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DAPE: como manejar o paciente com dermatite alérgica a picada de ectoparasitas

DAPE: como manejar o paciente com dermatite alérgica a picada de ectoparasitas
Atualizado em 30 de março de 2026
Tempo de leitura: 13min
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A dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas (DAPE) é uma das desordens cutâneas mais comuns na clínica de pequenos animais. Confira todos os detalhes sobre o assunto. 

A DAPE, dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas, acomete uma parcela considerável de gatos e cães. Um dos principais sinais clínicos apresentado pelo paciente é o prurido intenso, causando grande desconforto, que é resultado de uma reação de hipersensibilidade individual.

O controle efetivo contra a infestação de ectoparasitas é de grande importância para a prevenção da DAPE, incluindo o controle ambiental e o tratamento de contactantes, que pode ser consideravelmente desafiador, uma vez que está diretamente relacionado à conscientização dos tutores. Entenda melhor!

O que é DAPE ou DAPP?

A dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas, DAPE, é caracterizada por uma reação de hipersensibilidade a proteínas presentes na saliva de ectoparasitas, principalmente pulgas e carrapatos.

Quando esses ectoparasitas picam os animais para obter nutrientes para a reprodução, depositam por meio da saliva substâncias alergênicas como polipeptídeos, aminoácidos, haptenos, enzimas proteolíticas e anticoagulantes que estimulam o sistema imunológico do pet. A resposta se dá através de reações de hipersensibilidade.

Antigamente, a DAPE era conhecida como DAPP, ou seja, dermatite alérgica à picada de pulgas. Porém, como já foi constatado que a reação de hipersensibilidade não se desencadeia somente a partir da picada desse inseto, o termo caiu em desuso.

Ainda assim, a pulga é o principal ectoparasita desencadeador da DAPE, sendo a  Ctenocephalides spp. encontrada na grande maioria dos casos. Já o carrapato de maior importância clínica é o Rhipicephalus sanguineus.

Principais sinais clínicos da DAPE

Os principais sinais clínicos da DAPE incluem:

  • prurido intenso;
  • alteração comportamental – o animal pode se esfregar em superfícies, móveis e até mesmo no chão na tentativa de se coçar;
  • lambedura excessiva em regiões específicas do corpo;
  • alopecia;
  • crostas;
  • eritema;
  • hiperpigmentação;
  • infecções secundárias devido ao comprometimento da barreira cutânea.

Como já mencionamos, o prurido é o sintoma mais visto animais acometidos com DAPE. O prurido lombossacral dorsal com dermatite miliar é o mais comum, porém também pode ser observado o prurido generalizado e a ocorrência de lesões dermatológicas em outras áreas do corpo do animal.

Os pacientes felinos, inclusive, podem apresentar alopecia autoinduzida bilateralmente simétrica, alopecia abdominal ventral e dermatite miliar em decorrência da DAPE. Outro sinal clínico que pode estar relacionado à dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas em gatos é a presença de lesões características do complexo granuloma eosinofílico felino (placa, úlcera ou granuloma eosinofílico), que estão geralmente associadas a quadros de reação alérgica (HOBI et.al., 2011).

Gato com sinais de DAPE. Nesse caso, ele tem manchas avermelhadas no focinho
Figura 1: Presuntiva hipersensibilidade à picada de mosquito em um gato. FONTE: Pali-Schöll et.al., 2019.

 

Cão com DAPE. Nesse caso, o cão apresenta alopecia, eritema e hiperpigmentação multifocal
Figura 2: Alopecia, eritema e hiperpigmentação multifocal em um cão Jack Russell terrier com DAPE. Observe que a cabeça e o pescoço são poupados, pois as lesões são amplamente atribuídas a mordidas/mastigação, além de arranhões, com clássico acometimento da região lombossacra dorsal. FONTE: Bradley et.al., 2023.

A Dermatite alérgica à picada de ectoparasitas acomete os gatos e cães da mesma forma?

A DAPE é uma das principais causas de prurido tanto em gatos quanto em cães, resultando de uma reação de hipersensibilidade mediada por mecanismos do tipo I (imediata, mediada por IgE) e do tipo IV (tardia, mediada por células T), com um forte componente genético e ambiental (BRADLEY et al., 2023). Entretanto, apesar da DAPE desenvolver-se através do mesmo mecanismo em ambas as espécies, podemos notar diferenças nas manifestações clínicas.

