Intoxicação por chocolate em cães e gatos: quais os riscos e como conduzir o caso?
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A ingestão de chocolate é uma das causas mais importantes de intoxicação vista na rotina clínica veterinária. Entenda melhor sobre o perigo da intoxicação por chocolate em cães e gatos e saiba como alertar seus tutores!
Diversas substâncias presentes em alimentos humanos ou outros agentes tóxicos (agrotóxicos, raticidas, medicamentos e plantas) podem intoxicar cães, gatos e outros pets de forma acidental, intencional ou por fornecimento inadequado. Geralmente, as intercorrências do tipo costumam ocorrer no ambiente doméstico em que vive o animal.
A prevalência de intoxicação em cães e gatos é alta e o número de atendimentos em clínicas e hospitais veterinários vem aumentando anualmente (CONCEIÇÃO, ORTIZ, 2015). Por sua vez, o chocolate é um dos alimentos tóxicos mais comumente ingerido pelos pets, podendo levar à ocorrência de diferentes sinais clínicos relacionados ao sistema gastrointestinal, sistema nervoso central e ao sistema cardiovascular (ALAHMED et al., 2024).
O que significa uma intoxicação por chocolate nos gatos e cães?
A intoxicação por chocolate em cães e gatos ocorre devido à incapacidade desses animais de metabolizar adequadamente certas substâncias presentes no cacau, como as metilxantinas — principalmente a teobromina e, em menor grau, a cafeína.
Ao ingerirem chocolate, essas substâncias são lentamente processadas e excretadas pelo organismo de cães e gatos, o que aumenta sua permanência no organismo e potencializa seus efeitos tóxicos, tornando-se prejudiciais para diversos sistemas do corpo, especialmente os sistemas gastrointestinal e nervoso central.
Como ocorre a intoxicação por chocolate em gatos e cães?
O chocolate é formulado com quantidades elevadas de lipídios, carboidratos, aminas biogênicas, neuropeptídeos e metil-xantinas, assim como teobromina e cafeína. A concentração de teobromina presente no chocolate é bem mais elevada em relação a de cafeína. Além disso, o principal ingrediente do chocolate é a manteiga de cacau, e é justamente nela em que se concentra a maior quantidade de teobromina (GIANNICO et al.; 2014).
As substâncias fitoquímicas presentes no cacau, principalmente a teobromina e a metil-xantina, são tóxicas e extremamente nocivas ao organismo da maioria dos animais. Pode ocorrer elevação do estímulo da atividade cerebral, ação diurética e elevação da intensidade do esforço muscular cardíaco, predispondo ação vasoconstritora e arritmias.
Um dos sinais clínicos mais percebidos pelo tutor e o que o faz buscar ajuda médico veterinária é a presença de diarreia líquida em grande quantidade, além de prostração, anorexia etc. Nos casos mais graves de intoxicação por chocolate em cães e gatos pode ocorrer o óbito do paciente (GIANNICO et al., 2014; CONCEIÇÃO, ORTIZ, 2015).
As metil-xantinas são lipossolúveis e são absorvidas no estômago e intestino do animal, podendo penetrar as barreiras placentárias e hematoencefálicas.
Portanto, embora o chocolate não seja tóxico aos seres humanos, suas substâncias podem ser altamente nocivas para gatos e cães, uma vez que os animais domésticos metabolizam a teobromina de forma mais lenta do que os humanos, favorecendo o quadro de intoxicação alimentar. A sensibilidade individual, as quantidades e as concentrações de chocolate consumido também exercem influência nos casos de intoxicação (GIANNICO et al., 2014).
A prevalência de intoxicação por chocolate é maior nos cães, visto que os felinos possuem um paladar mais seletivo em relação a novas texturas e gostos, não aceitando alimentos desconhecidos com facilidade. A subnotificação desses casos, no entanto, pode ocorrer (CATOZO et al., 2022) e o tutor deve ficar atento ao que seu gato consome.
Qual chocolate é mais tóxico para os animais?
O tipo de chocolate pode influenciar na gravidade do caso de intoxicação por chocolate em cães e gatos, pois a quantidade de teobromina varia em cada um deles. Assim, o potencial de intoxicação é ainda mais elevado quando o chocolate é amargo ou meio amargo, já que essas variedades levam maior quantidade de teobromina em sua composição (GIANNICO et al., 2014).
Segundo Gwaltney-Brant (2001), cães expostos a 20 mg/kg de teobromina podem apresentar sinais clínicos leves de toxicidade, enquanto uma dose de 40 a 50 mg/kg pode causar sinais graves, e 60 mg/kg podem provocar convulsões.
