DAPE: como manejar o paciente com dermatite alérgica a picada de ectoparasitas
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A dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas (DAPE) é uma das desordens cutâneas mais comuns na clínica de pequenos animais. Confira todos os detalhes sobre o assunto.
A DAPE, dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas, acomete uma parcela considerável de gatos e cães. Um dos principais sinais clínicos apresentado pelo paciente é o prurido intenso, causando grande desconforto, que é resultado de uma reação de hipersensibilidade individual.
O controle efetivo contra a infestação de ectoparasitas é de grande importância para a prevenção da DAPE, incluindo o controle ambiental e o tratamento de contactantes, que pode ser consideravelmente desafiador, uma vez que está diretamente relacionado à conscientização dos tutores. Entenda melhor!
O que é DAPE ou DAPP?
A dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas, DAPE, é caracterizada por uma reação de hipersensibilidade a proteínas presentes na saliva de ectoparasitas, principalmente pulgas e carrapatos.
Quando esses ectoparasitas picam os animais para obter nutrientes para a reprodução, depositam por meio da saliva substâncias alergênicas como polipeptídeos, aminoácidos, haptenos, enzimas proteolíticas e anticoagulantes que estimulam o sistema imunológico do pet. A resposta se dá através de reações de hipersensibilidade.
Antigamente, a DAPE era conhecida como DAPP, ou seja, dermatite alérgica à picada de pulgas. Porém, como já foi constatado que a reação de hipersensibilidade não se desencadeia somente a partir da picada desse inseto, o termo caiu em desuso.
Ainda assim, a pulga é o principal ectoparasita desencadeador da DAPE, sendo a Ctenocephalides spp. encontrada na grande maioria dos casos. Já o carrapato de maior importância clínica é o Rhipicephalus sanguineus.
Principais sinais clínicos da DAPE
Os principais sinais clínicos da DAPE incluem:
- prurido intenso;
- alteração comportamental – o animal pode se esfregar em superfícies, móveis e até mesmo no chão na tentativa de se coçar;
- lambedura excessiva em regiões específicas do corpo;
- alopecia;
- crostas;
- eritema;
- hiperpigmentação;
- infecções secundárias devido ao comprometimento da barreira cutânea.
Como já mencionamos, o prurido é o sintoma mais visto animais acometidos com DAPE. O prurido lombossacral dorsal com dermatite miliar é o mais comum, porém também pode ser observado o prurido generalizado e a ocorrência de lesões dermatológicas em outras áreas do corpo do animal.
Os pacientes felinos, inclusive, podem apresentar alopecia autoinduzida bilateralmente simétrica, alopecia abdominal ventral e dermatite miliar em decorrência da DAPE. Outro sinal clínico que pode estar relacionado à dermatite alérgica a picadas de ectoparasitas em gatos é a presença de lesões características do complexo granuloma eosinofílico felino (placa, úlcera ou granuloma eosinofílico), que estão geralmente associadas a quadros de reação alérgica (HOBI et.al., 2011).


A Dermatite alérgica à picada de ectoparasitas acomete os gatos e cães da mesma forma?
A DAPE é uma das principais causas de prurido tanto em gatos quanto em cães, resultando de uma reação de hipersensibilidade mediada por mecanismos do tipo I (imediata, mediada por IgE) e do tipo IV (tardia, mediada por células T), com um forte componente genético e ambiental (BRADLEY et al., 2023). Entretanto, apesar da DAPE desenvolver-se através do mesmo mecanismo em ambas as espécies, podemos notar diferenças nas manifestações clínicas.
Em cães, os sinais clínicos geralmente incluem lesões papulares, eritema, crostas e prurido intenso localizado principalmente na região lombossacral, abdome ventral e regiões interdigitais (CURTIS, 2022). Além disso, pode ser comum a ocorrência de infecção secundária, piorando o quadro clínico (MILLER et al., 2023).
Já em gatos, as apresentações são mais variadas e incluem a dermatite miliária, alopecia simétrica autoinduzida e, inclusive, o desenvolvimento de complexo granuloma eosinofílico, conforme visto anteriormente (DIESEL, 2017).
