Doença de Addison em cães: como o hipoadrenocorticismo afeta os cães?
Links rápidos:
- O que é a Doença de Addison e como ela afeta os cães?
- Principais sinais clínicos da Doença de Addison ou hipoadrenocorticismo em cães
- Como é feito o diagnóstico?
- Tratando o hipoadrenocorticismo nos cães: quais os principais desafios?
- Ponto de atenção na clínica médica: o que muda ao atender um paciente com hipoadrenocorticismo?
- A importância do manejo nutricional para a saúde e bem-estar dos pets
Pouco comum na rotina clínica e de difícil diagnóstico, a Doença de Addison em cães pode afetar significativamente a saúde do paciente. Entenda os principais aspectos da enfermidade e saiba como diagnosticá-la!
A Doença de Addison, também conhecida como hipoadrenocorticismo, é uma condição endócrina que ocorre devido à insuficiência da glândula adrenal em produzir hormônios essenciais para a homeostase vascular, como o cortisol e a aldosterona.
Embora seja uma doença incomum na clínica médica veterinária, com uma incidência relatada em em cães de 0,36 a 0,5% (FELDMAN & NELSON, 2004), essa patologia pode levar a quadros clínicos graves e até fatais se não diagnosticada e tratada corretamente.
O hipoadrenorticismo em cães representa um grande desafio diagnóstico para os médicos-veterinários, uma vez que é capaz de mimetizar diversas outras afecções e, também, é menos frequente do que o conhecido hiperadrenocorticismo.
Portanto, saber como identificar a Doença de Addison em cães é essencial para que o profissional consiga oferecer o suporte adequado ao seu paciente.
O que é a Doença de Addison e como ela afeta os cães?
A Doença de Addison em cães, também denominada hipoadrenocorticismo, é caracterizada pela deficiência da secreção hormonal de glicocorticoides (cortisol) e mineralocorticoides (aldosterona) que ocorre devido à destruição ou disfunção da camada cortical das glândulas adrenais.
Esta insuficiência hormonal resulta em síndromes clínicas relacionadas a alterações na homeostase vascular e ao desequilíbrio eletrolítico. A falta de aldosterona interfere na regulação de sódio e potássio, enquanto a carência de cortisol afeta respostas metabólicas e imunológicas (LATHAN & THOMPSON, 2018).
A Doença de Addison em cães pode ser classificada em primária (mais comum), secundária e iatrogênica.
O hipoadrenocorticismo primário ocorre devido à atrofia ou destruição das três camadas corticais da glândula adrenal, e, provavelmente, sua causa principal é imunomediada. Porém, também pode ser iatrogênico, causado pela toxicidade de medicamentos administrados para controlar o hiperadrenocorticismo dependente da hipófise.
Já a Doença de Addison secundária é decorrente da falha de secreção de ACTH pela glândula pituitária, levando à atrofia grave de 2 camadas do córtex adrenal. Essa condição resulta da destruição da glândula pituitária por neoplasia, inflamação ou traumatismo craniano. Pode, ainda, ter causa iatrogênica, como resultado da suspensão repentina da administração de fármacos glicocorticoides.
Vale ressaltar que o hipoadrenocorticismo em gatos é considerado raro, porém, casos relatados indicam sinais clínicos semelhantes aos observados em cães, como letargia, vômitos e desidratação. O manejo nesses animais é mais desafiador devido à maior dificuldade diagnóstica (RODRIGUES, 2020).
O hipoadrenocorticismo é considerado mais raro do que o hiperadrenocorticismo?
Sim, o hipoadrenocorticismo em cães é significativamente menos frequente do que o hiperadrenocorticismo.
Enquanto o hipoadrenocorticismo está associado à deficiência de cortisol e aldosterona, o hiperadrenocorticismo, também conhecido como síndrome de Cushing, é caracterizado pela produção excessiva de cortisol pelas glândulas adrenais – geralmente em resposta à hiperatividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal.
