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Leptospirose canina: saiba como prevenir e diagnosticar

Leptospirose canina: saiba como prevenir e diagnosticar
Atualizado em 20 de maio de 2025
Tempo de leitura: 13min
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A leptospirose é uma importante zoonose. Entenda como o médico-veterinário pode atuar na prevenção, fator essencial para minimizar a disseminação da doença.

A leptospirose é uma enfermidade infectocontagiosa grave de distribuição mundial, que pode atingir diversas espécies, como cães, gatos, ratos, equinos e outros animais, e ainda seres humanos. É uma doença com elevado potencial zoonótico e alta incidência em países tropicais, sendo associada a altos níveis de pluviosidade e temperatura.

A gravidade da patogenia no cão e o contágio ao homem, potencializado pela proximidade estabelecida no mundo contemporâneo entre ambos, coloca a leptospirose canina como uma preocupação sanitária (NAPOLEÃO & CARLOS, 2022).

Fique por dentro das principais informações da doença, entendendo como abordar um caso suspeito de leptospirose canina e como orientar os tutores sobre manejo profilático.

O que é a leptospirose canina?

A leptospirose é causada por bactérias espiroquetas do gênero Leptospira. Trata-se de uma importante zoonose que possui distribuição mundial e é considerada potencialmente grave, tendo um alto potencial de transmissão no meio urbano.

Também é vista como uma doença profissional que pode estar associada a agricultura, pecuária e manutenção de esgoto, uma vez que esses profissionais estão mais expostos ao ambiente que pode estar contaminado (SILVA et al; 2020).

A bactéria do gênero Leptospira é eliminada no ambiente através da urina do hospedeiro. Essa bactéria sobrevive em locais com umidade, como poças de água, locais com enchentes, solo molhado por chuva, entre outros, o que potencializa a transmissão. Com isso, a disseminação da doença pode ser elevada em locais propícios.

Os roedores constituem a principal fonte de leptospirose para os humanos, principalmente nos grandes centros urbanos, uma vez que são considerados animais sinantrópicos, com grande capacidade de adaptação ao ambiente, facilitando ainda mais a transmissão dessa enfermidade. Porém, os cães infectados também podem desempenhar um papel considerável no risco de transmissão da doença devido à grande proximidade aos tutores (SCANDURA et al., 2020).

Por isso, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) disponibiliza diversas informações que fornecem conhecimento e suporte sobre a doença ao médico-veterinário, listando, inclusive, a leptospirose na lista de afecções em animais com notificação obrigatória, requerendo notificação mensal de qualquer caso confirmado.

Tipos de sorovares de leptospira que afetam os cães

As leptospiras são classificadas em mais de 250 sorovares capazes de infectar animais e humanos. Dentre eles, os sorovares que podem acometer os cães compreendem os listados abaixo, sendo os dois primeiros os de maior importância na leptospirose canina:

  • Leptospira canicola;
  • Leptospira icterohaemorrhagiae;
  • Leptospira pomona;
  • Leptospira Grippotyphosa.

Gatos também pegam leptospirose?

A leptospirose em gatos ainda é pouco elucidada. São raros os dados sobre a doença clínica nos animais dessa espécie, porém eles podem apresentar leptospiúria e poderiam ser considerados reservatórios da bactéria. Entretanto, o risco exato de contaminação de outros mamíferos com urina de gatos ainda é desconhecido (CORDEIRO et al., 2019).

Mesmo que os gatos dificilmente manifestem a leptospirose, o médico-veterinário deve sempre ressaltar ao tutor a importância de manter os felinos sem acesso livre a rua, além de propiciar um ambiente limpo, visando reduzir a transmissão dessa e de outras importantes doenças.

Leptospirose: como ocorre a transmissão da doença

Eliminada para o meio ambiente através da urina do indivíduo contaminado, a Leptospira possui alto potencial de infecção, podendo penetrar na pele íntegra através de mucosas, não sendo necessária a presença de uma lesão para que ocorra a entrada do patógeno.

