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Leishmaniose canina: diagnóstico, estadiamento clínico e tratamento no Brasil

Leishmaniose canina: diagnóstico, estadiamento clínico e tratamento no Brasil
Atualizado em 15 de outubro de 2026
Tempo de leitura: 22min
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O Brasil responde por 93,5% dos casos de leishmaniose visceral registrados nas Américas; veja neste artigo como estadiar o paciente e o que a norma brasileira vigente autoriza na conduta terapêutica.

Este artigo reúne a abordagem clínica da leishmaniose canina a partir da 2ª edição do Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral do Ministério da Saúde, publicada em 2026: agente, vetores, distribuição no Brasil, sinais clínicos, roteiro diagnóstico recomendado pelo programa nacional e estadiamento em quatro estágios segundo o consenso LeishVet. Traz o protocolo terapêutico autorizado, o risco de resistência, a estratégia de encoleiramento incorporada pelo Ministério da Saúde e a leitura correta da Lei nº 14.228/2021 sobre eutanásia.

A leishmaniose canina é uma zoonose sistêmica causada por protozoários do gênero Leishmania, potencialmente fatal para cães e para seres humanos. No Brasil, a conduta diante de um paciente soropositivo não é definida apenas pela clínica: ela é delimitada por normas federais que restringem os fármacos autorizados e definem o protocolo diagnóstico adotado pelo programa nacional.

Esse conjunto normativo foi revisado. A 2ª edição do manual do Ministério da Saúde, publicada em 2026, alterou pontos que ainda circulam desatualizados na rotina clínica, entre eles o número de vetores reconhecidos, as técnicas sorológicas recomendadas e o lugar do tratamento canino dentro da política de controle. É a combinação entre o que a evidência recomenda e o que a norma vigente autoriza que define a conduta correta aqui.

O que é a leishmaniose canina? 

A leishmaniose visceral canina é uma enfermidade sistêmica de curso crônico cujas manifestações dependem diretamente do tipo de resposta imunológica do animal infectado¹. O agente é um protozoário tripanossomatídeo do gênero Leishmania, parasita intracelular obrigatório das células do sistema fagocítico mononuclear.

Nas Américas, na Europa e no norte da África, Leishmania infantum é uma espécie comumente isolada em pacientes com a forma visceral¹. A denominação varia conforme os órgãos acometidos: a forma visceral é a de maior relevância em cães e a que concentra as normas de saúde pública, enquanto a forma tegumentar restringe-se à pele e às mucosas.

O período de incubação é longo e variável. Em seres humanos, situa-se entre dois e seis meses; em cães, vai de três meses a vários anos, com média de três a sete meses¹. Esse intervalo explica por que o histórico de deslocamento do paciente pesa tanto na anamnese.

Quais animais atuam como reservatórios?

No ambiente urbano, o principal reservatório amplificador é o cão. A enzootia canina precede a ocorrência de casos humanos, e a infecção em cães costuma ser mais prevalente do que no homem, o que se explica pelos altos níveis de parasitas na pele do animal e pela maior suscetibilidade à infecção¹.

No ambiente silvestre, os principais reservatórios são as raposas (Dusicyon vetulus e Cerdocyon thous), os marsupiais (Didelphis albiventris) e os roedores (Oligoryzomys)¹. Vale ressaltar que estar infectado não torna o animal um reservatório: a definição exige critérios específicos de manutenção e transmissão do parasita. O felino doméstico é a espécie urbana mais estudada nesse aspecto, e estudos de xenodiagnóstico demonstram que o gato é capaz de infectar o vetor, mas a carga parasitária cutânea limita a sustentação do ciclo em condições naturais¹.

Como ocorre a transmissão da leishmaniose canina?

Leishmania spp. é um parasita difásico: o ciclo completo exige o inseto vetor e o hospedeiro vertebrado. O parasita assume duas formas, conforme o hospedeiro:

  • promastigota, forma flagelada, no tubo digestivo do flebotomíneo
  • amastigota, forma aflagelada, nos tecidos do hospedeiro vertebrado

O ciclo do parasita dentro do inseto se completa em aproximadamente 72 horas¹. A transmissão ocorre quando a fêmea infectada realiza novo repasto sanguíneo e libera as formas promastigotas metacíclicas junto com a saliva.

