Leishmaniose canina: diagnóstico, estadiamento clínico e tratamento no Brasil
Links rápidos:
- O que é a leishmaniose canina?
- Quais animais atuam como reservatórios?
- Como ocorre a transmissão da leishmaniose canina?
- Onde a leishmaniose canina é endêmica no Brasil?
- Quais são os sinais clínicos da leishmaniose canina?
- Como é feito o diagnóstico da leishmaniose canina?
- Como estadiar o paciente com leishmaniose canina?
- Como é o tratamento da leishmaniose canina no Brasil?
- Há risco de resistência aos fármacos?
- O tratamento é uma medida de controle da zoonose?
- A eutanásia ainda é obrigatória para cães soropositivos?
- Como prevenir a leishmaniose canina?
- Qual é o papel do médico-veterinário na abordagem de saúde única?
- Qual é o papel do manejo nutricional?
- Perguntas frequentes sobre leishmaniose canina
- Conclusão
O Brasil responde por 93,5% dos casos de leishmaniose visceral registrados nas Américas; veja neste artigo como estadiar o paciente e o que a norma brasileira vigente autoriza na conduta terapêutica.
Este artigo reúne a abordagem clínica da leishmaniose canina a partir da 2ª edição do Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral do Ministério da Saúde, publicada em 2026: agente, vetores, distribuição no Brasil, sinais clínicos, roteiro diagnóstico recomendado pelo programa nacional e estadiamento em quatro estágios segundo o consenso LeishVet. Traz o protocolo terapêutico autorizado, o risco de resistência, a estratégia de encoleiramento incorporada pelo Ministério da Saúde e a leitura correta da Lei nº 14.228/2021 sobre eutanásia.
A leishmaniose canina é uma zoonose sistêmica causada por protozoários do gênero Leishmania, potencialmente fatal para cães e para seres humanos. No Brasil, a conduta diante de um paciente soropositivo não é definida apenas pela clínica: ela é delimitada por normas federais que restringem os fármacos autorizados e definem o protocolo diagnóstico adotado pelo programa nacional.
Esse conjunto normativo foi revisado. A 2ª edição do manual do Ministério da Saúde, publicada em 2026, alterou pontos que ainda circulam desatualizados na rotina clínica, entre eles o número de vetores reconhecidos, as técnicas sorológicas recomendadas e o lugar do tratamento canino dentro da política de controle. É a combinação entre o que a evidência recomenda e o que a norma vigente autoriza que define a conduta correta aqui.
O que é a leishmaniose canina?
A leishmaniose visceral canina é uma enfermidade sistêmica de curso crônico cujas manifestações dependem diretamente do tipo de resposta imunológica do animal infectado¹. O agente é um protozoário tripanossomatídeo do gênero Leishmania, parasita intracelular obrigatório das células do sistema fagocítico mononuclear.
Nas Américas, na Europa e no norte da África, Leishmania infantum é uma espécie comumente isolada em pacientes com a forma visceral¹. A denominação varia conforme os órgãos acometidos: a forma visceral é a de maior relevância em cães e a que concentra as normas de saúde pública, enquanto a forma tegumentar restringe-se à pele e às mucosas.
O período de incubação é longo e variável. Em seres humanos, situa-se entre dois e seis meses; em cães, vai de três meses a vários anos, com média de três a sete meses¹. Esse intervalo explica por que o histórico de deslocamento do paciente pesa tanto na anamnese.
Quais animais atuam como reservatórios?
No ambiente urbano, o principal reservatório amplificador é o cão. A enzootia canina precede a ocorrência de casos humanos, e a infecção em cães costuma ser mais prevalente do que no homem, o que se explica pelos altos níveis de parasitas na pele do animal e pela maior suscetibilidade à infecção¹.
No ambiente silvestre, os principais reservatórios são as raposas (Dusicyon vetulus e Cerdocyon thous), os marsupiais (Didelphis albiventris) e os roedores (Oligoryzomys)¹. Vale ressaltar que estar infectado não torna o animal um reservatório: a definição exige critérios específicos de manutenção e transmissão do parasita. O felino doméstico é a espécie urbana mais estudada nesse aspecto, e estudos de xenodiagnóstico demonstram que o gato é capaz de infectar o vetor, mas a carga parasitária cutânea limita a sustentação do ciclo em condições naturais¹.
