 maio 2025.
MELO, T.F. et al. Parvovirose canina: uma revisão de literatura. Natural Resources, v.11, n.3, 2021. Acesso em: 14 maio 2025.
SANTANA, W.O. et al. Parvovírus canino: uma abordagem evolutiva e clínica. Medicina Veterinária (UFRPE). v.13, n.4, 2019. Acesso em: 14 maio 2025.
SHAFIK, N.G. et al. Evaluation of live attenuated canine parvovirus vaccines using real-time PCR. Vaccimonitor, v.33, 2024. Acesso em: 14 maio 2025.
TRUYEN, L.H. et al. Canine parvovirus type 2 (CPV-2) serological and molecular patterns in dogs with viral gastroenteritis from southern Brazil. Veterinary Microbiology, v.55, 2024. Acesso em: 14 maio 2025.
