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Doenças autoimunes em cães e gatos: conheça as principais e veja sugestões de abordagem

Doenças autoimunes em cães e gatos: conheça as principais e veja sugestões de abordagem
Atualizado em 30 de março de 2026
Tempo de leitura: 11min
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As doenças autoimunes, sejam elas em cães ou gatos, exigem atenção do médico-veterinário; saiba como abordar um caso suspeito!

As doenças autoimunes em cães e gatos representam um desafio diagnóstico e terapêutico frequente na clínica de pequenos animais. Essas enfermidades envolvem uma resposta imune desregulada contra componentes do próprio organismo, o que pode levar a quadros clínicos multissistêmicos e progressivos.

A suspeita de uma doença autoimune em gatos e cães exige uma abordagem médico-veterinária individualizada. Por isso, a compreensão dos mecanismos envolvidos em cada patologia, bem como dos fatores predisponentes, é essencial para um prognóstico mais favorável.

O que são doenças autoimunes?

As doenças autoimunes são distúrbios nos quais o sistema imunológico do paciente reconhece os próprios tecidos e células como se fossem ameaças ao organismo (autoantígenos), passando a atacá-los.

Essa condição resulta em inflamação crônica e destruição tecidual, podendo afetar órgãos isolados ou múltiplos sistemas simultaneamente (LIMA, 2024).

Doenças autoimunes x doenças imunomediadas

Embora os termos “autoimune” e “imunomediada” sejam frequentemente usados como sinônimos, há distinções importantes:

  • doenças imunomediadas englobam qualquer condição causada por uma resposta imune anormal ou inadequada, envolvendo ou não o ataque ao próprio organismo;
  • doenças autoimunes são um tipo específico de doença imunomediada, no qual o alvo da resposta imune são componentes próprios do organismo (LEVINE et al., 2024).

Portanto, toda doença autoimune é imunomediada, mas nem toda doença imunomediada é autoimune.

Principais causas e fatores predisponentes ao desenvolvimento de doenças autoimunes nos animais

O surgimento de uma doença autoimune em cães e gatos pode ser decorrente de vários fatores. Listamos os principais abaixo.

Predisposição genética e racial

O desenvolvimento de doenças autoimunes em cães e gatos pode estar relacionado à predisposição genética e racial.

O pênfigo foliáceo, por exemplo, é mais frequente em Akita, Chow Chow, Doberman Pinscher e Dachshund. Já a anemia hemolítica imunomediada tem maior incidência em Cocker Spaniel, Schnauzer miniatura, Collie e Old English Sheepdog (LIMA, 2024; ONUMA, 2022).

Doenças primárias

Algumas enfermidades primárias, como infecções virais, bacterianas e parasitárias, podem desencadear uma resposta imune inadequada a autoantígenos, fazendo com que cães e gatos desenvolvam doenças autoimunes.

Influência do estresse

Tanto o estresse físico quanto o emocional que podem ser gerados por mudança de ambiente, adoção recente, hospitalização prolongada e/ou cirurgias. Tudo isso pode induzir desequilíbrios imunológicos, favorecendo o surgimento ou agravamento de doença autoimune em cães e gatos (RAVICINI et al., 2022).

Outras causas

Desequilíbrios hormonais, exposição a toxinas ambientais ou a certas substâncias químicas, alguns fármacos (anticonvulsivantes, sulfas, quimioterápicos, entre outros) e disbiose intestinal também são situações que podem levar colaborar para o desenvolvimento de doenças autoimunes.

Embora incomum, reações pós-vacinais também podem desencadear ou exacerbar doenças autoimunes em cães e gatos que apresentam uma predisposição genética.

Principais doenças autoimunes em CÃES

A seguir, abordamos as doenças autoimunes mais comumente vistas em cães.

1. Anemia Hemolítica Imunomediada (AHI)

Anemia Hemolítica Imunomediada é uma Doença Autoimune que consiste em uma reação de hipersensibilidade tipo II, caracterizada pela ação do sistema complemento e imunoglobulinas dos tipos IgG e IgM, levando à destruição dos eritrócitos (hemólise intra e/ou extravascular) com consequente anemia regenerativa grave.

Pode ser classificada como primária (idiopática) ou secundária a doenças infecciosas (babesiose, erliquiose, leishmaniose), neoplasias, verminoses (dirofilariose) e transfusão sanguínea. O uso de medicamentos (como ampicilinas, cefalosporinas, insulina e sulfas) e vacinas com vírus vivo modificado também são citados como envolvidos em casos dessa doença (ONUMA, 2022).

Os sinais clínicos observados incluem:

  • letargia;
  • mucosas pálidas;
  • intolerância a exercícios;
  • anorexia;
  • vômitos;
  • diarreia;
  • urina amarronzada;
  • dispneia/taquipneia;
  • petéquias/hematomas.

2. Poliartrite Imunomediada

Outra importante doença autoimune em cães que vale destaque é poliartrite imunomediada, que consiste na reação do sistema imunológico em atacar estruturas articulares, levando à inflamação que pode causar claudicação, dor, febre, rigidez articular, letargia e perda de apetite.

