Pancreatite em cães: diagnóstico e condutas atualizadas para tratamento
Links rápidos:
- O que é pancreatite?
- Principais sinais clínicos de pancreatite em cães
- Como diagnosticar pancreatite em cães
- Tratamento de pancreatite em cães: o que há de novo em relação à conduta clínica?
- Prognóstico e possíveis complicações da pancreatite canina
- Pancreatite em cães x pancreatite em gatos: quais as principais diferenças?
- Estratégias para prevenir quadros de pancreatite em cães
- Perguntas frequentes sobre pancreatite em cães
- Compromisso com a saúde e nutrição animal, consolidado ao longo de 50 anos de expertise: essa é a Royal Canin®
Saiba como conduzir um quadro de pancreatite em cães, desde a suspeita clínica até o diagnóstico, e compreenda as recomendações terapêuticas mais recentes para a prática clínica veterinária!
A pancreatite é uma das afecções gastrointestinais mais relevantes na clínica de pequenos animais. Caracterizada pela inflamação do pâncreas, pode levar à síndrome da resposta inflamatória sistêmica, à falência múltipla de órgãos e ao óbito em caninos.
Trata-se de uma doença de apresentação variável, que pode se manifestar de forma aguda ou crônica, exigindo diagnóstico criterioso e condutas terapêuticas atualizadas para otimizar o prognóstico.
O que é pancreatite?
A pancreatite corresponde a um processo inflamatório do pâncreas exócrino que ocorre como resultado da síntese e armazenamento de enzimas digestivas no órgão. Pode ser desencadeado por causas multifatoriais, incluindo predisposição genética, alterações dietéticas, obesidade, endocrinopatias e uso de determinados fármacos (LIM et al., 2024).
A pancreatite em cães é classificada como aguda ou crônica. A forma aguda caracteriza-se histologicamente por uma inflamação neutrofílica associada à formação de edema intersticial e necrose da gordura mesentérica. Já a crônica é caracterizada por alterações histopatológicas permanentes, sendo a fibrose mais proeminente do que as alterações inflamatórias, com um aumento gradativo da degeneração cística do tecido conforme a fibrose avança (BURGENER, 2021).
Como a pancreatite afeta os cães?
O pâncreas exócrino possui vários mecanismos para prevenir a autodigestão (por exemplo, precursores enzimáticos, armazenamento de enzimas em grânulos separados dos lisossomos, altos níveis de pH local, boa irrigação sanguínea etc ). A pancreatite em cães se desenvolverá apenas se todos esses mecanismos protetores forem violados ao mesmo tempo (BURGENER, 2021).
A ativação intrapancreática de enzimas digestivas, como a tripsina, desencadeia alterações locais como edema, hemorragia, infiltração de células inflamatórias, necrose das células acinares e da gordura peripancreática. A evolução do processo inflamatório resulta em resposta inflamatória exacerbada com liberação de citocinas, desencadeando distúrbios sistêmicos que podem levar à morte (LIM et al., 2024; GE et al., 2025).
Vale ressaltar que raças como Schnauzer miniatura, Yorkshire Terrier, Cocker Spaniel, Cavalier King Charles Spaniel, Boxer e Border Collie apresentam predisposição ao desenvolvimento de pancreatite, possivelmente associada a fatores genéticos (BURGENER, 2021).
Além disso, a ingestão de alimentos gordurosos, traumatismos, isquemia local, endocrinopatias (hiperadrenocorticismo, Diabetes mellitus, hipotireoidismo) e uso de alguns fármacos (cálcio, glicocorticoides, L-asparaginase, azatioprina, brometo de potássio, zinco, antimoniato de meglumina) são considerados fatores de risco para a pancreatite em cães (BURGENER, 2021; LIM et al., 2024).
Principais sinais clínicos de pancreatite em cães
Os sinais clínicos da pancreatite em cães variam em intensidade, podendo incluir:
- vômitos;
- dor abdominal;
- diarreia;
- letargia;
- anorexia;
- desidratação.
Em quadros graves, observa-se icterícia, arritmias e sinais de choque (HUGUET et al., 2025).
Como diagnosticar pancreatite em cães
O diagnóstico da pancreatite em cães representa um desafio clínico devido à inespecificidade dos sinais clínicos e à sobreposição com outras doenças gastrointestinais e sistêmicas.
