Piometra em gatos e cães: como diagnosticar e tratar
Links rápidos:
- O que é piometra?
- Principais causas e fatores de risco para o desenvolvimento de piometra em gatas e cadelas
- Piometra aberta x piometra fechada: entenda a diferença
- Possíveis sinais clínicos de piometra em cadelas e gatas
- O diagnóstico precoce é indispensável para um prognóstico mais favorável
- Tratamento para piometra: como conduzir o caso com eficiência
- Formas de prevenção da doença
- Outras perguntas e respostas sobre piometra em cães e gatos
A piometra é uma enfermidade que acomete o trato reprodutivo de cadelas e gatas e representa um sério risco à saúde da paciente. Conheça os detalhes da doença!
A piometra é uma afecção comumente vista na clínica veterinária, acometendo cadelas e gatas que não são castradas ou que foram castradas de forma incorreta/incompleta.
Pode ser uma enfermidade mais frequente em fêmeas de meia-idade ou idosas, pela recorrência dos ciclos estrais sem prenhez. Entretanto, os animais jovens também podem ser acometidos em decorrência de tratamentos hormonais, como o uso de anticoncepcional para a prevenção da prenhez (CHEN, ADDEO e SASAKI, 2007).
Devido à gravidade da piometra em cadelas e gatas e às possíveis complicações decorrentes das alterações hematológicas e bioquímicas no organismo das pacientes, o caso geralmente é tratado como urgência ou até mesmo emergência, dependendo do grau da afecção. Portanto, o diagnóstico precoce e a abordagem terapêutica médico-veterinária imediata são fundamentais para um prognóstico mais favorável.
O que é piometra?
A piometra, ou complexo Hiperplasia Endometrial Cística, também é conhecida como infecção supurativa do útero e é considerada como uma grave infecção bacteriana que ocorre no endométrio que sofreu hiperplasia cística devido a uma prolongada estimulação hormonal. É caracterizada pelo excessivo acúmulo de pus na cavidade ou lúmen uterino (CHEN, ADDEO e SASAKI, 2007).
Escherichia coli é o agente patogênico mais comum na piometra em gatos e cães, seguido pelo Staphylococcus spp. e Streptococcus spp. (YLHÄINEN, A. et al., 2025).
O agente é responsável pelo desenvolvimento dos sinais clínicos e por outras complicações, que variam de acordo com os graus de severidade da piometra, como imunossupressão medular, induzida por endotoxinas bacterianas, lesão renal, colestase hepática e choque séptico (CONRADO, 2009).
Piometra x hemometra: qual a diferença?
A presença de conteúdo no útero do animal nem sempre é composta por exsudato. No caso da hemometra, ocorre a presença de sangue no lúmen uterino.
Importante ainda dizer que a hemometra não possui o mesmo grau de gravidade da piometra em gatos e cães e, portanto, precisa ser diferenciada pelo profissional.
Veja mais alguns detalhes acerca dessas enfermidades.
- Piometra: ocorre um processo inflamatório do útero com infecção bacteriana subsequente, sendo caracterizada pelo acúmulo de pus no interior do útero devido a hiperplasia endometrial cística e a infecção bacteriana.
- Hemometra: há um acúmulo de sangue no interior do útero que pode ser resultante de outras afecções, por exemplo, vaginites.
Em suma, a hemometra pode estar associada à piometra ou a outras doenças. Sendo assim, é imprescindível realizar um diagnóstico diferencial e assertivo com o auxílio da anamnese, dos exames físicos e complementares.
Além de gatos e cães, outras espécies podem ter piometra
A piometra não acomete somente gatas e cadelas. Outros mamíferos também podem desenvolver essa condição, ainda que com menor frequência (CONRADO, 2009).
Fêmeas de lagomorfos, como coelhos, e de roedores domésticos, como porquinhos-da-índia e ratos, também podem desenvolver a afecção.
Nos primatas do Novo Mundo, por outro lado, a ocorrência de hemometra tende a ser mais relatada que de piometra. Isso se deve, em parte, a diferenças morfofuncionais do trato reprodutivo, bem como a maior incidência de desordens hemorrágicas endometriais ou retenção de sangue uterino em determinadas fases do ciclo.
Principais causas e fatores de risco para o desenvolvimento de piometra em gatas e cadelas
A piometra em cadelas e gatas compromete o trato reprodutivo geralmente de forma aguda e, como sua causa está relacionada a uma prolongada estimulação hormonal, pode de desenvolver em qualquer estágio do ciclo estral, sendo comumente observada na fase de diestro (OLIVEIRA et al, 2021).
Há uma explicação para isso. No diestro, o estímulo prolongado da progesterona pode predispor, justamente, à infecção bacteriana uterina. Já durante o estro, a progesterona promove a proliferação endometrial e suprime a atividade do miométrio, possibilitando o acúmulo de secreções glandulares no útero, promovendo um ambiente propício para a proliferação das bactérias. A inibição da resposta leucocitária também pode favorecer à infecção uterina (CHEN et al., 2007).
