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Puliciose: saiba como controlar a infestação de pulgas em gatos e cães

Puliciose: saiba como controlar a infestação de pulgas em gatos e cães
Atualizado em 30 de março de 2026
Tempo de leitura: 11min
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A puliciose é um problema comumente visto no atendimento médico-veterinário de animais de companhia. Saiba como instituir um manejo efetivo para o controle da infestação por pulgas em seu paciente.

Pulgas são os ectoparasitas de gatos e cães clinicamente mais importantes em todo o mundo. Um estudo realizado no Reino Unido constatou que 28,1% dos gatos e 14,4% dos cães selecionados para sofrer uma inspeção para procura de pulgas, seguindo um protocolo padronizado, em atendimentos no período de abril a junho de 2018, estavam infestados por esses parasitas. Mais de 90% dessas pulgas eram da espécie Ctenocephalides felis, a pulga do gato ((ABDULLAH et al. 2019).

A infestação de pulgas ocasiona implicações significativas na saúde animal e, em alguns casos, na saúde pública devido ao potencial zoonótico de alguns patógenos que elas podem transmitir.

O que é puliciose?

A puliciose é a infestação por pulgas, que se caracteriza pela presença de altas taxas desses ectoparasitas no animal e no ambiente.

A pulga Ctenocephalides spp. e suas principais características

Pulgas são insetos sem asas, achatados lateralmente, com coloração variando de marrom claro a escuro. São hematófagos obrigatórios. Pertencem a uma ordem altamente especializada, a Siphonaptera ou Aphaniptera, que possui aproximadamente 2.500 espécies (ESCCAP, 2022; TroCCAP, 2022).

Em relação à especificidade, pulgas raramente são parasitas monoxênicos, sendo mais específicas ao habitat do que ao hospedeiro, porém a especificidade do hospedeiro é importante para a transmissão de agentes de doenças (IANNINO et.al., 2017).

As pulgas do gênero Ctenocephalides são as principais responsáveis por puliciose em cães e gatos. Dentro desse gênero, destacam-se duas espécies de importância veterinária: Ctenocephalides felis (pulga do gato) e Ctenocephalides canis (pulga do cão).

Apesar dos nomes das espécies sugerirem hospedeiros específicos, a pulga do gato pode afetar cães e vice-versa. Porém, a C. felis é amplamente predominante, sendo considerada o ectoparasita mais comum de cães e gatos em todo o mundo (MANVELL et al., 2022).

Outras espécies de pulgas que acometem gatos e cães são C. canis, Pulex irritans, Xenopsylla cheopis. Na América Latina, Caribe e na África subsaariana, esses animais podem ser parasitados por fêmeas de Tunga penetrans (IANNINO ET.AL., 2017; TroCCAP, 2022).

Ilustração da Ctenocephalides felis, a pulga do gato
Figura 1: Ctenocephalides felis. Fonte: Royal Canin, 2024.

A pulga de gatos e cães também acometem os humanos?

Tutores perguntam com frequência ao médico-veterinário se a pulga do gato ou cão deve ser uma preocupação para os humanos.

Humanos não são hospedeiros preferenciais desses ectoparasitas, mas podem, por exemplo, ser acometidos acidentalmente pela Pulex irritans, que pode estar presente em cães, gatos e ratos. Em quadros de puliciose, inclusive a Ctenocephalides pode ter os humanos como hospedeiros acidentais.

Por esse motivo, e pelas pulgas atuarem como agentes transmissores de importantes enfermidades ou causarem quadros de dermatites, o médico-veterinário deve ressaltar ao tutor a importância de procurar atendimento médico em casos de prurido ou reações por picada quando há puliciose em seu animal.

Outros pets podem pegar pulgas?

Sim, outros pets, como coelhos, porquinhos-da-índia, hamsters, chinchilas e ferrets (furões), podem ser infestados por pulgas.

Portanto, a anamnese detalhada torna-se fundamental no atendimento de animais com puliciose, e não se pode esquecer de adicionar a informação da presença de contactantes de outras espécies.

Vale ressaltar que os pets não convencionais apresentam características distintas, demandam cuidados específicos e devem ser atendimentos por um médico-veterinário especializado.

A importância do controle ambiental na puliciose

O controle do ambiente no qual os pets vivem é um dos pilares fundamentais para o manejo eficaz da puliciose em cães e gatos.

Embora muitos profissionais se concentrem no tratamento direto do animal, é importante compreender que o que está presente no pet representa apenas cerca de 5% de toda a infestação de pulgas no ambiente. Os outros 95% estão distribuídos pelo local onde vive o pet na forma de ovos, larvas e pupas, compondo o ciclo de vida do parasita.

Apenas os adultos vivem diretamente sobre o animal, alimentando-se de sangue, enquanto as demais fases se desenvolvem no ambiente.

