Shunt portossistêmico em cães: saiba o que é, como diagnosticar e tratar
Links rápidos:
- O que é o Shunt Portossistêmico?
- Possíveis sinais clínicos em cães com shunt portossistêmico
- A importância do diagnóstico diferencial com outras doenças
- Como é feito o diagnóstico do shunt portossistêmico: veja passo a passo
- Tratamento do shunt portossistêmico nos cães
- Shunt em cães: prognóstico e possíveis complicações
A velocidade diagnóstica e a abordagem terapêutica são essenciais para a saúde do paciente com shunt portossistêmico. Saiba o que é e como reconhecer manifestações clínicas dessa afecção!
O shunt portossistêmico em cães é uma anomalia vascular significativa que pode comprometer a função hepática e provocar manifestações clínicas neurológicas, gastrintestinais e sistêmicas. Embora seja frequentemente associado a animais jovens, a condição também pode afetar cães adultos, e deve ser considerada em diagnósticos diferenciais de sinais neurológicos ou hepáticos crônicos.
O reconhecimento precoce, aliado a um protocolo diagnóstico eficiente, é essencial para o manejo adequado do paciente com shunt portossistêmico, resultando em um prognóstico mais favorável.
O que é o Shunt Portossistêmico?
O shunt portossistêmico, também conhecido como desvio portossistêmico, é uma anomalia vascular caracterizada pela presença de uma comunicação entre a circulação portal e a circulação venosa sistêmica, por meio de um ou mais vasos anômalos, permitindo que grande parte do sangue não passe pelo parênquima hepático antes de ir para circulação sistêmica.
Como consequência, compostos nitrogenados, toxinas, fármacos e outras substâncias normalmente metabolizadas pelo fígado são liberados diretamente na circulação sistêmica, o que causa efeitos deletérios ao organismo, desenvolvendo manifestações clínicas multissistêmicas, como encefalopatia hepática, hipersalivação, distúrbios gastrointestinais e alterações urinárias (por exemplo, formação de urólitos de biurato de amônio).
De acordo com Konstantinidis et al.1 (2023a), o shunt portossistêmico em cães pode ser classificado em congênito ou adquirido, sendo que cada forma apresenta peculiaridades anatômicas, fisiopatológicas e prognósticas distintas. Falaremos disso a seguir.
Diferença entre shunt congênito e adquirido
O shunt portossistêmico congênito resulta de falhas embriológicas na regressão dos vasos venosos, que podem ser intra-hepáticos (mais comuns em raças grandes, como Irish Wolfhound e Labrador Retriever) ou extra-hepáticos (mais comuns em raças pequenas, como Yorkshire Terrier, Maltês e Schnauzer) (CAMARGO et al., 2019; KONSTANTINIDIS et al1., 2023).
Esses casos frequentemente se manifestam ainda nos primeiros meses de vida, mas não estão restritos a filhotes, pois podem permanecer como quadros subclínicos sem diagnóstico até a idade adulta.
Já o shunt portossistêmico adquirido ocorre como consequência de hipertensão portal crônica, geralmente associada a doenças hepáticas severas, como fibrose, cirrose ou displasia hepática microvascular (ANGLIN et al., 2022).
Nesses casos, múltiplos vasos colaterais se desenvolvem para aliviar a pressão venosa, configurando um padrão geralmente multifocal e com prognóstico reservado.
Apenas os cães podem ser afetados?
Não. Embora o shunt portossistêmico seja mais comum em cães, gatos também podem ser acometidos, principalmente por shunts congênitos extra-hepáticos. Em felinos, é comum a presença de sinais neurológicos, hipersalivação e ataxia geralmente a partir das primeiras semanas de vida.
Barbosa (2024) descreve um caso clínico em felino diagnosticado com shunt portossistêmico congênito, reforçando que a condição também deve ser considerada em animais dessa espécie com sintomatologia hepática ou neurológica.