Como ocorre a transmissão da leishmaniose canina?
Leishmania spp. é um parasita difásico: o ciclo completo exige o inseto vetor e o hospedeiro vertebrado. O parasita assume duas formas, conforme o hospedeiro:
- promastigota, forma flagelada, no tubo digestivo do flebotomíneo
- amastigota, forma aflagelada, nos tecidos do hospedeiro vertebrado
O ciclo do parasita dentro do inseto se completa em aproximadamente 72 horas¹. A transmissão ocorre quando a fêmea infectada realiza novo repasto sanguíneo e libera as formas promastigotas metacíclicas junto com a saliva.
Este é um dos pontos atualizados na norma vigente: três espécies de flebotomíneos estão hoje relacionadas à transmissão no Brasil. Lutzomyia longipalpis segue como a principal transmissora de L. infantum e, até 2021, havia sido encontrada em 1.552 municípios, nas cinco regiões do país. Lutzomyia cruzi, de distribuição restrita ao Centro-Oeste, e Migonemyia migonei são classificadas como secundárias, esta última exigindo investigação local para comprovação de sua participação¹.
Nos animais existem outras vias descritas: vertical, transfusional, venérea e por ingestão de ectoparasitas parasitados ou de vísceras contaminadas. Não há, porém, evidência sobre a importância epidemiológica desses mecanismos na transmissão ao ser humano ou na manutenção da enzootia, e não ocorre transmissão por contato direto entre indivíduos¹.

Onde a leishmaniose canina é endêmica no Brasil?
Em 2022, de 200 países e territórios que notificaram leishmanioses à Organização Mundial da Saúde, 80 foram considerados endêmicos para a forma visceral. Cerca de 80% da carga mundial concentra-se em seis países, entre eles o Brasil, que responde por 93,5% dos casos registrados nas Américas¹.
Entre 2015 e 2024, foram registrados 24.454 casos de leishmaniose visceral humana no Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Aproximadamente metade ocorreu na Região Nordeste, seguida por Sudeste e Norte. O coeficiente de incidência médio no período foi de 1,22 caso por 100 mil habitantes, e o total de casos novos vem caindo: em 2024, a redução foi de 69,7% em relação a 2017, ano de maior registro do período¹.
Em 2024, os municípios com maior número de casos foram Fortaleza, Teresina, Belo Horizonte, São Luís, Marabá, Araguaína, Uiramutã, Parauapebas, Chapadinha e Rondonópolis¹. A lista reúne capitais e cidades médias, o que confirma o padrão urbano que substituiu a transmissão predominantemente rural das décadas anteriores.
Conhecer essa distribuição tem consequência direta na consulta. Deve-se registrar o histórico de deslocamento do paciente na anamnese: animais que viajaram para áreas com transmissão entram no diagnóstico diferencial mesmo quando atendidos em regiões sem casos, e o dado orienta a prescrição de medidas de proteção individual ao responsável.
Quais são os sinais clínicos da leishmaniose canina?
A apresentação é polimórfica e pode ser confundida com diversas enfermidades de curso infeccioso ou não¹. Os principais achados de exame físico são lesões dermatológicas, linfadenomegalia generalizada, perda progressiva de peso, atrofia muscular, diminuição do apetite, esplenomegalia, poliúria, polidipsia, lesões nasais e oculares, claudicação, diarreia e vômito¹.
As lesões dermatológicas são as mais comuns e se organizam em quatro padrões¹,²:
- dermatite esfoliativa não pruriginosa, com ou sem alopecia, generalizada ou localizada em face, orelhas ou membros;
- dermatite ulcerativa em proeminências ósseas, dobras cutâneas, orelhas e membros;
- dermatite proliferativa mucocutânea;
- onicogrifose.
