Como prevenir a Dirofilariose em gatos e cães

Como prevenir a Dirofilariose em gatos e cães

Doença parasitária apresenta prevalência significativa em cães e pode ser facilmente evitada por meio de profilaxia periódica. Saiba mais!

A dirofilariose, ou doença do verme do coração, é uma zoonose causada pelo nematódeo Dirofilaria immitis, parasita do sistema circulatório de canídeos domésticos e selvagens. Embora a doença seja bem conhecida na literatura científica, muitas vezes é difícil de ser identificada na prática por tutores e Médicos-Veterinários, o que faz com que animais infectados possam desenvolver a doença de forma lenta e silenciosa.

O ciclo do parasita é longo se comparado com a maioria dos demais vermes nematódeos, e o tratamento é complexo e muitas vezes inviável, como veremos no decorrer deste artigo. A melhor forma de conter a disseminação da doença e de evitar problemas para o animal é por meio da profilaxia adequada.

Como ocorre a infecção por Dirofilaria immitis

A D. immitis é transmitida por hospedeiros intermediários em sua forma larval (microfilária) pela picada de mosquitos tropicais que atuam como vetores, geralmente culicídeos dos gêneros Ochlerotatus, Aedes e Culex. Após o repasto sanguíneo em um hospedeiro microfilarêmico, os mosquitos vetores suscetíveis tornam-se infectados.

No inseto vetor, o estágio larval (L1) invade os túbulos de Malpighi, em seguida se desenvolve para L2 e, finalmente, sofre uma nova metamorfose para L3, que é o estágio larval infectante. Em seguida, a L3 migra para o aparelho bucal do mosquito, onde se torna apta a ser transmitida para um novo hospedeiro.

Após a picada, as microfilárias seguem para a corrente sanguínea do animal, onde permanecem por algum tempo antes de seguir para o coração e o pulmão. Uma vez no coração, os vermes jovens se desenvolvem, crescem e liberam microfilárias L1 no sangue. As microfilárias podem permanecer no sangue durante períodos longos de até 2 anos, enquanto os vermes adultos podem viver no animal por períodos maiores ainda, de até 7 anos.

O dano promovido ao longo do tempo para as artérias pulmonares, ventrículo direito e todas as estruturas vasculares adjacentes aos pulmões muitas vezes levam ao desenvolvimento da doença em sua forma grave, geralmente identificada pelos sinais clínicos, que incluem tosse, dispneia e intolerância ao exercício. A dirofilariose pode evoluir e ser fatal em estágios mais avançados.

Principais regiões endêmicas

Na década de 80, a frequência relatada do parasita em estudos conduzidos no Brasil foi de 8% nos animais pesquisados (Guerrero et al., 1989), chegando a porcentagens maiores em regiões litorâneas dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro.

Uma pesquisa conduzida por Labarthe el at. (2014) teve como objetivo reavaliar as taxas de infecção nessas regiões do Brasil e também em localidades previamente consideradas endêmicas. A conclusão do estudo foi uma prevalência geral de 23% dos cães testando positivo para D. immitis, com cidades costeiras de São Paulo e Rio de Janeiro se destacando novamente como as maiores taxas de infecção do país (Figura 1).

Embora presente em todas as regiões pesquisadas, observa-se maior prevalência do parasita em regiões mais quentes e úmidas e com natureza mais bem preservada.

mapa mostra frequência da infecção por Dirofilariose em São Paulo e Rio de Janeiro
Figura 1: Frequência de infecção por D. immitis pesquisada em cidades costeiras dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. Fonte: Labarthe et al., 2014.

De acordo com o levantamento, as maiores taxas encontradas nesses estados foram nas seguintes cidades:

  • Armação de Búzios
  • Niterói
  • Cabo Frio
  • Mangaratiba
  • Bertioga
  • Guarujá

Um levantamento realizado em 2019 e publicado em 2020 pela Sociedade Americana de Dirofilariose revelou que nenhum dos 50 estados americanos encontrava-se livre deste parasita no ano de condução do estudo. Atualmente, estima-se que haja 1 milhão de cães infectados por D. immitis no país.

