DRC em gatos: saiba como estadiar e conduzir um quadro de doença renal crônica em felinos
Links rápidos:
- O que é doença renal crônica?
- Principais causas de DRC em gatos
- DRC em gatos x em cães: entenda as principais diferenças
- 13 sinais clínicos e possíveis complicações da DRC em felinos
- Diagnóstico da doença renal crônica felina
- Estadiamento da DRC em gatos
- Tratamento de doença renal crônica em gatos
- A importância dos check-ups e consultas de rotina na prevenção da DRC felina
- Perguntas e respostas sobre a DRC em gatos
- A Royal Canin® alia ciência e tradição há mais de cinco décadas, promovendo saúde aos animais!
A doença renal crônica apresenta alta prevalência em felinos idosos. Um diagnóstico preciso e precoce, associado ao manejo terapêutico adequado para cada paciente, permanece sendo o pilar para retardar a velocidade de progressão da DRC em gatos, promovendo qualidade de vida.
A doença renal crônica (DRC) é uma enfermidade corriqueira na espécie felina, sendo considerada a doença mais comum de gatos idosos e a segunda maior causa de óbito em pacientes geriátricos, atrás apenas de neoplasias.
Uma das hipóteses considerada provável para a alta prevalência da doença nos felinos é o fato da espécie apresentar cerca de metade da quantidade de néfrons por rim (cerca de 200.000) se comparado aos cães (cerca de 400.000) (WUN & VILLARINO, 2025).
Embora incurável, a DRC em gatos pode ser controlada, visando retardar a evolução da injúria renal e aumentar a qualidade e a expectativa de vida dos animais acometidos.
Identificar os sinais da disfunção renal precocemente e adotar as diretrizes internacionais atuais para se obter um diagnóstico preciso e realizar o estadiamento da doença são etapas essenciais para retardar a progressão da lesão renal e promover maior longevidade e bem-estar ao gato com problema renal.
O que é doença renal crônica?
O néfron é a unidade morfofuncional do rim. Sua estrutura é composta pelo glomérulo, cuja função é filtrar os compostos presentes na circulação, e por túbulos, que são responsáveis pela reabsorção e pela excreção de certas substâncias (como sódio, potássio e cálcio) e de água.
O funcionamento sincronizado das estruturas do néfron caracteriza a função renal adequada e é essencial para a manutenção da homeostase, uma vez que os rins exercem papel nobre no organismo.
No paciente renal crônico, os túbulos renais sofrem fibrose progressiva. Assim, há uma perda progressiva dos néfrons.
Com a evolução do quadro e o agravamento da doença, os rins tornam-se incapazes de compensar a perda funcional, resultando em: lesão dos glomérulos, declínio da filtração, elevação dos níveis séricos de resíduos, perda de proteínas por meio da urina (proteinúria) e desenvolvimento de azotemia (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
Outro ponto importante é que a DRC em gatos pode resultar de uma variedade de condições sistêmicas que levam a lesões nos néfrons, embora a causa exata da lesão e a perpetuação da injúria renal sejam, na maioria das vezes, desconhecidas. Exploraremos esse tema a seguir.
Independente da identificação ou não da causa exata da injúria renal, as consequências metabólicas irão consistir em declínio geral da função renal, com a presença de manifestações clínicas quando houver comprometimento significativo do parênquima.
Principais causas de DRC em gatos
A etiologia da DRC em gatos é complexa e multifatorial. A nefrite túbulo-intersticial crônica se apresenta como a principal causa da doença renal crônica em gatos. No entanto, esse achado somente reflete um padrão lesional comum frente a diversos fatores incitantes diferentes (CALHAU et al., 2024).
Dentre os fatores que podem estar relacionados à doença renal crônica em gatos, podemos citar:
1. Envelhecimento
O aumento da expectativa de vida dos felinos — atualmente alcançando 15 a 20 anos em muitos casos, graças aos avanços da Medicina Felina, nutrição e cuidados preventivos — está diretamente relacionado à maior prevalência da DRC.
O processo natural de senescência leva à esclerose glomerular, fibrose intersticial e atrofia tubular, culminando na perda funcional progressiva da função renal (ETTINGER & FELDMAN, 2010; CALHAU et al., 2024).
2. Predisposição genética ou racial
Algumas raças apresentam maior risco para o desenvolvimento de doença renal crônica em gatos, como Persa e Siamês, em razão de mutações relacionadas a nefropatias hereditárias (PIBOT et al., 2010).
