Pielonefrite em cães e gatos: como diagnosticar e manejar o paciente acometido
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A pielonefrite é uma grave afecção que pode levar ao desenvolvimento de insuficiência renal em gatos e cães. Saiba o que fazer diante desse quadro!
A pielonefrite em cães e gatos é uma enfermidade caracterizada por uma infecção bacteriana que afeta os rins e pode levar a complicações graves se não for tratada adequadamente. O diagnóstico precoce e o tratamento eficaz são essenciais para garantir uma recuperação bem-sucedida e preservar a saúde renal a longo prazo.
Entenda sobre as estratégias de abordagem de casos suspeitos de pielonefrite, incluindo a conduta para diagnóstico, manejo terapêutico e nutricional dos pacientes acometidos.
O que é a pielonefrite?
A pielonefrite em cães e gatos consiste na colonização microbiana da pelve renal e do parênquima renal adjacente, geralmente causada por uma infecção bacteriana ascendente do trato urinário inferior.
Essa condição tem a capacidade de ocasionar o desenvolvimento de lesões na estrutura renal que podem ser irreversíveis, evoluindo para quadros de uremia, insuficiência renal e consequente falência dos rins.
É uma enfermidade que pode ter apresentação clínica aguda ou crônica, cujos sinais clínicos são variáveis e podem estar ou não relacionados ao trato urinário. Dessa forma, pode-se evidenciar:
- febre;
- hiporexia ou anorexia;
- letargia;
- vômito;
- diarréia;
- desidratação;
- sensibilidade dolorosa em região lombar;
- abdômen tenso à palpação;
- poliúria;
- polidipsia;
- disúria;
- polaciúria;
- estranguria;
- hematúria;
- piúria;
- mudança na coloração e/ou mal odor na urina.
É importante ressaltar que o exame físico do paciente acometido por pielonefrite pode não evidenciar anormalidades. Além disso, casos crônicos podem ter apresentação subclínica ou apresentar sinais clínicos intermitentes (febre, anorexia e letargia).
Principais causas de pielonefrite em cães
A pielonefrite em cães é causada principalmente por ascensão de uma infecção bacteriana originada no trato urinário inferior, comumente associada a bactérias aeróbicas; sendo Escherichia coli e Staphylococcus sp. as mais comuns, e Proteus, Streptococcus, Klebsiella, Enterobacter e Pseudomonas aeruginosa as menos frequentes (TILLEY et.al., 2021).
Embora incomum, a pielonefrite pode resultar de uma disseminação hematogênica a partir de uma infecção bacteriana em outro local do organismo (por exemplo, uma endocardite). Além disso, outros agentes infecciosos podem ser (raramente) relatados como causa da pielonefrite, como fungos e algas.
A probabilidade de ocorrência de uma infecção do trato urinário ascendente pode aumentar devido a outras comorbidades, como:
- refluxo vesicoureteral;
- urolitíase;
- displasia renal congênita;
- cistite bacteriana;
- diabetes mellitus;
- hiperadrenocorticismo;
- neoplasia relacionada ou não ao trato urinário;
- tratamentos com fármacos imunossupressores.
E nos gatos, existe alguma diferença em relação as causas?
As causas da pielonefrite em gatos assemelham-se às dos cães, tendo a infecção bacteriana ascendente como a mais importante. Porém, os microrganismos que mais comumente afetam essa espécie são: E. coli, Streptococcus spp, Staphylococcus spp, Enterococcus spp, e, em menor frequência, Proteus mirabilis (WHITEHOUSE, 2023).
Por sua vez, os felinos podem apresentar predisposição ao desenvolvimento dessa enfermidade em casos de:
- displasia renal congênita;
- refluxo vesicoureteral;
- urolitíase;
- doenças do trato urinário inferior felino (DTUIF);
- cistite idiopática felina;
- diabetes mellitus;
- hiperadrenocorticismo;
- neoplasia relacionada ou não ao trato urinário;
- tratamentos com fármacos imunossupressores.
Um estudo retrospectivo realizado por Whitehouse e sua equipe (2023) constatou que gatas mais velhas com doença renal crônica subjacente têm maior probabilidade de desenvolver lesão renal aguda com cultura bacteriana positiva ou pielonefrite.
Quais as consequências da pielonefrite nos animais?
