Anaplasmose em gatos e cães: o que o médico-veterinário deve saber para conduzir o caso?
Links rápidos:
- O que é a Anaplasmose?
- Entendendo o papel do carrapato no ciclo e transmissão de Anaplasma para gatos e cães
- Alerta: o período de incubação pode ser variado!
- Conhecendo o ciclo do carrapato nos cães
- Como ocorre a transmissão da doença para os animais domésticos?
- A Anaplasmose acomete gatos e cães na mesma proporção?
- Como diagnosticar de anaplasmose em gatos e cães?
- Como tratar anaplasmose em gatos e cães?
- A importância da nutrição para o bem-estar do pet
Transmitida pela picada do carrapato, a Anaplasmose é uma hemoparasitose que afeta cães e gatos. Conheça mais sobre a doença e saiba como o diagnóstico precoce pode favorecer o prognóstico do seu paciente.
Anaplasmose é uma hemoparasitose causada por agentes que parasitam obrigatoriamente o interior de células sanguíneas. Seu agente causador, ao se disseminar no organismo infectado, causa sinais clínicos inespecíficos, dificultando o diagnóstico e, consequentemente, o prognóstico e a terapêutica.
Com uma prevalência de 4,9% em cães testados através de PCR e de 27,4% em cães testados por sorologia, a Anaplasmose é caracterizada como uma doença relativamente importante na rotina da clínica de pequenos animais, e sua ocorrência está diretamente relacionada à presença do carrapato vetor (SCHÄFER et al., 2023).
Entenda melhor sobre a Anaplasmose. Veja orientações sobre como conduzir um caso suspeito, evitando complicações que podem, inclusive, levar o paciente a óbito.
O que é a Anaplasmose?
A Anaplasmose é uma hemoparasitose causada por bactérias Gram-negativas estritamente intracelulares, que afetam leucócitos e plaquetas, interferindo na resposta imunológica e na homeostase do hospedeiro.
Dentre as diferentes espécies pertencentes à família Anaplasmataceae, gênero Anaplasma, que causam a doença, A. platys e A. phagocytophilum são espécies que infectam principalmente cães e canídeos selvagens.
O Anaplasma platys é responsável por frequentemente infectar plaquetas, causando a Anapalsmose trombocitotrópica, enquanto o Anaplasma phagocytophilum geralmente infecta granulócitos (especialmente neutrófilos) de uma ampla gama de hospedeiros vertebrados domésticos, como gatos e cães, selvagens, bem como humanos, resultando na Anaplasmose granulocítica.
A Anaplasmose é considerada uma zoonose?
Sim! A espécie Anaplasma phagocytophilum possui potencial zoonótico, sendo capaz de infectar várias espécies animais, incluindo cães, ovelhas, vacas, cavalos, veados selvagens e roedores, além de humanos (NOAMAN, 2019).
Isso caracteriza a Anaplasmose como uma importante zoonose, assim como outras doenças de grande relevância na saúde pública como febre maculosa, leishmaniose, escabiose, dermatofitose, entre outras.
Entendendo o papel do carrapato no ciclo e transmissão de Anaplasma para gatos e cães
Os carrapatos desempenham um papel fundamental no ciclo biológico e na transmissão das bactérias que causam a Anaplasmose em cães e gatos, atuando como vetores biológicos e reservatórios do patógeno.
Os carrapatos não apenas transmitem o Anaplasma em cães e gatos, mas também contribuem para sua multiplicação. A bactéria mantém-se no organismo do vetor por transmissão transestadial, persistindo ao longo das diferentes fases do ciclo de vida do carrapato (larva, ninfa e adulto), garantindo sua disseminação para novos hospedeiros.
As principais espécies envolvidas na transmissão para os pets são Rhipicephalus sanguineus e Ixodes spp., cuja distribuição geográfica influencia diretamente a epidemiologia da doença.
Schäfer et al. (2023), relatam, inclusive, picos de Anaplasmose em cães na Alemanha durante o verão, sazonalidade que pode estar relacionada à maior capacidade de proliferação dos carrapatos transmissores da enfermidade.
Alerta: o período de incubação pode ser variado!
A Anaplasmose em cães e gatos apresenta um período de incubação variável, podendo durar de 1 a 2 semanas após a inoculação do patógeno pelo carrapato vetor.
