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Mutação do gene MDR1 em cães: conheça as raças mais afetadas

Mutação do gene MDR1 em cães: conheça as raças mais afetadas
Atualizado em 15 de outubro de 2025
Tempo de leitura: 12min
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Animais portadores da mutação do gene MDR1 podem ser sensíveis a diversos fármacos. Saiba quais raças têm essa predisposição e orientações sobre medicações que podem ou não ser ministradas nesses pacientes.

O gene MDR1 codifica a glicoproteína P, um transportador de medicamentos que desempenha um papel fundamental na disposição dos medicamentos. Sendo assim, quando esse gene sofre mutação, a sua função deixa de ser realizada da maneira esperada, exigindo atenção por parte do médico-veterinário para evitar os problemas que isso pode gerar.

Saiba quais são as raças que conhecidamente apresentam mutação do gene MDR1e entenda como evitar as complicações decorrentes dessa condição, protegendo a saúde do seu paciente.

O que é a mutação do gene MDR1? 

O gene MDR1, também conhecido como gene ABCB1, está localizado no cromossomo 14 de cães e é responsável pela codificação de uma glicoproteína-p transportadora transmembrana. A glicoproteína P está distribuída por diferentes tecidos e barreiras fisiológicas e é relacionada a funções de absorção, metabolização, distribuição e excreção de toxinas celulares.

Em cães que não possuem a mutação do gene MDR1, a glicoproteína P funciona como uma bomba, movimentando compostos pelo organismo – seja removendo compostos potencialmente tóxicos para fora do sistema nervoso central (SNC) ou transportando medicamentos através das membranas celulares e fora do corpo (Figura 1).

Isso ocorre ao nível dos canalículos biliares, das células epiteliais intestinais e das células epiteliais tubulares proximais renais.

Figura 1: Diagrama da ação da glicoproteina-P na absorção de medicamentos. A glicoproteína P (mostrada em vermelho) é um transportador de efluxo acionado por ATP que bombeia seus substratos para fora da célula. Fonte: GEYER & JANKO, 2011. 

No entanto, quando ocorre a mutação do gene MDR1, a glicoproteína P a ser codificada está deformada, o que a torna ineficaz. Dessa forma, os substratos para a glicoproteína P – incluindo muitos medicamentos comuns -, permanecem no SNC em níveis tóxicos ou são metabolizados e excretados incorretamente, representando riscos significativos para o animal.

A alteração acomete apenas cães?

Há relatos de polimorfismos funcionais no gene MDR1 em gatos, equinos, humanos e roedores, porém não associados à mesma deleção de 4 pares de bases (nt. 230(del4)) encontrada nos cães, que é a principal responsável pela disfunção da glicoproteína-p (GEYER & JANKO, 2011; MEALEY, 2023).

6 raças comuns que possuem maior predisposição à mutação no gene MDR1

Algumas raças apresentam predisposição para a mutação do gene MDR1. Saiba quais são, as principais características dessas raças e outras afecções que elas têm mais chances de desenvolver.

1. Border Collie

A raça Border Collie é bem popular no Brasil, e esse cão é considerado um dos melhores pastores do mundo.

É um cão de porte médio, com média de 13,5 – 25 kg e têm pelagem que varia de curta a média, com coloração que varia entre preto e branco, vermelho e branco e, às vezes, com marcas douradas.

O Border Collie possui predisposição ao desenvolvimento de doenças genéticas, sendo a maioria delas de herança autossômica recessiva. As principais doenças testadas para a raça no Brasil são:

  • mutação de multirresistência a drogas – mutação do gene MDR1;
  • anomalia do olho do Collie;
  • mielopatia degenerativa;
  • glaucoma.

2. Pastor Australiano

Apesar do nome, o Pastor Australiano foi selecionado, inicialmente, por fazendeiros dos Estados Unidos – sendo uma raça considerada estadunidense. É um cão inteligente e de trabalho, com fortes instintos de pastoreio e guarda.

Com porte médio, os cães da raça pesam entre 20 e 25 kg, em média, sendo extremamente ativos, resistentes, rápidos e capazes de correr até 60 km por dia.

Apesar de ser considerada saudável, existem vários alelos de doenças hereditárias no Pastor Australiano, incluindo:

  • mutação de multirresistência a drogas – mutação do gene MDR1;
  • anomalia do olho Collie;
  • retinopatia multifocal canino tipo 1;
  • catarata hereditária;
  • degeneração progressiva de cone e bastonete;
  • mielopatia degenerativa.

