Demodicose: como abordar a sarna demodécica em cães e gatos
Links rápidos:
Saiba como diagnosticar e tratar a sarna demodécica em cães e gatos e veja a importância do manejo nutricional para controle da doença!
A demodicose é uma doença parasitária de pele que acomete gatos e cães, causada por ácaros da família Demodicidae. É uma doença cutânea relativamente comum em cães e de ocorrência menos frequente em felinos.
O que é a sarna demodécica?
A sarna demodécica é causada pela multiplicação excessiva desses ácaros comensais específicos do hospedeiro nos folículos capilares e nas glândulas sebáceas. Os ácaros da família Demodicidae completam todo o seu ciclo de vida em um único hospedeiro e acredita-se serem transmitidos pela mãe aos seus filhotes por meio da amamentação.
Conhecendo mais sobre o agente causador da doença
Em cães, a sarna demodécica é mais comumente causada por Demodex canis, ácaros que normalmente vivem nos folículos capilares e glândulas sebáceas e apresentam formato característico de charuto (Fig. 1).
Outras espécies, como o Demodex injai (ácaro de corpo grande) e o Demodex cornei (um ácaro de corpo curto), também podem estar envolvidas, mas alguns autores os consideram apenas variantes morfológicos de D. canis. Os ácaros D. canis normalmente vivem nos folículos capilares e glândulas sebáceas.

Nos felinos, a sarna demodécica é causada por três espécies de ácaros, mas principalmente pelo D. cati (demodicose folicular). Além do citado, o D. gatoi (demodicose superficial ou superficial) também pode ser tido como causador da doença, além de uma terceira espécie ainda não nomeada e cujo potencial patogênico não é conhecido.
O D. cati é comensal da pele felina e habita o folículo piloso, tendo aparência de cauda longa e delgada com patas muito curtas (Fig. 2), semelhante ao D. canis. Os ácaros D. cati vivem nos folículos capilares, especialmente nas pálpebras, rosto, queixo e pescoço, e pode ser encontrado em baixo número em gatos saudáveis.

O acaro D. gatoi (Fig. 3) não é comensal da pele e permanece em sua camada superficial (estrato córneo), sendo relacionado ao desenvolvimento de uma dermatopatia pruriginosa. Este ácaro possui morfologia biológica, epidemiológica e molecularmente diferentes de D. cati.

Os ácaros Demodex sp. alimentam-se, principalmente, de escamas e sebo, não se alimentando de sangue e sendo incapazes de viver de seus hospedeiros. Presume-se que o ciclo de vida do D. cati seja semelhante ao D. canis.
O ciclo da sarna demodécica dura cerca de dez a 12 dias e ocorre inteiramente nos folículos capilares e nas glândulas sebáceas. Após o acasalamento dos ácaros, os machos morrem e as fêmeas fertilizadas se enterram nos folículos capilares, depositando os seus ovos e morrendo em seguida.
Cerca de dois ou três dias depois, os ovos eclodem em larvas livres de seis patas, evoluindo para protoninfas e, posteriormente, para deutoninfas de oito patas. Estas, então, sobem à superfície da pele e infestam novos folículos capilares. São as deutoninfas as responsáveis pelo estágio de infestação livre, tornando-se adultas num período de um a dois dias.