A poliartrite imunomediada pode ser primária ou estar associada a outras doenças sistêmicas. Ocorre em duas formas: não erosiva, na qual há inflamação, mas não há danos às estruturas articulares, e erosiva, com presença de inflamação e erosão óssea (RAVICINI et al., 2022).

3. Pênfigo Foliáceo

É uma das doenças autoimunes dermatológicas mais comum em cães. A etiopatogenia do pênfigo foliáceo pode estar associada ao uso de certos medicamentos (ex.: sulfonamidas, penicilinas, metimazol e amitraz com metaflumizona etc.), a doenças crônicas ou, em alguns casos, pode não ter uma causa clara definida (LIMA, 2024).

A produção de autoanticorpos compromete as estruturas da epiderme, levando à formação de pústulas, crostas, pápulas, escamas, alopecia, eritema, hiperqueratose e lesões hipo ou hiperpigmentadas, especialmente em áreas como face, pavilhão auricular e coxins (KLUGE, 2023).

Cão com pênfigo foliáceo, uma das doenças autoimunes dermatológicas mais comum na espécie
Figura 1: Cão Chow Chow com pênfigo foliáceo apresentando lesões erosivas e de aspecto hiperqueratinoso em focinho, porção periocular e orelhas. Fonte: RHODES & WERNER, 2014.

4. Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)

O LES é uma doença autoimune em cães de caráter multifatorial e sazonal, cuja maioria dos casos ocorre no verão e no outono. As células de lúpus eritematoso são neutrófilos fagocitários que contêm corpos intracitoplasmáticos de material nuclear (KLUGE, 2023).

Os sinais clínicos podem incluir febre, poliartrite, dermatopatia, glomerulonefrite, anemia hemolítica e trombocitopenia.

5. Trombocitopenia Imunomediada

Outra doença autoimune em cães importante na rotina clínica é a trombocitopenia imunomediada, que pode se dar de forma primária, caracterizada pela destruição autoimune das plaquetas, ou secundária, surgindo em resposta a um gatilho de doença subjacente (erliquiose, leishmaniose, anaplasmose, babesiose, cinomose) (LEVINE et al., 2024).

Os principais sinais clínicos são petéquias, equimoses e hemorragias, mas muitos pacientes podem apresentar a doença subclínica.

Principais doenças autoimunes em GATOS

Como já vimos, as doenças autoimunes podem acometer cães e gatos. Agora, saiba mais detalhes sobre algumas dessas afecções que merecem destaque em felinos.

1. Pênfigo foliáceo felino

Assim como acontece com os cães, o pênfigo é a doença autoimune dermatológica mais comum em gatos. É resultante da formação de autoanticorpos contra componentes dos desmossomos (como a desmogleína-1), o que leva à perda de adesão entre os queratinócitos e formação de pústulas epidérmicas (LIMA, 2024).

As lesões aparecem tipicamente na face, nas orelhas, nos dedos e ao redor das unhas, podendo evoluir para crostas e erosões. Mais da metade dos gatos com doença ativa apresenta sinais não dermatológicos, como letargia, febre e/ou anorexia (BIZIKOVA & BURROWS, 2019).

Gato acometido por pênfigo foliáceo
Figura 2: Felino acometido por pênfigo foliáceo, apresentando lesões crostosas em região periocular, focinho e queixo. Fonte: IZYDORCZYK & PYE, 2024.

2. Complexo granuloma eosinofílico

O complexo granuloma eosinofílico felino é uma síndrome dermatológica comum nos gatos, que pode ter etiologia imunomediada, alérgica (hipersensibilidade alimentar ou à picada de ectoparasitas) ou idiopática.

Envolve três apresentações clínicas: placa eosinofílica, granuloma eosinofílico e úlcera eosinofílica ou indolente, que podem aparecer sozinhas ou associadas. Apesar da úlcera indolente na região de lábios ser a mais conhecida, as lesões podem acometer outras regiões, como evidenciado na figura 3, além de apresentar ou não prurido.

Lesão em gato acometido por complexo granuloma eosinofílico, uma doença autoimune vista em gatos
Figura 3: Lesão em pescoço de felino acometido por complexo granuloma eosinofílico. Fonte: CARDOSO et al., 2022.

3. Lúpus eritematoso cutâneo

Outra importante doença autoimune em gatos é o lúpus eritematoso cutâneo, afecção multifatorial, relacionada a fatores genéticos, ambientais, exposição a raios UVA e UVB, que culminam no desenvolvimento de autoanticorpos contra componentes da epiderme (VETTORATO & NOVAIS-MENCALHA, 2023).

Clinicamente, é caracterizado por despigmentação, crostas hemáticas ou melicéricas, eritema em região nasal e facial.

4. Poliartrite imunomediada felina

A poliartrite imunomediada é mais raramente relatada em gatos do que em cães, e frequentemente subdiagnosticada. É causada pela resposta imune anormal direcionada diretamente às articulações ou ocorrendo como resultado da deposição de imunocomplexos circulantes dentro das articulações (WOOTTON et al., 2022).

