Passo a passo para o plano alimentar no paciente nefropata

Passo a passo para o plano alimentar no paciente nefropata

A abordagem nutricional é ponto-chave no tratamento coadjuvante de gatos e cães com doenças renais. Confira neste artigo como instituir a terapia dietética na prática!

O manejo alimentar do paciente nefropata representa grande desafio aos médicos-veterinários e aos tutores. Gatos e cães com doença renal crônica (DRC) frequentemente se apresentam nauseados e não raro desenvolvem aversão alimentar. Isso acontece pois os resíduos eliminados normalmente pelos rins começam a se acumular no sangue quando há insuficiência renal, e o acúmulo destes metabólitos atua em áreas do sistema nervoso central responsável pelo controle da fome e apetite. Além disso, a presença de gastrite e estomatites também podem comprometer a ingestão alimentar nestes pacientes.

Neste artigo abordaremos passo-a-passo para a introdução de um plano alimentar adequado a pacientes nefropatas. Entretanto, antes de iniciar o manejo nutricional, qualquer distúrbio hidroeletrolítico e ácido-básico deve ser corrigido por meio de tratamento clínico, principalmente se o paciente estiver sofrendo uma crise urêmica, a fim de maximizar as chances de aceitação da dieta coadjuvante.

Etapas para se instituir a abordagem nutricional coadjuvante em pacientes nefropatas

Manutenção do peso

Primeiramente, deve-se calcular a quantidade ideal de calorias diárias para que o animal mantenha o escore de condição corporal (ECC) adequado (entre 5 e 6 na escala de 9 pontos).

Para mais informações sobre a avaliação da condição corpórea, acesse: Avaliação nutricional: 5º parâmetro vital em gatos e cães

Estudos evidenciam que pacientes nefropatas que apresentavam bom ECC tiveram maior tempo de sobrevida. Os cálculos abaixo podem ser ponto de partida para determinar a necessidade energética diária dos animais:

  • Cão estável: 95 a 130 kcal/kg0,75
  • Gato estável: 100 kcal/kg0,75
  • Cão ou gato em crise urêmica: 70 kcal/kg0,75

Embora as equações preditivas possam ser utilizadas como ponto de partida para determinar a ingestão diária de calorias, essa tolerância calórica deve ser avaliada regularmente, com base nas alterações do peso e do escore de condição corporal, já que as necessidades energéticas podem variar na população de gatos e cães. Reavaliações devem ser realizadas periodicamente e reajustes devem ser feitos, se necessário.

Seleção da dieta e da via de administração

Paciente estável

Existem diversas dietas comerciais formuladas para pacientes nefropatas disponíveis em diversas apresentações (seca, enlatada, pedaços ao molho, etc.). Suas formulações e palatabilidade variam, bem como outros fatores nutricionais que podem ser importantes para o animal. A ROYAL CANIN® oferece três versões de alimentos para cães com DRC e três para gatos, o que permite maior possibilidade de combinações e versatilidade na dieta.

Para pacientes estáveis que estejam se alimentando de forma voluntária, a introdução da dieta específica é recomendada de forma gradual e fora do ambiente hospitalar, para que o animal não faça associações que possam interferir na aceitação do alimento.

O uso de dietas renais de alta palatabilidade é importante para estimular o apetite e manter a ingestão consistente da quantidade necessária. Alimentos secos podem ser utilizados de forma isolada ou em combinação com alimentos úmidos (mix feeding), o que proporciona benefícios adicionais ao paciente, como textura diferenciada e maior ingestão hídrica. De fato, estudos demonstraram que a mistura de alimento úmido com outro seco pode aumentar a aceitação e ingestão nos cães em até 17%.

Após determinar a necessidade energética diária pelos cálculos de estimativa acima, deve-se calcular a quantidade de alimento em gramas de acordo com sua energia metabolizável. Exemplo: se um cão necessita de 450 kcal/dia e o alimento fornece EM de 4.100 kcal/kg, este animal precisará de 109 g deste alimento para suprir suas necessidades nutricionais.