Veja na tabela abaixo a quantidade média de teobromina presente por cada grama de produto nos variados tipos de chocolate (adaptado de GIANNICO et al., 2014):
| TIPO DE CHOCOLATE | QUANTIDADE DE TEOBROMINA |
| Branco | 0,009mg |
| Ao leite | 2,046mg |
| Meio amargo | 4,586mg |
| Amargo | 13,863mg |
| Cacau em pó | 25,997mg |
Embora os chocolates brancos ou ao leite possuam menor quantidade de teobromina, eles também não devem ser oferecidos aos animais, uma vez que o risco de intoxicação ainda existe. Além disso, as demais substâncias presentes no alimento, como cafeína, açúcar, adoçantes e altos índices de gordura, possuem alto potencial de causar outros problemas.
Sinais clínicos de intoxicação por chocolate em cães e gatos
Os sinais clínicos de intoxicação por chocolate em cães e gatos normalmente são agudos e variam de acordo com o tipo de chocolate ingerido. Além disso, outros fatores podem influenciar nos efeitos e gravidade da intoxicação, como o peso do animal, a quantidade e tipo de chocolate ingerido e a frequência.
Geralmente, nos quadros de intoxicação por chocolate em cães e gatos, observa-se a presença de sinais clínicos no período entre 6 e 12 horas após consumo, e a teobromina pode permanecer ativa no organismo por até 24 horas (GIANNICO et al.; 2014).
As principais manifestações clínicas incluem:
- náusea;
- êmese;
- diarreia;
- dispnéia;
- polidipsia;
- poliúria;
- polaquiúria.
Além dessas, outras alterações e sinais clínicos mais graves podem ser comuns, como:
- desidratação;
- hiperatividade;
- arritmias cardíacas;
- hemorragias internas;
- hipertensão arterial sistêmica;
- taquipneia;
- cianose;
- hipertermia;
- fraqueza;
- tremores;
- ataxia;
- convulsões;
- coma e, até mesmo o óbito.
Alerta aos médicos-veterinários: os sinais clínicos podem enganar!
A intoxicação por chocolate em cães e gatos exige muita atenção dos médicos-veterinários, uma vez que os sinais clínicos apresentados podem facilmente ser confundidos com outras condições.
Por exemplo, os efeitos cardíacos e neurológicos dessa intoxicação (agitação, taquicardia e tremores) podem ser erroneamente interpretados pelos tutores como sinais de “melhora” ou “animação”. Isso pode levar a uma percepção equivocada sobre o estado de saúde do paciente, especialmente quando ele retorna para casa sem a devida estabilização e acompanhamento.
Vale ressaltar que a teobromina e a cafeína têm efeito estimulante sobre o sistema nervoso central e o sistema cardiovascular dos pets, provocando hiperexcitabilidade, resultando em taquicardia e taquipneia. Tais alterações podem indicar risco de arritmias e potencial falência respiratória e cardíaca, demandando monitoramento contínuo (GIANNICO et al., 2014; WEINGART et al., 2021).
A intoxicação por teobromina também pode levar a alterações hematológicas, como citopenias e alterações em parâmetros hematológicos que indicam inflamação e estresse oxidativo (BEZERRA et al., 2022; CUNHA et al., 2022). Essas alterações, embora geralmente secundárias à resposta inflamatória e ao estresse do organismo em lidar com a intoxicação, complicam o quadro clínico e indicam a necessidade de suporte e monitoramento laboratorial contínuos durante a internação.
Como manejar o paciente em casos de intoxicação por chocolate
O diagnóstico da intoxicação por chocolate em cães e gatos é realizado com base na anamnese e presença de sinais clínicos. As perguntas sobre manejo alimentar e histórico das últimas refeições são imprescindíveis para identificar o problema.
O tratamento geralmente é de suporte e sintomático. Caso o paciente tenha ingerido o chocolate em período inferior a 2 horas, pode ser administrado carvão ativado ou a realização da indução do vômito para reduzir ou eliminar parte do alimento ingerido e, consequentemente, diminuir a absorção das toxinas (GIANNICO et al., 2014).
O atendimento precoce para intoxicação por chocolate em cães e gatos não dispensa o tratamento de suporte e medicamentoso, que deve ser realizado praticamente em todos os casos, sendo fundamentais para que o paciente possa se restabelecer, e envolvem (GIANNICO et al., 2014):
- reposição e manutenção hidroeletrolítica, através da fluidoterapia;
- monitoramento cardíaco para identificação de possíveis arritmias;
- controle de convulsões: caso o paciente esteja convulsionando, recomenda-se a intervenção medicamentosa com Fenobarbital e Diazepam;
- uso de sonda uretral, que favorece o esvaziamento da vesícula urinária e consequentemente diminui a absorção da metil-xantina;
- internação do paciente, que é altamente recomendada para melhor acompanhamento da evolução do quadro.