Manifestações atípicas incluem despigmentação de ponte nasal, hiperqueratose digital e nasal e formação de pústulas¹. Entre os achados oftálmicos, descrevem-se uveíte, ceratoconjuntivite, blefarite e endoftalmite¹.
Nos exames complementares, os parâmetros costumam permanecer inalterados nos cães assintomáticos. Nos sintomáticos, observam-se anemia não regenerativa leve a moderada, trombocitopenia, alterações leucocitárias, hiperproteinemia com hiperglobulinemia e hipoalbuminemia, redução da relação albumina:globulina e proteinúria¹.
Como é feito o diagnóstico da leishmaniose canina?
O diagnóstico clínico isolado é insuficiente. Os sinais são comuns a outras enfermidades, e desnutrição ou dermatopatias concomitantes podem mascarar ou modificar a apresentação¹. A confirmação é laboratorial e combina três abordagens.
Diagnóstico imunológico
Este é o ponto que mais mudou em relação ao que circula na rotina. As técnicas registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária e disponíveis comercialmente são a imunocromatografia, o ELISA e a reação de imunofluorescência indireta. O Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral recomenda, para os inquéritos caninos, o teste rápido imunocromatográfico de duplo percurso (TR-DPP) como triagem e o ELISA como teste confirmatório¹.
Usando a PCR como padrão de referência, esse par apresentou 87,8% de sensibilidade e 88,5% de especificidade¹. Aplicado isoladamente em animais sintomáticos e assintomáticos, o TR-DPP mostrou 90,6% de sensibilidade e 90,1% de especificidade¹.
A reação de imunofluorescência indireta não é recomendada pelo programa nacional, por baixa acurácia frente às técnicas preconizadas: a sensibilidade é estimada em 88% e a especificidade em 63%, com possibilidade de reações cruzadas e dependência da experiência do observador¹. A técnica segue em uso na clínica de pequenos animais como marcador imunológico de acompanhamento de cães em tratamento, mas não como método de triagem.
Deve-se considerar ainda a possibilidade de reações cruzadas com outros tripanossomatídeos e hemoparasitas, e a ocorrência de coinfecções por Ehrlichia spp., Babesia spp. ou Anaplasma spp.¹.
Diagnóstico parasitológico
Baseia-se na demonstração microscópica de formas amastigotas em material obtido por punção de medula óssea, aspirado de linfonodo ou biópsia de pele. É considerado técnica de referência, com especificidade que pode alcançar 100%¹. A sensibilidade depende do grau de parasitemia, do material coletado e da experiência do observador: estima-se cerca de 80% em cães sintomáticos e valores menores em assintomáticos¹. São procedimentos invasivos, o que limita seu uso em larga escala.
Diagnóstico molecular
A PCR amplifica região específica do DNA do parasita e apresenta boa performance na leishmaniose visceral canina. A sensibilidade varia conforme a amostra biológica: em estudo com animais naturalmente infectados, foi de 85% em punção de medula óssea e de 100% em aspirado de linfonodo poplíteo, com especificidade de 100%¹.
Recomenda-se atenção a um ponto prático: técnicas padronizadas e registradas passam por validação documentada, enquanto protocolos in house não atendem a esses critérios, e seu resultado não deve ser usado isoladamente para concluir se o animal tem ou não a enfermidade¹.
Como estadiar o paciente com leishmaniose canina?
Este é o passo que falta com mais frequência na rotina e o que mais muda a conduta. O consenso LeishVet organiza a enfermidade em quatro estágios, definidos pela combinação de sinais clínicos, alterações laboratoriais e título sorológico, e cada estágio tem terapia e prognóstico próprios².