No entanto, a infecção pode evoluir para um estado subclínico ou crônico, com baixa parasitemia e ausência de sinais clínicos evidentes por meses ou até anos. Isso ocorre porque os Anaplasma spp. são patógenos intracelulares capazes de modular a resposta imunológica do hospedeiro, permitindo sua persistência sem que o animal manifeste sinais clínicos até a ocorrência de um evento imunossupressor.
Muitos médicos-veterinários limitam a anamnese ao histórico recente de controle de ectoparasitas, questionando apenas sobre a última administração de antiparasitários ou presente infestação de ectoparasitas. No entanto, é essencial considerar que qualquer período anterior de desproteção pode ter favorecido a inoculação tanto da Anaplasmose, como de outras doenças transmitidas por vetores, como a erliquiose e a babesiose.
Conhecendo o ciclo do carrapato nos cães
Conhecer o ciclo do carrapato é essencial para que o médico-veterinário possa estabelecer medidas de proteção específicas para cada paciente contra a ixodidiose, e consequentemente, prevenir a Anaplasmose.
Veja os detalhes do que acontece em cada fase na ilustração abaixo:

Como ocorre a transmissão da doença para os animais domésticos?
A Anaplasmose em cães e gatos se desenvolve a partir da inoculação do Anaplasma spp. através da picada de um carrapato infectado. O carrapato – normalmente Riphicephalus sanguineus ou Ixodes spp., deve realizar repasto por um período de 24 a 48 horas para transmitir a bactéria.
Os carrapatos atuam como vetores naturais das espécies de Anaplasma e desempenham um papel fundamental na multiplicação biológica dessas bactérias nas glândulas salivares e nos intestinos.
Após a inoculação do parasita, o Anaplasma atinge o interior das células sanguíneas circulantes, principalmente granulócitos e plaquetas. Dentro das células, o Anaplasma se multiplica, formando mórulas intracitoplasmáticas, que podem ser detectadas em esfregaços sanguíneos durante a fase aguda da infecção.
A persistência da infecção pode levar à bacteremia intermitente e à manifestação tardia da doença em animais cronicamente infectados.

A Anaplasmose acomete gatos e cães na mesma proporção?
A Anaplasmose em gatos é mais rara que em cães. Os felinos acometidos podem apresentar sinais clínicos como:
- febre;
- anorexia/hiporexia;
- perda de peso;
- letargia;
- desidratação;
- conjuntivite;
- abdômen ou membros doloridos;
- mucosas pálidas;
- sinais respiratórios.
Nessa espécie podem ainda ser evidenciadas manifestações clínicas raras como epistaxe recorrente, poliúria, polidipsia e hipotermia (SCHÄFER & KOHN, 2023).
Por isso, é importante que o médico-veterinário adote medidas adequadas de controle de ectoparasitas também nos gatos, evitando, assim, outras afecções transmitidas por esses seres, como a dipilidiose e a micoplasmose.
Principais sinais clínicos em cães com Anaplasmose
A Anaplasmose pode se manifestar de forma assintomática ou apresentar quadro de febre intermitente, devido a modificação cíclica dos indicies plaquetários e de Anaplasma spp. circulante na corrente sanguínea.
Além do quadro de hipertermia os sinais clínicos mais observados em cães são:
- letargia;
- anorexia/hiporexia;
- vomito;
- diarreia;
- perda de peso;
- distúrbios hemorrágicos;
- linfadenopatia;
- tensão abdominal.
Como diagnosticar de anaplasmose em gatos e cães?
O diagnóstico de Anaplasmose em gatos e cães envolve desde uma anamnese criteriosa até um exame clínico detalhado para que o médico-veterinário solicite os exames complementares mais adequados para o diagnóstico definitivo.
Exames hematológicos básicos do paciente acometido podem revelar:
- trombocitopenia;
- leucopenia;
- anemia moderada;
- leve aumento enzimas hepáticas.
Sendo assim, instala-se a suspeita da infecção por Anaplasma em gatos e cães, cujo diagnóstico pode ser confirmado através de testes como:
- Esfregaço de sangue: visualização de mórulas (aglomerados intracitoplasmáticos de bactérias) intracelulares em granulócitos (A. phagocytophilum) ou plaquetas (A. platys). É feito de forma rápida e tem baixo custo, mas possui baixa sensibilidade. Vale citar que esfregaços negativos não descartam infecção.