Possíveis sinais clínicos em cães com shunt portossistêmico
Em quadros de shunt portossistêmico em cães, os sinais clínicos são variáveis e inespecíficos, podendo estar relacionados ao trato gastrointestinal, ao sistema urinário e ao sistema nervoso central.
Os mais comumente observados incluem:
- distúrbios gastrintestinais, como vômitos, diarreia, anorexia;
- alterações urinárias, como poliúria, hematúria, disúria, estrangúria, formação de cristais e urólitos;
- sinais neurológicos decorrentes de encefalopatia hepática, como letargia, depressão, desorientação, ataxia, convulsões, tremores ou coma;
- retardo no crescimento;
- baixa tolerância a medicamentos;
- perda de peso.
A severidade dos sinais depende do tipo de shunt, do fluxo sanguíneo desviado e da capacidade de compensação hepática.
Os animais acometidos por shunt portossistêmico adquirido não costumam apresentar sinais relacionados diretamente ao quadro, como ocorre com os pacientes que possuem shunt portossistêmico congênito, pois os desvios adquiridos são uma forma de adaptação do sistema vascular ao aumento persistente da pressão na veia porta (BARBOSA, 2024).
A importância do diagnóstico diferencial com outras doenças
Como não existe sinal clínico patognomônico para shunt portossistêmico em cães, é essencial que o médico-veterinário considere uma ampla lista de diagnósticos diferenciais, sobretudo para distúrbios neurológicos e hepáticos. Sendo assim, deve-se considerar questões como:
- encefalopatias infecciosas (cinomose, toxoplasmose);
- disfunções neurológicas primárias (tumores, epilepsia idiopática);
- intoxicações;
- hidrocefalia;
- distúrbios metabólicos (causas de hipoglicemia, hipocalemia);
- doenças hepáticas inflamatórias (hepatites crônicas, colangio-hepatite);
- enfermidades gastrointestinais (obstrução, corpo estranho, doença intestinal inflamatória);
- afecções do trato urinário (cistite, urolitíase, nefropatia congênita ou adquirida).
Como é feito o diagnóstico do shunt portossistêmico: veja passo a passo
Além do diagnóstico diferencial, uma anamnese completa, um exame físico detalhado e testes laboratoriais e exames de imagem são indispensáveis para o diagnóstico do shunt portossistêmico. Saiba mais detalhes.
1. Histórico e anamnese
Na consulta clínica, a anamnese deve investigar:
- idade de aparecimento dos sinais clínicos;
- dieta atual do paciente;
- uso de medicamentos hepatotóxicos;
- episódios de distúrbios neurológicos;
- retardo de crescimento ou baixa performance;
- se já houve diagnóstico de urolitíase.
Raças conhecidamente predispostas ao shunt portossistêmico merecem atenção redobrada.
O exame físico pode revelar baixo escore corporal, sinais neurológicos, dor abdominal, desidratação, halitose.
2. Exames de imagem
Quando o médico-veterinário estiver diante de um caso suspeito para shunt portossistêmico em cães, a ultrassonografia abdominal com Doppler deve ser o primeiro exame de imagem a ser solicitado.
Nele, é possível identificar: microhepatia, visibilidade reduzida do ramo hepático e da veia porta, presença de um vaso anômalo ou rins aumentados e relação reduzida da veia porta/aorta.
Em casos de shunt portossistêmico congênito, turbulência no fluxo sanguíneo na região da inserção do shunt no sistema venoso sistêmico também pode ser identificada.

Além disso, a portografia por tomografia computadorizada contrastada (angio-TC) é o método mais sensível e específico para confirmação do tipo, localização e número de shunts, sendo considerada o exame padrão-ouro para o diagnóstico definitivo do shunt portossistêmico e planejamento cirúrgico (KONSTANTINIDIS et al.1, 2023).