O estadiamento se aplica ao paciente com infecção confirmada e sinais clínicos ou alterações clinicopatológicas. Cães infectados e clinicamente saudáveis não são estadiados². A avaliação exige hemograma completo, perfil bioquímico com eletroforese de proteínas séricas e urinálise com relação proteína:creatinina urinária.
| Estágio | Sinais clínicos | Achados laboratoriais | Sorologia | Terapia e prognóstico |
|---|---|---|---|---|
| I (leve) | Sinais discretos, como dermatite papular ou linfadenomegalia localizada | Sem alterações clinicopatológicas. Creatinina < 1,4 mg/dL; não proteinúrico (RPC < 0,5) | Negativa a positiva de baixo título | Evidência limitada. Tratamento curto com um ou dois fármacos, ou monitoramento sem tratamento. Prognóstico geralmente bom |
| II (moderado) | Lesões cutâneas ou mucocutâneas difusas ou simétricas, onicogrifose, linfadenomegalia generalizada, hiporexia, perda de peso | Anemia não regenerativa discreta, hipergamaglobulinemia, hipoalbuminemia. Subestágio (a) creatinina < 1,4 e RPC < 0,5; (b) creatinina < 1,4 e RPC 0,5 a 1 | Positiva, de baixo a alto título | Terapia leishmanicida associada a alopurinol. No subestágio (b), seguir as diretrizes IRIS para doença renal crônica. Prognóstico bom a reservado |
| III (grave) | Sinais dos estágios I e II somados a manifestações por deposição de imunocomplexos, como glomerulonefrite e uveíte | Alterações do estágio II. DRC IRIS estágio 1 com RPC > 1 ou DRC IRIS estágio 2 (creatinina 1,4 a 2,8 mg/dL) | Habitualmente positiva de alto título | Terapia leishmanicida associada a alopurinol, com adesão estrita às diretrizes IRIS. Prognóstico reservado a ruim |
| IV (muito grave) | Sinais do estágio III somados a tromboembolismo pulmonar, síndrome nefrótica ou doença renal em estágio terminal | Alterações dos estágios II e III. DRC IRIS estágio 3 (creatinina 2,9 a 5 mg/dL) ou estágio 4 (> 5 mg/dL), síndrome nefrótica ou RPC > 5 | Habitualmente positiva de alto título | Tratamento individualizado, com adesão estrita às diretrizes IRIS. Prognóstico ruim |
RPC: relação proteína:creatinina urinária. DRC: doença renal crônica. IRIS: International Renal Interest Society. Adaptado do consenso LeishVet².
Como é o tratamento da leishmaniose canina no Brasil?
O tratamento é delimitado por norma federal antes de ser delimitado pela clínica. A Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008, orienta o tratamento de cães em todo o território nacional e prevê o uso de fármacos que não sejam empregados no tratamento de casos humanos de leishmaniose visceral¹,³.
A miltefosina foi a primeira droga registrada para cães no Brasil, em 2016. É um leishmanicida de controle especial, integrante da Lista C1¹. No estudo conduzido para o registro, em cães naturalmente infectados por L. infantum, observou-se redução da carga parasitária e melhora clínica, mas parte dos animais permaneceu como fonte de infecção ao vetor¹.
O alopurinol é um leishmaniostático que causa a paralisia do parasita, reduz a evolução da enfermidade e induz melhora clínica temporária. Não é utilizado no tratamento humano e, associado a um leishmanicida, apresenta efeito sinérgico, com melhores resultados na remissão dos sinais e na redução da carga parasitária¹. A domperidona entra como imunomodulador, estimulando a resposta imune celular, e deve ser usada de forma complementar e concomitante a fármacos de ação direta sobre o parasita, nunca isoladamente¹.
Como não se alcança cura parasitológica, recidivas clínicas ocorrem durante ou após a intervenção terapêutica, e a manutenção do tratamento sob orientação do médico-veterinário é o que amplia a expectativa e a qualidade de vida do animal¹.
Há risco de resistência aos fármacos?
Sim, e é um ponto pouco discutido na rotina. No Brasil, já foi demonstrada in vitro a presença de cepas resistentes à miltefosina isoladas de cães naturalmente infectados e tratados com o medicamento. No mesmo estudo, observou-se resistência cruzada à anfotericina B¹. Há também relatos de resistência ao alopurinol em cães que apresentaram recidiva¹.