Logo, a principal via de transmissão da leptospirose para os cães ocorre por meio de contato com a urina infectada. Porém, pode também haver infecção por contato venéreo, transferência placentária, mordeduras, ingestão de água e alimentos contaminados, transfusão sanguínea, contato com solo úmido ou molhado infectado etc (SILVA et al; 2020).

A Leptospira presente na urina dos ratos contaminados pode afetar a água de lagoas, rios e o solo, já que esses animais vivem em esgotos e locais potencialmente contaminados, aumentando a disseminação da doença para seres humanos, outros mamíferos reservatórios, répteis e demais espécies.

Principais formas de apresentação da doença

Há quatro síndromes que costumam ser identificadas na leptospirose canina (SILVA et al; 2020):

  • Ictérica: é causada por hemólise intravascular e, geralmente, o animal acometido apresenta azotemia, anemia, diminuição dos níveis de consciência e febre contínua;
  • Hemorrágica: é a forma mais grave e, geralmente, há febre entre 3 e 4 dias após a infecção, seguida por mialgia nos membros posteriores e rigidez, além de hemorragias na cavidade oral com possível faringite e necrose;
  • Urêmica: também conhecida como doença de Stuttgart, caracteriza-se pelo acometimento renal significativo, decorrente da lesão tubular aguda induzida pela infecção. O paciente pode apresentar poliúria, polidipsia, vômito, anorexia, letargia e, em casos mais graves, sinais de uremia, como ulcerações orais e halitose urêmica;
  • Reprodutiva: as cadelas podem ter abortos e partos prematuros, com o nascimento de filhotes mais frágeis ou adoecidos. Os filhotes podem apresentar doença renal severa e, caso sobrevivam à fase aguda da doença, podem desenvolver síndrome urêmica crônica na sequência.

Como a leptospirose canina compromete a saúde renal? Entenda a ação da bactéria no organismo!

O comprometimento renal é uma complicação grave e que geralmente acomete os pacientes com a forma mais grave da leptospirose canina, sendo caracterizada pela associação de dano intersticial e tubular.

Após a entrada do patógeno, a Leptospira invade a corrente sanguínea, iniciando a multiplicação em um período entre 4 e 7 dias pós infecção, ocasionando leptospiremia (SANTOS & SANTOS; 2021).

Posteriormente, a bactéria se dissemina por diversos tecidos e órgãos, afetando principalmente o fígado e a parede intestinal, estabelecendo enterites. Também afeta os rins, ocasionando glomerulonefrite e hemorragias (NAPOLEÃO & CARLOS, 2022). Assim, estabelece-se a leptospiúria – presença da Leptospira na urina do paciente acometido.

Composição e capacidade renal: entendendo as diferenças entre espécies

Os rins são órgãos do sistema urinário indispensáveis para a vida, pois possuem importantes funções, como a excreção de metabólitos como a ureia e creatinina. Os órgãos também participam da regulação da pressão arterial e da hidratação através do sistema renina-angiotensina-aldosterona, das funções endócrinas, entre outras.

Anatomicamente, o rim canino é considerado unilobular, assim como o rim de gatos, equinos e pequenos ruminantes. Já o rim suíno e de grandes ruminantes é multilobular, ou seja, é formado por diversos pequenos lóbulos.

Os néfrons são consideradas as unidades morfofuncionais dos rins, sendo sua integridade essencial para o bom funcionamento do órgão. Cada espécie possui números diferentes de néfrons:

  • cães: 415.000;
  • gatos: 190.000;
  • suínos: 1.250.000;
  • equinos e bovinos: 4.000.000;
  • humanos: 1.200.000.

A quantidade de unidades morfofuncionais está intimamente ligada à evolução da lesão renal aguda e da doença renal crônica. Ou seja, animais com menor quantidade de néfrons tendem a ter uma evolução desfavorável mais rápida em casos de doenças que afetam os rins, assim como a leptospirose.

Sinais clínicos de leptospirose em cães

O indivíduo com leptospirose canina pode ser assintomático ou desenvolver quadros clínicos graves, manifestando sinais clínicos que variam de acordo com cada caso, como (SANTOS & SANTOS; 2021):

  • anorexia;
  • vômitos e diarreias (podendo ter presença de sangue);
  • urina com coloração escura;
  • presença de dor ao urinar;
  • halitose (característico de azotemia);
  • letargia;
  • febre;
  • perda de apetite;
  • icterícia;
  • uveíte;
  • hemorragia pulmonar;
  • ulcerações na mucosa oral;
  • outros.