Este é um dos pontos atualizados na norma vigente: três espécies de flebotomíneos estão hoje relacionadas à transmissão no Brasil. Lutzomyia longipalpis segue como a principal transmissora de L. infantum e, até 2021, havia sido encontrada em 1.552 municípios, nas cinco regiões do país. Lutzomyia cruzi, de distribuição restrita ao Centro-Oeste, e Migonemyia migonei são classificadas como secundárias, esta última exigindo investigação local para comprovação de sua participação¹.

Nos animais existem outras vias descritas: vertical, transfusional, venérea e por ingestão de ectoparasitas parasitados ou de vísceras contaminadas. Não há, porém, evidência sobre a importância epidemiológica desses mecanismos na transmissão ao ser humano ou na manutenção da enzootia, e não ocorre transmissão por contato direto entre indivíduos¹.

Ciclo biológico de Leishmania infantum no flebotomíneo e nos hospedeiros mamíferos
Figura 1. Ciclo biológico de Leishmania infantum no flebotomíneo e nos hospedeiros mamíferos. Fonte: Ministério da Saúde, Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral, 2ª ed., 2026.

Onde a leishmaniose canina é endêmica no Brasil?

Em 2022, de 200 países e territórios que notificaram leishmanioses à Organização Mundial da Saúde, 80 foram considerados endêmicos para a forma visceral. Cerca de 80% da carga mundial concentra-se em seis países, entre eles o Brasil, que responde por 93,5% dos casos registrados nas Américas¹.

Entre 2015 e 2024, foram registrados 24.454 casos de leishmaniose visceral humana no Sistema de Informação de Agravos de Notificação. Aproximadamente metade ocorreu na Região Nordeste, seguida por Sudeste e Norte. O coeficiente de incidência médio no período foi de 1,22 caso por 100 mil habitantes, e o total de casos novos vem caindo: em 2024, a redução foi de 69,7% em relação a 2017, ano de maior registro do período¹.

Em 2024, os municípios com maior número de casos foram Fortaleza, Teresina, Belo Horizonte, São Luís, Marabá, Araguaína, Uiramutã, Parauapebas, Chapadinha e Rondonópolis¹. A lista reúne capitais e cidades médias, o que confirma o padrão urbano que substituiu a transmissão predominantemente rural das décadas anteriores.

Conhecer essa distribuição tem consequência direta na consulta. Deve-se registrar o histórico de deslocamento do paciente na anamnese: animais que viajaram para áreas com transmissão entram no diagnóstico diferencial mesmo quando atendidos em regiões sem casos, e o dado orienta a prescrição de medidas de proteção individual ao responsável.

Quais são os sinais clínicos da leishmaniose canina?

A apresentação é polimórfica e pode ser confundida com diversas enfermidades de curso infeccioso ou não¹. Os principais achados de exame físico são lesões dermatológicas, linfadenomegalia generalizada, perda progressiva de peso, atrofia muscular, diminuição do apetite, esplenomegalia, poliúria, polidipsia, lesões nasais e oculares, claudicação, diarreia e vômito¹.

As lesões dermatológicas são as mais comuns e se organizam em quatro padrões¹,²:

  • dermatite esfoliativa não pruriginosa, com ou sem alopecia, generalizada ou localizada em face, orelhas ou membros;
  • dermatite ulcerativa em proeminências ósseas, dobras cutâneas, orelhas e membros;
  • dermatite proliferativa mucocutânea;
  • onicogrifose.

Manifestações atípicas incluem despigmentação de ponte nasal, hiperqueratose digital e nasal e formação de pústulas¹. Entre os achados oftálmicos, descrevem-se uveíte, ceratoconjuntivite, blefarite e endoftalmite¹.

Nos exames complementares, os parâmetros costumam permanecer inalterados nos cães assintomáticos. Nos sintomáticos, observam-se anemia não regenerativa leve a moderada, trombocitopenia, alterações leucocitárias, hiperproteinemia com hiperglobulinemia e hipoalbuminemia, redução da relação albumina:globulina e proteinúria¹.