Além disso, uma única pulga adulta pode depositar de 25 a 40 ovos por dia, totalizando cerca de 1000 ovos depositados durante a sua vida. Os ovos caem no ambiente, se acumulando em locais como tapetes, sofás, camas de pets e frestas de pisos.

Principais doenças relacionadas a puliciose (infestação de pulgas) em gatos e cães

Em quadros de puliciose em gatos e cães, há irritação mecânica, prurido que pode ocasionar eritema, alopecia e dermatite. Filhotes, principalmente, podem apresentar anemia. Além disso, a infestação de pulgas pode ocasionar doenças associadas, já que as pulgas são vetores de parasitoses que acometem severamente a saúde do paciente.

Alguns animais podem desenvolver dermatite alérgica à picada de ectoparasitas (DAPE). A hipersensibilidade à picada de pulgas é considerada a principal causa de dermatite miliar felina e, também, pode ser uma das causas do desenvolvimento do complexo granuloma eosinofílico felino (MILLEY, 2021).

As pulgas são vetores de Bartonella spp., Rickettsia felis e Yersinia pestis, e são hospedeiro intermediários de Dipylidium caninum, Hymenolepis diminuta e Acanthocheilonema reconditum (IANNINO et.al., 2017; DIAKOU et.al, 2022; ESCCAP, 2022; TroCCAP, 2022).

Confira no quadro abaixo os principais agentes patogênicos transmitidos por pulgas e seus respectivos hospedeiros:

Quadro mostra principais agentes patogênicos transmitidos por pulgas e seus respectivos hospedeiros
Adaptado a partir de Marchiondo et.al, 2013, Siak & Burrows, 2013, Iannino et.al., 2017, ESCCAP, 2019, Zanen et. al.,2020, ESCCAP, 2022, TroCCAP, 2022.

Entender o ciclo da pulga é essencial para o controle!

A velocidade e capacidade reprodutiva das pulgas significa que apenas alguns insetos adultos podem causar rápida infestação de ambientes.

Como vimos anteriormente, na puliciose, apenas 5% das pulgas são adultas e podem ser vistas infestando o gato ou o cão. Os outros 95% são representados pelas outras fases de vida do parasita, sendo 50% ovos, 35% larvas e 10% pupas.

Logo, compreender como funciona o ciclo de vida dessa parasita é crucial para o controle da puliciose em cães e gatos.

Confira abaixo as etapas do ciclo de vida da pulga e veja, na sequência, um infográfico para entender todos os detalhes de forma dinâmica:

  1. As fêmeas iniciam a postura de ovos dentro de 24h a 48h após ao primeiro repasto sanguíneo e podem depositar entre 25 e 40 ovos por dia.
  2. Os ovos passam por um período de incubação no ambiente e eclodem após 2 a 5 dias.
  3. As larvas liberadas permanecem no ambiente por até 14 dias e se alimentam de matéria orgânica e fezes de pulgas.
  4. As larvas formam um casulo ao seu redor, feito com poeira e saliva, dando origem à pupa, estágio mais resistente da pulga, que pode sobreviver no ambiente por até 6 meses. Por isso, o ciclo de vida das pulgas pode ser estendido de 21 dias até um ano e meio.
  5. A fase adulta sai do casulo devido às vibrações e calor provenientes do hospedeiro.
  6. As pulgas adultas localizam os hospedeiros por detecção visual e térmica e saltam para o pelo de cães e gatos. Tanto as pulgas adultas masculinas quanto as femininas são hematófagas.

Arte mostra como é o ciclo de vida da pulga

A fase de resistência (pupa) é um importante fator no controle das pulgas

A pupa, estágio mais resistente do ciclo de vida da pulga, pode permanecer viável no ambiente por até 6 meses, quando, então, serão liberados os adultos que saem do casulo devido às vibrações e calor provenientes do hospedeiro, como já detalhamos.

O grande desafio para o controle ambiental da puliciose é que nenhum produto comercial usado para eliminar pulgas no animal ou no ambiente tem efeito sobre a fase de pupa.

Assim, o médico-veterinário deve recomendar que os tutores realizem a limpeza de todos os ambientes e objetos (cama, coberta, tapetes etc.) que o animal tenha acesso, com o uso de aspirador de pó ou produtos comerciais próprios para o controle ambiental de pulgas.

Porém, é importante instruir que a estratégia mais eficaz para o controle da puliciose é o tratamento do animal e seus contactantes, assim como a desinfecção do ambiente, por pelo menos 90 dias, tempo geralmente suficiente para as pupas liberarem as formas adultas, na presença de hospedeiros, submetendo-as ao contato com o produto pulicida.

Como acabar com a infestação de pulgas

O médico-veterinário deve orientar os tutores que o controle da puliciose pode ser complicado devido ao ciclo de vida complexo desse parasita, envolvendo estágios de vida sobre e fora do hospedeiro (TroCCAP, 2022).

