Gastroenterite felina e canina: quais os principais tipos e como diagnosticar?
Links rápidos:
- Entendendo o conceito de gastroenterite
- Principais tipos de gastroenterite em gatos e cães
- Como triar e identificar a gravidade do caso?
- Outros pontos-chave da anamnese em quadros de gastroenterite em gatos e cães
- Possíveis sinais clínicos e alterações no exame físico do paciente
- Gastroenterite felina e canina: a importância de solicitar exames complementares
- Tratamento suporte para a gastroenterite em cães e gatos
- Gastroenterite em gatos: principais diferenças no manejo do paciente felino
- A importância da nutrição para a saúde gastrointestinal
A gastroenterite em gatos e cães representam uma parcela considerável dos atendimentos clínicos veterinários. Essa condição possui diferentes causas que podem desencadear quadros leves a severos. Saiba como abordar o paciente acometido!
A gastroenterite é uma das condições mais frequentemente encontradas na prática clínica veterinária, caracterizada por inflamação do trato gastrointestinal que leva a sintomas como vômitos, diarreia e desconforto abdominal.
Essa condição multifatorial pode variar de leve a grave, dependendo da etiologia, da resposta imunológica do paciente e da presença de complicações.
O diagnóstico precoce e assertivo da gastroenterite canina e felina possibilitará que o médico-veterinário adote uma abordagem terapêutica adequada, o que é fundamental para reduzir a morbidade e evitar complicações secundárias.
Entendendo o conceito de gastroenterite
A gastroenterite é definida como uma inflamação na mucosa do trato gastrointestinal, que frequentemente manifesta sinais clínicos como vômitos, diarreia, dor abdominal e, em casos mais graves, desidratação e letargia.
Essa inflamação pode ter origem infecciosa, tóxica, parasitária, metabólica ou até idiopática.
Em muitos casos, a gastroenterite canina e felina é autolimitante, mas pode progredir para quadros severos – especialmente em animais imunocomprometidos, como, principalmente, filhotes e idosos (LAWRENCE; LIDBURY, 2015).
Principais tipos de gastroenterite em gatos e cães
A gastroenterite canina e felina pode ser causada por diferentes agentes etiológicos e condições subjacentes. Os principais tipos que podem ser diagnosticados pelo médico-veterinário incluem os seguintes.
Infecções Virais
Infecções virais são causas significativas de gastroenterite, especialmente em animais jovens e não vacinados.
A parvovirose canina, por exemplo, é uma das causas mais graves de gastroenterite canina, levando a diarreia hemorrágica, vômitos severos e imunossupressão.
Em gatos, o vírus da imunodeficiência felina, o vírus da leucemia felina e o parvovírus felino (Panleucopenia felina) consistem nas principais causas virais que levam ao aparecimento de gastroenterite (LAWRENCE & LIDBURY, 2015).
Infecções Parasitárias
Parasitas como Ancylostoma, Toxocara, Cystoisospora spp. e Giardia spp. estão comumente relacionados à gastroenterite canina e felina, desenvolvendo um quadro clínico que pode incluir diarreia, hematoquezia e/ou desconforto abdominal.
Casos crônicos de parasitoses, podem, inclusive, resultar em desnutrição e atraso no crescimento do paciente (TROTMAN, 2014).
Hemoparasitas
Hemoparasitoses como a erliquiose e a babesiose são doenças transmitidas por vetores que podem desencadear uma ampla gama de manifestações clínicas, incluindo sinais gastrointestinais inespecíficos, como gastroenterite em cães e gatos (WOLOSKI, 2021).
Em ambas as enfermidades citadas, a manifestação gastrointestinal pode ser agravada por coinfecções ou imunossupressão, sendo essencial o diagnóstico precoce para a instituição de terapias específicas (NELSON & COUTO, 2019).
Intoxicações e Reações a Fármacos
A ingestão de plantas tóxicas, produtos químicos, alimentos indevidos ou medicamentos é uma causa importante de gastroenterite canina e felina, frequentemente acompanhada de sinais sistêmicos que refletem o impacto tóxico desses agentes no organismo.