Como é feito o diagnóstico da leishmaniose canina?

O diagnóstico clínico isolado é insuficiente. Os sinais são comuns a outras enfermidades, e desnutrição ou dermatopatias concomitantes podem mascarar ou modificar a apresentação¹. A confirmação é laboratorial e combina três abordagens.

Diagnóstico imunológico

Este é o ponto que mais mudou em relação ao que circula na rotina. As técnicas registradas no Ministério da Agricultura e Pecuária e disponíveis comercialmente são a imunocromatografia, o ELISA e a reação de imunofluorescência indireta. O Programa de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral recomenda, para os inquéritos caninos, o teste rápido imunocromatográfico de duplo percurso (TR-DPP) como triagem e o ELISA como teste confirmatório¹.

Usando a PCR como padrão de referência, esse par apresentou 87,8% de sensibilidade e 88,5% de especificidade¹. Aplicado isoladamente em animais sintomáticos e assintomáticos, o TR-DPP mostrou 90,6% de sensibilidade e 90,1% de especificidade¹.

A reação de imunofluorescência indireta não é recomendada pelo programa nacional, por baixa acurácia frente às técnicas preconizadas: a sensibilidade é estimada em 88% e a especificidade em 63%, com possibilidade de reações cruzadas e dependência da experiência do observador¹. A técnica segue em uso na clínica de pequenos animais como marcador imunológico de acompanhamento de cães em tratamento, mas não como método de triagem.

Deve-se considerar ainda a possibilidade de reações cruzadas com outros tripanossomatídeos e hemoparasitas, e a ocorrência de coinfecções por Ehrlichia spp., Babesia spp. ou Anaplasma spp.¹.

Diagnóstico parasitológico

Baseia-se na demonstração microscópica de formas amastigotas em material obtido por punção de medula óssea, aspirado de linfonodo ou biópsia de pele. É considerado técnica de referência, com especificidade que pode alcançar 100%¹. A sensibilidade depende do grau de parasitemia, do material coletado e da experiência do observador: estima-se cerca de 80% em cães sintomáticos e valores menores em assintomáticos¹. São procedimentos invasivos, o que limita seu uso em larga escala.

Diagnóstico molecular

A PCR amplifica região específica do DNA do parasita e apresenta boa performance na leishmaniose visceral canina. A sensibilidade varia conforme a amostra biológica: em estudo com animais naturalmente infectados, foi de 85% em punção de medula óssea e de 100% em aspirado de linfonodo poplíteo, com especificidade de 100%¹.

Recomenda-se atenção a um ponto prático: técnicas padronizadas e registradas passam por validação documentada, enquanto protocolos in house não atendem a esses critérios, e seu resultado não deve ser usado isoladamente para concluir se o animal tem ou não a enfermidade¹.

Como estadiar o paciente com leishmaniose canina?

Este é o passo que falta com mais frequência na rotina e o que mais muda a conduta. O consenso LeishVet organiza a enfermidade em quatro estágios, definidos pela combinação de sinais clínicos, alterações laboratoriais e título sorológico, e cada estágio tem terapia e prognóstico próprios².

O estadiamento se aplica ao paciente com infecção confirmada e sinais clínicos ou alterações clinicopatológicas. Cães infectados e clinicamente saudáveis não são estadiados². A avaliação exige hemograma completo, perfil bioquímico com eletroforese de proteínas séricas e urinálise com relação proteína:creatinina urinária.