3. Intoxicação por plantas ou produtos nefrotóxicos
A ingestão de substâncias nefrotóxicas, que podem estar presentes em plantas da família Liliaceae (lírio), bem como compostos químicos domésticos, metais pesados, meios de contraste, hemoglobina e etilenoglicol, pode desencadear lesões renais agudas irreversíveis que podem evoluir para DRC em gatos (ETTINGER & FELDMAN, 2010; FASCETTI & DELANEY, 2012).
Saiba mais: Conheça as principais plantas tóxicas para os pets!
4. Uso de medicamentos
O uso inadequado de fármacos nefrotóxicos é um fator de risco importante para a DRC felina. Antibióticos aminoglicosídeos (ex.: gentamicina), anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), anfotericina b estão entre os principais agentes lesivos aos rins (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
Além disso, fármacos de uso comum, como o meloxicam, devem ser administrados com extrema cautela, em protocolos de no máximo 4 dias, para minimizar risco de nefrotoxicidade (FASCETTI & DELANEY, 2012).
5. Desidratação crônica e hipotensão
A manutenção de quadros recorrentes de desidratação, associada à baixa ingestão hídrica característica dos felinos, somada à hipotensão sistêmica, predispõe à redução do fluxo sanguíneo renal e pode acelerar a progressão da DRC em gatos (CALHAU et al., 2024).
6. Infecções bacterianas
Infecções persistentes, como pielonefrite e até mesmo quadros de doença periodontal grave, podem representar fontes crônicas de bacteremia e inflamação, favorecendo a injúria renal cumulativa (BESTWICK & GEDDES, 2025).
Outras causas de doença renal crônica em felinos
Outras causas de DRC em gatos que devem ser levadas em consideração são:
- peritonite infecciosa felina (PIF);
- hipercalcemia;
- hidronefrose;
- má perfusão;
- amiloidose;
- doença policística;
- nefrólitos;
- neoplasias primárias e linfoma (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
DRC em gatos x em cães: entenda as principais diferenças
A comparação entre espécies é essencial para que o médico-veterinário faça a correta interpretação diagnóstica da função renal do paciente. E a doença renal crônica apresenta com algumas diferenças se analisarmos o paciente felino e o canino.
Entre as principais diferenças, podemos enfatizar alguns aspectos como:
- os felinos possuem menor número de néfrons funcionais, o que aumenta sua susceptibilidade à lesão renal e pode acelerar a progressão da DRC (WUN & VILLARINO, 2025);
- gatos têm maior tendência a apresentar hipocalemia, quando comparados aos cães, o que agrava manifestações musculares e neurológicas relacionadas à DRC, incluindo fraqueza generalizada e ventroflexão cervical. Já cães com doença renal crônica fazem hipercalemia (ETTINGER & FELDMAN, 2010);
- felinos suportam níveis de creatinina sérica mais elevados em relação aos cães. Um gato com valores próximos de 5 mg/dL, por exemplo, pode manter apetite e estado clínico relativamente estável, o que frequentemente retarda a suspeita clínica e o diagnóstico precoce de DRC (IRIS, 2023).
13 sinais clínicos e possíveis complicações da DRC em felinos
Como já vimos até aqui, a doença renal crônica em gatos é uma afecção complexa, que exige atenção do médico-veterinário. E chegamos a mais uma questão desafiadora: os sinais clínicos da DRC em gatos podem ser ausentes ou inespecíficos, dependendo do estágio da doença. Sendo assim, é essencial conhecer os principais indícios da afecção, viabilizando um diagnóstico o mais precoce possível.
Abaixo, detalhamos as manifestações clínicas mais comuns da doença renal crônica em gatos e as possíveis complicações relacionadas ao quadro.
1. Desidratação
A baixa ingestão voluntária de água, somada ao déficit da capacidade renal de concentração urinária, contribui para quadros frequentes de desidratação em gatos acometidos com doença renal crônica (CALHAU et al., 2024).
2. Hiporexia
O paciente pode desenvolver aversão alimentar e ficar mais seletivo aos alimentos oferecidos. Isso ocorre, pois os felinos acometidos pela doença renal crônica podem ter alterações no olfato e paladar.
A redução do apetite está associada ao acúmulo de toxinas urêmicas e à acidose metabólica, sendo um dos sinais mais precoces de DRC relatados pelos tutores (BESTWICK & GEDDES, 2025).