A consequência é direta: um animal com carga parasitária descontrolada permanece capaz de infectar o vetor por períodos mais longos, o que amplia o impacto sobre a saúde animal e o potencial de transmissão¹. Isso reforça a indicação de monitoramento hematológico, bioquímico, parasitológico e sorológico ao longo de todo o tratamento, e não apenas ao final do ciclo.
O tratamento é uma medida de controle da zoonose?
Não, e essa distinção precisa ficar clara na conversa com o responsável. Durante o tratamento o animal continua sendo fonte de infecção do parasita ao vetor, e não há evidência científica disponível de que tratar cães reduza a transmissão a outros animais e a seres humanos. Por isso, o Ministério da Saúde não configura o tratamento canino como ação de controle de saúde pública¹.
A decisão de tratar é clínica e individual, e envolve avaliar a capacidade e a disposição do responsável em cumprir o protocolo e o monitoramento laboratorial¹. Na prática, deve-se:
- confirmar o diagnóstico laboratorialmente antes de qualquer prescrição, registrando o método utilizado;
- estadiar o paciente antes de definir o protocolo, e não apenas após a falha terapêutica;
- avaliar função renal e proteinúria no diagnóstico e no acompanhamento, já que o comprometimento renal define prognóstico;
- manter o animal em tratamento sob uso contínuo de coleira impregnada com inseticida ou produto pour-on, porque ele segue capaz de infectar o flebotomíneo¹;
- registrar no prontuário a orientação dada ao responsável sobre controle, e não cura.
A eutanásia ainda é obrigatória para cães soropositivos?
Não, mas a leitura da norma exige precisão, porque a versão simplificada que circula na rotina está incorreta em dois pontos.
O Decreto-Lei nº 51.838, de 1963, estabeleceu as normas técnicas especiais de combate às leishmanioses e determinava o sacrifício dos cães encontrados doentes¹. A Lei nº 14.228, sancionada em 20 de outubro de 2021 e em vigor desde fevereiro de 2022, veda a eliminação da vida de cães e gatos pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais congêneres⁴. O primeiro ponto de atenção é o alcance: a norma trata da atuação desses órgãos, não da clínica privada.
O segundo é a exceção, que a lei mantém expressamente. A eutanásia segue autorizada nos casos de males, doenças graves ou enfermidades infectocontagiosas incuráveis que coloquem em risco a saúde humana e a de outros animais, justificada por laudo do responsável técnico e precedida de exame laboratorial quando for o caso⁴.
O que mudou de fato é a premissa. Com fármacos registrados e protocolo de manejo estabelecido, a decisão passa a ser clínica e individual, considerando estágio, resposta terapêutica, comprometimento renal e bem-estar do paciente, e não mais uma consequência automática de um resultado sorológico positivo. Os critérios operacionais aplicáveis aos serviços públicos constam das seções específicas sobre eutanásia de cães e destino dos animais eutanasiados da 2ª edição do manual do Ministério da Saúde, que deve ser consultada por quem atua em vigilância¹.
Como prevenir a leishmaniose canina?
Como a terapia disponível controla, mas não cura, e não se configura como medida de controle coletivo, a prevenção é a frente de maior retorno. A norma vigente organiza as medidas dirigidas à população canina em torno da proteção individual¹.
Coleiras impregnadas com inseticida
Esta é a atualização de maior impacto prático da 2ª edição do manual, e ainda está ausente da maior parte do material de divulgação. Estudos de intervenção conduzidos pelo Ministério da Saúde em 14 municípios, com mais de 300 mil cães encoleirados entre 2012 e 2015, encontraram redução média de cerca de 50% da prevalência canina nas áreas de encoleiramento em comparação com áreas sem intervenção: 52% em Montes Claros, resultados semelhantes em Mossoró e Camaçari¹.
A estratégia demonstrou ser mais custo-efetiva que as demais ações de controle recomendadas, e o Brasil tornou-se o primeiro país a incorporar a coleira impregnada com inseticida como medida de controle da leishmaniose visceral no âmbito da saúde pública¹.
