Doenças autoimunes em cães e gatos: conheça as principais e veja sugestões de abordagem
Links rápidos:
- O que são doenças autoimunes?
- Principais causas e fatores predisponentes ao desenvolvimento de doenças autoimunes nos animais
- Principais doenças autoimunes em CÃES
- Principais doenças autoimunes em GATOS
- Quando desconfiar de uma doença autoimune em cães e gatos?
- Condutas e tratamentos para cães e gatos com doenças autoimunes
- Com mais de 50 anos de história, a Royal Canin® é referência em nutrição e saúde animal!
As doenças autoimunes, sejam elas em cães ou gatos, exigem atenção do médico-veterinário; saiba como abordar um caso suspeito!
As doenças autoimunes em cães e gatos representam um desafio diagnóstico e terapêutico frequente na clínica de pequenos animais. Essas enfermidades envolvem uma resposta imune desregulada contra componentes do próprio organismo, o que pode levar a quadros clínicos multissistêmicos e progressivos.
A suspeita de uma doença autoimune em gatos e cães exige uma abordagem médico-veterinária individualizada. Por isso, a compreensão dos mecanismos envolvidos em cada patologia, bem como dos fatores predisponentes, é essencial para um prognóstico mais favorável.
O que são doenças autoimunes?
As doenças autoimunes são distúrbios nos quais o sistema imunológico do paciente reconhece os próprios tecidos e células como se fossem ameaças ao organismo (autoantígenos), passando a atacá-los.
Essa condição resulta em inflamação crônica e destruição tecidual, podendo afetar órgãos isolados ou múltiplos sistemas simultaneamente (LIMA, 2024).
Doenças autoimunes x doenças imunomediadas
Embora os termos “autoimune” e “imunomediada” sejam frequentemente usados como sinônimos, há distinções importantes:
- doenças imunomediadas englobam qualquer condição causada por uma resposta imune anormal ou inadequada, envolvendo ou não o ataque ao próprio organismo;
- doenças autoimunes são um tipo específico de doença imunomediada, no qual o alvo da resposta imune são componentes próprios do organismo (LEVINE et al., 2024).
Portanto, toda doença autoimune é imunomediada, mas nem toda doença imunomediada é autoimune.
Principais causas e fatores predisponentes ao desenvolvimento de doenças autoimunes nos animais
O surgimento de uma doença autoimune em cães e gatos pode ser decorrente de vários fatores. Listamos os principais abaixo.
Predisposição genética e racial
O desenvolvimento de doenças autoimunes em cães e gatos pode estar relacionado à predisposição genética e racial.
O pênfigo foliáceo, por exemplo, é mais frequente em Akita, Chow Chow, Doberman Pinscher e Dachshund. Já a anemia hemolítica imunomediada tem maior incidência em Cocker Spaniel, Schnauzer miniatura, Collie e Old English Sheepdog (LIMA, 2024; ONUMA, 2022).
Doenças primárias
Algumas enfermidades primárias, como infecções virais, bacterianas e parasitárias, podem desencadear uma resposta imune inadequada a autoantígenos, fazendo com que cães e gatos desenvolvam doenças autoimunes.
Influência do estresse
Tanto o estresse físico quanto o emocional que podem ser gerados por mudança de ambiente, adoção recente, hospitalização prolongada e/ou cirurgias. Tudo isso pode induzir desequilíbrios imunológicos, favorecendo o surgimento ou agravamento de doença autoimune em cães e gatos (RAVICINI et al., 2022).
Outras causas
Desequilíbrios hormonais, exposição a toxinas ambientais ou a certas substâncias químicas, alguns fármacos (anticonvulsivantes, sulfas, quimioterápicos, entre outros) e disbiose intestinal também são situações que podem levar colaborar para o desenvolvimento de doenças autoimunes.
Embora incomum, reações pós-vacinais também podem desencadear ou exacerbar doenças autoimunes em cães e gatos que apresentam uma predisposição genética.
Principais doenças autoimunes em CÃES
A seguir, abordamos as doenças autoimunes mais comumente vistas em cães.
1. Anemia Hemolítica Imunomediada (AHI)
Anemia Hemolítica Imunomediada é uma Doença Autoimune que consiste em uma reação de hipersensibilidade tipo II, caracterizada pela ação do sistema complemento e imunoglobulinas dos tipos IgG e IgM, levando à destruição dos eritrócitos (hemólise intra e/ou extravascular) com consequente anemia regenerativa grave.
Pode ser classificada como primária (idiopática) ou secundária a doenças infecciosas (babesiose, erliquiose, leishmaniose), neoplasias, verminoses (dirofilariose) e transfusão sanguínea. O uso de medicamentos (como ampicilinas, cefalosporinas, insulina e sulfas) e vacinas com vírus vivo modificado também são citados como envolvidos em casos dessa doença (ONUMA, 2022).