3. Emagrecimento progressivo
O emagrecimento crônico é um dos achados mais relevantes da DRC em gatos. Esse processo não se restringe apenas à perda de gordura corporal, mas inclui a sarcopenia, ou seja, a redução progressiva de massa muscular, frequentemente associada à hiporexia e ao catabolismo proteico exacerbado pela uremia (FASCETTI & DELANEY, 2012; CALHAU et al., 2024).
É importante salientar que essa característica é distinta da injúria renal aguda (IRA), na qual a instalação rápida do quadro não permite a manifestação de emagrecimento evidente. Assim, a presença de perda ponderal crônica deve um sinal de alerta de DRC em gatos.
4. Vômitos e náusea
A náusea e os vômitos recorrentes são manifestações frequentes da DRC em gatos, resultantes do acúmulo de toxinas urêmicas, da gastrite secundária à uremia e das alterações eletrolíticas associadas à disfunção renal (ETTINGER & FELDMAN, 2010; BESTWICK & GEDDES, 2025).
Nem sempre a náusea se apresenta de forma evidente, sendo necessário observar sinais indiretos, como hipersalivação, movimentos de deglutição repetitivos e relutância alimentar, que muitas vezes precedem o episódio de vômito (FASCETTI & DELANEY, 2012).
Esses sinais devem ser valorizados, uma vez que impactam diretamente na ingestão alimentar e, consequentemente, na manutenção da condição corporal do animal.
5. Halitose
O hálito urêmico é um achado comum em estágios avançados da DRC em gatos, decorrente da excreção de compostos nitrogenados pela saliva (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
6. Úlceras em cavidade oral
Na DRC em gatos, a uremia pode causar lesões ulcerativas dolorosas na mucosa oral e na língua, interferindo diretamente na ingestão alimentar e na qualidade de vida (FASCETTI & DELANEY, 2012).
7. Hipertensão arterial
A DRC em gatos é a principal causa de hipertensão arterial sistêmica. O quadro pode ocorrer em qualquer fase da doença, não estando correlacionado com os valores séricos de creatinina. Em cães e humanos, a hipertensão é considerada fator de maior risco de progressão da doença. O mesmo cenário pode ser assumido para os gatos (IRIS, 2023).
A hipertensão é considerada moderada quando os valores da pressão arterial se encontram entre 160 e 179 mmHg. Já a hipertensão severa é considerada a partir de 180 mmHg (ACIERNO et al., 2018).
8. Anemia
A anemia não-regenerativa observada em gatos com doença renal crônica resulta da combinação da redução de produção de eritropoetina pelos rins, menor tempo de vida das hemácias circulantes, perda sanguínea intestinal e efeito das toxinas urêmicas na eritropoiese. Além disso, deficiências nutricionais e depleção de ferro contribuem para a anemia associada à DRC (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
9. Proteinúria
A presença de proteína na urina de gatos nefropatas é uma condição preditiva para o prognóstico dessa enfermidade. A proteinúria é um importante fator de risco na progressão da DRC, e valores na relação proteína/creatinina urinária (PU/CU) maiores que 0,4 estão associados ao menor tempo de sobrevida destes pacientes (IRIS, 2023).
10. Hiperfosfatemia e hiperparatireoidismo renal secundário
A fisiopatogenia do hiperparatireoidismo renal secundário (HRS) é multifatorial e envolve a retenção de fósforo, causando hiperfosfatemia, baixos valores de calcitriol circulantes e reduzidas concentrações de cálcio ionizado. A hiperfosfatemia e o HRS são os principais fatores envolvidos na progressão da DRC em gatos, sendo o paratormônio (PTH) considerado a principal toxina urêmica envolvida (BESTWICK & GEDDES, 2025).
Pacientes com o produto das concentrações de cálcio e fosfatos séricos maiores que 55 a 60 mg/dL possuem maior risco de calcificação de tecidos moles (IRIS, 2023).
11. Hipocalemia
A depleção de potássio é um achado comum na DRC em gatos. Anorexia, dietas acidificantes, acidose metabólica, poliúria/polidipsia e vômito podem contribuir com a hipocalemia.