Os parâmetros de uso que devem ser orientados ao responsável são¹:
- a coleira é à base de deltametrina a 4%, com liberação lenta e contínua do inseticida na camada lipídica;
- a distribuição pelo corpo leva de 2 a 3 semanas, período após o qual a proteção se torna homogênea;
- a substituição deve ocorrer a cada 6 meses;
- o uso é exclusivo para cães, a partir de 3 meses de idade;
- reações adversas costumam ser leves, cutâneas e locais (prurido, eritema e alopecia na região cervical); diante delas, suspender o uso.
Vacinas
Quatro vacinas antileishmaniose canina já obtiveram registro em órgãos reguladores, duas na Europa e duas no Brasil, país pioneiro no licenciamento, em 2003¹. A estimativa de eficácia varia conforme o estudo: uma revisão sobre a performance dos antígenos apontou 43%, enquanto o estudo utilizado para obtenção do registro encontrou eficácia média de 71,4%, com intervalo de confiança amplo, de 34,9% a 87,3%¹.
Um ponto resolve dúvida frequente na clínica: cães vacinados, independentemente da vacina utilizada, não soroconverteram sob o protocolo diagnóstico recomendado pelo Ministério da Saúde, o par TR-DPP e ELISA¹. A vacinação é considerada medida de proteção individual, sem evidência de que a vacinação em massa reduza a transmissão do parasita¹.
Na prática, contudo, a oferta está suspensa. Em maio de 2023, o Ministério da Agricultura e Pecuária determinou a suspensão da fabricação e da venda da vacina até então comercializada no país e o recolhimento de oito lotes reprovados, por apresentarem teor de antígeno inferior ao limite mínimo estabelecido na licença do produto⁵.
Manejo ambiental e vigilância clínica
Saneamento, limpeza urbana e eliminação de resíduos orgânicos reduzem a proliferação do vetor¹. Em canis e áreas de permanência dos animais, recomenda-se o uso de telas de malha fina. Consultas regulares permitem a identificação precoce em animais sem queixa, que não chegam espontaneamente ao atendimento.
Qual é o papel do médico-veterinário na abordagem de saúde única?
A leishmaniose é um dos exemplos mais diretos de enfermidade em que a decisão clínica individual tem consequência coletiva. O cão atua como reservatório amplificador no ambiente urbano, e a enzootia canina precede a ocorrência de casos humanos¹.
Abaixo, confira um resumo sobre transmissão e cuidados com as principais zoonoses em cães e gatos:

Na prática, isso desloca o escopo da consulta. Além da conduta sobre o paciente, cabe ao médico-veterinário notificar conforme a normativa local, orientar o responsável sobre o risco zoonótico sem transformar a orientação em estímulo ao abandono, e articular a informação com os serviços de vigilância quando o caso ocorrer em área de transmissão recente. Vale ressaltar que a leishmaniose integra a lista de doenças de notificação compulsória desde 1961¹.
Qual é o papel do manejo nutricional?
O comprometimento renal é o principal determinante de prognóstico nos estágios III e IV², e é também onde o manejo nutricional entra no protocolo. Nesses pacientes, a conduta alimentar segue as diretrizes IRIS para doença renal crônica, com restrição proteica e de fósforo ajustada ao estágio, e deve ser instituída em conjunto com a terapia leishmanicida, não após a falha dela.
Nos estágios I e II sem alteração renal, a prioridade é manter o aporte energético e a condição corporal do paciente, frequentemente comprometidos pela hiporexia e pela perda de peso que acompanham o quadro.
Perguntas frequentes sobre leishmaniose canina
A leishmaniose canina tem cura?
Não no sentido parasitológico. O tratamento reduz a carga parasitária e pode promover melhora dos sinais clínicos, mas não elimina o parasita do organismo, e o animal mantém o status de portador, capaz de infectar o vetor¹. O paciente permanece em monitoramento clínico e laboratorial periódico.
Qual é o tratamento autorizado para leishmaniose canina no Brasil?
A miltefosina foi a primeira droga registrada para cães no país, em 2016, e é um leishmanicida de controle especial¹. O alopurinol, leishmaniostático não utilizado no tratamento humano, é associado a ela pelo efeito sinérgico, e a domperidona pode ser empregada como imunomodulador complementar¹. A Portaria Interministerial nº 1.426/2008 prevê o uso de fármacos que não sejam empregados no tratamento humano da enfermidade³.