Paciente crítico

Para pacientes que não estão se alimentando de forma voluntária em quantidades suficientes, deve-se avaliar a possibilidade de colocação de sonda para fornecimento das necessidades diárias de alimento. Primeiramente, avalia-se a possibilidade de colocação de sonda nasoesofágica, devido a simplicidade, custo e ausência da necessidade de anestesia. Caso não seja possível, a sonda esofágica se torna uma opção interessante, de fácil colocação, que permite a administração de alimento com textura mais espessa e que pode ser mantida no paciente por mais tempo.

Em alguns países, existem dietas renais de textura líquida especificamente formuladas para a administração através de sondas em animais internados. No entanto, qualquer dieta renal de textura úmida pode ser batida no liquidificador e administrada pela mesma via. Veja como:

  • Selecione a dieta renal apropriada para o paciente e verifique sua densidade calórica. Por exemplo: RENAL FELINE WET com energia metabolizável (EM) de 1.277 kcal/kg. Cada sachê possui 85g, o que significa que 1 sachê contém 108 kcal;
  • Coloque uma determinada quantidade no liquidificador e adicione água o suficiente para obter uma textura que possa ser administrada pela sonda de alimentação. O volume de água deve ser contabilizado no plano de administração de líquidos (ex: 50 ml);
  • Determine o volume final da mistura e calcule sua densidade energética. Por exemplo, se 50 ml de água forem adicionados ao conteúdo de 1 sachê (108 kcal) e o resultado dessa mistura for de 150 ml, cada ml fornecerá 0,72 kcal;
  • A partir do cálculo de estimativa das necessidades energéticas, calcule o volume da mistura que o paciente deverá receber diariamente. Por exemplo, se a necessidade energética diária de um felino de 4 kg for de 175 kcal, será necessário administrar 243 ml desta mistura, sempre fracionando a quantidade total em diversas refeições ao dia;
  • Após cada alimentação, deve-se higienizar a sonda com pequena quantidade de água para evitar entupimento e obstrução. A sonda também pode ser utilizada como via de administração da necessidade hídrica, porém o ideal é que o paciente seja sempre estimulado a ingerir água voluntariamente;
  • A mistura pode ser armazenada em geladeira por, no máximo, 24 horas. Agite e aqueça à temperatura corporal antes de administrar uma nova refeição.

Uso de quelantes de fosfato intestinal

A manutenção dos níveis de fosfato sérico dentro de uma faixa alvo é um dos objetivos do manejo da DRC. Se a restrição de fósforo na dieta por si só não for suficiente, é recomendável a adição de quelantes desse elemento, com a sua dose titulada até fazer efeito.

Para a sua eficácia, esses quelantes devem ser administrados juntamente com os alimentos ou muito próximos das refeições. A administração desses quelantes pode diminuir a palatabilidade do alimento, mas esse problema pode ser contornado com o uso das sondas de alimentação quando necessário.

O cátion contido nesses agentes liga-se ao fosfato no lúmen intestinal, formando um complexo insolúvel e não absorvível, o qual é eliminado pelas fezes.

Conclusões

A nutrição adequada constitui a base do tratamento da DRC em gatos e cães, pois retarda a evolução da doença e melhora a qualidade de vida dos pacientes. As modificações nutricionais devem ser instituídas nos primeiros estágios da doença e, subsequentemente, ajustadas às necessidades de cada animal, com base no monitoramento estreito e rigoroso dos parâmetros clínicos e laboratoriais.

linha Renal

A ROYAL CANIN® oferece o portfólio mais completo de soluções nutricionais para gatos e cães com DRC, em diferentes apresentações, que favorecem o manejo alimentar e estimulam o apetite de pacientes com apetite comprometido. Acesse agora mesmo nossa ferramenta Calculadora de Prescrição para facilitar o cálculo das quantidades de alimento adequadas para atender as necessidades energéticas e nutricionais dos pacientes enfermos.

Referências bibliográficas

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LEFEBVRE, S. Clinical findings in cats and dogs with chronic kidney disease. Veterinary Focus, 2013.

VILLAVERDE, C. Nutritional management of chronic kidney disease. Proceedings of the 34th World Small Animal Veterinary Congress. WSAVA. São Paulo, 2009.