Sendo assim, além de vômitos, diarreia e/ou abdominalgia, o médico-veterinário muitas vezes pode identificar outras manifestações clínicas como tremores musculares, convulsões, taquicardia ou alterações neurológicas, dependendo da natureza e da dose do agente ingerido (LAWRENCE; LIDBURY, 2015; WOLOSKI, 2021).
Distúrbios Metabólicos
Distúrbios metabólicos, como insuficiência hepática e pancreatite, são condições clínicas significativas que podem levar ao aparecimento de sinais clínicos de gastroenterite em gatos e cães, devido à disfunção sistêmica associada à enfermidade.
Na insuficiência hepática, a perda da capacidade do fígado de metabolizar toxinas e sintetizar proteínas essenciais, como albumina e fatores de coagulação, pode resultar em sinais gastrointestinais, incluindo vômitos, diarreia e anorexia.
Nesse caso, essas manifestações clínicas podem estar associadas à encefalopatia hepática e à ascite, que agravam o quadro clínico (NELSON; COUTO, 2019).
Por outro lado, a pancreatite causa a liberação de enzimas digestivas no parênquima pancreático, desencadeando inflamação local e sistêmica, resultando em dor abdominal intensa, vômitos, diarreia e febre, podendo evoluir para choque em casos graves (TROTMAN, 2014).
Como triar e identificar a gravidade do caso?
A triagem do paciente é essencial para que o médico-veterinário seja capaz de determinar a gravidade do quadro e instituir, rapidamente, o manejo mais adequado para cada tipo de gastroenterite canina e felina.
Assim, a anamnese detalhada e o exame físico são as primeiras etapas do atendimento e devem incluir:
- histórico alimentar e ambiental: investigar mudanças na dieta, acesso a lixo ou compostos tóxicos (medicamentos, plantas, produtos químicos), se o animal frequenta locais de alta densidade populacional (creches, parques etc.);
- identificação do aspecto das fezes: a presença de sangue, muco, variações de cor e a consistência podem ajudar na suspeita da etiologia subjacente;
- outros sinais clínicos associados: letargia, febre e desidratação são sinais de gravidade que demandam atenção imediata.
A frequência e a intensidade dos vômitos e da diarreia também devem ser avaliadas. Em casos recorrentes, a realização de exames prévios e o histórico de tratamentos são dados essenciais para a abordagem médico-veterinária (BRAGA et al., 2014).
Outros pontos-chave da anamnese em quadros de gastroenterite em gatos e cães
Perguntas detalhadas durante a anamnese de um paciente acometido com gastroenterite canina ou felina podem auxiliar no levantamento das principais suspeitas e direcionar o diagnóstico diferencial.
Portanto, além dos pontos anteriormente citados, o médico-veterinário deve levantar informações sobre outros aspectos básicos, assim como:
- vacinação: animais não vacinados estão vulneráveis a infecções virais;
- controle de ectoparasitas: a falta de um manejo adequado para o controle de infestações por ectoparasitas pode levar à suspeita de enfermidades transmitidas por vetores;
- mudanças de rotina ou dieta: mudança repentina na alimentação, fornecimento de novos petiscos, entre outros, podem desencadear sinais gastrointestinais;
- histórico de viagens ou contato com outros animais: pode sugerir exposição a agentes infecciosos.
Possíveis sinais clínicos e alterações no exame físico do paciente
Os sinais clínicos da gastroenterite felina e canina incluem desde manifestações leves até graves, dependendo da causa e da resposta individual do paciente. Dessa forma, é possível observar:
- êmese;
- sialorreia;
- diarreia;
- hiporexia/anorexia;
- letargia;
- sensibilidade ou dor abdominal à palpação;
- hipertermia;
- desidratação.
Gastroenterite felina e canina: a importância de solicitar exames complementares
Os exames complementares desempenham um papel essencial no diagnóstico preciso da gastroenterite em cães e gatos, permitindo ao médico-veterinário identificar a causa base e instituir o tratamento mais apropriado para cada caso.
Exames hematológicos básicos, como hemograma completo, função renal e função hepática, são importantes para complementar a avaliação do estado clínico geral do paciente e da gravidade do quadro, permitindo evidenciar alterações como anemia, leucocitose ou trombocitopenia.
