Doenças hepáticas em cães: como a nutrição pode ajudar?

Doenças hepáticas em cães: como a nutrição pode ajudar?

O suporte nutricional desempenha papel fundamental no manejo de animais com doença hepática, evitando a desnutrição, quadro frequente nesses pacientes e que pode levar o animal ao óbito. Saiba mais

O fígado é essencial para digestão, absorção, metabolismo e armazenamento da maioria dos nutrientes no organismo. Muitas doenças diferentes podem causar alterações hepáticas. O diagnóstico definitivo pode, em alguns casos, direcionar o tratamento do paciente. Por essa razão, a consulta com o médico-veterinário é fundamental para um manejo correto do caso clínico.

Predisposição racial

Abaixo seguem as principais alterações hepáticas com as respectivas raças mais acometidas:

1. Hepatopatias associadas ao acúmulo de cobre:

  • Bedlington Terrier
  • West Highland White Terrier
  • Sky Terrier
  • Dálmatas
  • Doberman

2. Hepatite crônica:

  • Cocker Spaniel
  • Doberman
  • Labrador Retriever
  • Poodle

3. Shunts portossistêmicos congênitos:

  • Yorkshire Terrier
  • Maltês
  • Cairn Terrier
  • Irish Wolfhound

Sinais clínicos

Dentre as manifestações clínicas mais frequentes, estão:

  • Vômito
  • Perda de apetite (anorexia)
  • Letargia
  • Náusea
  • Perda de peso
  • Diarreia
  • Fezes pálidas (mais claras que o comum)
  • Ascite (acúmulo de líquido no abdome)
  • Icterícia
  • Encefalopatia hepática
  • Distúrbios de coagulação sanguínea

Importância da nutrição

Os cães com hepatopatias crônicas comumente apresentam desnutrição devido a fatores como: anorexia e náuseas, que resultam em hiporexia; prescrição incorreta da dieta, principalmente com restrição de proteína; má digestão e assimilação dos nutrientes, nos casos de cirrose e hipertensão portal, e aumento das necessidades energéticas, o que chamamos de hipermetabolismo.

O suporte nutricional tem demonstrado ser fundamental para o manejo das hepatopatias tanto em seres humanos como em animais de companhia. Os objetivos são proporcionar condições ótimas para o reparo e regeneração do órgão e evitar ou tratar as complicações da insuficiência hepática, como a encefalopatia ou a ascite.

Objetivos nutricionais em casos de doenças hepáticas

Tanto no cão como no gato, os três principais objetivos da abordagem nutricional da doença hepática são os seguintes:

Fornecer a ingestão nutricional ideal de nutrientes e energia

Manter o aporte calórico adequado é prioridade absoluta, especialmente nos casos de doenças hepáticas, para prevenir a perda de massa magra e peso. Perda de peso substancial, perda de massa muscular e hipoalbuminemia são sinais típicos de desnutrição em animais acometidos por insuficiência hepática. Anorexia, vômitos, má digestão, absorção e metabolismo dos nutrientes, aumento do catabolismo proteico e síntese insuficiente de proteínas explicam o mau estado desses animais.

O uso de fontes calóricas não proteicas é importante para prevenir a mobilização de aminoácidos como fonte energética, evitando ou diminuindo o processo de gliconeogênese hepática. As dietas devem apresentar alta densidade energética para atender as necessidades calóricas e para diminuir o volume de alimento a ser fornecido. A quantidade necessária de proteína para manutenção, reparação e regeneração celular varia com o tipo e gravidade da hepatopatia.

É importante também corrigir a má nutrição satisfazendo as necessidades energéticas e nutricionais de manutenção (aminoácidos, potássio e zinco, bem como algumas vitaminas, especialmente vitaminas B, C e K).

Otimizar a regeneração dos hepatócitos

Apoiar a regeneração hepatocelular, fornecendo uma quantidade suficiente de nutrientes, principalmente proteínas, L-carnitina e vitaminas do complexo B é fundamental. Uma quantidade adequada de proteína com alta digestibilidade favorece a regeneração do parênquima hepático.

Os quadros de cirrose que apresentam encefalopatia hepática são mais difíceis de serem conduzidos, uma vez que esses animais necessitam de aporte proteico para manutenção do balanço nitrogenado, porém a ingestão de proteína pode resultar em encefalopatia hepática. Por outro lado, se entrarem em balanço nitrogenado negativo, os animais podem ficar desnutridos, hipoalbuminêmicos, com piora da função hepática e estado geral. A manutenção do balanço nitrogenado pode apresentar efeitos positivos sobre a encefalopatia hepática, visto que facilita a regeneração hepática.

O objetivo é proporcionar ao animal doente a quantidade máxima de proteína sem exceder a tolerância antes das manifestações da encefalopatia hepática.

A L-carnitina é uma amina quaternária necessária para o transporte de ácidos graxos de cadeia longa a partir do citoplasma da célula para as mitocôndrias, que são os pequenos elementos dentro das células que irão produzir energia a partir de lípidos.

As principais áreas de produção de L-carnitina em cães e gatos são o fígado (principalmente), o cérebro e os rins. As vitaminas do complexo B são altamente concentradas no fígado sendo armazenadas na forma de coenzimas. Portanto, uma doença hepática pode resultar em deficiências de vitaminas estocadas no fígado tais como as vitaminas do complexo B. Durante a regeneração dos hepatócitos há uma exigência crescente dessas vitaminas podendo ser observada deficiência em alguns casos.

Evitar o acúmulo de cobre e combate aos radicais livres

O cobre é absorvido pela ligação com as proteínas do fígado. Essa capacidade de armazenamento é, contudo, limitada, e o excesso de cobre é eliminado pela bile. Concentrações anormais podem ocorrer a partir de um defeito no metabolismo do cobre, relatado em determinadas raças, como citado acima, ou, secundariamente, como resultado da crônica doença hepática que cause colestase. Níveis de cobre anormais podem danificar hepatócitos.

O cobre apresenta um alto nível de toxicidade quando não está ligado às proteínas, em cães com doença hepática crônica ou caquexia. Na presença de íons superóxido, o cobre catalisa a formação de radicais hidroxila (uma forma particularmente tóxica de radicais livres) que provocam a necrose dos hepatócitos. A ingestão de cobre deve ser restrita em animais com insuficiência hepática ou colestase.

Os radicais livres são componentes importantes das maiores formas de lesões do fígado. As concentrações anormais de ácidos biliares e acúmulo de metais pesados, tais como cobre e ferro, provocam a produção de radicais livres no fígado.

Já os antioxidantes permitem ao organismo combater os efeitos destruidores dos radicais livres, elementos instáveis derivados do oxigênio, produzidos constantemente pelo organismo. Os antioxidantes dietéticos mais utilizados são a vitamina E, a vitamina C, os pigmentos carotenóides, a taurina e os polifenóis.

Conclusões

O suporte nutricional deve ser adaptado para cada caso com base no tipo de doença hepática, extensão da disfunção hepática, tolerância às proteínas alimentares e estado nutricional. Na sequência do tratamento cirúrgico (shunts hepáticos) e/ou médico (lipidose hepática), se o fígado do animal readquirir o funcionamento normal, a dieta habitual de manutenção poderá ser reintroduzida gradualmente. Em outros casos, a terapêutica nutricional é necessária durante toda a vida do animal.

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