Os sinais clínicos observados incluem:
- letargia;
- mucosas pálidas;
- intolerância a exercícios;
- anorexia;
- vômitos;
- diarreia;
- urina amarronzada;
- dispneia/taquipneia;
- petéquias/hematomas.
2. Poliartrite Imunomediada
Outra importante doença autoimune em cães que vale destaque é poliartrite imunomediada, que consiste na reação do sistema imunológico em atacar estruturas articulares, levando à inflamação que pode causar claudicação, dor, febre, rigidez articular, letargia e perda de apetite.
A poliartrite imunomediada pode ser primária ou estar associada a outras doenças sistêmicas. Ocorre em duas formas: não erosiva, na qual há inflamação, mas não há danos às estruturas articulares, e erosiva, com presença de inflamação e erosão óssea (RAVICINI et al., 2022).
3. Pênfigo Foliáceo
É uma das doenças autoimunes dermatológicas mais comum em cães. A etiopatogenia do pênfigo foliáceo pode estar associada ao uso de certos medicamentos (ex.: sulfonamidas, penicilinas, metimazol e amitraz com metaflumizona etc.), a doenças crônicas ou, em alguns casos, pode não ter uma causa clara definida (LIMA, 2024).
A produção de autoanticorpos compromete as estruturas da epiderme, levando à formação de pústulas, crostas, pápulas, escamas, alopecia, eritema, hiperqueratose e lesões hipo ou hiperpigmentadas, especialmente em áreas como face, pavilhão auricular e coxins (KLUGE, 2023).

4. Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES)
O LES é uma doença autoimune em cães de caráter multifatorial e sazonal, cuja maioria dos casos ocorre no verão e no outono. As células de lúpus eritematoso são neutrófilos fagocitários que contêm corpos intracitoplasmáticos de material nuclear (KLUGE, 2023).
Os sinais clínicos podem incluir febre, poliartrite, dermatopatia, glomerulonefrite, anemia hemolítica e trombocitopenia.
5. Trombocitopenia Imunomediada
Outra doença autoimune em cães importante na rotina clínica é a trombocitopenia imunomediada, que pode se dar de forma primária, caracterizada pela destruição autoimune das plaquetas, ou secundária, surgindo em resposta a um gatilho de doença subjacente (erliquiose, leishmaniose, anaplasmose, babesiose, cinomose) (LEVINE et al., 2024).
Os principais sinais clínicos são petéquias, equimoses e hemorragias, mas muitos pacientes podem apresentar a doença subclínica.
Principais doenças autoimunes em GATOS
Como já vimos, as doenças autoimunes podem acometer cães e gatos. Agora, saiba mais detalhes sobre algumas dessas afecções que merecem destaque em felinos.
1. Pênfigo foliáceo felino
Assim como acontece com os cães, o pênfigo é a doença autoimune dermatológica mais comum em gatos. É resultante da formação de autoanticorpos contra componentes dos desmossomos (como a desmogleína-1), o que leva à perda de adesão entre os queratinócitos e formação de pústulas epidérmicas (LIMA, 2024).
As lesões aparecem tipicamente na face, nas orelhas, nos dedos e ao redor das unhas, podendo evoluir para crostas e erosões. Mais da metade dos gatos com doença ativa apresenta sinais não dermatológicos, como letargia, febre e/ou anorexia (BIZIKOVA & BURROWS, 2019).

2. Complexo granuloma eosinofílico
O complexo granuloma eosinofílico felino é uma síndrome dermatológica comum nos gatos, que pode ter etiologia imunomediada, alérgica (hipersensibilidade alimentar ou à picada de ectoparasitas) ou idiopática.
Envolve três apresentações clínicas: placa eosinofílica, granuloma eosinofílico e úlcera eosinofílica ou indolente, que podem aparecer sozinhas ou associadas. Apesar da úlcera indolente na região de lábios ser a mais conhecida, as lesões podem acometer outras regiões, como evidenciado na figura 3, além de apresentar ou não prurido.

3. Lúpus eritematoso cutâneo
Outra importante doença autoimune em gatos é o lúpus eritematoso cutâneo, afecção multifatorial, relacionada a fatores genéticos, ambientais, exposição a raios UVA e UVB, que culminam no desenvolvimento de autoanticorpos contra componentes da epiderme (VETTORATO & NOVAIS-MENCALHA, 2023).
Clinicamente, é caracterizado por despigmentação, crostas hemáticas ou melicéricas, eritema em região nasal e facial.
4. Poliartrite imunomediada felina
A poliartrite imunomediada é mais raramente relatada em gatos do que em cães, e frequentemente subdiagnosticada. É causada pela resposta imune anormal direcionada diretamente às articulações ou ocorrendo como resultado da deposição de imunocomplexos circulantes dentro das articulações (WOOTTON et al., 2022).