Essas informações são cruciais para a instituição de um tratamento inicial correto, assim como orientar adequadamente a fluidoterapia e a terapia de suporte.
A ultrassonografia abdominal é outro exame de grande importância, sendo empregada para descartar causas estruturais como presença de corpo estranho, detecção de obstruções intestinais, ou identificar alterações inflamatórias nos órgãos abdominais.
Além disso, a depender da suspeita clínica estabelecida pelo profissional, testes específicos são fundamentais para confirmar o diagnóstico da gastroenterite canina e felina.
Por exemplo, pode ser necessária a solicitação de exame coproparasitológico para pesquisa de parasitoses (verminoses, giardíase, cocciodiose etc.), enquanto a dosagem de lipase pancreática imunorreativa (PLI) é recomendada para a detecção de pancreatite.
Em adição, exames sorológicos e PCR são úteis na identificação de hemoparasitas e outros agentes infecciosos que possam estar associados ao quadro clínico.
A escolha dos exames complementares deve ser guiada pelos achados clínicos, histórico do paciente e suspeitas etiológicas, resultando em uma abordagem diagnóstica eficiente e assertiva.
Isso pode possibilitar que o médico-veterinário adote o melhor manejo terapêutico para cada caso, melhorando o prognóstico e reduzindo o risco de complicações (DEMA et al., 2023).
Tratamento suporte para a gastroenterite em cães e gatos
O tratamento suporte para gastroenterite canina e felina é fundamental e deve ser adaptado aos achados do exame físico, à gravidade e à etiologia do quadro clínico, buscando estabilizar o paciente e promover sua recuperação. Pode incluir:
fluidoterapia: para corrigir a desidratação e repor eletrólitos. Deve ser intravenosa quando há recomendação de internação do paciente, em situações de desidratação severa;
- antieméticos: ondansetrona, metoclopramida, citrato de maropitant;
- analgésicos: escopolamina (em cães), dipirona, entre outros;
- gastroprotetores: sucralfato, omeprazol;
- suplementos: vitaminas, probióticos, fibras solúveis, suporte hepático etc.
Vale ressaltar que o tratamento suporte na gastroenterite felina e canina ajuda no controle e remissão dos sinais clínicos, mas não resolve a causa do problema quando envolvem doenças específicas como giardíase ou hemoparasitas, não excluindo a necessidade da realização de exames complementares para o diagnóstico preciso e tratamento.
No vídeo a seguir, veja na prática como abordar um caso clínico de gastroenterite aguda em cães, com a Dra. Killian Lenahen:
A importância do uso consciente de antibióticos
O uso de antibióticos no tratamento da gastroenterite canina e felina deve ser reservado para casos em que há confirmação ou suspeita forte de infecção bacteriana.
O uso inadequado pode levar ao desenvolvimento de resistência bacteriana e dificultar tratamentos futuros (DEMA et al., 2023).
Gastroenterite em gatos: principais diferenças no manejo do paciente felino
Gatos apresentam particularidades importantes que devem ser consideradas durante o manejo clínico de quadros de gastroenterite. Uma das principais diferenças é a sensibilidade a certos fármacos, que podem ser tóxicos para essa espécie, como a escopolamina.
A reidratação desempenha um papel central no tratamento da gastroenterite em gatos, especialmente nos casos em que há desidratação moderada a grave. A administração de fluidos pode ser feita por via oral, subcutânea ou intravenosa, dependendo da gravidade do quadro.
Além disso, probióticos específicos para gatos são recomendados para restaurar o equilíbrio da microbiota intestinal. O uso de fibras como o psyllium pode auxiliar na regularização do trânsito intestinal, melhorando a consistência das fezes.
Por que a escopolamina é contraindicada nos felinos?
Amplamente usada em pacientes caninos com gastroenterite, a escopolamina é contraindicada para gatos devido às particularidades do metabolismo hepático felino, que é significativamente menos eficiente na conjugação e eliminação dessa substância em comparação ao de outras espécies.
Em função disso, a sua administração aumenta o risco de intoxicação, levando a efeitos adversos graves, como hipotensão, bradicardia e até alterações neurológicas, como sedação excessiva ou excitação paradoxal.
Portanto, o controle da abdominalgia em casos de gastroenterite felina deve ser realizado com outros fármacos, como opioides e anti-inflamatórios.