Ainda de acordo com Labarthe (2014), a expansão da área na qual se detecta a presença do verme do coração em cães pode estar relacionada à mobilidade dos animais, que cada vez mais acompanham seus tutores em viagens, e também a mudanças climáticas globais que tendem a aquecer e favorecer o estabelecimento dos vetores em novas regiões. Outra hipótese é a relação com um possível rearranjo de espécies silvestres em resposta à redução de habitat ou aquecimento global.

Isso abre um alerta para o Brasil. As áreas tropicais do país nas quais haja presença de água em grandes quantidades, mesmo distantes da costa oceânica, devem considerar a possibilidade da invasão de suas fronteiras por essa espécie parasita, que além de infectar animais domésticos ou silvestres, também pode infectar os humanos.

Vale ainda ressaltar que as infecções humanas são raras e de difícil diagnóstico, uma vez que os parasitas não permanecem viáveis por longos períodos. Assim, o sinal mais frequente é uma lesão única pulmonar que raramente causa sintomas, o que faz com que seu achado se deva a exames rotineiros para acompanhamento de outras patologias ou apenas check-ups de saúde.

O verme do coração também ocorre nos felinos?

Embora a D. immitis infecte principalmente canídeos, é possível que felinos também sejam contaminados após picada de mosquito infectado.

De acordo com a Sociedade Americana de Dirofilariose, tanto cães domésticos quanto canídeos silvestres são hospedeiros definitivos para a dirofilariose, sendo considerado como principal reservatório da infecção. Felinos e furões, mesmo que apresentem microfilaremia baixa ou transitória, podem servir como fonte de infecção para os mosquitos vetores durante esses curtos períodos de microfilaremia.

Em gatos, a dirofilariose pode causar a doença respiratória associada à dirofilariose. Segundo o Guidelines Life Stage da AAFP de 2020, nos Estados Unidos houve uma tendência de aumento na incidência de dirofilariose relatada por Médicos-Veterinários nos últimos 3 anos.

A infecção por dirofilariose é mais difícil de diagnosticar em gatos do que em cães devido a menor carga de vermes, infecções por um único sexo e infrequência de microfilaremia. A Doença Respiratória Associada à Dirofilariose (HARD), que é uma reação inflamatória do tecido pulmonar aos estágios larvais imaturos semelhante à asma, é uma complexidade adicional relacionada à exposição dos gatos à dirofilariose. A interpretação dos resultados dos testes de anticorpos e antígenos é desafiadora, e é necessário um entendimento completo das limitações de ambos os testes. Informações mais detalhadas estão disponíveis nas diretrizes da American Heartworm Society. O teste não precisa ser realizado antes de iniciar o tratamento preventivo.

Como é feito o diagnóstico de Dirofilariose em cães e gatos?

Quando a infecção é recente, o verme pode ser identificado no exame de sangue, embora essa forma de diagnóstico seja mais difícil. Quando os vermes estão adultos, um teste rápido de sangue pode identificar se o animal é positivo para a doença. Em estágios mais avançados, é possível diagnosticar a doença por meio do ecocardiograma. A parede do corpo de nematóides adultos é altamente ecogênica e produz imagens com traços paralelos assemelhando-se a “sinais de igual” que podem ser observados no exame de imagem.

O ecocardiograma pode fornecer evidência definitiva de dirofilariose, bem como permitir a avaliação das consequências patológicas cardíacas da doença (Figura 2). No entanto, não é um método eficiente de fazer o diagnóstico em cães infectados com baixa carga parasitária, nos quais os nematóides podem estar localizados nos ramos periféricos das artérias pulmonares.

Ecocardiograma evidenciando a presença da D. immitis em seu estágio adulto
Figura 2: Ecocardiograma evidenciando a presença da D. immitis em seu estágio adulto (traços ecogênicos que se assemelham ao “sinal de igual”).
Fonte: Sociedade Americana de Dirofilariose, 2014.