EstágioSinais clínicosAchados laboratoriaisSorologiaTerapia e prognóstico
I (leve)Sinais discretos, como dermatite papular ou linfadenomegalia localizadaSem alterações clinicopatológicas. Creatinina < 1,4 mg/dL; não proteinúrico (RPC < 0,5)Negativa a positiva de baixo títuloEvidência limitada. Tratamento curto com um ou dois fármacos, ou monitoramento sem tratamento. Prognóstico geralmente bom
II (moderado)Lesões cutâneas ou mucocutâneas difusas ou simétricas, onicogrifose, linfadenomegalia generalizada, hiporexia, perda de pesoAnemia não regenerativa discreta, hipergamaglobulinemia, hipoalbuminemia. Subestágio (a) creatinina < 1,4 e RPC < 0,5; (b) creatinina < 1,4 e RPC 0,5 a 1Positiva, de baixo a alto títuloTerapia leishmanicida associada a alopurinol. No subestágio (b), seguir as diretrizes IRIS para doença renal crônica. Prognóstico bom a reservado
III (grave)Sinais dos estágios I e II somados a manifestações por deposição de imunocomplexos, como glomerulonefrite e uveíteAlterações do estágio II. DRC IRIS estágio 1 com RPC > 1 ou DRC IRIS estágio 2 (creatinina 1,4 a 2,8 mg/dL)Habitualmente positiva de alto títuloTerapia leishmanicida associada a alopurinol, com adesão estrita às diretrizes IRIS. Prognóstico reservado a ruim
IV (muito grave)Sinais do estágio III somados a tromboembolismo pulmonar, síndrome nefrótica ou doença renal em estágio terminalAlterações dos estágios II e III. DRC IRIS estágio 3 (creatinina 2,9 a 5 mg/dL) ou estágio 4 (> 5 mg/dL), síndrome nefrótica ou RPC > 5Habitualmente positiva de alto título

Tratamento individualizado, com adesão estrita às diretrizes IRIS. Prognóstico ruim

RPC: relação proteína:creatinina urinária. DRC: doença renal crônica. IRIS: International Renal Interest Society. Adaptado do consenso LeishVet².

Como é o tratamento da leishmaniose canina no Brasil?

O tratamento é delimitado por norma federal antes de ser delimitado pela clínica. A Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008, orienta o tratamento de cães em todo o território nacional e prevê o uso de fármacos que não sejam empregados no tratamento de casos humanos de leishmaniose visceral¹,³.

A miltefosina foi a primeira droga registrada para cães no Brasil, em 2016. É um leishmanicida de controle especial, integrante da Lista C1¹. No estudo conduzido para o registro, em cães naturalmente infectados por L. infantum, observou-se redução da carga parasitária e melhora clínica, mas parte dos animais permaneceu como fonte de infecção ao vetor¹.

O alopurinol é um leishmaniostático que causa a paralisia do parasita, reduz a evolução da enfermidade e induz melhora clínica temporária. Não é utilizado no tratamento humano e, associado a um leishmanicida, apresenta efeito sinérgico, com melhores resultados na remissão dos sinais e na redução da carga parasitária¹. A domperidona entra como imunomodulador, estimulando a resposta imune celular, e deve ser usada de forma complementar e concomitante a fármacos de ação direta sobre o parasita, nunca isoladamente¹.

Como não se alcança cura parasitológica, recidivas clínicas ocorrem durante ou após a intervenção terapêutica, e a manutenção do tratamento sob orientação do médico-veterinário é o que amplia a expectativa e a qualidade de vida do animal¹.

Há risco de resistência aos fármacos?

Sim, e é um ponto pouco discutido na rotina. No Brasil, já foi demonstrada in vitro a presença de cepas resistentes à miltefosina isoladas de cães naturalmente infectados e tratados com o medicamento. No mesmo estudo, observou-se resistência cruzada à anfotericina B¹. Há também relatos de resistência ao alopurinol em cães que apresentaram recidiva¹.

A consequência é direta: um animal com carga parasitária descontrolada permanece capaz de infectar o vetor por períodos mais longos, o que amplia o impacto sobre a saúde animal e o potencial de transmissão¹. Isso reforça a indicação de monitoramento hematológico, bioquímico, parasitológico e sorológico ao longo de todo o tratamento, e não apenas ao final do ciclo.

O tratamento é uma medida de controle da zoonose?

Não, e essa distinção precisa ficar clara na conversa com o responsável. Durante o tratamento o animal continua sendo fonte de infecção do parasita ao vetor, e não há evidência científica disponível de que tratar cães reduza a transmissão a outros animais e a seres humanos. Por isso, o Ministério da Saúde não configura o tratamento canino como ação de controle de saúde pública¹.