Sendo assim, os fatores de risco que podem estar relacionados ao surgimento de piometra incluem:
- uso de anticoncepcionais;
- interrupção natural ou farmacológica da gestação (LOPES, 2021);
- pseudociese;
- ovários policísticos ou presença de cistos nos ovários (CONRADO, 2009);
- neoplasias uterinas (CONRADO, 2009);
- condições que gerem a redução da defesa celular e imunitária local, resultando em uma multiplicação exacerbada dos microrganismos presentes na microbiota vaginal do animal (OLIVEIRA et al, 2021).
Piometra aberta x piometra fechada: entenda a diferença
Além de entender as causas e o que é piometra, é imprescindível que médico-veterinário saiba que a piometra em cães e gatos pode ser classificada como aberta ou fechada. Compreender, na prática, essa diferença favorece o diagnóstico precoce e assertivo.
Veja os detalhes.
1. Piometra aberta
Na piometra com a cérvix aberta, um dos sinais clínicos mais claros é a presença de corrimento vaginal com odor forte e de aspecto sanguinolento a purulento (OLIVEIRA et al., 2021).
2. Piometra fechada
Já na piometra com a cérvix fechada não há corrimento vaginal, ocorrendo um acúmulo de conteúdo no útero da fêmea, causando uma possível distensão no abdômen decorrente da distensão uterina (LOPES, 2021).
Como não há eliminação das secreções e todo o pus e bactérias ficam retidos no útero da gata e da cadela, temos aqui a forma mais grave dessa enfermidade. Casos de piometra com essas características geralmente consistem em emergência, requerendo rápida intervenção do médico-veterinário para prevenir sepse subsequente com potencial risco de óbito da paciente (CONRADO, 2009).
Possíveis sinais clínicos de piometra em cadelas e gatas
Os principais sinais clínicos associados a quadros de piometra em cadelas e gatas incluem:
- letargia;
- hipertermia, mas se houver toxemia pode apresentar hipotermia;
- apatia;
- depressão;
- hiporexia, anorexia ou aumento da seletividade alimentar;
- poliúria;
- polidipsia;
- êmese;
- diarreia;
- distensão abdominal;
- esplenomegalia em decorrência de hematopoiese extramedular esplênica.
Além destes, outros problemas associados à toxemia e sepse podem gerar quadros progressivos de desidratação, choque, coma e até mesmo óbito do animal (CONRADO, 2009).
Entretanto, os animais com piometra aberta podem não apresentar outros sinais clínicos além da secreção vaginal (pus, muco e sangue), principalmente no curso inicial da doença (LOPES, 2021).
O diagnóstico precoce é indispensável para um prognóstico mais favorável
A piometra é uma infecção grave cuja evolução pode ser potencialmente fatal. Por isso, a detecção precoce é fundamental para instituir o tratamento adequado, possibilitando maior sucesso terapêutico e reduzindo a ocorrência de complicações sistêmicas e a mortalidade.
Entenda quais as sugestões práticas de abordagem para essa afecção.
Quais exames ajudam a traçar o diagnóstico de piometra?
Um conjunto de dados deve ser avaliado pelo médico-veterinário para fechar o diagnóstico da piometra em cães e gatos. São eles: anamnese, sinais clínicos apresentados pelo animal, exames físicos e complementares.
O profissional deve, então, solicitar hemograma para avaliar se há anemia normocítica, normocrômica e leucocitose por neutrofilia. Bioquímica sérica e urinálise também são importantes para detectar outras complicações sistêmicas.
A confirmação diagnóstica é feita pela ultrassonografia abdominal, que pode identificar a presença de exsudato no lúmen uterino e a hiperplasia endometrial cística, além de fornecer informações sobre a integridade endometrial e a distensão do útero (LOPES, 2021).
Diagnóstico diferencial: outras afecções devem ser descartadas
O diagnóstico diferencial da piometra com outras doenças é mais uma etapa crucial aqui. Ele deve considerar:
- hemometra;
- neoplasias uterinas ou ovarianas;
- cistite;
- vaginite;
- outras causas de poliúria e polidipsia (diabetes, hiperadrenocorticismo, nefropatia primária).
Tratamento para piometra: como conduzir o caso com eficiência
Um exemplo de tratamento recomendado para Piometra em cães e gatos é o cirúrgico, através da ovariosalpingohisterectomia (OSH) ou castração (LOPES, 2021).
Antes de submeter qualquer animal ao procedimento cirúrgico, é de suma importância que o médico-veterinário identifique e alerte o tutor sobre quais são os riscos envolvidos e quais são as possibilidades de prognóstico para o caso.