Principais sinais clínicos apresentados por cães
Os sinais clínicos apresentados por cães com sarna demodécica estão associados ao grau de infestação, sendo visíveis quando ocorre um aumento significativo do número de ácaros.
Os cães com demodicose apresentam lesões cutâneas pleomórficas e, de acordo com o padrão, a doença é classificada como localizada ou generalizada. A ocorrência de prurido geralmente é ausente, a não ser que haja quadro de alergia concomitante ou infecção bacteriana secundária.
A demodicose localizada é normalmente benigna e frequentemente autolimitante. Geralmente, são pequenas áreas de eritema (cinco ou mais áreas afetadas) com descamação e queda do pelo, sendo o prurido geralmente ausente.
Na maior parte dos casos, as lesões regridem espontaneamente em um período de seis a oito semanas, especialmente em animais jovens. As áreas mais afetadas são a face (pálpebras e lábios), os membros e ocasionalmente o tronco. (Horne, 2010; Beugnet, et.al., 2018)
A demodicose generalizada é uma doença mais grave e, entre os principais sinais apresentados pelos cães, temos:
- alopecia multifocal: são observadas inúmeras lesões alopecicas (mais de cinco áreas afetadas) e variavelmente circunscritas, associadas a prurido leve, eritema extenso e descamação ao redor da linha média do dorso lombar. As regiões mais afetadas são pescoço, tronco e membros;
- descamação: lesões descamativas bem circunscritas, podendo ocorrer infecções secundárias como foliculite bacteriana e prurido intenso;
- ulceração e formação de crostas espessas: estes sinais estão diretamente associados à furunculose e/ou celulite subjacente, sendo visíveis após a tosa e limpeza da região afetada. São lesões pruriginosas e dolorosas que podem ser observadas no pescoço, tronco e membros;
- comedões com alopecia variável: centenas de comedões podem estar presentes, principalmente em regiões de poucos pelos como axilas, tórax e abdômen.
E nos gatos, a doença se manifesta da mesma forma?
Assim como em cães, gatos podem apresentar sarna demodécica localizada e generalizada.
Felinos com demodicose localizada apresentam áreas de alopecia e descamação ao redor da cabeça e pescoço com frequência – especificamente no pavilhão auricular, queixo e perioculares. Embora a forma localizada pareça ser rara, esta doença apresenta um melhor prognóstico e pode resolver-se espontaneamente e sem a necessidade de tratamento específico.
Gatos com demodicose generalizada frequentemente apresentam alterações em locais que incluem cabeça, pescoço, pernas e tronco, apresentando sinais clínicos que incluem:
- alopecia;
- descamação;
- eritema irregular;
- hiperpigmentação;
- crostas e secreção ótica ceruminosa (especialmente em gatos positivos para o vírus da imunodeficiência felina (FIV));
- pelagem deficiente e pele oleosa (em alguns casos).
Gatos com sarna demodécica causada por D. cati podem apresentar sinais clínicos bastante variáveis, incluindo alopecia, crostas, seborreia, descamação, pápulas e dermatite miliar. O prurido pode estar ausente, e as áreas mais comumente afetadas são face, queixo, pescoço e pálpebras.
Já os sinais clínicos apresentados por felinos com sarna demodécica infestados com D. gatoi têm prurido e higiene excessiva associados. Nestes casos, o gato apresenta alopecia auto-induzida, especialmente nas áreas de fácil acesso como abdômen, flancos, parte interna das coxas e membros anteriores.
Como é feito o diagnóstico da sarna demodécica nos cães e nos gatos?
O diagnóstico da sarna demodécica é baseado no histórico, sinais clínicos e na detecção do parasita em diferentes fases do seu ciclo de vida. Isso pode ser feito através de exames laboratoriais como:
- avaliação pilosa: amostras de pelos são coletadas de áreas afetadas e analisadas sob microscopia óptica. É possível identificar ácaros em vários estágios do ciclo de vida, dispostos ao redor da haste do pelo;
- raspados profundos da pele: raspados profundos o suficiente para ver a “exsudação” capilar são colhidos de diversas áreas afetadas para análise;
- exame histopatológico de biópsias: são indicados em quadros de pododemodicose em cães ou quando a identificação de ácaros é feita nos folículos capilares;
- esfregaço de secreção ótica de felinos com otite ceruminosa: devem examinados em busca de ácaros de D.cati.
Em função da localização do ácaro no estrato córneo de animais infestados, a sarna demodécica causada por D. gatoi em felinos tem seu diagnóstico etiológico dificultado pelo excesso de higiene. Assim, são necessárias diversas raspagens superficiais da pele em diferentes áreas do corpo para que seja feita uma análise efetiva – sendo as áreas mais difíceis para o animal realizar o autocuidado, as melhores para a amostragem.
Fitas de celofane também podem ser usadas e a flutuação fecal também pode revelar os parasitas ingeridos, sendo essa identificação geralmente baseada na morfologia típica e na localização superficial deste ácaro.
Tratamento para sarna demodécica
Ao prescrever o tratamento para gatos e cães com sarna demodécica, o médico-veterinário deve considerar a espécie e a forma de apresentação no corpo dos animais.
O tratamento de demodicose localizada, tanto em cães quanto em gatos, se resolve espontaneamente dentro de seis a oito semanas, na maioria das vezes.
Quando não é feito o tratamento para a sarna demodécica localizada, é possível a identificação dos pacientes com doença progressiva. Porém, caso se opte pelo tratamento, pode ser iniciada terapia antibacteriana tópica e/ou sistêmica para a infecção bacteriana secundária.
O exame clínico com raspagens cutâneas (repetidas a cada duas a quatro semanas após o diagnóstico inicial) é indicado para monitorar a resolução ou progressão da doença.
A demodicose generalizada canina pode exigir terapia prolongada e agressiva. O tratamento deve incluir o uso de um acaricida eficaz, a avaliação de quaisquer distúrbios subjacentes com tratamento apropriado, e terapia antibiótica quando houver piodermite.
Recomenda-se monitorar o sucesso do tratamento por meio de exames mensais de amostras de pele. O tratamento deve ser continuado por, pelo menos, quatro semanas após a segunda série mensal negativa de raspagens cutâneas.
Para o tratamento da demodicose generalizada felina não existe produto registrado para uso, mas estudos de caso indicaram que:
- ectoparisiticidas isoxazolinas, como o fluralaner e o sarolaner, podem ser eficazes;
- banho de imersão com solução a base de hidróxido de cálcio e enxofre (nas concentrações de 1,6% a 2%) são utilizadas como pesticida nos Estados Unidos –embora a opção não seja disponível comercialmente no Brasil.
O amitraz está registrado apenas para cães e não deve ser utilizado em gatos devido ao risco de toxicidade. Assim como a demodicose canina, a demodicose felina está frequentemente associada a outras doenças subjacentes, que devem ser tratadas conforme apropriado.
É possível prevenir a doença?
Com o uso generalizado da terapia com medicamentos para controle de pulgas e carrapatos, a incidência futura de demodicose canina pode ser afetada, sendo possível agir de forma preventiva em relação ao desenvolvimento da sarna demodécica.
Os ácaros D. canis e D. cati são considerados parte da microbiota da maioria dos mamíferos, incluindo gatos e cães. Em circunstâncias normais, parecem viver como comensais, alimentando-se do sebo do seu hospedeiro, sendo considerados apenas oportunisticamente patogénicos.
A ocorrência de quadros de sarna demodécica causadas por D. canis e D. cati podem estar associadas a quadros de imunodeficiência. É indicado que o médico-veterinário fique atento, já que fatores como a terapia excessiva com o uso de glicocorticoides, síndrome de Cushing, diabetes mellitus, imunodeficiência adquirida, hiperadrenocorticismo e neoplasia são fatores predisponentes para o desenvolvimento da sarna demodécica.
Vale ressaltar que o ácaro D. gatoi é único entre os ácaros Demodex, pois vive muito superficialmente na camada de queratina da epiderme e não e considerado comensal. A sarna demodécica causada por D. gatoi não parece estar associada à imunossupressão.
A importância do manejo nutricional no controle da sarna demodécica
O manejo nutricional adequado garante substratos e nutrientes para manutenção da saúde da pele e pelagem, assim como da integridade da barreira cutânea, que é afetada quando gatos e cães apresentam quadros de sarna demodécica.
Pensando nisso, a Royal Canin® conta com o produto Skin Care na sua linha de alimentos coadjuvantes para cães, formulado com um complexo sinérgico de antioxidantes que auxiliam na neutralização de radicais livres e contribui para a recuperação da pele dos animais com esse tipo de sensibilidade.
Para os gatos que sofrem com complicações como a sarna demodécica, destaca-se o alimento Hypoallergenic Feline, formulado para auxiliar a barreira protetora natural da pele animal e, consequentemente, na manutenção da sua saúde cutânea. Além disso, o alimento ainda conta com ácidos graxos e nutrientes que contribuem para a saúde do sistema digestivo e da pele.

