Intoxicação por paracetamol em gatos e cães: como fazer o manejo e alertar tutores
Links rápidos:
- Entendendo a dificuldade na metabolização do paracetamol nos cães e nos gatos
- Sinais de intoxicação por Paracetamol em gatos e cães
- Tratamento para intoxicação por Paracetamol em cães e gatos: como conduzir o caso?
- Outros medicamentos potencialmente tóxicos para os pets
- Mais sobre intoxicação por ingestão de substâncias
O Paracetamol é potencialmente tóxico para gatos e cães. Saiba como conduzir os casos de pacientes acometidos por uma intoxicação pelo medicamento e como conversar com tutores sobre o tema
O paracetamol é um medicamento comum na casa dos tutores. Trata-se de um derivado não opiáceo sintético do p-aminofenol e é muito utilizado devido às propriedades antipiréticas e analgésicas.
Ao ver o animal com dor, o tutor pode pensar em tratar o pet com o medicamento, levando para o universo da veterinária a prática da automedicação, algo comum, porém bastante perigoso. Por falta de conhecimento, o tutor pode colocar o animal em risco de uma intoxicação por paracetamol.
Entenda por que esse medicamento pode ser tão prejudicial para gatos e cães, os sinais de uma intoxicação por paracetamol, como fazer o tratamento desses pacientes e ainda outros medicamentos que podem representar potenciais riscos aos pets.
Entendendo a dificuldade na metabolização do paracetamol nos cães e nos gatos
O paracetamol possui distribuição uniforme pelos tecidos do organismo, com variação ampla na capacidade de ligação proteicas que vai de 5% a 20% (Khan,2014). As principais vias de metabolização do paracetamol ocorrem por conjugação – glucuronidação ou sulfatação. Ao ser conjugado com ácido glucurônico, os produtos não tóxicos no fígado são excretados pelos rins.
Uma outra forma de metabolização do paracetamol é a via do citocromo P450. Essa via produz um metabolito hepatóxico, o n-acetil-parabenzoquinoneimina, e ocorre, principalmente, quando as enzimas sulfato e glucuronosil transferases são saturadas. Em doses toxicas de paracetamol, o N-acetil-p-benzoquinonaimina liga os grupos cisteínas a outras proteínas hepatocelulares, levando à quadros da hepatotoxicidade e morte celular.
Vale ressaltar que o paracetamol é rapidamente absorvido no trato gastrointestinal. Dentro de uma hora após a ingestão, dependendo da formulação que o animal ingeriu, as concentrações plasmáticas máximas do paracetamol já podem ser observadas na corrente sanguínea.
O potencial de toxicidade é o mesmo para gatos e cães?
Em cães, geralmente não são observados sinais clínicos do quadro de intoxicação aguda, a menos que a dosagem de paracetamol exceda 100 mg/kg (Khan,2014).
Já os felinos são mais sensíveis à intoxicação por paracetamol por possuírem deficiência fisiológica da glucuronil transferase. Com a capacidade reduzida de felinos de glucuronidar o paracetamol, o seu metabolismo é principalmente por sulfatação. Assim, a saturação enzimática e a ativação da via do citocromo P450 aumenta o potencial tóxico do paracetamol em felinos, e a produção dos metabolitos tóxicos ocorre com doses de 10 – 40mg/kg. (Khan,2014).
Estudos apontam que os gatos são de 7 a 10 vezes mais suscetíveis à toxicidade do paracetamol que os cães (Özkan, 2017).
Sinais de intoxicação por Paracetamol em gatos e cães
Dentre os sinais de intoxicação por paracetamol podemos listar efeitos hemotóxicos e hepatóxicos que refletem em todo o organismo do animal. A hematúria e a hemoglobinúria podem aparecer primeiro, quando os níveis de metemoglobina no sangue estão em torno de 20% (Khan,2014).
Diante disso, podemos dizer que os sinais mais comuns de intoxicação por paracetamol são:
- metemoglobinemia;
- anorexia;
- depressão;
- fraqueza;
- taquipneia;
- hiperventilação;
- cianose;
- sialorreia;
- diarreia;
- dispneia – os níveis de metemoglobina que atingem ou excedem 35%;
- icterícia;
- vômito;
- alteração coloração da mucosa – pálidas, ictéricas, cianóticas ou amarronzadas;
- urina com coloração marrom-escura;
- ceratoconjuntivite seca aguda em cães;
- edema facial e/ou de pata;
- necrose hepática é mais comum em cães do que em gatos – ocorre 24 a 36 horas após a ingestão.
A intoxicação por paracetamol pode levar o animal a óbito.
Pontos chave na anamnese
Ter uma anamnese detalhada e completa é importante para estabelecer o diagnóstico. Certas perguntas são essenciais nesse momento e ajudam a determinar o que levou ao quadro de intoxicação por paracetamol.
Listamos abaixo algumas informações importantes que o médico-veterinário deve obter em conversa com o tutor:
- qual a dose ingerida pelo animal – para determinar se a dose é toxica;
- qual o tempo decorrido após a ingestão ou envenenamento;
- se o animal possui alguma alergia;
- histórico clínico – animal apresentava quadro de hipertermia previa;
- se o animal faz uso regular de medicamentos;
- se foi administrado algum tipo de “antidoto caseiro”, como leite, sal;
- se o tutor tentou a indução de êmese e, em caso afirmativo, com qual agente emético;
- se animal começou a manifestar sinais clínicos em casa e quais foram esses sinais.