Esse excesso de cortisol pode ter diversas origens, sendo as mais comuns o hiperadrenocorticismo hipofisário-dependente, causado por um adenoma hipofisário que estimula a secreção excessiva de ACTH, e o hiperadrenocorticismo adrenal-dependente, resultante de um tumor funcional nas glândulas adrenais.
Raças mais acometidas e fatores que predispõem o hipoadrenocorticismo nos cães
A Doença de Addison em cães é descrita em raças puras e mestiças. Porém, algumas raças como Poodle, West Highland White Terrier, Rottweiler e Cão D’água Português apresentem risco aumentado para o desenvolvimento da enfermidade.
Estudos sugerem uma predisposição genética, especialmente em cães da raça Bearded Collie, nos quais variantes genéticas específicas para a doença foram identificadas (GERSHONY et al., 2020).
Quais as possíveis consequências e complicações da doença?
Se não tratada, a Doença de Addison em cães pode levar a consequências graves, incluindo colapso cardiovascular, insuficiência renal aguda e desequilíbrios metabólicos severos.
A deficiência de aldosterona pode levar à hipovolemia (resultando em desidratação e hipotensão grave) e à hipercalemia, podendo causar bradicardia, arritmias cardíacas e até parada cardíaca.
Já a deficiência de cortisol pode resultar em hipoglicemia, levando o paciente a apresentar fraqueza extrema, letargia, tremores musculares, convulsões e, em casos graves, coma.
As síndromes clínicas da Doença de Addison em cães são emergências médicas e exigem intervenção imediata para estabilização do animal acometido. A falta de tratamento adequado pode resultar na piora do quadro clínico, colocando a vida do paciente em risco (CHEN et al., 2022).
Principais sinais clínicos da Doença de Addison ou hipoadrenocorticismo em cães
Os sinais clínicos da Doença de Addison em cães aparecem quando pelo menos 85% a 90% do tecido adrenocortical é destruído, e podem incluir (KLEIN; PETERSON, 2010):
- letargia;
- fraqueza;
- vômitos;
- diarreia (melena);
- polidipsia;
- tempo lento de preenchimento capilar;
- hipotermia;
- perda de peso;
- hiporexia/anorexia;
- desidratação;
- hipotensão;
- dor abdominal.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico de um quadro clínico suspeito para Doença de Addison em cães envolve tanto exames laboratoriais básicos, como hemograma e bioquímica sérica, quanto testes hormonais específicos.
As anormalidades hematológicas podem incluir anemia, linfocitose e eosinofilia. Já os achados bioquímicos podem demonstrar hiponatremia, hipercalemia, hipocloremia, hipoglicemia e hipercalcemia (KLEIN; PETERSON, 2010).
Uma dosagem de cortisol basal baixa (< 2 µg/dL) sugere insuficiência adrenal, mas não é suficiente para confirmar o diagnóstico, pois valores normais não descartam a doença.
O teste de estímulo com ACTH confirma o diagnóstico de Doença de Addison, no qual, após a administração de ACTH exógeno, níveis de cortisol consistentemente baixos (< 2 µg/dL) antes e depois do estímulo, confirmam o hipoadrenocorticismo em cães.
Outros exames complementares, como radiografia e ultrassonografia, podem ser úteis para descartar outras condições. Em alguns casos de Doença de Addison em cães, glândulas adrenais pequenas e hiperecogênicas podem ser visualizadas por ultrassom.
A importância do acompanhamento especializado
O acompanhamento especializado com um endocrinologista veterinário é essencial para assegurar o tratamento adequado do paciente diagnosticado ou com suspeita de Doença de Addison.
Um manejo multidisciplinar permite monitorar eficientemente as complicações e ajustar o tratamento conforme a evolução clínica do paciente (HUPFELD et al., 2022).
Tratando o hipoadrenocorticismo nos cães: quais os principais desafios?