Os AINE’s podem ser utilizados em situações específicas, desde que a função renal e hepática do animal estejam preservadas e que a duração do tratamento seja cuidadosamente monitorada para evitar efeitos colaterais.
A importância da nutrição para a saúde gastrointestinal
A nutrição exerce um papel fundamental na recuperação e no manejo da gastroenterite em cães e gatos, sendo essencial para auxiliar na regeneração da mucosa intestinal, restaurar o equilíbrio da microbiota e prevenir complicações adicionais.
Dietas especialmente desenvolvidas para pacientes com distúrbios gastrointestinais são recomendadas, pois apresentam alto valor nutricional e alta digestibilidade, minimizando o esforço do sistema gastrointestinal durante o processo digestivo.
Além disso, podem possuir prebióticos que ajudam a promover um equilíbrio saudável do microbioma intestinal.
É essencial que a dieta seja personalizada de acordo com as necessidades metabólicas de cada paciente, levando em conta fatores como idade, peso, estado geral de saúde e presença de comorbidades.
A supervisão médico-veterinária contínua aliada ao correto tratamento e à abordagem nutricional adequada contribuem significativamente para uma recuperação mais rápida e eficaz do animal, promovendo saúde gastrointestinal e bem-estar geral (GASPAR, 2021; OLIVEIRA, 2019).
Quando recomendar o alimento gastrointestinal em casos de gastroenterite em gatos e cães?
O alimento coadjuvante gastrointestinal pode ser recomendado em casos de gastroenterite canina e felina moderada a grave, especialmente quando há comprometimento significativo da digestão e absorção de nutrientes.
Situações nas quais o paciente apresenta episódios frequentes de vômito ou diarreia, desidratação, ou em casos de gastroenterite secundária a condições subjacentes – como pancreatite, insuficiência hepática ou doenças inflamatórias intestinais – necessitam de uma dieta adequada.
Isso porque a dieta do animal pode auxiliar no processo digestivo, ajudar na recuperação da integridade da mucosa gastrointestinal e contribuir para a absorção eficiente dos nutrientes, colaborando na recuperação do estado nutricional do animal.
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* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade.
Referências:
BRAGA, P.F.S.; IASBECK, J.R.; ALMEIDA, L.P. Fatores associados a gastroenterite em cães. Revista MV&Z, v.12, n.2, 2014. Disponível em: https://www.revistamvez-crmvsp.com.br/index.php/recmvz/article/view/24143. Acesso em: 27 dez. 2024.
DEMA, A. et al. A comprehensive molecular survey of viral pathogens associated with canine gastroenteritis. Arch. Virol., v.168, n.2, 2023. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9825073/. Acesso em: 27 dez. 2024.
GASPAR, T.R. Parvovirose canina e a importância da nutrição no tratamento: revisão de literatura. FEPESMIG, 2021. Disponível em: https://192.100.247.84:8080/handle/prefix/2427. Acesso em: 27 dez. 2024.
LAWRENCE, Y.; LIDBURY, J. Symptomatic management of primary acute gastroenteritis. Today’s Veterinary Practice, 2015. Disponível em: https://www.euvetshop.com/literature/Symptomatic_Management_of_Primary_Acute_Gastroentericitis.pdf. Acesso em: 27 dez. 2024.
NELSON, R.W., COUTO, C.G. Small Animal Internal Medicine. Elsevier, 6 ed., 2019.
OLIVEIRA, V.S. Principais causas de vômito em gatos. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2019. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/249488. Acesso em: 27 dez. 2024.
PAULA, C.L. et al. Principais patógenos entéricos de origem bacteriana e parasitária, de potencial zoonótico, em gatos domésticos. Vet. e Zootec., v.24, n.3, 2017.
TROTMAN, T.K. Gastroenteritis. In: SILVERSTEIN, D.C.; HOPPER, K. Small Animal Critical Care Medicine. Elsevier, 2014.
WOLOSKI, G.A.C. Medicamentos potencialmente tóxicos para cães e gatos: revisão de literatura. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2021. Disponível em: https://lume.ufrgs.br/handle/10183/271974. Acesso em: 27 dez. 2024.