A decisão de tratar é clínica e individual, e envolve avaliar a capacidade e a disposição do responsável em cumprir o protocolo e o monitoramento laboratorial¹. Na prática, deve-se:

  • confirmar o diagnóstico laboratorialmente antes de qualquer prescrição, registrando o método utilizado;
  • estadiar o paciente antes de definir o protocolo, e não apenas após a falha terapêutica;
  • avaliar função renal e proteinúria no diagnóstico e no acompanhamento, já que o comprometimento renal define prognóstico;
  • manter o animal em tratamento sob uso contínuo de coleira impregnada com inseticida ou produto pour-on, porque ele segue capaz de infectar o flebotomíneo¹;
  • registrar no prontuário a orientação dada ao responsável sobre controle, e não cura.

A eutanásia ainda é obrigatória para cães soropositivos?

Não, mas a leitura da norma exige precisão, porque a versão simplificada que circula na rotina está incorreta em dois pontos.

O Decreto-Lei nº 51.838, de 1963, estabeleceu as normas técnicas especiais de combate às leishmanioses e determinava o sacrifício dos cães encontrados doentes¹. A Lei nº 14.228, sancionada em 20 de outubro de 2021 e em vigor desde fevereiro de 2022, veda a eliminação da vida de cães e gatos pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais congêneres⁴. O primeiro ponto de atenção é o alcance: a norma trata da atuação desses órgãos, não da clínica privada.

O segundo é a exceção, que a lei mantém expressamente. A eutanásia segue autorizada nos casos de males, doenças graves ou enfermidades infectocontagiosas incuráveis que coloquem em risco a saúde humana e a de outros animais, justificada por laudo do responsável técnico e precedida de exame laboratorial quando for o caso⁴.

O que mudou de fato é a premissa. Com fármacos registrados e protocolo de manejo estabelecido, a decisão passa a ser clínica e individual, considerando estágio, resposta terapêutica, comprometimento renal e bem-estar do paciente, e não mais uma consequência automática de um resultado sorológico positivo. Os critérios operacionais aplicáveis aos serviços públicos constam das seções específicas sobre eutanásia de cães e destino dos animais eutanasiados da 2ª edição do manual do Ministério da Saúde, que deve ser consultada por quem atua em vigilância¹.

Como prevenir a leishmaniose canina?

Como a terapia disponível controla, mas não cura, e não se configura como medida de controle coletivo, a prevenção é a frente de maior retorno. A norma vigente organiza as medidas dirigidas à população canina em torno da proteção individual¹.

Coleiras impregnadas com inseticida

Esta é a atualização de maior impacto prático da 2ª edição do manual, e ainda está ausente da maior parte do material de divulgação. Estudos de intervenção conduzidos pelo Ministério da Saúde em 14 municípios, com mais de 300 mil cães encoleirados entre 2012 e 2015, encontraram redução média de cerca de 50% da prevalência canina nas áreas de encoleiramento em comparação com áreas sem intervenção: 52% em Montes Claros, resultados semelhantes em Mossoró e Camaçari¹.

A estratégia demonstrou ser mais custo-efetiva que as demais ações de controle recomendadas, e o Brasil tornou-se o primeiro país a incorporar a coleira impregnada com inseticida como medida de controle da leishmaniose visceral no âmbito da saúde pública¹.

Os parâmetros de uso que devem ser orientados ao responsável são¹:

  • a coleira é à base de deltametrina a 4%, com liberação lenta e contínua do inseticida na camada lipídica;
  • a distribuição pelo corpo leva de 2 a 3 semanas, período após o qual a proteção se torna homogênea;
  • a substituição deve ocorrer a cada 6 meses;
  • o uso é exclusivo para cães, a partir de 3 meses de idade;
  • reações adversas costumam ser leves, cutâneas e locais (prurido, eritema e alopecia na região cervical); diante delas, suspender o uso.