Diante disso, é fundamental ter total atenção ao quadro e solicitar exames para conseguir definir o quadro do animal. E lembramos que um diagnóstico assertivo e rápido é essencial para reduzir complicações, orientar condutas terapêuticas adequadas e melhorar o prognóstico do paciente com pancreatite.
Veja abaixo os principais pontos para se chegar ao diagnóstico da afecção.
1. Histórico e anamnese: o que levar em conta?
A anamnese é etapa fundamental na suspeita de pancreatite em cães, pois permite identificar fatores predisponentes e direcionar a escolha dos exames complementares.
Deve-se investigar, por exemplo, a ingestão recente de alimentos ricos em gordura ou restos de comida humana, o uso prévio de medicamentos que podem estar relacionados ao risco de pancreatite, a presença de doenças endócrinas concomitantes e possíveis traumas (BURGENER, 2021; LIM et al., 2024; KOOK, 2025).
2. Exame físico e os possíveis indicativos de pancreatite canina
O exame físico é essencial para a avaliação inicial do paciente, permitindo identificar sinais clínicos que podem orientar a suspeita de pancreatite em cães, assim como dor abdominal cranial ou hipersensibilidade na região pancreática, alterações hemodinâmicas (sinais de desidratação, taquicardia, taquipneia, hipotensão), febre, mucosas hiperêmicas ou hipoperfundidas (LIM et al., 2024).
3. E qual exame faz diagnóstico definitivo de pancreatite em cães?
A imunorreatividade da lipase pancreática sérica canina (cPLI), que mede apenas as lipases sintetizadas pelas células acinares, é altamente específica para a função do pâncreas exócrino e demonstra alta sensibilidade para pancreatite moderada a grave (BURGENER, 2021; KIM et al., 2024).
Porém, a interpretação do teste da lipase pancreática específica deve ser sempre associada ao histórico do paciente, ao exame clínico e a ultrassonografia abdominal.
Como a ultrassonografia abdominal auxilia no diagnóstico da pancreatite?
A ultrassonografia abdominal é o exame complementar mais utilizado para auxiliar no diagnóstico da pancreatite em cães porque permite identificar aumento pancreático, hipoecogenicidade, efusão abdominal e alterações peripancreáticas.
Além disso, o exame também possibilita a exclusão de outras enfermidades que possam causar manifestações clínicas semelhantes.

É importante reconhecer que algumas alterações detectadas durante a ultrassonografia abdominal que já foram consideradas específicas de pancreatite, como a dilatação do ducto pancreático, podem estar relacionadas com a idade do paciente (BURGENER, 2021).
Por outro lado, um estudo realizado por Huguet et al. (2025) corroborou a hipótese de que achados radiográficos como o “sinal do halo renal direito” (aumento da conspicuidade renal direita) em radiografias ventrodorsais são mais prevalentes em cães com pancreatite aguda e podem auxiliar no diagnóstico clínico dessa doença.
Como os exames hematológicos contribuem para o diagnóstico?
Em um paciente com pancreatite, exames hematológicos como hemograma e perfil bioquímico podem revelar leucocitose, elevação de ALT, AST, bilirrubina, além de hipocalcemia e hiperlipidemia. Porém, tais alterações não são específicas da enfermidade (KOOK, 2025).
Diagnóstico diferencial da pancreatite canina: quais outras alterações devem ser investigadas?
Também é essencial, nessa etapa, pensar no diagnóstico diferencial da pancreatite em cães. Ele deve incluir afecções como:
- gastroenterites infecciosas;
- corpos estranhos gastrointestinais;
- lesão renal aguda;
- hepatopatias;
- intoxicações;
- neoplasias abdominais (BURGENER, 2021; LIM et al., 2024).
Tratamento de pancreatite em cães: o que há de novo em relação à conduta clínica?
O manejo da pancreatite canina baseia-se em suporte intensivo, com fluidoterapia, analgesia e monitoramento clínico.
O uso de antibióticos não é mais recomendado de forma rotineira, uma vez que a maioria dos casos é estéril. Sendo assim, sua indicação deve ser restrita a situações com suspeita de infecção bacteriana secundária, evidenciada por exames complementares (LIM et al., 2024).
Compreenda abaixo os principais pontos relacionados ao tratamento da pancreatite canina:
1. Tratamento medicamentoso e suporte
O tratamento da pancreatite em cães baseia-se no suporte clínico intensivo, voltado para corrigir desequilíbrios hidroeletrolíticos, controlar a dor e estabilizar o paciente. A fluidoterapia intravenosa é a intervenção inicial, fundamental para corrigir a hipovolemia, restabelecer a perfusão pancreática e prevenir lesão renal aguda (LIM et al., 2024).