A importância do diagnóstico precoce

A leptospirose canina é uma zoonose de alta relevância clínica e epidemiológica, com potencial para evoluir rapidamente para formas graves.

Portanto, o diagnóstico precoce é essencial para instituir o tratamento adequado em estágios iniciais da doença, reduzindo a morbidade, a taxa de mortalidade e as sequelas crônicas.

Exames padrão ouro para diagnóstico da leptospirose canina

Dentre os exames, há diferentes opções usadas para diagnóstico de leptospirose em cães, como isolamento de Leptospira em cultura, PCR ou ainda a identificação do agente pelo aumento superior a quatro vezes no título ou na soroconversão em teste de aglutinação microscópica das amostras (SILVA et al; 2020).

A Organização Mundial de Saúde – OMS recomenda como exame padrão para diagnóstico confirmatório o teste de soroaglutinação microscópica – SAM, no qual a presença de anticorpos no soro sanguíneo é indicada pela aglutinação das Leptospiras spp, visualizadas por microscopia de campo escuro (SANTOS & SANTOS; 2021). Porém, a reatividade cruzada entre os diferentes sorovares limita a identificação do sorovar infectante.

O isolamento da Leptospira em cultura é um método eficaz para diagnóstico definitivo que permite a identificação do agente infeccioso.

O diagnóstico da leptospirose canina ainda pode ser feito através de resultado positivo de PCR, utilizando amostra de urina (SILVA et al; 2020).

Diagnóstico diferencial com outras doenças

No diagnóstico diferencial da leptospirose canina, devem ser consideradas diversas enfermidades infecciosas e não infecciosas que cursam com sinais clínicos semelhantes, especialmente aquelas que envolvem manifestações renais, hepáticas e sistêmicas.

As principais doenças incluem:

Tratamento e manejo do paciente com leptospirose canina

O tratamento para a leptospirose canina envolve antibioticoterapia e terapia de suporte para a reposição do equilíbrio hidroeletrolítico e energético (SILVA et al; 2020). Já a hemodiálise pode ser recomendada para pacientes críticos com insuficiência renal aguda.

As leptospiras são frágeis a certos antibióticos, como a penicilina e seus derivados e a doxiciclina. Os medicamentos, geralmente, são administrados com o intuito de eliminar as leptospiras dos túbulos renais. Com isso, o tratamento, muitas vezes, inicia com a administração de penicilina ou derivados por via intravenosa para tratar a leptospiremia e, na sequência, envolve o uso de doxiciclina para tratar a leptospirúria (SILVA et al; 2018).

Os pacientes acometidos por leptospirose precisam de acompanhamento constante, pois a taxa de mortalidade é muito alta e apresenta variabilidade entre 70 e 90% nesses casos (ZOETIS, 2019). Quando o médico-veterinário recomendar internação, é importante que seja feita em ambiente de isolamento para doenças infecto-contagiosas.

Caso o paciente seja liberado para tratamento em seu domicílio, o profissional deve orientar o tutor a respeito dos cuidados com uso de EPI’s nos momentos em que realizar a higiene do animal e do ambiente.

Nos casos mais graves, dependendo da idade, do sistema imunológico do cão acometido e, também, do sorotipo envolvido, pode haver o óbito do animal (SANTOS e SANTOS; 2021).

Porém, quando o tratamento é precoce e seguido de forma correta, geralmente antes do agravamento dos sinais clínicos, os pacientes podem ter maiores chances de sucesso e um prognóstico de reservado a favorável, contribuindo também para a prevenção da disseminação dessa importante zoonose.

Prevenção contra a leptospirose canina: a importância da vacinação e manejos adequados

Em virtude da facilidade na disseminação da leptospirose, conclui-se que a prevenção é a melhor forma de evitar o contágio de animais e seres humanos.