- Sorologia: ensaio imuno enzimático (ELISA) e teste de anticorpo fluorescente indireto (IFAT). Tem alta sensibilidade e demonstra exposição a infecção, mas não necessariamente infecção ou doença atual. Vale lembrar que leva de 3 a 4 semanas após a infecção para que os anticorpos se desenvolvam.
- Biologia molecular: reação em cadeia da polimerase (PCR). Tem alta especificidade, indicativo de infecção atual e permite a detecção em período entre quatro e 10 dias após a infecção.
Diagnóstico diferencial com outras doenças
Em animais com suspeita de Anaplasmose, o médico-veterinário deve cogitar as seguintes doenças como diagnóstico diferencial:
- doenças imunomediadas (idiopática ou secundária a drogas);
- neoplasia;
- doença infecciosas (erliquiose canina, cinomose, leishmaniose);
- microangiopatias (hemangioma, hemangiossarcoma).
Como tratar anaplasmose em gatos e cães?
O tratamento da Anaplasmose em cães e gatos é feito com base na antibioticoterapia. A doxiciclina é a droga de escolha e deve ser administrada na dose de 5 mg/kg/12h ou 10 mg/kg/24h via oral, por 28 dias, por ser comum a coinfecção com E. canis.
Apesar de não ser indicada para filhotes, devido ao risco de hipoplasia ou descoloração do esmalte dos dentes, a doxicilina continua sendo a droga de escolha em animais jovens com Anaplasmose granulocítica.
Além disso, pode ser necessária a terapia de suporte, visando melhorar a anemia e o quadro clínico geral do paciente.
O prognóstico e a eficácia do tratamento são mais satisfatórios se os antibióticos forem administrados no início do curso da doença. A resposta deve começar a ser vista em 48 horas, no entanto, o tratamento deve ser continuado para reduzir com eficácia a carga bacteriana.
A importância da nutrição para o bem-estar do pet
A atenção e o cuidado com a composição dos alimentos são fundamentais para a manutenção adequada da saúde de gatos e cães, assim como o fornecimento de uma dieta completa, balanceada e de boa qualidade, que dá ao organismo todos os nutrientes necessários para o desempenho adequado das suas funções.
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Referências:
ANDRADE, I.E O.; LEITE, A.K.R.M. Anaplasmose em um cão: Relato de Caso. Revista Cientifica de Medicina Veterinária, n.34, 2020. Acesso em: 28 jan. 2025.
BOEHRINGER INGELHEIM. Hemoparasitose em cães, 2018. Acesso em: 28 jan. 2025.
COHEN, A. Anaplasmosis. Cornell Richard P. Riney Canine Health Center. Acesso em: 18/12/2023
FEDERATION OF EUROPEAN COMPANION ANIMAL VETERINARY ASSOCIATIONS. Anaplasmosis in dogs. 2019. Acesso em: 28 jan. 2025.
FERRAZ, A. et al. Anaplasmosis in Domestic Feline (Felis cattus) on South of Brazil: a Case Report. Ensaios e Ciência: Ciências Biológicas Agrárias e da Saúde, v.26, n.4, 2023. Acesso em: 28 jan. 2025.
MACHADO, G.P.; DAGNONE, A.S.; SILVA, B.F. Anaplasmose trombocitica canina – uma breve revisão .Revista Científica Eletrônica de Medicina Veterinária, n. 15, 2010. Acesso em: 28 jan. 2025.
NOAMAN, V. A review on anaplasma phagocytophilum as a zoonotic agent: review article. Tehran University Medical Journal, v.76, n.12, 2019. Acesso em: 28 jan. 2025.
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SAINZ, A. et al. Guideline for veterinary practitioners on canine ehrlichiosis and anaplasmosis in Europe. Parasites & Vectors v.8, n.75, 2015. Acesso em: 28 jan. 2025.
SCHÄFER, I.; KOHN, B. Anaplasma phagocytophilum infection in cats: A literature review to raise clinical awareness. Journal of Feline Medicine and Surgery, v.22, n.5, 2020. Acesso em: 28 jan. 2025.
SCHÄFER, I. et al. Molecular and Serological Detection of Anaplasma phagocytophilum in Dogs from Germany (2008–2020). Animals, v.13, n.4, 2023. Acesso em: 28 jan. 2025.