3. Pastor de Shetland

O Pastor de Shetland é um cão de porte pequeno, que pesa entre 6,8 e 11 kg, em média, e possui um corpo harmonioso, com pelagem abundante e longa.

A raça pode apresentar uma série de doenças de fundo hereditário. Dentre elas, podemos citar:

4. Pastor Suíço

O Pastor Suíço é um cão de grande porte, com corpo imponente e musculoso e temperamento equilibrado, atento e vigilante. O macho pesa entre 30 e 40 kg, em média, enquanto a fêmea tem peso médio entre 25 e 35 kg.

Os cães da raça gostam de ação e têm boa capacidade de treinamento, além de serem amigáveis e discretos. Dentre as doenças genéticas que o Pastor Suíço possui predisposição estão:

  • mutação de multirresistência a drogas – mutação do gene MDR1;
  • mielopatia degenerativa;
  • displasia coxofemoral;
  • displasia de cotovelo;
  • doença de Von Willebrand;
  • hemofilia A.

5. Pastor Alemão

O Pastor Alemão é uma raça bastante popular no Brasil e no mundo, sendo muito utilizado como cão de trabalho para guarda, auxílio policial e pastoreio de animais.

Dono de um porte grande, o macho pesa entre 30 e 40 kg, enquanto a fêmea pesa de 22 a 32 kg, em média. Inteligente, ágil e com grande capacidade de aprendizado, o Pastor Alemão tem predisposição a:

  • mutação de multirresistência a drogas – mutação do gene MDR1;
  • atrofia acinar pancreática;
  • displasia coxofemoral;
  • displasia de cotovelo;
  • doença de Von Willebrand;
  • hemofilia A.

6. Old English Sheepdog

O Old English Sheepdog, também conhecido como Bobtail, é um cão de grande porte, de aparência robusta e pelagem longa, densa e lanosa, que exige escovação frequente. Machos e fêmeas costumam pesar entre 27 e 45 kg, em média.

Com temperamento afetuoso, inteligente e protetor, é um cão originalmente utilizado para pastoreio e condução de rebanhos, mas que se adapta bem à vida familiar quando corretamente estimulado. Sua personalidade é ativa, sociável e alerta.

Entre as principais doenças genéticas com predisposição na raça, estão:

  • mutação de multirresistência a drogas – mutação do gene MDR1;
  • displasia coxofemoral;
  • atrofia progressiva da retina;
  • surdez congênita;
  • catarata hereditária;
  • hipotireoidismo.

Outras raças que podem apresentar a alteração

Além das raças citadas, outros nomes menos populares também fazem parte da lista dos cães que também possuem predisposição a mutação do gene MDR1, incluindo:

  • Pastor Americano;
  • Longhaired Whippet;
  • Silken Windhounds.

Vale ressaltar que, nos casos em que o cão é mestiço, cabe ao médico-veterinário também orientar o tutor em relação à mutação do gene MDR1, para que ele possa compartilhar essa importante informação em qualquer tipo de atendimento médico que o pet possa precisar.

Como saber se o paciente possui deficiência no gene MDR1 

O diagnóstico da mutação do gene MDR1 é realizado através de testes genéticos, feitos por meio de diagnóstico molecular – PCR. Para a definição de um diagnóstico molecular, o médico-veterinário pode coletar amostra de sangue com EDTA e/ou swab de mucosa oral.

Além da técnica convencional, o exame Western Blotting e o uso de microssatélites podem ser aplicados para a detecção de cães portadores da mutação no gene MDR1.

Apesar de existirem exames diagnósticos, a identificação inicial dessa mutação geralmente ocorre em cães jovens, após terem uma reação adversa a algum medicamento específico.

Medicamentos contraindicados ou com uso cauteloso em animais com mutação de MDR1

Como mencionamos lá no início, o gene MDR1 está associado à ação dos medicamentos no organismo. Isso porque a glicoproteína P, afetada na mutação desse gene, atua no controle da absorção, da metabolização, da distribuição de uma série de medicações e da excreção de diferentes fármacos.

Sendo assim, alguns medicamentos podem causar toxicidade grave em animais que tenham a mutação do gene MDR1.Tudo depende do fármaco usado. Enquanto alguns causam toxidade se administrados em altas dosagens, outros podem ser prejudiciais até em doses menores.

Além disso, certos medicamentos, como cetoconazol, ciclosporina e espinosad, quando usados em combinação, também podem apresentar maior risco de reação adversa.