Diversos estudos destacam que a vacinação dos pets é uma das medidas mais eficazes para o controle da leptospirose em cães.

Além do protocolo vacinal, certas medidas sanitárias são de extrema importância, como:

  • limpar constante e higienizar quintais e ambiente em que o animal vive ou que possui acesso;
  • não acumular lixos ou deixar alimentos expostos em quintais, pois os ratos são atraídos para o ambiente, principalmente durante a noite;
  • não deixar o animal ter livre acesso às ruas sem a companhia de seu responsável;
  • evitar a superpopulação de animais;
  • adotar a castração para reduzir os comportamentos territorialistas;
  • fornecer água limpa e filtrada aos animais;
  • outros.

Diferenças entre as vacinas polivalentes V8 e V10: quando recomendar cada uma?

As vacinas contra leptospirose canina disponíveis atualmente (V8 e V10) são provenientes de culturas de leptospiras inativadas acrescidas de adjuvantes compostas pelos sorovares. Veja os detalhes:

  • Polivalente V8: composta por dois sorovares de Leptospira – Icterohaemorrhagiae e Canicola;
  • Polivalente V10: composta por quatro sorovares de Leptospira – Icterohaemorrhagiae, Canicola, Grippotyphosa e Pomona.

As duas cepas a mais que contém a vacina v10 não possuem incidência no Brasil. Porém, o médico-veterinário pode utilizar a vacina mais completa de forma preventiva, usando-a, principalmente, em casos de viagens ao exterior.

Outras zoonoses importantes em cães e gatos

Além da leptospirose, outras zoonoses podem acometer cães e gatos e exigem atenção do médico-veterinário. Dentre elas podemos citar:

O infográfico abaixo traz um resumo sobre o tema zoonoses:

Visão geral das zoonoses

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Sabendo que a leptospirose canina, assim como diversas outras enfermidades, afeta gravemente os rins e outros órgãos do animal acometido, a alimentação pode ser ajustada pelo médico-veterinário para que o paciente tenha melhor capacidade de metabolizar e excretar os fármacos, podendo responder melhor aos tratamentos adotados.

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Referências:

BERTÃO-SANTOS, A. et al. Estudo retrospectivo da leptospirose canina em hospital veterinário escola no município de Londrina, PR. Arquivos de Ciências Veterinárias e Zoologia da UNIPAR, v.24, n.2, 2021. Acesso em: 13 fev. 2025.

CORDEIRO, C.T.; STEDILE, S.T.O., GOMES, M.B. Leptospira spp. em gatos: revisão. Clín. Vet., v.24, n.138, 2019. Acesso em: 13 fev. 2025.

DAHER, Elizabeth de Francesco et al. Insuficiência renal aguda associada à leptospirose. Braz. J. Nephrol, v.32, n.4, 2010. Acesso em: 13 fev. 2025.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Leptospirose. Acesso em: 13 fev. 2025.

NAPOLEÃO, R.M.S.; CARLOS, L.F.F. Leptospirose: uma revisão de literatura. Europub Journal of Health Research, v.3, n.4, 2022. Acesso em: 13 fev. 2025.

SANTOS, A.P.L.; SANTOS, H.P. Leptospirose canina: conscientização e importância da realização de ações educativas de prevenção em uma comunidade no Maranhão. Brazilian Journal of Development, Curitiba, v.7, n.01, 2021. Acesso em: 13 fev. 2025.

SCANDURA, S.C. et al. Pesquisa sorológica de sorovares de leptospiras que mais frequentemente infectam e causam doença em cães com suspeita clínica de leptospirose. Brazilian Journal of Development, v.6, n.2, 2020. Acesso em:13 fev. 2025.

SILVA, R.A. et al. Leptospirose canina: Relato de caso. PUBVET, v.12, n.06, 2018. Acesso em: 13 fev. 2025.

SILVA, E.R.D.F.S. et al. Leptospirose canina: revisão de literatura. Revista Científica de Medicina Veterinária, v.17, n.34, 2020. Acesso em: 13 fev. 2025.

ZOETIS. Leptospirose: um problema mais próximo do que você imagina. 2019. Acesso em: 13 fev. 2025.

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