A hipocalemia nos felinos pode agravar quadros de anorexia, além de causar prostração, fraqueza muscular e ventroflexão cervical. Para completar, a hipocalemia pode reduzir a taxa de filtração glomerular (nefropatia hipocalêmica), piorando o quadro renal instalado (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
12. Acidose metabólica
O gato com doença renal crônica possui menor excreção de íons hidrogênio, resultando em acidose metabólica. Manifestações clínicas resultantes da acidose metabólica são similares às manifestações urêmicas e envolvem anorexia, náusea, vômito e prostração (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
13. Alterações neurológicas
Convulsões, tremores e letargia podem surgir em pacientes acometidos pela DRC felina, como resultado do desequilíbrio eletrolítico e da encefalopatia urêmica (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
Diagnóstico da doença renal crônica felina
O diagnóstico precoce e o correto estadiamento da DRC em gatos são determinantes para um prognóstico mais favorável. No entanto, muitos felinos têm a doença identificada apenas em situações de crise aguda, quando ocorre a descompensação do quadro crônico. Nesses casos, é fundamental realizar o suporte emergencial imediato, visando estabilizar o paciente antes de instituir o tratamento de manutenção a longo prazo (BESTWICK & GEDDES, 2025; IRIS, 2023).
Também é imprescindível que o médico-veterinário se atente a investigar possíveis doenças concomitantes, como pielonefrite bacteriana, que podem agravar o quadro e acelerar a progressão da lesão renal se não tratadas adequadamente (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
Atenção: a creatinina isolada não é suficiente para diagnosticar e estadiar a DRC em gatos
Apesar de amplamente utilizada, a creatinina sérica isolada não deve ser considerada parâmetro único para diagnóstico e estadiamento da DRC em gatos. Muitos pacientes felinos apresentam valores de creatinina dentro da normalidade, mesmo já estando em estágios iniciais da doença, devido à baixa sensibilidade do marcador e à variação fisiológica da massa muscular (IRIS, 2023; BESTWICK & GEDDES, 2025).
Infelizmente, ainda é comum observar a prática de se apoiar exclusivamente nesse exame, mesmo em grandes centros urbanos e em regiões com alto acesso a recursos diagnósticos. Vale ressaltar que o uso integrado de SDMA (dimetilarginina simétrica), proteinúria e pressão arterial sistêmica é essencial para a correta classificação da DRC em gatos (IRIS, 2023).
Principais exames laboratoriais que auxiliam em casos de DRC em felinos
O protocolo diagnóstico da DRC em gatos deve incluir uma gama de exames laboratoriais, como:
- hemograma completo, para avaliação do estado inflamatório e identificação de anemia não regenerativa (CALHAU et al., 2024);
- bioquímica sérica: creatinina, ureia, fósforo, cálcio, potássio e sódio, permitindo monitorar a função renal e distúrbios eletrolíticos (ETTINGER & FELDMAN, 2010);
- exame de urina I: densidade urinária persistentemente baixa é indicativa de perda da capacidade de concentração renal (IRIS, 2023);
- relação proteína/creatinina urinária (PU/CU): fundamental para estadiamento e monitoramento da proteinúria, que impacta diretamente no prognóstico (IRIS, 2023);
- concentração sérica SDMA: importante para confirmação do diagnóstico e estadiamento da DRC, em conjunto com a creatinina. SDMA persistentemente alta (> 14 µg/dl) pode ser usada para diagnosticar precocemente a DRC (IRIS, 2023).
Exames de imagem também complementam o diagnóstico e o acompanhamento
O ultrassom abdominal não diagnostica a DRC em gatos de forma isolada, mas fornece informações importantes, como alterações estruturais renais, presença de urolitíase, sinais de cistite ou pielonefrite (CALHAU et al., 2024).
Além disso, permite a coleta de amostras urinárias por cistocentese guiada, assegurando maior qualidade para a urocultura e antibiograma.
Estadiamento da DRC em gatos
É fundamental ainda compreender em qual estágio está a afecção. Saiba como realizar o estadiamento da doença renal crônica em gatos.
Classificação IRIS para a DRC felina
A doença renal crônica em gatos, atualmente, é classificada pela IRIS kidney em quatro estágios:
Estágio 1: nessa fase, não-azotêmico, o animal já apresenta alguma anormalidade renal macroscópica (alteração no tamanho à palpação), alteração em exames de imagem (tamanho, ecogenicidade, forma), proteinúria renal, alteração histológica ou perda de capacidade de concentração urinária. Valores de creatinina menores que 1,6 mg/dL.
Estágio 2: com a progressão da doença, nesta fase o animal já possui diminuição da taxa de filtração glomerular e possui azotemia discreta, bem como manifestações clínicas brandas. Perda de cerca de 2/3 da função dos néfrons. Valores de creatinina entre 1,6 mg/dL e 2,8 mg/dL.