Diagnóstico da DAPE e diagnóstico diferencial com outras doenças
No diagnóstico da DAPE em cães e gatos, o médico-veterinário deve realizar uma abordagem integrada que inclua histórico do paciente, exame clínico detalhado e testes diagnósticos complementares.
O histórico deve incluir perguntas detalhadas sobre exposição a ectoparasitas, saídas ao ambiente externo e resposta a tratamentos antiparasitários anteriores (ANDERSON, 2018).
No exame clínico, o exame direto do pelo e da pele pode revelar a presença de pulgas, fezes de pulgas, ou carrapatos. Contudo, a ausência de ectoparasitas não exclui o diagnóstico de DAPE, especialmente em casos de exposição esporádica (BRADLEY et al., 2023).
A realização de exames complementares, por exemplo o perfil dermatológico (incluindo a investigação da presença de outros ectoparasitas, como ácaros responsáveis pela sarna sarcóptica e demodécica) e exames para detectar a infecção por Malassezia, bactérias e fungos, é importante para ajudar o médico-veterinário a solucionar o diagnóstico e instituir a melhor abordagem terapêutica.
Além disso, a reação cutânea à saliva de pulgas pode ser avaliada através de um teste intradérmico para a confirmação de hipersensibilidade (CARLOTTI & JACOBS, 2001).
Vale lembrar que o prurido intenso também é a principal manifestação clínica de outras condições dermatológicas. Portanto, em um caso clínico suspeito de DAPE, deve-se fazer o diagnóstico diferencial de:
- dermatite atópica;
- hipersensibilidade alimentar;
- sarna sarcóptica;
- demodicose;
- piodermite superficial;
- granuloma eosinofílico;
- entre outros.
Como abordar um paciente com DAPE
Tendo o diagnóstico, partimos para o tratamento e o manejo do animal. É essencial cuidar do pet, mas também é necessário fazer um rigoroso controle ambiental
Saiba mais sobre esses pontos abaixo.
Tratamento para DAPE – dermatite alérgica à picada de ectoparasitas em gatos e cães
A infestação de pulgas e carrapatos pode ser controlada no paciente por meio de substâncias químicas presentes em diversos produtos disponíveis atualmente no mercado e que apresentam alta eficácia, sejam eles de uso tópicos (spot-on, coleira) ou orais.
Geralmente, é necessário fazer o tratamento por pelo menos 3 meses consecutivos, com o objetivo de ajudar na interrupção do ciclo dos ectoparasitas. Dessa forma, pode ser necessário a reaplicação mensal ou o uso de produtos que tenham eficácia comprovada por tempo maior, de acordo a indicação do fabricante.
Por sua vez, em ambientes com alta incidência de mosquitos, o médico-veterinário deve considerar o uso de produtos comerciais que também atuam na prevenção de picadas desses insetos.
A terapia farmacológica ainda pode ser adotada para alívio do prurido e controle da reação alérgica. Podem ser indicados produtos à base de corticosteroides, oclacitinib, entre outros, enquanto o protocolo para controle de ectoparasitas está sendo implementado. Caso o paciente apresente infecções bacterianas secundárias, a antibioticoterapia tópica (clorexidina) e/ou sistêmica (cefalexina), também pode ser implementada.
Controle ambiental
O controle ambiental, com intuito de eliminar a presença dos ectoparasitas, é fundamental. Para isso, o médico-veterinário deve conhecer os ciclos de vida de pulgas e carrapatos e atuar, em parceira com o tutor, para preservar o ambiente no qual o animal está inserido.
Controle das pulgas
As pulgas que estão na superfície corpórea do animal representam apenas 1-5% da população, sendo o restante representado por ovos, larvas e pupas que estão no ambiente no qual o animal passa a maior parte do tempo.
