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Espirro reverso em cães: 4 principais causas e como conduzir os casos

Espirro reverso em cães: 4 principais causas e como conduzir os casos
Atualizado em 30 de março de 2026
Tempo de leitura: 11min
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O espirro reverso em cães pode ser decorrente de diversas causas. Entenda em detalhes e saiba como fazer um diagnóstico assertivo.

O espirro reverso é uma manifestação clínica frequentemente observada na rotina de atendimentos de pequenos animais, especialmente em cães de raças predispostas. Acomete mais significativamente cães de raças toy e de pequeno porte, e deve ser considerado um marcador de potencial irritação da mucosa nasofaríngea (TALAVERA et al., 2022).

Apesar de ser comumente relacionado ao colapso de traqueia, esse sinal pode estar associado a diversas doenças subjacentes, o que requer uma investigação aprofundada por parte do médico-veterinário. Por isso, é essencial compreender os mecanismos, as causas e as abordagens diagnósticas para seguir uma conduta clínica adequada e orientar os tutores.

O que é o espirro reverso?

O espirro reverso em cães é caracterizado como um reflexo de aspiração mecanossensível, que geralmente dura alguns segundos, desencadeado por irritação nasofaríngea. Ele se manifesta como um paroxismo de ruído inspiratório alto acompanhado por um esforço respiratório difícil (TALAVERA et al., 2022).

Durante o evento, muitas vezes confundido com engasgo ou dispneia, o animal mantém o pescoço estendido e os cotovelos abduzidos (posição ortopneica). No entanto, o espirro reverso é considerado uma condição benigna que não representa risco à função respiratória.

Vale ressaltar que gatos também podem apresentar espirro reverso. A condição pode ser observada em quadros de estenose nasofaríngea, por exemplo (CHAMPETIER et al., 2024).

Como diferenciar tosse de espirro reverso?

Enquanto a tosse é um reflexo expiratório, produzido por contrações forçadas do diafragma e da musculatura respiratória, o espirro reverso é um reflexo inspiratório, com predomínio de esforço na entrada do ar.

Outro ponto de diferenciação é que, na tosse, geralmente observa-se expulsão de secreções, ao passo que no espirro reverso há aspiração forçada do ar, sem expectoração (GELATOS et al., 2022).

É interessante ressaltar esses conceitos aos tutores, durante as consultas, para que eles entendam o que pode estar acontecendo com o animal e ainda saibam explicar o caso ao médico-veterinário em outras ocasiões.

4 principais causas de espirro reverso em cães

O espirro reverso em cães pode ser um reflexo espontâneo e não progressivo.

Porém, o evento pode também ser um sinal de que há alguma enfermidade orofaríngea. Nesse cenário, listamos quatro afecções que podem estar associadas ao espirro reverso em cães.

1. Colapso de traqueia

O colapso traqueal é uma afecção respiratória crônica e progressiva, caracterizada pelo enfraquecimento e achatamento dos anéis cartilaginosos da traqueia, associado à redundância da membrana dorsal.

É uma das causas mais importantes de episódios recorrentes de espirro reverso, especialmente em cães de raças pequenas e miniaturas. Porém, aqui, a obstrução dinâmica da traqueia leva à dificuldade respiratória, podendo haver cianose durante o episódio.

2. Alergias

Processos alérgicos respiratórios, incluindo reações de hipersensibilidade a alérgenos ambientais (ácaros, pólen, poeira, e até odores fortes), representam uma causa relevante de espirro reverso em cães.

A resposta imunológica exacerbada leva à inflamação da mucosa nasofaríngea, resultando em edema, aumento da produção de secreções e hiperreatividade das vias aéreas, desencadeando episódios de espirro reverso (LÓPEZ et al., 2023).

3. Traqueíte (processos inflamatórios)

A traqueíte, ou inflamação da traqueia, pode ser desencadeada por diferentes etiologias, incluindo infecções virais (como parainfluenza canina e adenovírus tipo 2), bacterianas (Bordetella bronchiseptica) ou irritações químicas e físicas.

O processo inflamatório resultante promove edema e hiperemia da mucosa traqueal e nasofaríngea, aumentando a sensibilidade dos receptores locais e facilitando a ativação do reflexo de espirro reverso em cães.

Em quadros de traqueobronquite infecciosa canina (tosse dos canis), por exemplo, é comum observar a alternância entre acessos de tosse seca e episódios de espirro reverso, o que pode dificultar a diferenciação clínica (EVEREST et al., 2023).