Estágio 3: animal com azotemia renal moderada, com diversas manifestações clínicas presentes. Valores de creatinina entre 2,8 mg/dL e 5,0 mg/dL.
Estágio 4: azotemia importante, síndrome urêmica. Valores de creatinina maiores que 5,0 mg/dL.

Como fazer o estadiamento da DRC em felinos
O estadiamento é realizado após a confirmação do diagnóstico da DRC em gatos, e consiste primeiramente na avaliação da concentração de creatinina e SDMA no paciente em jejum, estável e hidratado.
O gato é, então, subestadiado com base na proteinúria e classificado como 1) não-proteinúrico, 2) proteinúrico borderline ou 3) proteinúrico, e com base na pressão arterial, que indica o risco de lesão em órgão-alvo (LOA), conforme detalhado abaixo.


Tratamento de doença renal crônica em gatos
O manejo da DRC em gatos deve considerar o momento do diagnóstico. Se identificada em exames de rotina, em estágios iniciais, o foco deve ser em retardar a progressão e monitorar periodicamente.
Já quando diagnosticada durante uma crise de agudização, a prioridade é a estabilização clínica, com fluidoterapia e suporte emergencial, para depois instituir o tratamento de manutenção (BESTWICK & GEDDES, 2025; IRIS, 2023).
Tomados esses cuidados, saiba mais os tratamentos para a DRC em gatos.
1. Suporte e tratamento medicamentoso
O tratamento da DRC em gatos deve ser individualizado e multimodal, incluindo:
- fluidoterapia: em casos de desidratação grave, fluidos subcutâneos são ineficazes devido à vasoconstrição periférica, sendo a via intravenosa mais indicada (ETTINGER & FELDMAN, 2010);
- antieméticos (como maropitant, ondansetrona ou metoclopramida), essenciais para controle de náuseas e vômitos (BESTWICK & GEDDES, 2025);
- quelantes de fósforo em casos de hiperfosfatemia persistente, reduzindo a progressão da doença (FASCETTI & DELANEY, 2012);
- reposição de potássio, quando indicada, principalmente em gatos com hipocalemia (IRIS, 2023);
- estimulantes de apetite (ex. mirtazapina), que devem ser prescritos apenas após o adequado controle da náusea. A utilização precoce sem esse cuidado pode gerar desconforto adicional, visto que o animal sente fome, mas permanece nauseado, aumentando o estresse (FASCETTI & DELANEY, 2012).
2. Manejo nutricional
A nutrição é pilar fundamental no tratamento da DRC felina. A alimentação voluntária deve ser estimulada através da oferta de alimentos altamente palatáveis e, preferencialmente, em temperatura ambiente ou levemente aquecidos, com reforço positivo.
Porém, o paciente com doença renal crônica, que geralmente apresenta anorexia ou hiporexia, pode exigir estratégias específicas:
- após controle da náusea, a reintrodução alimentar deve ser gradual, evitando grandes volumes de alimento em animais que ficaram em jejum prolongado, devido ao risco de síndrome da realimentação (PIBOT et al., 2010);
- em casos refratários, se houver perda de 10 a 15% de peso corporal associada a uma diminuição de massa muscular ou condição corporal e quando houver ingestão insuficiente de alimentos, pode-se considerar a colocação de sondas esofágicas ou nasoesofágicas para suporte nutricional após estabilização clínica (ETTINGER & FELDMAN, 2010).
Quando a ração renal deve ser indicada para gatos com DRC?
A abordagem nutricional é ponto-chave no tratamento coadjuvante da DRC em gatos, uma vez que ajustes dietéticos em teores de macro e microelementos são comprovadamente eficazes para amenizar as consequências metabólicas da azotemia e proporcionar maior expectativa de vida aos animais.
- O alimento renal tem como principais objetivos:
- retardar a progressão da doença;
- aumentar o tempo de sobrevida do animal;
- amenizar os sinais clínicos;
- melhorar a qualidade de vida do paciente.
O paciente renal crônico deve ter sua dieta ajustada de acordo com o estadiamento DRC, segundo as diretrizes IRIS (2023). Além da adequação da dieta, a ingestão hídrica deve ser monitorada, visando manter o paciente devidamente hidratado.
No estágio 1 sem proteinúria, o alimento Royal Canin® Gatos Idosos Castrados 12+ é indicado. Oferece nível moderado de gordura para manter o peso ideal; limita as consequências do envelhecimento sobre a função cognitiva, mobilidade e estresse oxidativo; contribui para a manutenção da função renal e auxilia na manutenção da saúde do trato urinário dos gatos com mais de 12 anos de idade.