Vale lembrar que, embora o manejo alimentar adequado contribua com o controle e o tratamento da sarna demodécica, ele não substitui o tratamento convencional da doença, que deve ser indicado por um profissional-veterinário.
Acesse e conheça o nosso portfólio e as diferentes soluções nutricionais que auxiliam a manutenção da saúde de pele e da pelagem de gatos e cães. São alimentos que contribuem para minimizar sinais clínicos, facilitar a recuperação cutânea e auxiliar no manejo dos pacientes, oferecendo bem-estar, qualidade de vida e longevidade.
Facilite a prescrição dos alimentos utilizando nossa exclusiva a Calculadora de Recomendações!
Referências Bibliográficas
Beale, K. FELINE DEMODICOSIS – A consideration in the itchy or overgrooming cat. Journal of Feline Medicine and Surgery, n. 14, 2012. Acesso em: 21/03/2024.
Beugnet, F., Halos, L., Guillot, J. Textbook of Clinical Parasitologu in dogs and Cats. 2018
European Scientific Counsel Companion Animal Parasites. Control of Ectoparasites in Dogs and Cats, 2022. Acesso em: 21/02/2024.
Horne, K. Feline Demodicosis. In: Small Animal Dermatology for Technicians and Nurses, First Edition. 2020.
Horne, K. Feline Demodicosis. In: Small Animal Dermatology for Technicians and Nurses || Canine Demodicosis.
Mueller, R. S., Rosenkrantz, W., Bensignor, E, Karas-Tezcza, J., Paterson, T., Shipstone, M.A. Diagnosis and treatment of demodicosis in dogs and cats Clinical Consensus Guidelines of the World Association for Veterinary Dermatology. Vet Dermatol, n. 31, v., 4, 2020. Acesso em: 21/03/2024.
Ribeiro, F.G., Kluthcovsky, L.C., Monti, F., Cordeiro, C. T. Demodiciose felina – revisão de literatura. Medvep Dermato – Revista de Educação Continuada em Dermatologia e Alergologia Veterinária; v. 3, n. 9, 2014. Acesso em 20/03/2024