A pielonefrite em cães e gatos pode ocasionar dor e desconforto, além de resultar em graves consequências. Assim, o quadro infeccioso renal pode levar à modificação estrutural dos tecidos desse órgão, comprometendo sua função de filtração e excreção.
O quadro pode se agravar progressivamente levando à azotemia, sepse e óbito.
Como diagnosticar a doença?
O diagnóstico da pielonefrite em cães e gatos geralmente é presuntivo, baseado em um conjunto de informações fornecidas por anamnese, exame clínico, exames hematológicos (hemograma e bioquímico), análise e cultura da urina, e exames de imagem (ultrassonografia abdominal, radiografia, urografia).
A cultura da urina obtida por pielocentese é ideal para identificar as bactérias envolvidas na pielonefrite. Os resultados de um estudo de Etedali e sua equipe (2019) indicaram que a pielocentese guiada por ultrassonografia é uma técnica bem tolerada para investigação de doenças do trato urinário superior em cães e gatos.
Um paciente acometido por essa enfermidade pode apresentar leucocitose e neutrofilia com desvio à esquerda, urinálise revelando hematúria, piúria, proteinúria, bacteriúria e cilindrúria.
O ultrassom abdominal pode revelar alterações na estrutura renal, como aumento de tamanho e perda de definição córtico-medular, pielectasia, hidroureter e hidronefrose. Porém, a ausência de todas essas evidências citadas não exclui o diagnóstico de pielonefrite.

Outro ponto importante é que o médico-veterinário deve ter sempre em mente que todo paciente com infecção no trato urinário pode potencialmente desenvolver esta afecção, uma vez que os sinais clínicos de pielonefrite são inespecíficos.
Diagnóstico diferencial de pielonefrite
O diagnóstico diferencial da pielonefrite em cães e gatos inclui as doenças que podem desenvolver sinais clínicos semelhantes ou que também afetam o trato urinário. Algumas das condições que podem ser consideradas no diagnóstico diferencial incluem:
- infecções do trato urinário inferior;
- processos obstrutivos (urolitíases, neoplasias);
- nefropatia por lesão tubular aguda (exemplo: intoxicações);
- insuficiência renal crônica.
Formas de tratamento para a pielonefrite nos cães e nos gatos
O tratamento para pielonefrite deve ser baseado no resultado de cultura e antibiograma. Porém, o tratamento empírico – principalmente com antibióticos eficazes contra bactérias gram-negativas – pode ser recomendado até se obter o resultado anteriormente citado.
Em cães, o tratamento empírico realizado com fluoroquinolonas e cefalosporinas de terceira geração é frequentemente recomendado.
Em gatos, os dados de suscetibilidade antimicrobiana mostram que pode haver uma maior prevalência de isolados de uropatógenos felinos suscetíveis à enrofloxacina em comparação à amoxicilina-clavulanato. Portanto, a enrofloxacina tem sido amplamente utilizada nos casos de pielonefrite na medicina veterinária (WHITEHOUSE, 2023).
As diretrizes da ISCAID (2019) recomendam que o tratamento tenha duração de dez a 14 dias em pacientes veterinários. Além disso, urocultura de uma a duas semanas após o término do tratamento é recomendada em todos os casos.
É importante ressaltar que o prognóstico do animal acometido com pielonefrite está diretamente relacionado ao diagnóstico precoce e o tratamento adequado.
A influência da alimentação na saúde renal
A nutrição adequada pode desempenhar um papel importante no suporte à função renal, contribuindo positivamente para o sucesso do tratamento da pielonefrite em cães e gatos.
Uma alimentação que contenha teor de proteína controlado, restrição de fósforo e a quantidade adequada de minerais pode ajudar a reduzir a sobrecarga dos rins e a manter ou restabelecer a saúde renal.
Além disso, a adição de vitaminas e ácidos graxos, ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosahexaenoico (DHA), podem contribuir para o bom funcionamento do sistema imune e o controle da inflamação.
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Referências bibliográficas
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ETEDALI, N.M.; REETZ, J.A.; FOSTER, J.D. Complications and clinical utility of ultrasonographically guided pyelocentesis and antegrade pyelography in cats and dogs: 49 cases (2007–2015). AVMA Publications, v.254, i.7, 2019. Acesso em: 21 março 2024.
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