É importante dizer que alguns tratamentos medicamentosos estão sendo estudados como alternativa ao tratamento cirúrgico, principalmente em fêmeas matrizes. Al-Zubaidi e equipe (2024) concluíram que a combinação de aglepristona com misoprostol (PGF2 α) já tratou eficazmente a piometra em cadelas. O misoprostol também aumentou as contrações uterinas, resultando na rápida eliminação do conteúdo uterino. Novas pesquisas continuam sendo conduzidas sobre o tema.
Formas de prevenção da doença
Além de entender como diagnosticar e tratar a piometra, é importante pensar em prevenção.
A castração também pode ser indicada para a prevenção da piometra em cadelas e gatas, já que resulta na retirada total do útero e ovários. Além disso, esse procedimento ajuda a reduzir o risco do desenvolvimento de outras doenças, como tumores mamários, uterinos, ovarianos, pseudociese, entre outras.
Durante a juventude do animal, a castração ainda é indicada para inibir os comportamentos territorialistas e, consequentemente, as brigas.
Em contrapartida, é essencial ressaltar que a castração nem sempre previne 100% a ocorrência de piometra, pois a presença de tecido ovariano remanescente pode levar ao desenvolvimento da piometra de coto uterino.
Sendo assim, é importante que o médico-veterinário acompanhe periodicamente a paciente, realizando exames de rotina para detecção precoce de enfermidades, estabelecendo e orientando o manejo mais adequado para cada indivíduo.
Outras perguntas e respostas sobre piometra em cães e gatos
Como a piometra é uma afecção frequentemente vista na rotina clínica, outras dúvidas que ainda podem surgir. Preparamos essa seção de perguntas e respostas para apoiar o médico-veterinário.
Animais castrados podem ter piometra?
Sim. A síndrome do ovário remanescente consiste na principal causa de piometra em animais previamente castrados, conhecida como piometra de coto uterino, como já mencionamos. A fêmea pode apresentar sinais de estro (como edema vulvar ou secreção), e pode ocorrer acúmulo séptico no coto, evoluindo para piometra.
Existe tratamento sem cirurgia para piometra em cães e gatos?
Assim como dito anteriormente, alguns autores citam o tratamento conservador para piometra com Aglepristone (Alizin®) e/ou Misoprostol (Cytotec®).
Uma cadela ou gata pode ter piometra no primeiro cio?
Sim. Embora menos comum, a paciente pode desenvolver piometra após o primeiro cio.
Pode utilizar antibiótico para tratar piometra em cães e gatos?
O uso de antibiótico sistêmico não é eficaz para tratamento isolado, mas é usado em conjunto ao tratamento cirúrgico e no pós-cirúrgico com o objetivo de melhorar a leucocitose e resolver a infecção bacteriana.
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Referências:
AL-ZUBAIDI, S.F. et al. Pyometra Treatment in Bitches with Different Protocols. Adv. Anim. Vet. Sci., v.12, n.1, 2024. Disponível em: https://www.researcherslinks.com/current-issues/Pyometra-Treatment-Bitches-with-Different-Protocols/33/1/7056/html. Acesso em: 07 jul. 2025.
CHEN, R.F.F.; ADDEO, P.M.D.; SASAKI, A.Y. Piometra aberta em uma cadela de 10 meses. Rev. Acad., Curitiba, v.5, n.03, 2007. Disponível em: https://periodicos.pucpr.br/cienciaanimal/article/view/10140. Acesso em: 07 jul. 2025.
CONRADO, F.O. Aspectos clínicos-patológicos da piometra. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2009. Disponível em: https://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/22930. Acesso em: 07 jul. 2025.
FRIOLANI, M. et al. Acute phase proteins, hematological and serum biochemical profiles of female dogs in diestrus, mucometra and pyometra. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.76, n.2, 2024. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abmvz/a/d7SQ5fBv4KrpfSmNsGkxygH/. Acesso em: 07 jul. 2025.
NASCIMENTO, A.E.; SANTOS, L.C.; SILVA, J.F. Molecular Factors Involved in the Pathogenesis of Pyometra in Domestic Cats (Felis catus). Animals, v.14, n.20, 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2615/14/20/2987. Acesso em: 07 jul. 2025.
OLIVEIRA, L.B. et al. Piometra em cadela: relato de caso. Anais da 17ª Mostra de Iniciação Cientifica (CONGREGA) – Centro Universitário da Região da Campanha, Rio Grande do Sul, 2021. Disponível em: https://revista.urcamp.edu.br/index.php/congregaanaismic/article/view/4160. Acesso em: 07 jul. 2025.
YLHÄINEN, A. et al. Bacteria associated with canine pyometra and concurrent bacteriuria: A prospective study. Veterinary Microbiology, v.301, 2025. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0378113524003845. Acesso em: 07 jul. 2025.