Em cães, os sinais clínicos geralmente incluem lesões papulares, eritema, crostas e prurido intenso localizado principalmente na região lombossacral, abdome ventral e regiões interdigitais (CURTIS, 2022). Além disso, pode ser comum a ocorrência de infecção secundária, piorando o quadro clínico (MILLER et al., 2023).

Já em gatos, as apresentações são mais variadas e incluem a dermatite miliária, alopecia simétrica autoinduzida e, inclusive, o desenvolvimento de complexo granuloma eosinofílico, conforme visto anteriormente (DIESEL, 2017).

Diagnóstico da DAPE e diagnóstico diferencial com outras doenças

No diagnóstico da DAPE em cães e gatos, o médico-veterinário deve realizar uma abordagem integrada que inclua histórico do paciente, exame clínico detalhado e testes diagnósticos complementares.

O histórico deve incluir perguntas detalhadas sobre exposição a ectoparasitas, saídas ao ambiente externo e resposta a tratamentos antiparasitários anteriores (ANDERSON, 2018).

No exame clínico, o exame direto do pelo e da pele pode revelar a presença de pulgas, fezes de pulgas, ou carrapatos. Contudo, a ausência de ectoparasitas não exclui o diagnóstico de DAPE, especialmente em casos de exposição esporádica (BRADLEY et al., 2023).

A realização de exames complementares, por exemplo o perfil dermatológico (incluindo a investigação da presença de outros ectoparasitas, como ácaros responsáveis pela sarna sarcóptica e demodécica) e exames para detectar a infecção por Malassezia, bactérias e fungos, é importante para ajudar o médico-veterinário a solucionar o diagnóstico e instituir a melhor abordagem terapêutica.

Além disso, a reação cutânea à saliva de pulgas pode ser avaliada através de um teste intradérmico para a confirmação de hipersensibilidade (CARLOTTI & JACOBS, 2001).

Vale lembrar que o prurido intenso também é a principal manifestação clínica de outras condições dermatológicas. Portanto, em um caso clínico suspeito de DAPE, deve-se fazer o diagnóstico diferencial de:

Como abordar um paciente com DAPE

Tendo o diagnóstico, partimos para o tratamento e o manejo do animal. É essencial cuidar do pet, mas também é necessário fazer um rigoroso controle ambiental

Saiba mais sobre esses pontos abaixo.

Tratamento para DAPE – dermatite alérgica à picada de ectoparasitas em gatos e cães

A infestação de pulgas e carrapatos pode ser controlada no paciente por meio de substâncias químicas presentes em diversos produtos disponíveis atualmente no mercado e que apresentam alta eficácia, sejam eles de uso tópicos (spot-on, coleira) ou orais.

Geralmente, é necessário fazer o tratamento por pelo menos 3 meses consecutivos, com o objetivo de ajudar na interrupção do ciclo dos ectoparasitas. Dessa forma, pode ser necessário a reaplicação mensal ou o uso de produtos que tenham eficácia comprovada por tempo maior, de acordo a indicação do fabricante.

Por sua vez, em ambientes com alta incidência de mosquitos, o médico-veterinário deve considerar o uso de produtos comerciais que também atuam na prevenção de picadas desses insetos.

A terapia farmacológica ainda pode ser adotada para alívio do prurido e controle da reação alérgica. Podem ser indicados produtos à base de corticosteroides, oclacitinib, entre outros, enquanto o protocolo para controle de ectoparasitas está sendo implementado. Caso o paciente apresente infecções bacterianas secundárias, a antibioticoterapia tópica (clorexidina) e/ou sistêmica (cefalexina), também pode ser implementada.

Controle ambiental

O controle ambiental, com intuito de eliminar a presença dos ectoparasitas, é fundamental. Para isso, o médico-veterinário deve conhecer os ciclos de vida de pulgas e carrapatos e atuar, em parceira com o tutor, para preservar o ambiente no qual o animal está inserido.

Controle das pulgas

As pulgas que estão na superfície corpórea do animal representam apenas 1-5% da população, sendo o restante representado por ovos, larvas e pupas que estão no ambiente no qual o animal passa a maior parte do tempo.