O ciclo da pulga geralmente ocorre no solo, entre 3-4 semanas, mas também pode acontecer em tempo menor ou maior, dependendo das condições ambientais. As pupas caracterizam uma fase resistente, que pode sobreviver no ambiente por até 6 meses e não sofrem ação dos produtos utilizados para o controle ambiental desses ectoparasitas.
Essas características influenciam diretamente no manejo a ser implementado para o controle desse ectoparasita.
Veja, a seguir, o ciclo da pulga de forma ilustrativa:

Controle de carrapatos
Os carrapatos são parasitas extremamente resistentes, que podem subir no animal apenas para se alimentar. Seu ciclo ocorre principalmente no ambiente, geralmente em lugares altos, dificultando a ação de controle através do uso de produtos carrapaticidas ambientais.
Nesse caso, deve-se salientar que a dedetização do ambiente deve incluir locais altos, como gessos, frestas, batentes, janelas etc.
Confira, de forma didática, os detalhes do ciclo do carrapato:

Vale destacar também a relação da sazonalidade em doenças como a DAPE. Isso porque os ectoparasitas possuem ciclos de vida que são diretamente influenciados pela temperatura, umidade e disponibilidade de hospedeiros.
Logo, variações climáticas, particularmente entre períodos de chuva e calor, criam condições ideais para o desenvolvimento e a proliferação de pulgas, carrapatos e outros parasitas que atuam como vetores de patologias.
Nesses períodos, o controle ambiental se faz ainda mais necessário.
Medidas eficazes para o controle ambiental incluem usar produtos pulicidas e carrapaticidas em áreas onde o pet passa a maior parte do tempo, inclusive em sua cama ou casinha, carpetes/tapetes, além de sempre higienizar roupinhas e brinquedos. Oriente os tutores sobre esses pontos durante as consultas.
O tratamento concomitante nos contactantes também é necessário
Diante de todos os fatores que envolvem os ciclos dos ectoparasitas, o manejo eficaz para o controle da DAPE deve envolver não apenas o tratamento do animal afetado, mas também de seus contactantes.
Mesmo que os contactantes não apresentem sinais clínicos evidentes de DAPE, eles são hospedeiros e fonte de repasto para os ectoparasitas, garantindo sua sobrevivência, o que inviabiliza o controle ambiental.
Portanto, todos os pets que estejam no mesmo ambiente que o animal com DAPE também devem receber a terapia preventiva contra puliciose/ixodidiose.
O papel da alimentação no controle da DAPE
Além do tratamento e manejo citados acima, cuidar da alimentação também é fundamental para ajudar animais com DAPE. Esses pets apresentam comprometimento das funções da barreira cutânea e, com a integridade da pele prejudicada, aumenta a possibilidade do aparecimento de infecções secundárias, piorando o quadro clínico.
Nesse contexto entra a nutrição como coadjuvante no tratamento das afecções cutâneas. Cerca de 30% da demanda proteica diária de gatos e cães é direcionada para suportar a rápida renovação celular da pele. Além disso, é comprovado que nestes quadros há diminuição da produção de ceramidas, um dos principais constituintes da barreira cutânea.
Logo, a nutrição adequada e formulada com aporte extra de nutrientes que agem na pele pode auxiliar na recuperação e bem-estar dos pacientes com desordens alérgicas que resultam no acometimento da saúde cutânea.
A Royal Canin® oferece alimentos completos e balanceados, com nutrientes de alta qualidade, especialmente formulados para cada especificidade dos pets.
Skin Care Adult Small Dog da Royal Canin® é uma fórmula exclusivamente desenvolvida para ajudar no suporte da função da pele no caso de dermatoses e queda excessiva de pelo de cães de pequeno porte (até 10kg), auxiliando na manutenção da barreira cutânea e no manejo nutricional de cães com pele sensível.
A Hypoallergenic Canine pode ser indicada para cães adultos, pois contém proteína hidrolisada com baixo peso molecular, assegurando que o alimento seja hipoalergênico. Ainda conta com ácidos graxos, para ajudar a manter um sistema digestivo e uma pele saudáveis, e é formulada para apoiar a barreira protetora natural da pele. Há uma versão especialmente desenvolvida para cães de pequeno porte, de até 10 kg, a Hypoallergenic Small Dog.
