Corpo estranho linear em gatos: como diagnosticar, tratar e prevenir

Corpo estranho linear em gatos: como diagnosticar, tratar e prevenir

Problema é comum em felinos e pode evoluir para quadro grave. Alguns cuidados simples, no entanto, podem ajudar a evitar sua ocorrência. Saiba mais!

As afecções gastrointestinais são muito comuns no atendimento clínico da espécie felina. O termo “corpo estranho” se refere a qualquer objeto não alimentar localizado no trato digestivo.

Devido ao comportamento natural dos gatos, que gostam de explorar o ambiente e apresentam especial interesse em brincar com objetos lineares, a possibilidade de ingestão deste tipo de item é grande e deve ser sempre considerada na prática da medicina felina, pois pode representar sério risco de saúde ao animal se a intervenção clínica ou cirúrgica para retirada de corpo estranho não for feita rapidamente.

Estes objetos podem se alojar em qualquer parte do intestino delgado e grosso, e não há um local de maior predileção; exceto pelo jejuno, que devido ao seu longo comprimento, é a região mais comumente afetada.

Entenda a seguir como identificar um corpo estranho linear e quais estratégias podem ser adotadas para a remoção e prevenção deste problema.

Por que a ocorrência de corpo estranho linear é mais alta em felinos?

Gatos apresentam maior seletividade nos hábitos alimentares, porém é comum a ingestão acidental de objetos lineares devido ao comportamento instintivo da espécie, como já citado. Felinos são naturalmente curiosos e têm preferência por brincar com objetos como linhas, barbantes, fitas etc, o que faz com que problemas gastrointestinais decorrentes da ingestão deste tipo de objeto seja muito mais comum em gatos do que em cães.

Por que é tão grave?

Embora possa parecer que corpos estranhos lineares possam ser eliminados nas fezes, nem sempre isso acontece. Se uma extremidade do corpo estranho se alojar em algum ponto do trato gastrointestinal, como na base da língua, no estômago ou no intestino, a outra extremidade do objeto percorrerá o restante do trato gastrointestinal. As alças intestinais se movimentam para empurrar este corpo estranho ao longo do TGI para que ele possa ser eliminado, porém o objeto é incapaz de se mover. Diante disso, corpo estranho no intestino, por exemplo, é algo grave.

A presença de corpo estranho linear, quando não identificada rapidamente, pode evoluir para complicações como perfuração duodenal com consequente peritonite devido ao vazamento de conteúdo luminal para a cavidade abdominal ou intussuscepção da alça intestinal com obstrução do órgão.

O corpo estranho linear por si só não causa a obstrução intestinal em gatos, porém o dobramento das paredes das alças intestinais que ocorre na presença do objeto no lúmen intestinal pode ter como consequência o processo obstrutivo parcial ou total.

Os sinais de obstrução parcial do intestino delgado surgem rapidamente. Se não for tratada, a atividade peristáltica contínua pode causar erosão do corpo estranho através da borda mesentérica do intestino com subsequente peritonite local ou difusa e comprometimento vascular da parede intestinal, levando a sérias complicações que colocam em risco a vida do animal.

Sinais clínicos causados por corpo estranho linear

Os tutores podem notar mudanças comportamentais em seus gatos decorrentes deste problema, como animais que se escondem mais do que o normal ou que repentinamente se apresentam mais letárgicos.

Além disso, as principais manifestações clínicas observadas em gatos diagnosticados com corpo estranho linear são:

  • Vômitos
  • Dor abdominal
  • Prostração
  • Anorexia
  • Febre
  • Desidratação

Diagnóstico

Algumas vezes a ingestão do corpo estranho é presenciada pelo tutor, o que facilita o diagnóstico desta afecção. A anamnese deve ser conduzida de forma detalhada para que sejam identificadas situações que levantem essa suspeita.

Durante o exame físico, a avaliação da boca e da cavidade oral do paciente é imprescindível para buscar objetos lineares que possam estar enrolados na base da língua do animal, o que é bastante frequente. A palpação abdominal pode permitir a localização da dor em uma região específica do intestino ou também pode ser generalizada, especialmente quando há peritonite.