Vacinas

Quatro vacinas antileishmaniose canina já obtiveram registro em órgãos reguladores, duas na Europa e duas no Brasil, país pioneiro no licenciamento, em 2003¹. A estimativa de eficácia varia conforme o estudo: uma revisão sobre a performance dos antígenos apontou 43%, enquanto o estudo utilizado para obtenção do registro encontrou eficácia média de 71,4%, com intervalo de confiança amplo, de 34,9% a 87,3%¹.

Um ponto resolve dúvida frequente na clínica: cães vacinados, independentemente da vacina utilizada, não soroconverteram sob o protocolo diagnóstico recomendado pelo Ministério da Saúde, o par TR-DPP e ELISA¹. A vacinação é considerada medida de proteção individual, sem evidência de que a vacinação em massa reduza a transmissão do parasita¹.

Na prática, contudo, a oferta está suspensa. Em maio de 2023, o Ministério da Agricultura e Pecuária determinou a suspensão da fabricação e da venda da vacina até então comercializada no país e o recolhimento de oito lotes reprovados, por apresentarem teor de antígeno inferior ao limite mínimo estabelecido na licença do produto⁵.

Manejo ambiental e vigilância clínica

Saneamento, limpeza urbana e eliminação de resíduos orgânicos reduzem a proliferação do vetor¹. Em canis e áreas de permanência dos animais, recomenda-se o uso de telas de malha fina. Consultas regulares permitem a identificação precoce em animais sem queixa, que não chegam espontaneamente ao atendimento.

Qual é o papel do médico-veterinário na abordagem de saúde única?

A leishmaniose é um dos exemplos mais diretos de enfermidade em que a decisão clínica individual tem consequência coletiva. O cão atua como reservatório amplificador no ambiente urbano, e a enzootia canina precede a ocorrência de casos humanos¹.

Abaixo, confira um resumo sobre transmissão e cuidados com as principais zoonoses em cães e gatos:

Infográfico sobre zoonoses, com definição, principais doenças em cães e gatos, agentes patogênicos, formas de transmissão e medidas de prevenção, ilustrado com médico-veterinário, cão e gato.
Visão Geral das Zoonoses. Royal Canin®

Na prática, isso desloca o escopo da consulta. Além da conduta sobre o paciente, cabe ao médico-veterinário notificar conforme a normativa local, orientar o responsável sobre o risco zoonótico sem transformar a orientação em estímulo ao abandono, e articular a informação com os serviços de vigilância quando o caso ocorrer em área de transmissão recente. Vale ressaltar que a leishmaniose integra a lista de doenças de notificação compulsória desde 1961¹.

Qual é o papel do manejo nutricional?

O comprometimento renal é o principal determinante de prognóstico nos estágios III e IV², e é também onde o manejo nutricional entra no protocolo. Nesses pacientes, a conduta alimentar segue as diretrizes IRIS para doença renal crônica, com restrição proteica e de fósforo ajustada ao estágio, e deve ser instituída em conjunto com a terapia leishmanicida, não após a falha dela.

Nos estágios I e II sem alteração renal, a prioridade é manter o aporte energético e a condição corporal do paciente, frequentemente comprometidos pela hiporexia e pela perda de peso que acompanham o quadro.

Perguntas frequentes sobre leishmaniose canina

A leishmaniose canina tem cura?

Não no sentido parasitológico. O tratamento reduz a carga parasitária e pode promover melhora dos sinais clínicos, mas não elimina o parasita do organismo, e o animal mantém o status de portador, capaz de infectar o vetor¹. O paciente permanece em monitoramento clínico e laboratorial periódico.

Qual é o tratamento autorizado para leishmaniose canina no Brasil?

A miltefosina foi a primeira droga registrada para cães no país, em 2016, e é um leishmanicida de controle especial¹. O alopurinol, leishmaniostático não utilizado no tratamento humano, é associado a ela pelo efeito sinérgico, e a domperidona pode ser empregada como imunomodulador complementar¹. A Portaria Interministerial nº 1.426/2008 prevê o uso de fármacos que não sejam empregados no tratamento humano da enfermidade³.

Cão com leishmaniose precisa ser sacrificado?