Já quando o paciente com doença renal crônica for enquadrado no estágio 1 com proteinúria, ou nos estágios 2, 3 ou 4, é indicada a prescrição da dieta renal. Royal Canin® Renal Feline e Renal Special Feline são formulados com baixo teor de fósforo e teor moderado de proteína de alta qualidade para apoiar a função renal, ajudando na qualidade de vida do gato.
Ambos os alimentos possuem conteúdo energético adaptado para reduzir o volume da refeição e ajudar a compensar a diminuição do apetite. Contam ainda com um perfil aromático específico e com formato de croquete dedicado para ajudar a estimular o apetite do gato, principalmente em casos de aversão alimentar.
O infográfico abaixo detalha o estadiamento e o manejo alimentar na DRC em gatos e cães:

Detalhes da Doença Renal Crônica em gatos e cães e do manejo nutricional adequado de acordo com o estágio da afecção
Saiba mais sobre o manejo alimentar na DRC:
- O controle do fósforo para o paciente com doença renal crônica
- O papel da nutrição na insuficiência renal em cães
3. Acompanhamento especializado com nefrologista
O encaminhamento dos gatos com DRC para o nefrologista veterinário pode ser indicado em diferentes momentos:
- se o diagnóstico ocorreu em exames de rotina, o especialista poderá traçar um plano de acompanhamento mais detalhado e preventivo;
- quando a DRC é identificada em crise de agudização, a avaliação especializada logo após a estabilização — ou até mesmo durante a internação, quando disponível — contribui para reduzir o risco de novas crises e melhorar a qualidade de vida do paciente (BESTWICK & GEDDES, 2025).
A importância dos check-ups e consultas de rotina na prevenção da DRC felina
Os check-ups periódicos são essenciais para a detecção precoce da DRC em gatos, especialmente em felinos idosos. Exames anuais de sangue, urina e aferição da pressão arterial possibilitam a identificação de alterações iniciais antes do surgimento dos sinais clínicos evidentes.
A intervenção precoce é a estratégia mais eficaz para aumentar a sobrevida e manter a qualidade de vida do paciente acometido (CALHAU et al., 2024; IRIS, 2023).
Perguntas e respostas sobre a DRC em gatos
Abaixo, respondemos às dúvidas mais frequentes sobre a doença renal crônica em gatos.
Quais exames laboratoriais são essenciais para o diagnóstico da DRC em felinos?
Hemograma, creatinina, ureia, eletrólitos (sódio, potássio, fósforo), além de urina I com relação proteína/creatinina urinária (PU/CU), SDMA.
A dosagem de creatinina é suficiente para o diagnóstico de DRC em gatos?
Não. Para o diagnóstico da DRC, a creatinina deve ser associada à SDMA sérica, além da relação PU/CU.
Todos os gatos com doença renal crônica devem comer ração renal?
Não. A ração renal é indicada de acordo com as diretrizes IRIS para o estadiamento da DRC, sendo recomendada para animais no estágio 1 que apresentam proteinúria e a partir do estágio 2 da afecção.
Por que gatos com doença renal crônica fazem ventroflexão de pescoço?
A ventroflexão está associada à hipocalemia, que leva à fraqueza muscular generalizada, primeiramente evidenciada na musculatura.
Existe hemodiálise para gatos?
Sim. Já existem centros especializados que oferecem o procedimento para gatos.
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Referências:
ACIERNO, M.J. et al. ACVIM consensus statement: Guidelines for the identification, evaluation, and management of systemic hypertension in dogs and cats. J. Vet. Intern. Med, v.32, n.6, 2018. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30353952/. Acesso em: 12 set. 2025.
BESTWICK, J.P.; GEDDES, R.F. When should we start to treat feline CKD: A narrative review of early diagnosis and the evidence for pre-azotaemic intervention. Vet. Journal, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40763836/. Acesso em: 12 set. 2025.
CALHAU, D.S. et al. Doença renal crônica em gatos. Pubvet, v.18, n.02, 2024. Disponível em: https://ojs.pubvet.com.br/index.php/revista/article/view/3493. Acesso em: 12 set. 2025.
ETTINGER, S.J.; FELDMAN, E.C. Textbook of Veterinary Internal Medicine. Saunders Elsevier, 2010.
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