Orientações importantes para os tutores
O médico-veterinário deve orientar o tutor sempre que possível a não oferecer ao animal nenhum resto de alimento humano e petiscos, principalmente os que contenham alho, cebola, chocolate, uva ou qualquer outro alimento impróprio para o consumo de gatos e cães.
Como vimos, uma pequena quantidade de chocolate ou alimento impróprio pode ter toxinas ou substâncias de difícil metabolização e eliminação pelo organismo do pet, além de serem suficientes para provocar uma intoxicação. Sendo assim, é importante evidenciar que até mesmo pequenas quantidades podem causar sintomas graves ao animal e, até mesmo, levá-los a óbito.
Ao perceber sinais de intoxicação por chocolate ou outros alimentos, deve-se levar o animal imediatamente para uma clínica ou hospital veterinário mais próximo. Nesses casos, o socorro imediato pode ser fundamental para salvar a vida do paciente intoxicado.
Além dos quadros de intoxicação, o fornecimento errôneo de diversos alimentos também pode gerar outras condições prejudiciais à saúde do pet, como sobrepeso e obesidade, diabetes mellitus (particularmente em gatos, devido à obesidade), entre outros.
Por isso, a prevenção é a melhor forma de reduzir a incidência de intoxicação por chocolate em cães e gatos. É imprescindível que o tutor alimente o pet de forma criteriosa, com alimentos balanceados, que possuam todos os nutrientes necessários para seu crescimento e desenvolvimento saudáveis, também ajudando na manutenção do bom funcionamento do organismo quando adultos.
Alerta de maior risco em época de festas: chocolates não devem ser oferecidos para cães e gatos!
É importante ter ciência de que o risco de intoxicação por chocolate em cães e gatos nas épocas festivas, como Páscoa e Natal, é elevado e requer atenção.
Nesses períodos, há uma elevação do consumo de chocolate e outros tipos de alimentos pelos seres humanos e os animais podem acabar ingerindo-os de forma acidental. Há casos em que os próprios tutores oferecem o alimento ao animal, pois acabam ficando com pena e acreditam que uma pequena quantidade não fará mal, o que não é verdade.
Outras substâncias tóxicas para cães e gatos
Como mencionamos no início deste artigo, há diversas substâncias consideradas tóxicas para gatos e cães. Várias plantas representam perigo, assim como alguns medicamentos, como o paracetamol.
Para ter uma visão mais ampla sobre a intoxicação por ingestão de substâncias e entender como abordar o paciente na prática, confira o infográfico abaixo:

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Referências
ALAHMED, J.A.S.; AL-RUFAEI, I.A.; ALWAN, N.A. Cocoa intoxication in domestic and street dogs: A comparative study. Archives of Veterinary Science, 2024. Acesso em: 12 novembro 2024.
BEZERRA, L.S. et al. Prevalência de intoxicações exógenas em cães e gatos no município de Fortaleza e região metropolitana. PUBVET, v.16, n.03, 2022. Acesso em: 12 novembro 2024.
CATOZO, R.G. et al. Intoxicação em gatos atendidos em um hospital veterinário universitário da cidade de São Paulo: análise retrospectiva de 2010 a 2021. Revista de Educação Continuada em Medicina Veterinária e Zootecnia do CRMV-SP, v.20, n.1, 2022. Acesso em: 12 novembro 2024.
CONCEIÇÃO, J.L.S.; ORTIZ, M.A.L. Intoxicação domiciliar de cães e gatos. Revista UNINGÁ Review, v.24, n.2, 2015. Acesso em: 12 novembro 2024.
CUNHA, M.F.S. et al. Análise das citopenias encontradas em hemograma de cães e gatos no Centro de Diagnóstico Laboratorial da Universidade do Vale do Paraíba de 2021 a 2022. Hematology, Transfusion and Cell Therapy, v.44, s.2, 2022. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2531137922011543. Acesso em: 12 novembro 2024.
FEDIAF. Nutritional Guidelines: For Complete and Complementary Pet Food for Cats and Dogs, Belgiun, p. 3-98. 2021. Acesso em: 12 novembro 2024.
GIANNICO, A.T. et al. Alimentos tóxicos para cães e gatos. Colloquium Agrariae, v.10, n.1, 2014. Acesso em: 12 novembro 2024.
GWALTNEY-BRANT, S. Chocolate intoxication. J Vet Med., v.96, i.2, 2001.
WEINGART, C.; HARTMANN, A.; KOHN, B. Chocolate ingestion in dogs: 156 events (2015–2019). Journal of Small Animal Practice, v.62, i.11, 2021. Acesso em: 12 novembro 2024.