4. Mudanças bruscas de temperatura

Variações ambientais, especialmente a exposição a ar frio, são capazes de induzir espasmos musculares e irritação nasofaríngea, desencadeando episódios autolimitados de espirro reverso. Este fator é relatado principalmente em cães de pequeno porte e braquicefálicos que apresentam anatomia predisponente (TALAVERA et al., 2022).

Outras possíveis causas de espirro reverso em cães

Além das causas principais, o espirro reverso em cães também pode ocorrer devido a:

  • presença de corpos estranhos nasais;
  • estenose nasofaríngea;
  • fístulas oronasais ou nasofaríngeas;
  • massas obstrutivas (neoplasias ou pólipos) (ESPENICA et al., 2024; CHAMPETIER et al., 2024; GELATOS et al., 2022).

Quais raças podem ser mais acometidas pelo espirro reverso?

Embora qualquer cão possa apresentar espirro reverso, raças braquicefálicas são mais predispostas devido à conformação anatômica das vias aéreas superiores. Entre elas, merecem atenção especial: Bulldog Francês, Pug, Shih Tzu, Lhasa Apso e Pequinês.

Além disso, cães de pequeno porte como Spitz Alemão, Yorkshire Terrier e Chihuahua também estão entre os mais acometidos (LÓPEZ et al., 2023).

Possíveis consequências e prognóstico

Apesar de tutores poderem chegar assustados aos consultórios, na maioria dos casos, o espirro reverso é benigno. Entretanto, quando associado a causas crônicas, como o colapso de traqueia, pode haver risco de hipóxia, crises de dispneia e complicações respiratórias graves.

O prognóstico, portanto, depende diretamente da causa subjacente e da frequência dos episódios (TALAVERA et al., 2022).

Diante disso, é essencial avaliar o animal e compreender seu histórico para descartar qualquer afecção ou, se necessário, seguir com o tratamento adequado para a enfermidade. Veremos mais detalhes a seguir.

Como conduzir um caso de espirro reverso em cães

Diante de um paciente que esteja apresentando episódios de espirro reverso, o médico-veterinário deve adotar uma abordagem que possibilite o diagnóstico assertivo. Isso inclui:

1. Anamnese

Na anamnese de um caso de espirro reverso canino, o profissional deve incluir informações sobre a frequência dos episódios, se há fatores desencadeantes (exercício, frio, pó, excitação) e histórico de doenças respiratórias anteriores.

2. Exame físico

O exame físico minucioso, associado à inspeção das vias aéreas superiores, à avaliação da região orofaríngea e à auscultação respiratória, é essencial para diferenciar o espirro reverso de outras afecções respiratórias (LÓPEZ et al., 2023).

Além disso, a palpação da traqueia e a indução do reflexo de tosse auxiliam na diferenciação entre tosse e espirro reverso, já que muitos tutores confundem as manifestações.

Em casos de afecções mais distais, envolvendo traqueia ou brônquios, o exame físico pode se apresentar dentro da normalidade, o que reforça a necessidade de exames complementares para confirmação diagnóstica.

3. Exames complementares

Exames de imagem e laboratoriais podem contribuir para confirmar o diagnóstico da causa base do espirro reverso em cães.

Radiografias de traqueia e tórax são essenciais na pesquisa de colapso traqueal e de alterações das vias aéreas inferiores (Figura 1). É importante solicitar múltiplas projeções (laterolateral, ventrodorsal e dorsoventral), bem como a projeção tangencial sob estresse inspiratório, pois o colapso pode ser intermitente e não se manifestar em imagens obtidas apenas em repouso. Essa avaliação dinâmica aumenta a sensibilidade diagnóstica.

Radioagrafia de cão com espirro reverso mostrando que há prolapso de traqueia
Figura 1: Radiografia laterolateral do pescoço e tórax de um cão com espirros reversos mostrando um colapso traqueal dorsoventral que afeta a porção cervical da traqueia até a entrada torácica (setas). Fonte: TALAVERA et al., 2022.

A rinoscopia e nasofaringoscopia são indicadas quando há suspeita de estenoses, corpos estranhos, pólipos, neoplasias ou processos inflamatórios crônicos que acometam cavidade nasal e nasofaringe. Além de diagnóstico, esses exames permitem coleta de material para biópsia ou cultura (ESPLENICA et al., 2024).