Dirofilariose tem tratamento?

Se identificada precocemente, é possível tratar a doença, porém a medicação eficaz contra o parasita (melarsomina) atualmente não é comercializada no Brasil. Ainda que fosse, provavelmente o alto custo seria fator limitante para parte significativa dos tutores, além de envolver riscos à saúde do animal.

O procedimento de intervenção cirúrgica para retirada dos vermes adultos (Figura 3) pode ser realizado por profissional capacitado, porém a eliminação dos parasitas nesse estágio se torna um complexo desafio cujo prognóstico muitas vezes é desfavorável.

Procedimento de retirada cirúrgica da D. immitis em estágio adult
Figura 3: Procedimento de retirada cirúrgica da D. immitis em estágio adulto.
Fonte: Sociedade Americana de Dirofilariose, 2014.

Levando tais fatores em conta, a prevenção ainda é a melhor forma de combater a doença.

Formas de prevenção da dirofilariose

A pesquisa conduzida por Labarthe e colaboradores (2014) revelou que a prevalência de D. immitis no Brasil aumentou ao longo dos últimos anos. A autora alerta para a importância de se incluir testes de triagem na rotina clínica de atendimento para detecção precoce de infecções por este parasita. A Sociedade Americana de Dirofilariose, em suas diretrizes publicadas em 2014, recomenda que pesquisas de antígenos circulantes e de microfilárias sejam realizadas anualmente.

Embora também presente em diversas regiões não-litorâneas, finais de semana no litoral ou visitas a cidades endêmicas ainda representam maior risco de infecção para os animais. A prevenção é segura, fácil e econômica, e consiste em administrações periódicas de fármacos antiparasitários (lactonas macrocíclicas) como forma de quimioprofilaxia contra as microfilárias. As opções disponíveis atualmente no Brasil incluem milbemicina oxima, ivermectina, selamectina e moxidectina. O protocolo preventivo deve ser instituído pelo médico-veterinário de acordo com o risco de exposição de cada paciente.

A nutrição adequada associada à medicina preventiva é essencial para a boa condição de saúde dos animais. Além de prover quantidade adequada de energia, possibilitando que o animal esteja no peso corporal ideal, um plano alimentar balanceado fornece nutrientes que atuam diretamente na recuperação tecidual e no fortalecimento da imunidade. Animais bem nutridos possuem melhores condições de combater as mais diversas enfermidades, incluindo afecções causadas por agentes parasitários.

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Referências bibligráficas

2019 Heartworm Incidence Survey. American Heartworm Society, 2020. Disponível em: <https://www.heartwormsociety.org/in-the-news/558-ahs-announces-findings-of-2019-heartworm-incidence-survey>. Acesso em 11 Out 2021.

GUERRERO, J; GENCHI, C; VEZZONI, A; et al. Distribution of dirofilaria immitis in selected areas of Europe and South America. Washington: American Heartworm Society, 1989.

LABARTHE, N.V.; PAIVA, J.P.; REIFUR, L. et al. Updated canine infection rates of Dirofilaria immitis in areas of Brazil previously identified as having a high incidence of heartworm-infected dogs. Parasites & Vectors, 2014. Disponível em: <https://parasitesandvectors.biomedcentral.com/track/pdf/10.1186/s13071-014-0493-7.pdf>. Acesso em: 11 Out 2021.

LABARTHE, N.V. Dirofilaria immitis: um desafio permanente. Anais da 66ª Reunião anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Rio Branco, 2014.

Prevenção, Diagnóstico e Controle da Dirofilariose em Cães. American Heartworm Society, 2014. Disponível em: <https://d3ft8sckhnqim2.cloudfront.net/images/documents/2014_AHS_Canine_Guidelines.Portuguese.Pesquis%C3%A1vel.pdf?1457714957>. Acesso em 11 Out 2021.

2020 AAHA/AAFP Feline Life stages guidelines