Portanto, o manejo para acabar com quadros de puliciose deve conter medidas de controle no animal e ambiental.

1. Controle nos animais

O controle da puliciose nos animais deve ser feito com produtos especialmente desenvolvidos para cada espécie em questão, sob prescrição do médico-veterinário, por um período de pelo menos 3 meses consecutivos, em todos os pets da casa.

Pode ser recomendado o uso de:

  • produtos tópicos em apresentação spot-on ou coleira (fipronil, fipronil + s-metopreno, permetrina, imidacloprida, flumetrina, moxidectina, selamectina, fluralaner, deltametrina, propoxur, entre outros);
  • terapias orais (spinosad, afoxolaner, fluralaner, sarolaner etc).

Lembre-se que animais silvestres devem receber tratamento prescrito por profissionais especializados, uma vez que as doses e os princípios ativos recomendados podem ser diferentes de cães e gatos.

2. Controle ambiental

O controle ambiental é fundamental para complementar o manejo realizado diretamente nos pacientes, porém é importante ressaltar que apenas o controle ambiental não é suficiente para sanar os quadros de puliciose.

Aqui, o objetivo é a eliminação dos 95% que compreendem as diferentes fases de vida do ectoparasita que se encontram no ambiente infestado. Para isso, pode-se instruir:

  • limpar o ambiente através da remoção mecânica de ovos, larvas, pupas e adultos emergentes, com uso do aspirador de pó;
  • usar produtos comerciais pulicidas de ação ambiental;
  • lavar camas e cobertores do pet com água quente, já que os ovos são sensíveis ao calor.

A importância da prevenção

A prevenção é a melhor forma de evitar a ocorrência de quadros de puliciose e as doenças a eles relacionadas. Cabe ao médico-veterinário orientar os tutores sobre a faixa etária, dosagem, formas de administração e aplicação dos medicamentos prescritos (ESCCAP, 2022).

A principal medida a ser tomada é o uso periódico de antipulgas apropriados para cada espécie animal, em intervalos de tratamento recomendados pelo fabricante. Isso visa garantir que adultos e parasitas em estágios de desenvolvimento presentes no ambiente sejam controlados.

Além disso, animais afetados por puliciose podem necessitar de um manejo nutricional adequado, que forneça nutrientes e substratos para a saúde da pele e a manutenção da integridade da barreira cutânea.

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Referências:

ABDULLAH, S. et al. Pathogens in fleas collected from cats and dogs: distribution and prevalence in the UK. Parasite & Vectors, v.12, n.71, 2019. Acesso em: 22 jan. 2025.

DIAKOU, A. et al. Ticks, Fleas, and Harboured Pathogens from Dogs and Cats in Cyprus. Pathogens, v.11, n.12, 2022. Acesso em: 22 jan. 2025.

CDC. Fleas. Acesso em: 22 jan. 2025.

ESCCAP. Guideline 3: Control of Ectoparasites in Dogs and Cats. 7 ed., 2022.

ESCCAP. Guideline 5: Control of Vector-Borne Diseases in Dogs and Cats. 5 ed., 2019.

IANNINO, F. et al. Fleas of dog and cat: species, biology and flea-borne diseases. Vet Ital., v.53, n.4, 2017. Acesso em: 22 jan. 2025.

MANVELL, C. et al. Identification of microbial taxa present in Ctenocephalides felis (cat flea) reveals widespread co-infection and associations with vector phylogeny. Parasites & Vectors, v.15, n.398, 2022. Acesso em: 22 jan. 2025.

MARCHIONDO, A.A. et al. World Association for the Advancement of Veterinary Parasitology World Association for the Advancement of Veterinary Parasitology (W.A.A.V.P.) second edition: guidelines for evaluating the efficacy of parasiticides for the treatment, prevention and control of flea and tick infestations on dogs and cats. Veterinary parasitology, v.194, n.1, 2013. Acesso em: 22 jan. 2025.

MILLEY, C.D. Dermatite miliar felina. Vetfocus, v.28.1, 2021. Acesso em: 22 jan. 2025.

ROYAL CANIN. Enciclopédia do cão. 2024.

SIAK, M.; BURROWS, M. Flea control in cats: new concepts and the current armoury. Journal of Feline Medicine and Surgery, v.15, n.1,2013. Acesso em: 22 jan. 2025.

TAYLOR, M.A.; COOP, R.L.; WALL, R.L. Parasitologia Veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 4 ed., 2017.

TroCCAP. Guidelines for the control of ectoparasites of dogs and cats in the tropics. 1 ed., 2022. Acesso em: 22 jan. 2025.

ZANEN, L.A.; KUSTERS, J.G.; OVERGAAUW, P.A. M. Zoonotic Risks of Sleeping with Pets. Pathogens, v.11, n.10, 2022. Acesso em: 22 jan. 2025.

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