Cão com leishmaniose precisa ser sacrificado?
Não como regra. A Lei nº 14.228/2021 veda a eliminação de cães e gatos pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais congêneres, mantendo exceção para enfermidades incuráveis que ofereçam risco à saúde humana e animal, mediante laudo técnico⁴. Com fármacos registrados e monitoramento adequado, a decisão passa a ser clínica e individual.
Qual exame o programa nacional recomenda para triagem canina?
O teste rápido imunocromatográfico de duplo percurso (TR-DPP) como triagem, seguido de ELISA como teste confirmatório. O par apresentou 87,8% de sensibilidade e 88,5% de especificidade tendo a PCR como referência. A reação de imunofluorescência indireta não é recomendada pelo programa, por baixa acurácia frente às técnicas preconizadas¹.
Um cão sem sinais clínicos pode transmitir a leishmaniose?
Sim. Os animais que não desenvolvem sinais clínicos podem infectar o vetor durante o repasto sanguíneo¹, razão pela qual a triagem em área com transmissão precisa ser ativa e não depender da queixa do responsável.
A coleira com inseticida funciona?
Os estudos de intervenção conduzidos pelo Ministério da Saúde encontraram redução média de cerca de 50% da prevalência canina nas áreas de encoleiramento em comparação com áreas sem intervenção, e a estratégia foi incorporada como medida de controle em saúde pública¹. A coleira é à base de deltametrina a 4%, com substituição a cada seis meses e uso a partir dos três meses de idade¹.
Existe vacina contra leishmaniose canina no Brasil?
Há vacinas registradas, mas a oferta está suspensa: o MAPA determinou a suspensão da fabricação e da venda da vacina comercializada no país em maio de 2023, após reprovação de lotes por teor de antígeno abaixo do limite estabelecido na licença5. A vacinação é considerada medida de proteção individual, sem evidência de efeito sobre a transmissão em escala populacional¹.
Conclusão
A leishmaniose canina deixou de ser uma enfermidade de conduta única. O que define a decisão hoje é o estágio clínico do paciente, e não o resultado sorológico isolado.
O que muda na rotina cabe em cinco condutas. Incluir o histórico de deslocamento do paciente na anamnese, mesmo fora de área com transmissão. Adotar o protocolo sorológico recomendado pelo programa nacional, com TR-DPP na triagem e ELISA na confirmação. Estadiar antes de prescrever, com hemograma, perfil bioquímico com eletroforese de proteínas e relação proteína:creatinina urinária. Manter o animal em tratamento sob proteção contínua contra o vetor, porque ele segue infectante. Prescrever a coleira impregnada com deltametrina a 4% como medida de prevenção individual, com troca a cada seis meses.
Este roteiro serve de referência para outras enfermidades infecciosas de curso crônico e caráter zoonótico atendidas na rotina, nas quais o estadiamento define terapia e prognóstico com mais precisão do que a presença isolada do agente.
Referências
- Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 137 p. ISBN 978-85-334-2913-0.
- LeishVet Group. Canine Leishmaniosis: a brief for the practising veterinarian, 2024. Atualização das diretrizes do grupo, com o sistema de estadiamento clínico em quatro estágios.
- Brasil. Ministérios da Saúde e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008.
- Brasil. Lei nº 14.228, de 20 de outubro de 2021. Dispõe sobre a proibição da eliminação de cães e gatos pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais congêneres.
- Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa suspende fabricação e venda e determina o recolhimento de lotes de vacina contra Leishmaniose, 2023 (página oficial atualizada em 19/11/2025).
- Solano-Gallego L, Miró G, Koutinas A, Cardoso L, Pennisi MG, Ferrer L, Bourdeau P, Oliva G, Baneth G; The LeishVet Group. LeishVet guidelines for the practical management of canine leishmaniosis. Parasites & Vectors, 2011;4:86.