Os analgésicos opioides, como metadona e tramadol, são os fármacos considerados para o controle da dor abdominal intensa. Já os antieméticos, como maropitant e ondansetrona, são essenciais para reduzir enjoos/vômitos e permitir a retomada precoce da nutrição enteral (BURGENER, 2021).
Pesquisas recentes vêm explorando novas abordagens terapêuticas, incluindo o uso de células-tronco derivadas de tecido adiposo e de extratos livres de membrana de células-tronco, com resultados promissores na modulação da resposta inflamatória e redução do dano oxidativo em casos de pancreatite canina (CHOI et al., 2025; GE et al., 2025).
Embora ainda em caráter experimental, tais estratégias apontam para potenciais avanços no manejo da doença.
2. Manejo nutricional
A nutrição constitui um dos pilares fundamentais no tratamento da pancreatite em cães. O conceito de jejum prolongado, anteriormente recomendado para “repouso pancreático”, foi abandonado, pois estudos demonstraram que essa prática contribui para atrofia da mucosa intestinal, translocação bacteriana e pior prognóstico (CRIDGE et al., 2024).
Também é importante destacar que dietas com maior teor de gordura podem piorar o quadro de pancreatite em cães (CRIDGE et al., 2024). Por isso, não é indicado o uso de rações gastrointestinais convencionais.
A recomendação é o uso de dietas gastrointestinais com baixo teor de gordura (CRIDGE et al., 2024).
Os alimentos Royal Canin® Gastrointestinal Low Fat Small Dog e Gastrointestinal Low Fat Canine podem ser indicados ao paciente com pancreatite, uma vez que possuem fórmulas com baixo teor de gordura e fibras balanceadas. Isso permite o fornecimento de níveis de energia de manutenção apesar da restrição de gordura e favorece a saúde digestiva, pois estamos falando de ingredientes altamente digestíveis, incluindo ainda prebióticos.

Casos em que haja alguma comorbidade, como diabetes, obesidade, entre outras, devem ser avaliados individualmente pelo médico veterinário para a instituição da dieta adequada e individualizada.
Prognóstico e possíveis complicações da pancreatite canina
O prognóstico da pancreatite em cães é altamente variável e depende da forma clínica (aguda ou crônica), da presença de comorbidades e da rapidez na instituição da terapêutica adequada.
Em quadros leves, a maioria dos pacientes apresenta recuperação satisfatória, especialmente quando diagnosticados precocemente e submetidos a suporte clínico e nutricional adequados. Contudo, nas formas graves e necrosantes, a taxa de mortalidade pode ser elevada, devido à intensa resposta inflamatória sistêmica e ao risco de falência de múltiplos órgãos (KOOK, 2025).
Entre as complicações mais comuns destacam-se a Diabetes mellitus adquirida, decorrente da destruição das células beta pancreáticas; a insuficiência pancreática exócrina, relacionada à perda funcional das células acinares responsáveis pela produção de enzimas digestivas; além da recorrência de episódios, que contribui para a cronificação da doença (RODRÍGUEZ, 2021).
Outras possíveis complicações incluem tromboembolismo, ascite, abscessos pancreáticos, formação de pseudocistos, septicemia e peritonite secundária, todas associadas a pior prognóstico (LIM et al., 2024).
Pancreatite em cães x pancreatite em gatos: quais as principais diferenças?
Diferentemente da pancreatite em cães, a pancreatite em gatos costuma se apresentar de forma subclínica ou com sinais clínicos leves. Além disso, a pancreatite nessa espécie ocorre muitas vezes de forma concomitante com colangite e enterite, caracterizando a chamada tríade felina (ALLENSPACH, 2021).
Nos felinos, o teste laboratorial de mensuração dos níveis de lipase pancreática felina possui maior acurácia para o diagnóstico de pancreatite. A ultrassonografia abdominal, por sua vez, apresenta maior sensibilidade nos cães do que nos gatos, nos quais os achados podem ser sutis ou ausentes.
No manejo nutricional em cães com pancreatite recomenda-se dietas baixo teor de gordura, enquanto em pacientes felinos é recomendado dietas com proteína hidrolisada (CRIDGE et al., 2024).