Para completar as opções para cães, temos a Hypoallergenic Canine Patê. A versão úmida também pode ser indicada para cães em casos de reações adversas ao alimento, pois, assim como o alimento seco, é formulado para reduzir sensibilidades alimentares através de uma seleção de proteínas hidrolisadas.
Pensando nos gatos, uma opção é o alimento Royal Canin® Hypoallergenic Feline S/O, que também contém fontes de proteínas hidrolisadas, além de fontes de carboidratos selecionadas e EPA/DHA. É uma solução nutricional desenvolvida para auxiliar na redução de intolerâncias a ingredientes e nutrientes, em casos de alergia alimentar, apoiando a barreira protetora natural da pele e a saúde digestiva.

A importância da prevenção de ectoparasitas
Como já ressaltamos, é de suma importância cuidar do animal acometido, mas também pensar em todo o manejo ambiental e contar com a colaboração do tutor para que o controle e a prevenção de ectoparasitas sejam bem-sucedidos.
É importante orientar que nem sempre será possível notar ectoparasitas pelo corpo do pet.
Os carrapatos podem entrar em contato com o corpo do animal apenas para se alimentar. No caso de pulgas, o tutor pode simplesmente não conseguir visualizar a presença delas no meio dos pelos do animal, por não ficarem fixadas em um determinado lugar.
Além disso, é importante ressaltar que é preciso uma única picada para desencadear a reação de hipersensibilidade. Portanto, a DAPE pode, sim, estar presente, mesmo que o tutor não tenha notado pulgas e carrapatos em seu animal.
Para completar, é importante lembrar que pulgas, carrapatos e mosquitos não apenas causam desconforto físico aos animais e afecções dermatológicas como a DAPE, mas também podem transmitir uma série de doenças graves que afetam essas espécies.
Dentre as enfermidades preocupantes, destacam-se:
Diante disso, a manutenção contínua da prevenção de ectoparasitas através de um plano personalizado, prescrito por um médico-veterinário, levando em consideração as características individuais de cada pet, é considerada um importante item do manejo de cães e gatos. Esse cuidado objetiva assegurar a qualidade de vida e longevidade de nossos pacientes.
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* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade.
Referências:
ANDERSON, S. Flea Allergy Dermatitis: What Your Clients Need to Know. Today´s Veterinary Nurse, 2018. Acesso em: 20 jan. 2025.
BRADLEY, C.W.; MAULDIN, E.A.; MORRIS, D.O. A review of cutaneous hypersensitivity reactions in dogs: A diagnostician’s guide to allergy. Veterinary Pathology, v.60, n.6, 2023. Acesso em: 20 jan. 2025.
CARLOTTI, D.N.; JACOBS, D.E. Therapy, control and prevention of flea allergy dermatites in dogs and cats. Veterinary Dermatology, v.11, i.2, 2001. Acesso em: 20 jan. 2025.
CURTIS, C.F. Pruritus in dogs and cats part 2: allergic causes of pruritus and the allergic patient. The Veterinary Nurse, v.13, n.10, 2022. Acesso em: 20 jan. 2025.
DIESEL, A. Cutaneous hypersensitivity dermatoses in the feline patient: A review of allergic skin disease in cats. Vet. Sci., v.4, i.2, 2017. Acesso em: 20 jan. 2025.
HOBI, S. et.al. Clinical characteristics and causes of pruritus in cats: A multicentre study on feline hypersensitivity-associated dermatoses. Vet. Dermatol., v.22, 2011.
MILLER, J. et al. 2023 AAHA Management of Allergic Skin Diseases in Dogs and Cats Guidelines. AAHA, 2023. Acesso em: 20 jan. 2025.
PALI-SCHÖLL, I. et.al. EAACI position paper: Comparing insect hypersensibility induced by bite, sting, inhalation or ingestion in human and animals. Allergy, v.74, i.5, 2019.