O ciclo da pulga geralmente ocorre no solo, entre 3-4 semanas, mas também pode acontecer em tempo menor ou maior, dependendo das condições ambientais. As pupas caracterizam uma fase resistente, que pode sobreviver no ambiente por até 6 meses e não sofrem ação dos produtos utilizados para o controle ambiental desses ectoparasitas.

Essas características influenciam diretamente no manejo a ser implementado para o controle desse ectoparasita.

Veja, a seguir, o ciclo da pulga de forma ilustrativa:

Arte mostra como é o ciclo de vida da pulga

Controle de carrapatos

Os carrapatos são parasitas extremamente resistentes, que podem subir no animal apenas para se alimentar. Seu ciclo ocorre principalmente no ambiente, geralmente em lugares altos, dificultando a ação de controle através do uso de produtos carrapaticidas ambientais.

Nesse caso, deve-se salientar que a dedetização do ambiente deve incluir locais altos, como gessos, frestas, batentes, janelas etc.

Confira, de forma didática, os detalhes do ciclo do carrapato:

ciclo do carrapato

Vale destacar também a relação da sazonalidade em doenças como a DAPE. Isso porque os ectoparasitas possuem ciclos de vida que são diretamente influenciados pela temperatura, umidade e disponibilidade de hospedeiros.

Logo, variações climáticas, particularmente entre períodos de chuva e calor, criam condições ideais para o desenvolvimento e a proliferação de pulgas, carrapatos e outros parasitas que atuam como vetores de patologias.

Nesses períodos, o controle ambiental se faz ainda mais necessário.

Medidas eficazes para o controle ambiental incluem usar produtos pulicidas e carrapaticidas em áreas onde o pet passa a maior parte do tempo, inclusive em sua cama ou casinha, carpetes/tapetes, além de sempre higienizar roupinhas e brinquedos.  Oriente os tutores sobre esses pontos durante as consultas.

O tratamento concomitante nos contactantes também é necessário

Diante de todos os fatores que envolvem os ciclos dos ectoparasitas, o manejo eficaz para o controle da DAPE deve envolver não apenas o tratamento do animal afetado, mas também de seus contactantes.

Mesmo que os contactantes não apresentem sinais clínicos evidentes de DAPE, eles são hospedeiros e fonte de repasto para os ectoparasitas, garantindo sua sobrevivência, o que inviabiliza o controle ambiental.

Portanto, todos os pets que estejam no mesmo ambiente que o animal com DAPE também devem receber a terapia preventiva contra puliciose/ixodidiose.

O papel da alimentação no controle da DAPE

Além do tratamento e manejo citados acima, cuidar da alimentação também é fundamental para ajudar animais com DAPE. Esses pets apresentam comprometimento das funções da barreira cutânea e, com a integridade da pele prejudicada, aumenta a possibilidade do aparecimento de infecções secundárias, piorando o quadro clínico.

Nesse contexto entra a nutrição como coadjuvante no tratamento das afecções cutâneas. Cerca de 30% da demanda proteica diária de gatos e cães é direcionada para suportar a rápida renovação celular da pele. Além disso, é comprovado que nestes quadros há diminuição da produção de ceramidas, um dos principais constituintes da barreira cutânea.

Logo, a nutrição adequada e formulada com aporte extra de nutrientes que agem na pele pode auxiliar na recuperação e bem-estar dos pacientes com desordens alérgicas que resultam no acometimento da saúde cutânea.

A Royal Canin® oferece alimentos completos e balanceados, com nutrientes de alta qualidade, especialmente formulados para cada especificidade dos pets.

Skin Care Adult Small Dog da Royal Canin® é uma fórmula exclusivamente desenvolvida para ajudar no suporte da função da pele no caso de dermatoses e queda excessiva de pelo de cães de pequeno porte (até 10kg), auxiliando na manutenção da barreira cutânea e no manejo nutricional de cães com pele sensível.

A Hypoallergenic Canine pode ser indicada para cães adultos, pois contém proteína hidrolisada com baixo peso molecular, assegurando que o alimento seja hipoalergênico. Ainda conta com ácidos graxos, para ajudar a manter um sistema digestivo e uma pele saudáveis, e é formulada para apoiar a barreira protetora natural da pele. Há uma versão especialmente desenvolvida para cães de pequeno porte, de até 10 kg, a Hypoallergenic Small Dog.