Já o hemograma completo do paciente pode indicar processos infecciosos ou inflamatórios sistêmicos, enquanto o perfil bioquímico sérico auxilia na avaliação do estado geral e na detecção de alterações concomitantes que possam predispor a quadros respiratórios.

Em alguns casos, a tomografia computadorizada ou a ressonância magnética podem oferecer maior detalhamento anatômico das vias aéreas superiores, especialmente quando há suspeita de massas ou anomalias estruturais (EVEREST et al., 2023).

Como tratar espirro reverso em cães?

O espirro reverso não é uma doença em si, então o tratamento deve ser voltado para a causa base dos eventos. Porém, na prática clínica, muitas vezes é necessário instituir um manejo sintomático inicial até que os exames complementares permitam esclarecer a etiologia.

Entre as medidas terapêuticas mais utilizadas, destacam-se:

  • anti-inflamatórios esteroidais sistêmicos: podem ser empregados para reduzir inflamações de vias aéreas. No entanto, seu uso deve ser criterioso, principalmente em pacientes com doenças endócrinas, como hiperadrenocorticismo (síndrome de Cushing), nos quais o uso de corticoide é contraindicado. Nesses casos, devem-se considerar alternativas como anti-histamínicos;
  • xaropes e antitussígenos: embora não atuem diretamente na causa, podem auxiliar em casos de irritação de vias aéreas superiores, reduzindo a frequência e a intensidade das crises;
  • antibióticos: indicados quando há evidências de infecção bacteriana secundária confirmada por exames laboratoriais;
  • anti-histamínicos: úteis em pacientes com suspeita de alergia ambiental ou respiratória.

Dúvidas frequentes sobre espirro reverso

Confira mais algumas dúvidas frequentes sobre o assunto:

1. Gatos podem ter espirro reverso?

Sim, gatos também podem apresentar espirro reverso, como em quadros de estenose nasofaríngea.

2. Espirro reverso sempre indica colapso de traqueia?

Não. Conforme vimos anteriormente, existem outras causas possíveis para o espirro reverso além do colapso de traqueia.

3. Espirro reverso e colapso de traqueia é a mesma coisa?

Não. O colapso de traqueia consiste em um estreitamento do lúmen traqueal e pode ser uma das causas do espirro reverso.

4. O frio pode piorar quadros de espirro reverso em cães?

Sim, mudanças bruscas de temperatura podem ser fatores desencadeantes do espirro reverso.

5. O espirro reverso nos cães pode ter relação com cardiopatias?

Animais cardiopatas podem apresentar tosse crônica, que pode ser confundida com espirro reverso.

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Referências:

CHAMPETIER, A. et al. Nasopharyngeal stenosis in cats: a retrospective study of 21 cases comparing endoscopic and surgical treatment (2018-2022). J. Feline Med. Surg., v.26, n.11, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39540664/. Acesso em: 18 ago. 2025.

ESPENICA, S.A. et al. Clinical, imaging and rhinoscopy findings of dogs and cats with nasal foreign bodies presenting to a UK referral hospital: 71 cases (2010-2022). Journal of Small Animal Practice, v.66, n.2, 2024. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/jsap.13790. Aceso em: 18 ago. 2025.

EVEREST, S. et al. Reverse sneezing, unilateral epistaxis, and acute-onset seizures in a 9-year-old spayed female miniature Dachshund. Journal of the American Veterinary Medical Association, v.261, n.7, 2023. Disponível em: https://avmajournals.avma.org/view/journals/javma/261/7/javma.23.02.0079.xml?tab_body=fulltext. Acesso em: 18 ago. 2025.

GELATOS, M. et al. Reverse sneezing as a clinical manifestation of nasopharyngeal-oropharyngeal fistula in a dog. Can. Vet. J., v.63, n.11, 2022. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9558590/. Acesso em: 18 ago. 2025.

LÓPEZ, J.T.; CUBILLOS, B.G.; PRIETO, A.M. Survey research on reverse sneezing in 779 dogs in Southeast of Spain: Prevalence and possible related factors. Research in Veterinary Science, v.160, 2023. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0034528823001522. Acesso em: 18 ago. 2025.

TALAVERA, J. et al. Reverse Sneezing in Dogs: Observational Study in 30 Cases. Vet. Sci., v.9, n.12, 2022. Disponível em: https://www.mdpi.com/2306-7381/9/12/665?ssp=1&setlang=es-ES&safesearch=moderate. Acesso em: 18 ago. 2025.

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