Conhecer as características do paracetamol e entender como a intoxicação por paracetamol pode afetar gatos e cães pode facilitar a condução do caso. Essa compreensão possibilita que o médico-veterinário realize uma abordagem terapêutica eficiente em situações emergenciais, o que aumenta a probabilidade de sucesso do tratamento.
Tratamento para intoxicação por Paracetamol em cães e gatos: como conduzir o caso?
O tratamento para intoxicação por paracetamol em cães e gatos varia de acordo com a observação dos primeiros sintomas, o tempo após a ingestão do medicamento e, principalmente, em relação a dose ingerida. A partir das informações obtidas no exame clínico e anamnese, o médico-veterinário determina os próximos passos do tratamento.
Os principais objetivos no tratamento de gatos e cães com intoxicação por paracetamol são:
- descontaminação precoce;
- compensar as possíveis alterações sistêmica com terapia de suporte;
- monitoramento das alterações hepáticas;
- tratamento da metemoglobinemia e dos danos hepáticos;
- estabelecer condições para a regeneração hepática.
A indução da êmese é indicada quando realizada precocemente, idealmente antes que as concentrações plasmáticas máximas sejam atingidas – entre 30 e 60 min após a ingestão do paracetamol. Após a êmese deve-se administrar carvão ativado, que pode ser repetido, pois o paracetamol sofre alguma recirculação êntero-hepática (Steenbergen, 2003).
Já a terapia de suporte inclui oxigênio terapia, fluidoterapia intravenosa e terapia de transfusão de sangue para manter concentrações adequadas de hemoglobina no sangue. Medicamentos que suportam a função antioxidante do fígado também podem ser ministrados.
O ácido ascórbico, a vitamina C, pode ser utilizado para reduzir os níveis de metemoglobina, pois atua transformando-a em hemoglobina. Além disso, a vitamina C contribui para eliminar a N-acetil-p-benzoquinoneimina antes que ela se ligue às proteínas, reduzindo-a de volta ao composto original.
Outra opção é a cimetidina. Como seu metabolismo ocorre pela via P450, reduz a extensão do metabolismo do paracetamol através desta via. É um medicamento que reduz a formação de metabólitos tóxicos e preveni danos hepáticos apenas em cães. A cimetidina não deve ser utilizada em gatos.
Por fim, a N-acetilcisteína é um aminoácido que, por conter enxofre, atua fornecendo grupos sulfidrila que se ligam ao metabolito N-acetil-para-benzoquinoneimina para aumentar sua eliminação e serve como precursor da glutationa. A administração do N-acetilcisteína pode reduzir a extensão da lesão hepática ou da metemoglobinemia. O carvão ativado e o N-acetilcisteína oral devem ser administrados com 2 horas de intervalo, porque o carvão ativado pode adsorver o N-acetilcisteína.
E após o tratamento, quais cuidados devem ser tomados?
Conhecer como o organismo de gatos e cães reage ao uso do paracetamol também possibilita que o Médico-Veterinário estabeleça medidas preventivas destinadas a evitar novos casos de intoxicação por paracetamol.
O médico-veterinário pode determinar um esquema de monitoramento das funções hepáticas, resolução do quadro de metemoglobinemia, anemia por presença de corpúsculos de Heinz e hemólise.
Após o tratamento dos animais, é crucial conscientizar tutores para evitar uma nova exposição ao paracetamol ou a outros medicamentos potencialmente tóxicos para gatos e cães.
Outros medicamentos potencialmente tóxicos para os pets
Há uma gama de medicamentos potencialmente tóxicos para gatos e cães. Entre eles, podemos citar:
- diclofenaco de sódio;
- ibuprofeno;
- piretróides;
- piretrinas;
- psicotrópicos;
- ivermectina em animais portadores da mutação do gene MDR1.
Mais sobre intoxicação por ingestão de substâncias
Existem diversas outras substâncias e alimentos que são considerados tóxicos para gatos e cães e, quando ingeridos, significam uma emergência na clínica veterinária. Veja no infográfico abaixo um panorama completo sobre intoxicação por ingestão de substância e como agir diante dos agentes tóxicos mais comuns:

Referências bibliográficas
Cordeiro, G.G. Aspectos Epidemiológicos e clínicos da intoxicação por paracetamol em cães e gatos registrados pelo centro de informação toxicológica do Rio Grande do Sul entre 2025 e 2021. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Veterinária. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2021. Acesso em: 08/04/2024
Khan, S.A. Analgesics (Toxicity). MSD Veterinary Manual. 2014. Acesso em 12/04/2024
Lee, J. A. Emergency Management and Treatment of the Poisoned Small Animal Patient. Vet Clin Small Anim, v. 43, 2013. Acesso em: 13/04/2024.
Özkan, B. Acetaminophen toxicosis in a cat. Journal of Istanbul Veterinary Sciences, v. 1, n. 1, 2017. Acesso em: 13/04/2024.
Riboldi, E. O. Intoxicações em pequenos animais: uma revisão. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Faculdade de Veterinária. UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL 2010. Acesso em: 13/04/2024
Sidhu, S., Singh, R., Saini, N. Acetaminophen toxicity in a cat and its treatment. Indian J. Vet. Med. Vol. 41, No. 1, 2021. Acesso em: 13/04/2024.
Steenbergen, V. Acetominophen and cats – A Dangerous Combination. Toxicology Brief, Veterinary Technician, 2003. Acesso em: 13/04/2024.