Para completar as opções para cães, temos a Hypoallergenic Canine Patê. A versão úmida também pode ser indicada para cães em casos de reações adversas ao alimento, pois, assim como o alimento seco, é formulado para reduzir sensibilidades alimentares através de uma seleção de proteínas hidrolisadas.

Pensando nos gatos, uma opção é o alimento Royal Canin® Hypoallergenic Feline S/O, que também contém fontes de proteínas hidrolisadas, além de fontes de carboidratos selecionadas e EPA/DHA. É uma solução nutricional desenvolvida para auxiliar na redução de intolerâncias a ingredientes e nutrientes, em casos de alergia alimentar, apoiando a barreira protetora natural da pele e a saúde digestiva.

Alimentos secos e úmidos que podem ser indicados em casos que envolvem alergias e questões de pele em cães e gatos

 

A importância da prevenção de ectoparasitas

Como já ressaltamos, é de suma importância cuidar do animal acometido, mas também pensar em todo o manejo ambiental e contar com a colaboração do tutor para que o controle e a prevenção de ectoparasitas sejam bem-sucedidos.

É importante orientar que nem sempre será possível notar ectoparasitas pelo corpo do pet.

Os carrapatos podem entrar em contato com o corpo do animal apenas para se alimentar. No caso de pulgas, o tutor pode simplesmente não conseguir visualizar a presença delas no meio dos pelos do animal, por não ficarem fixadas em um determinado lugar.

Além disso, é importante ressaltar que é preciso uma única picada para desencadear a reação de hipersensibilidade. Portanto, a DAPE pode, sim, estar presente, mesmo que o tutor não tenha notado pulgas e carrapatos em seu animal.

Para completar, é importante lembrar que pulgas, carrapatos e mosquitos não apenas causam desconforto físico aos animais e afecções dermatológicas como a DAPE, mas também podem transmitir uma série de doenças graves que afetam essas espécies.

Dentre as enfermidades preocupantes, destacam-se:

Diante disso, a manutenção contínua da prevenção de ectoparasitas através de um plano personalizado, prescrito por um médico-veterinário, levando em consideração as características individuais de cada pet, é considerada um importante item do manejo de cães e gatos.  Esse cuidado objetiva assegurar a qualidade de vida e longevidade de nossos pacientes.

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* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade. 

Referências:

ANDERSON, S. Flea Allergy Dermatitis: What Your Clients Need to Know. Today´s Veterinary Nurse, 2018. Acesso em: 20 jan. 2025.

BRADLEY, C.W.; MAULDIN, E.A.; MORRIS, D.O. A review of cutaneous hypersensitivity reactions in dogs: A diagnostician’s guide to allergy. Veterinary Pathology, v.60, n.6, 2023. Acesso em: 20 jan. 2025.

CARLOTTI, D.N.; JACOBS, D.E. Therapy, control and prevention of flea allergy dermatites in dogs and cats. Veterinary Dermatology, v.11, i.2, 2001. Acesso em: 20 jan. 2025.

CURTIS, C.F. Pruritus in dogs and cats part 2: allergic causes of pruritus and the allergic patient. The Veterinary Nurse, v.13, n.10, 2022. Acesso em: 20 jan. 2025.

DIESEL, A. Cutaneous hypersensitivity dermatoses in the feline patient: A review of allergic skin disease in cats. Vet. Sci., v.4, i.2, 2017. Acesso em: 20 jan. 2025.

HOBI, S. et.al. Clinical characteristics and causes of pruritus in cats: A multicentre study on feline hypersensitivity-associated dermatoses. Vet. Dermatol., v.22, 2011.

MILLER, J. et al. 2023 AAHA Management of Allergic Skin Diseases in Dogs and Cats Guidelines. AAHA, 2023. Acesso em: 20 jan. 2025.

PALI-SCHÖLL, I. et.al. EAACI position paper: Comparing insect hypersensibility induced by bite, sting, inhalation or ingestion in human and animals. Allergy, v.74, i.5, 2019.

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