Medicamentos potencialmente contraindicados: aqueles que não devem ser usados

Dentre os medicamentos potencialmente contraindicados para o cão que carrega a mutação do gene MDR1, podemos citar:

  • ciclosporina;
  • doxorrubicina;
  • emodepside;
  • grapiprante;
  • ivermectina;
  • loperamida;
  • maropitant;
  • milbemicina oxima;
  • moxidectina;
  • selamectina;
  • metoclopramida.

Medicamentos que devem ser usados com cautela (dose e frequência mínimas)

Já outros medicamentos devem ser utilizados com parcimônia e em doses mínimas em pacientes com mutação no gene MDR1, incluindo os listados abaixo:

  • digoxina;
  • doxiciclina;
  • morfina;
  • buprenorfina;
  • fentanil;
  • vincristina;
  • vimblastina;
  • acepromazina;
  • butorfanol;
  • metronidazol;
  • itraconazol.

Atendi um cão de raça predisposta e não sei se ele tem a mutação do gene MDR1, e agora?

Diante do atendimento clínico de um cão de uma das raças predispostas à mutação do gene MDR1, a ausência de confirmação genotípica deve acender um sinal de alerta, especialmente em pacientes jovens. Nessa faixa etária, muitos animais ainda não foram submetidos a tratamentos farmacológicos mais complexos, tampouco possuem histórico clínico consolidado que permita saber sobre quadros anteriores de intoxicação medicamentosa.

Saiba como abordar esses pacientes.

1. Faça uma anamnese detalhada

A anamnese de um paciente de raça predisposta à mutação do gene MDR1 sempre deve ser bem detalhada, buscando saber tudo sobre o histórico de tratamentos e medicamentos já utilizados, com o intuito de confirmar quadros anteriores de intoxicação por fármacos.

2. Conheça os medicamentos que possuem restrição ou uso cauteloso

Saber quais medicamentos são contraindicados ou que devem ser usados cautelosamente em raças predispostas à mutação do gene MDR1 é de suma importância, uma vez que, ao não ter conhecimento da condição genética do paciente, a conduta veterinária mais segura consiste em evitar o uso de fármacos de risco elevado ou, se indispensáveis, administrá-los em doses reduzidas, com monitoramento rigoroso dos sinais neurológicos.

3. Alerte os tutores sobre a importância de nunca automedicar o pet em casa

Cabe ao médico-veterinário reconhecer se o paciente pertence ou é mestiço de raças predispostas a alteração no gene MDR1, orientando os tutores desses cães sobre a sensibilidade que o animal pode apresentar e ressaltando que nunca devem ser dados medicamentos por conta própria em casa.

Além disso, o profissional pode recomendar o teste genético específico para a mutação do gene MDR1, com o intuito de confirmar a alteração.

A Royal Canin® segue ao seu lado na jornada pela saúde e bem-estar de cães e gatos

Além da orientação em relação ao cuidado na seleção dos medicamentos, o médico-veterinário também deve relembrar os tutores sobre a importância de um manejo nutricional adequado, completo e balanceado para seus pacientes.

Isso porque, quando um animal está bem nutrido, até mesmo a resposta aos tratamentos e intervenções médicas tendem a ser mais satisfatórias.

Pensando nisso, a Royal Canin® conta com alimentos especificamente formulados para raças e portes específicos, auxiliando na manutenção da saúde dos pets. São fórmulas completas e balanceadas para atender as demandas nutricionais de gatos e cães em diferentes fases e estilos de vida.

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* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade.

Referências Bibliográficas 

CONNORS, R. MDR1 Genetic Testing: What You Need to Know. Today’s Veterinary Technician, 2017. Acesso em: 20 maio 2025.

DOCKWEILER, J., COHEN, A. Drug sensitivity: MDR1. Cornell Richard P. Riney Canine Health Center. Acesso em: 20 maio 2025.

GEYER, J., JANKO, C. Treatment of MDR1 Mutant Dogs with Macrocyclic Lactones. Current pharmaceutical biotechnology, n.13, 2011. Acesso em: 20 maio 2025.

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MEALEY, K.L., OWENS, J.G., FREEMAN, E. Canine and feline P-glycoprotein deficiency: What we know and where we need to go. J Vet Pharmacol Ther, v. 46, n. 1, 2023. Acesso em: 20 maio 2025.

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OFFICIAL UNITED KENNEL CLUB BREED STANDARD. White Shepherd. 2014. Acesso em: 20 maio 2025.

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SHIRABE, G.K.S., BONDAN, E.F. Principais doenças genéticas em cães da raça Border Collie: uma revisão. Research, Society and Development, v. 11, n. 16, 2022. Acesso em: 20 maio 2025.

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