Não como regra. A Lei nº 14.228/2021 veda a eliminação de cães e gatos pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais congêneres, mantendo exceção para enfermidades incuráveis que ofereçam risco à saúde humana e animal, mediante laudo técnico⁴. Com fármacos registrados e monitoramento adequado, a decisão passa a ser clínica e individual.

Qual exame o programa nacional recomenda para triagem canina?

O teste rápido imunocromatográfico de duplo percurso (TR-DPP) como triagem, seguido de ELISA como teste confirmatório. O par apresentou 87,8% de sensibilidade e 88,5% de especificidade tendo a PCR como referência. A reação de imunofluorescência indireta não é recomendada pelo programa, por baixa acurácia frente às técnicas preconizadas¹.

Um cão sem sinais clínicos pode transmitir a leishmaniose?

Sim. Os animais que não desenvolvem sinais clínicos podem infectar o vetor durante o repasto sanguíneo¹, razão pela qual a triagem em área com transmissão precisa ser ativa e não depender da queixa do responsável.

A coleira com inseticida funciona?

Os estudos de intervenção conduzidos pelo Ministério da Saúde encontraram redução média de cerca de 50% da prevalência canina nas áreas de encoleiramento em comparação com áreas sem intervenção, e a estratégia foi incorporada como medida de controle em saúde pública¹. A coleira é à base de deltametrina a 4%, com substituição a cada seis meses e uso a partir dos três meses de idade¹.

Existe vacina contra leishmaniose canina no Brasil?

Há vacinas registradas, mas a oferta está suspensa: o MAPA determinou a suspensão da fabricação e da venda da vacina comercializada no país em maio de 2023, após reprovação de lotes por teor de antígeno abaixo do limite estabelecido na licença5. A vacinação é considerada medida de proteção individual, sem evidência de efeito sobre a transmissão em escala populacional¹.

Conclusão

A leishmaniose canina deixou de ser uma enfermidade de conduta única. O que define a decisão hoje é o estágio clínico do paciente, e não o resultado sorológico isolado.

O que muda na rotina cabe em cinco condutas. Incluir o histórico de deslocamento do paciente na anamnese, mesmo fora de área com transmissão. Adotar o protocolo sorológico recomendado pelo programa nacional, com TR-DPP na triagem e ELISA na confirmação. Estadiar antes de prescrever, com hemograma, perfil bioquímico com eletroforese de proteínas e relação proteína:creatinina urinária. Manter o animal em tratamento sob proteção contínua contra o vetor, porque ele segue infectante. Prescrever a coleira impregnada com deltametrina a 4% como medida de prevenção individual, com troca a cada seis meses.

Este roteiro serve de referência para outras enfermidades infecciosas de curso crônico e caráter zoonótico atendidas na rotina, nas quais o estadiamento define terapia e prognóstico com mais precisão do que a presença isolada do agente.

Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Departamento de Doenças Transmissíveis. Manual de Vigilância e Controle da Leishmaniose Visceral. 2ª ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2026. 137 p. ISBN 978-85-334-2913-0. 
  2. LeishVet Group. Canine Leishmaniosis: a brief for the practising veterinarian, 2024. Atualização das diretrizes do grupo, com o sistema de estadiamento clínico em quatro estágios. 
  3. Brasil. Ministérios da Saúde e da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Portaria Interministerial nº 1.426, de 11 de julho de 2008. 
  4. Brasil. Lei nº 14.228, de 20 de outubro de 2021. Dispõe sobre a proibição da eliminação de cães e gatos pelos órgãos de controle de zoonoses, canis públicos e estabelecimentos oficiais congêneres. 
  5. Ministério da Agricultura e Pecuária. Mapa suspende fabricação e venda e determina o recolhimento de lotes de vacina contra Leishmaniose, 2023 (página oficial atualizada em 19/11/2025). 
  6. Solano-Gallego L, Miró G, Koutinas A, Cardoso L, Pennisi MG, Ferrer L, Bourdeau P, Oliva G, Baneth G; The LeishVet Group. LeishVet guidelines for the practical management of canine leishmaniosis. Parasites & Vectors, 2011;4:86. 
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