O tratamento da Doença de Addison em cães é direcionado para a reposição hormonal de glicocorticoides, geralmente com administração de prednisona/prednisolona, e mineralocorticoides, através da administração de acetato de desoxicorticosterona (DOCP) ou acetato de fludrocortisona.
O objetivo da abordagem terapêutica é restabelecer o equilíbrio metabólico e prevenir crises adrenais. Esse manejo exige acompanhamento contínuo e ajuste personalizado das doses, principalmente em situações de estresse.
A adesão ao tratamento de longo prazo também exige educação dos tutores, que devem ser informados quanto a importância da administração consistente dos medicamentos, a necessidade de buscar atendimento veterinário imediato caso o animal apresente sinais de crise, e ser instruídos sobre como reconhecer situações que podem exigir ajuste das doses farmacológicas (LATHAN; THOMPSON, 2018).
Ponto de atenção na clínica médica: o que muda ao atender um paciente com hipoadrenocorticismo?
Na clínica médica veterinária, o atendimento de animais acometidos com Doença de Addison demanda cuidados específicos, como evitar o uso indiscriminado de anti-inflamatórios esteroidais, que podem alterar a estabilidade do quadro.
Em casos de gastroenterite, por exemplo, é fundamental ajustar fluidoterapia e considerar o histórico da doença para evitar complicações (PEREIRA et al., 2020).
A importância do manejo nutricional para a saúde e bem-estar dos pets
Uma dieta balanceada é essencial para a manutenção da homeostase do organismo, do bom funcionamento do sistema imunológico, contribuindo para qualidade de vida dos pets, inclusive dos pacientes que já apresentem alguma condição de saúde como a Doença de Addison.
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* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade.
Referências:
CHEN, J. et al. Diagnosis and treatment of Addison’s Disease in a dog. Agrobiological Records, v.9, 2022. Acesso em: 14 jan. 2025.
FELDMAN, E.C.; NELSON, R.W. Endocrinologia e Reprodução Canina e Felina. St. Louis, Missouri: WB Saunders, 3ª ed., 2004.
GERSHONY, L.C. et al. Genetic characterization of Addison’s disease in Bearded Collies. BMC Genomics, v.21, 2020. Acesso em: 14 jan. 2025.
HANSON, J.M. et al. Naturally occurring adrenocortical insufficiency–an epidemiological study based on a Swedish-insured dog population of 525,028 dogs. J. Vet. Intern. Med., v.30, n.1, 2016. Acesso em: 14 jan. 2025.
HUPFELD, J. et al. Effect of long-term management of hypoadrenocorticism on the quality of life of affected dogs and their owners. Veterinary Record, v.191, n.10, 2022. Acesso em: 14 jan. 2025.
KLEIN, S.C.; PETERSON, M.E. Canine hypoadrenocorticism: Part I. Can. Vet. J., v.51, n.1, 2010. Acesso em: 14 jan. 2025.
LATHAN, P.; THOMPSON, A.L. Management of hypoadrenocorticism (Addison’s disease) in dogs. Veterinary Medicine: Research and Reports, v.9, 2018. Acesso em: 14 jan. 2025.
PEREIRA, M.L.; AGUIAR, M.H.S.; NERCOLINI, N.A.M. Infecção de trato urinário inferior por Citrobacter sp em cadela com Hipoadrenocorticismo. Rev. Bras. Ci. Vet. V.27, n.2, 2020. Acesso em: 14 jan. 2025.
RODRIGUES, P.T. Apresentação clínica do hipoadrenocorticismo canino: estudo retrospectivo. Universidade de Lisboa, 2020. Acesso em: 14 jan. 2025.
SOUZA, L. M.; BLAITT, R.M.A.N. Hipoadrenocorticismo em cães – revisão. PUBVET, v.18, n.10, 2024. Acesso em: 14 jan. 2025.