O exame de imagem é o método de confirmação diagnóstica. Ao exame ultrassonográfico, é possível observar o típico pregueamento das alças intestinais ao redor do objeto ingerido, mesmo que o corpo estranho em si não seja visualizado. Este é o maior indicativo de ingestão de corpo estranho linear nos gatos. O agrupamento de alças intestinais com aparência pregueada também pode ser observado em radiografias abdominais simples ou contrastadas. Quando há intussuscepção, é possível identificá-la no ultrassom pelo espessamento intestinal focal com aparência de anel concêntrico ou multicamadas.

Tratamento

Uma vez diagnosticado o corpo estranho linear, a forma mais comum de intervenção é a cirurgia conhecida como laparotomia exploratória, realizada mediante anestesia geral.

O abdome é totalmente aberto para que possa permitir a exploração da cavidade abdominal, e se o corpo estranho for encontrado, o segmento da alça intestinal será aberto para permitir sua remoção.

Pode haver necessidade de enterotomia se alguma região do intestino for perfurada e danificada.

É possível tratar sem cirurgia?

Algumas vezes, os corpos estranhos podem se alojar no estômago e serem acessíveis via endoscópio. Neste caso, pode ser feita a retirada do corpo estranho por endoscopia, que é uma técnica minimamente invasiva que pode permitir a retirada do objeto sem necessidade de cirurgia.

A estratégia adotada é de se retirar o objeto de forma retrógrada, passando do estômago para o esôfago pelo esfíncter esofágico inferior, e depois do esôfago para a cavidade oral através do esfíncter esofágico superior.

Um estudo retrospectivo conduzido por Basher e colaboradores (1987) avaliou o manejo conservativo/clínico vs. a intervenção cirúrgica em 24 gatos que ingeriram corpo estranho linear. Os casos que apresentavam possibilidade de manejo apenas clínico foram conduzidos com a terapia de suporte e apresentaram boa resposta ao tratamento e recuperação adequada.

Corpos estranhos alojados em algumas partes do estômago, no entanto, não são passíveis de remoção por procedimento endoscópico. Já objetos alojados no duodeno só podem ser removidos com procedimento cirúrgico.

Cuidados pós-operatórios

Os gatos geralmente permanecem hospitalizados em observação pós-cirúrgica por um período de 1 a 3 dias. É importante que sejam feitos curativos no local dos pontos e uso de colar protetor para evitar que o gato os remova ou lamba excessivamente a região, o que poderia comprometer a cicatrização.

A reintrodução alimentar deve ser realizada de forma gradual com dieta de alta digestibilidade e de consistência líquida ou pastosa, para auxiliar o trato gastrointestinal a retomar sua motilidade fisiológica. Durante este período é importante observar qualquer sinal que possa indicar vazamento do conteúdo luminal por deiscência dos pontos cirúrgicos.

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No momento da alta hospitalar, é recomendado manter o uso do colar protetor até que os pontos sejam removidos (geralmente entre 7 e 14 dias), assim como manter reduzido o nível de atividade do animal para que sua recuperação não seja comprometida.

Como orientar os tutores para evitar a ingestão de corpo estranho

Alguns cuidados podem ser adotados para evitar complicações à saúde dos pets decorrente de ingestão de corpos estranhos. Os tutores devem ser orientados a evitar deixar objetos pequenos soltos no ambiente onde o animal vive, especialmente os abordados neste artigo, como linhas, fios e barbantes, já que estes representam maiores riscos aos felinos.

Além disso, implementar o enriquecimento ambiental com nichos, arranhadores e outros artefatos específicos para felinos contribui para que estes animais possam passar mais tempo explorando o ambiente e brincando com objetos seguros.

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Referências Bibliográficas

BASHER, A.H.P.; FOWLER, J.D. Conservative versus surgical management of gastrointestinal linear foreign bodies in the cat. Veterinary Surgery, 1987.

HUNTER, T.; BARNETTE, C. Linear foreign body in cats. VCA Hospitals, 2021. Disponível em: <https://vcahospitals.com/know-your-pet/linear-foreign-body-in-cats>. Acesso em 4 Jan 2022.

WASHABAU, R.; DAY, M.J. Canine and Feline Gastroenterology. Elsevier Saunders, 2013.