Estratégias para prevenir quadros de pancreatite em cães
A prevenção da pancreatite em cães baseia-se em medidas que visam reduzir a sobrecarga pancreática e controlar fatores predisponentes, como:
- dieta balanceada de alta qualidade;
- controle do peso corporal e prevenção de sobrepeso/obesidade;
- check-ups periódicos, incluindo monitoramento de doenças endócrinas (hiperadrenocorticismo, diabetes mellitus, hipotireoidismo);
- avaliação regular de triglicerídeos e colesterol, especialmente em raças predispostas (ex.: Schnauzer miniatura, Yorkshire Terrier etc.);
- evitar dietas desbalanceadas e mudanças bruscas de alimentação;
- uso criterioso de fármacos potencialmente pancreatotóxicos;
- educação dos tutores para reconhecer sinais precoces e manter manejo nutricional adequado.
Perguntas frequentes sobre pancreatite em cães
Confira perguntas frequentes sobre a pancreatite em cães.
O tratamento para pancreatite em cães sempre envolve o uso de antibióticos?
Não. Segundo as diretrizes atuais, os antibióticos não são recomendados na maioria dos casos de pancreatite canina.
Por que não é mais utilizado antibiótico para tratar pancreatite canina?
Porque a maioria dos casos é estéril, não havendo necessidade de antibioticoterapia. Além disso, não há comprovação de benefício clínico do uso de antibióticos e o uso inadequado pode favorecer resistência bacteriana.
Qual exame diagnostica pancreatite em cães?
O teste de lipase pancreática específica (cPL) é o exame de escolha, associado a exames de imagem para maior acurácia.
A pancreatite canina pode evoluir para insuficiência pancreática exócrina?
Sim. Episódios graves ou recorrentes podem levar à destruição do tecido pancreático com consequente perda funcional das células acinares, resultando em insuficiência pancreática exócrina.
O cão com pancreatite deve comer ração gastrointestinal?
Não. A recomendação é utilizar dietas de baixo teor de gordura.
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Referências:
ALLENSPACH, K. Pancreatite aguda felina. Royal Canin Academy, 2021. Disponível em: https://academy.royalcanin.com/pt/veterinary/acute-feline-pancreatitis. Acesso em: 22 set. 2025.
BURGENER, I.A. Diagnóstico de pancreatite canina. Royal Canin Academy, 2021. Disponível em: https://academy.royalcanin.com/pt/veterinary/diagnosis-of-canine-pancreatitis. Acesso em: 22 set. 2025.
CHOI, Y. et al. Treatment of canine pancreatitis using membrane-free stem cell extract and its anti-inflammatory effect. Front. Vet. Sci., 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40524736/. Aesso em: 22 set. 2025.
CRIDGE, H.; PARKER, V.J.; KATHRANI, A. Nutritional management of pancreatitis and concurrent disease in dogs and cats. Journal of the American Veterinary Medical Association, v.262, n.6, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.2460/javma.23.11.0641. Acesso em: 22 set. 2025.
GE, Y. et al. Adipose-derived stem cells alleviate acute pancreatitis by inhibiting ferroptosis and oxidative damage in canines. Stem Cell Res. Ther., v.16, n.1, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40624532/. Acesso em: 22 set. 2025.
HUGUET, E. et al. Right Renal Halo Sign in Dogs with Presumed Acute Pancreatitis on Radiographs: A Pilot Study. J. Am. Anim. Hosp. Assoc., v.61, n.4, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40531083/. Acesso em: 22 set. 2025.
KIM, J.K. et al. A comparative analysis of canine pancreatic lipase tests for diagnosing pancreatitis in dogs. J. Vet. Sci., v.25, n.3, 2024. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11156593/. Acesso em: 22 set. 2025.
KOOK, P.H. Evaluation of Hyperlipasemia and Clinical Signs in 106 Dogs After Hospitalization for Acute Pancreatitis: Results From a Combined Retrospective and Prospective Follow-Up Study. J. Vet. Intern. Med., v.39, n.5, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40747549/. Acesso em 22 set. 2025.
LIM, S.Y. et al. Management of acute-onset pancreatitis in dogs: a Narrative Review. Journal of the American Veterinary Medical Association, v.262, n.9, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.2460/javma.24.02.0107. Acesso em: 22 set. 2025.
RODRÍGUEZ, M.D.T. Insuficiência pancreática exócrina em cães. Vetfocus, 2021. Disponível em: https://academy.royalcanin.com/pt/veterinary/exocrine-pancreatic-insufficiency-in-dogs. Acesso em: 22 set. 2025.