Pode ocorrer nas formas erosiva e não erosiva, incluindo manifestações clínicas como claudicação, febre, inapetência, relutância ao movimento e letargia. Na forma não erosiva, inclusive, o paciente pode apresentar frouxidão ligamentar.

Quando desconfiar de uma doença autoimune em cães e gatos?
A suspeita clínica de um cão ou um gato com doença autoimune deve ser considerada sempre que houver:
- doença crônica ou recorrente de difícil controle, sem causa infecciosa, parasitária ou neoplásica evidente;
- evolução multifásica, com sinais clínicos multissistêmicos;
- resposta parcial ou significativa a imunossupressores (principalmente corticoides);
- alterações laboratoriais sugestivas, como: anemia hemolítica regenerativa (esferócitos, policromasia); trombocitopenia severa; leucocitose por neutrofilia com desvio à esquerda; presença de autoanticorpos (ex.: antinucleares); artropatia inflamatória com líquido sinovial rico em neutrófilos (RAVICINI et al., 2022).
A identificação precoce e a avaliação conjunta com exames de imagem, citologia, histopatologia e testes imunológicos são fundamentais para confirmar a doença autoimune em cães ou gatos e iniciar o tratamento adequado.
Condutas e tratamentos para cães e gatos com doenças autoimunes
O manejo terapêutico das doenças autoimunes em cães e gatos visa controlar a resposta imune anormal, sem comprometer excessivamente a função imunológica do paciente. Sendo assim, as estratégias incluem:
- Corticosteroides, que ainda são os fármacos mais usados, principalmente nas fases agudas.
- Imunossupressores adjuvantes, como azatioprina, ciclosporina, micofenolato de mofetila e leflunomida, que têm sido cada vez mais utilizados, permitindo a redução das doses de corticosteroides e dos efeitos colaterais associados (KLUGE, 2023; LEVINE et al., 2024).
- Terapias alternativas, como o uso de células-tronco mesenquimais, que têm demonstrado benefícios em casos refratários, como na trombocitopenia imunomediada crônica (SANTI et al., 2023).
O acompanhamento multidisciplinar é indicado, com suporte de especialistas em clínica médica, dermatologia, nefrologia ou reumatologia veterinária, conforme os sistemas acometidos.
Além da farmacoterapia, manejo nutricional, controle ambiental e suporte imunológico são importantes para a estabilidade do paciente.
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Referências:
CARDOSO, B.E. et al. Complexo granuloma eosinofílico felino: Relato de caso. Pubvet, v.16, n.04, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.
IZYDORCZYK, V.; PYE, C. Pemphigus foliaceus in cats. Can. Vet. J., v.65, n.3, 2024. Acesso em: 26 jun. 2025.
KLUGE, L.J. Análise do perfil dos pacientes caninos com dermatopatias autoimunes atendidos no Hospital Veterinário da UFU. UFU, 2023. Acesso em: 25 jun. 2025.
LEVINE, D.N. et al. ACVIM consensus statement on the diagnosis of immune thrombocytopenia in dogs and cats. Journal of Veterinary Internal Medicine, v.38, n.4, 2024. Acesso em: 25 jun. 2025.
LIMA, I.M. Complexo pênfigo em cães e gatos: revisão de literatura. UFERSA, 2024. Acesso em: 25 jun. 2025.
ONUMA, T.P. Anemia hemolítica imunomediada em pequenos animais – revisão de literatura. UNESP Botucatu, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.
RAVICINI, S. et al. Description and outcome of dogs with primary immune-mediated polyarthritis: 73 cases (2012-2017). Journal of Small Animal Practice, v.64, n.3, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.
REIS, R. Abordagem terapêutica imunossupressora e imunomoduladora nas dermatopatias autoimunes em cães e gatos: revisão de literatura. UFRGS, 2023. Acesso em: 26 jun. 2025.
RHODES, H.K.; WERNER, H. A. Dermatologia De Pequenos Animais: Consulta Veterinária em 5 minutos. São Paulo: Roca, 2 ed., 2014.
SANTI, P.R.; FRANÇA, M.R.; MILISTETD, M. Tratamento de trombocitopenia imunomediada crônica com células-tronco mesenquimais em cão – relato de caso. Arq. Bras. Med. Vet. Zootec., v.75, n.2, 2023. Acesso em: 25 jun. 2025.
VETTORATO, E.D.; NOVAIS-MENCALHA, R. Lúpus eritematoso cutâneo crônico – Relato de caso. Pubvet, v.17, n.06, 2023. Acesso em: 25 jun. 2025.
WOOTTON, F. et al. Feline non-erosive immune-mediated polyarthritis: a multicentre, retrospective study of 20 cases (2009–2020). Journal of Feline Medicine and Surgery, v.24, n.10, 2022. Acesso em: 25 jun. 2025.