Pode ocorrer nas formas erosiva e não erosiva, incluindo manifestações clínicas como claudicação, febre, inapetência, relutância ao movimento e letargia. Na forma não erosiva, inclusive, o paciente pode apresentar frouxidão ligamentar.

Gato com poliartrite imunomediada, mais um exemplo de doença autoimune que pode acometer os felinos
Figura 4: Hiperextensão do carpo devido à frouxidão articular em um gato com poliartrite imunomediada não erosiva. Fonte: WOOTTON et al., 2022.

Quando desconfiar de uma doença autoimune em cães e gatos?

A suspeita clínica de um cão ou um gato com doença autoimune deve ser considerada sempre que houver:

  • doença crônica ou recorrente de difícil controle, sem causa infecciosa, parasitária ou neoplásica evidente;
  • evolução multifásica, com sinais clínicos multissistêmicos;
  • resposta parcial ou significativa a imunossupressores (principalmente corticoides);
  • alterações laboratoriais sugestivas, como: anemia hemolítica regenerativa (esferócitos, policromasia); trombocitopenia severa; leucocitose por neutrofilia com desvio à esquerda; presença de autoanticorpos (ex.: antinucleares); artropatia inflamatória com líquido sinovial rico em neutrófilos (RAVICINI et al., 2022).

A identificação precoce e a avaliação conjunta com exames de imagem, citologia, histopatologia e testes imunológicos são fundamentais para confirmar a doença autoimune em cães ou gatos e iniciar o tratamento adequado.

Condutas e tratamentos para cães e gatos com doenças autoimunes

O manejo terapêutico das doenças autoimunes em cães e gatos visa controlar a resposta imune anormal, sem comprometer excessivamente a função imunológica do paciente. Sendo assim, as estratégias incluem:

  • Corticosteroides, que ainda são os fármacos mais usados, principalmente nas fases agudas.
  • Imunossupressores adjuvantes, como azatioprina, ciclosporina, micofenolato de mofetila e leflunomida, que têm sido cada vez mais utilizados, permitindo a redução das doses de corticosteroides e dos efeitos colaterais associados (KLUGE, 2023; LEVINE et al., 2024).
  • Terapias alternativas, como o uso de células-tronco mesenquimais, que têm demonstrado benefícios em casos refratários, como na trombocitopenia imunomediada crônica (SANTI et al., 2023).

O acompanhamento multidisciplinar é indicado, com suporte de especialistas em clínica médica, dermatologia, nefrologia ou reumatologia veterinária, conforme os sistemas acometidos.

Além da farmacoterapia, manejo nutricional, controle ambiental e suporte imunológico são importantes para a estabilidade do paciente.

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Referências:

CARDOSO, B.E. et al. Complexo granuloma eosinofílico felino: Relato de caso. Pubvet, v.16, n.04, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.

IZYDORCZYK, V.; PYE, C. Pemphigus foliaceus in cats. Can. Vet. J., v.65, n.3, 2024. Acesso em: 26 jun. 2025.

KLUGE, L.J. Análise do perfil dos pacientes caninos com dermatopatias autoimunes atendidos no Hospital Veterinário da UFU. UFU, 2023. Acesso em: 25 jun. 2025.

LEVINE, D.N. et al. ACVIM consensus statement on the diagnosis of immune thrombocytopenia in dogs and cats. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.38, n.4, 2024. Acesso em: 25 jun. 2025.

LIMA, I.M. Complexo pênfigo em cães e gatos: revisão de literatura. UFERSA, 2024. Acesso em: 25 jun. 2025.

ONUMA, T.P. Anemia hemolítica imunomediada em pequenos animais – revisão de literatura. UNESP Botucatu, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.

RAVICINI, S. et al. Description and outcome of dogs with primary immune-mediated polyarthritis: 73 cases (2012-2017). Journal of Small Animal Practice, v.64, n.3, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.

REIS, R. Abordagem terapêutica imunossupressora e imunomoduladora nas dermatopatias autoimunes em cães e gatos: revisão de literatura. UFRGS, 2023. Acesso em: 26 jun. 2025.

RHODES, H.K.; WERNER, H. A. Dermatologia De Pequenos Animais: Consulta Veterinária em 5 minutos. São Paulo: Roca, 2 ed., 2014.

SANTI, P.R.; FRANÇA, M.R.; MILISTETD, M. Tratamento de trombocitopenia imunomediada crônica com células-tronco mesenquimais em cão – relato de caso. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.75, n.2, 2023. Acesso em: 25 jun. 2025.

VETTORATO, E.D.; NOVAIS-MENCALHA, R. Lúpus eritematoso cutâneo crônico – Relato de caso. Pubvet, v.17, n.06, 2023. Acesso em: 25 jun. 2025.

WOOTTON, F. et al. Feline non-erosive immune-mediated polyarthritis: a multicentre, retrospective study of 20 cases (2009–2020). Journal of Feline Medicine and Surgery, v.24, n.10, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.

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