3. Exames laboratoriais
Os exames sanguíneos hematológicos, bioquímicos e urinálise de um animal com shunt portossistêmico podem evidenciar:
- anemia microcítica normocrômica não regenerativa;
- leucocitose;
- baixas concentrações de ureia e creatinina;
- hipoalbuminemia, hipoproteinemia, hipocolesterolemia e hipoglicemia leve;
- ALT, FA e AST leve a moderadamente elevadas;
- cristais de biurato de amônio na urinálise.
É importante ressaltar que nenhum desses exames confirma isoladamente o diagnóstico, mas em conjunto com imagem e histórico clínico são fundamentais para o diagnóstico conclusivo do shunt portossistêmico em cães (PRESA, 2023).
Tratamento do shunt portossistêmico nos cães
A correção cirúrgica do shunt portossistêmico, que pode ser através de técnicas de ligadura total, atenuação gradual ou embolização transvenosa percutânea com mola, é o tratamento de escolha, por ter como objetivo restabelecer o fluxo sanguíneo portal normal.
Enquanto isso, o tratamento clínico para shunt portossistêmico em cães é indicado para estabilização do paciente antes da cirurgia corretiva, em animal que não apresente melhora pós cirúrgica suficiente, quando a correção cirúrgica não é possível devido à localização ou tipo de derivação e em pacientes de alto risco cirúrgico.
As estratégias terapêuticas incluem a recomendação de:
- dieta restrita em proteínas;
- lactulose para diminuir a absorção de amônia e outras neurotoxinas;
- antibióticos (metronidazol, neomicina, ampicilina);
- fluidoterapia.
Vale ressaltar que cães e gatos com shunt portossistêmico congênito sem sinais clínicos de encefalopatia hepática não devem ser submetidos a restrição proteica severa (especialmente aqueles com má condição corporal), pois isso pode levar ao aumento do catabolismo muscular, promovendo ainda mais a hiperamonemia (KONSTANTINIDIS et al.2, 2023).
Shunt em cães: prognóstico e possíveis complicações
As principais complicações após a correção cirúrgica para atenuação ou resolução do shunt portossistêmico em cães incluem convulsões pós-operatórias, hipertensão portal, recorrência dos sinais clínicos e hipoglicemia.
O prognóstico de pacientes acometidos por shunt portossistêmico varia conforme o tipo do shunt e a resposta ao tratamento. Em casos pós-cirúrgicos, apesar das possíveis complicações, o prognóstico geralmente é bom. Porém, quando há múltiplos shunts adquiridos, o prognóstico é de reservado a ruim, uma vez que a condição é secundária à hipertensão portal grave (ANGLIN et al., 2022).
Animais com shunt portossistêmico que não são submetidos à correção cirúrgica tendem a ter sua função hepática progressivamente deteriorada, agravando o quadro. Embora o manejo clínico possa amenizar os sintomas, o prognóstico é consideravelmente mais reservado.
A importância do manejo nutricional
A dieta desempenha um papel fundamental no auxílio do controle da encefalopatia hepática e na melhora do estado clínico dos pacientes acometidos por shunt portossistêmico. É recomendada a administração de alimentos formulados com baixo teor proteico, níveis controlados de cobre, antioxidantes e suporte hepático.
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Referências:
ANGLIN, E.V. et al. Clinical characteristics of, prognostic factors for, and long-term outcome of dogs with multiple acquired portosystemic shunts: 72 cases (2000–2018). Journal of the American Veterinary Medical Association, v.260, 2022. Acesso em: 15 maio 2025.
BARBOSA, L.M. Shunt portossistêmico congênito extra-hepático em um felino. UFMG, 2024. Acesso em: 15 maio 2025.
CAMARGO, J.F. et al. Desvio portossistêmico congênito em cães: Revisão. Pubvet, v.13, n.8, 2019. Acesso em: 15 maio 2025.
KONSTANTINIDIS, A.O. et al.1 Congenital Portosystemic Shunts in Dogs and Cats: Classification, Pathophysiology, Clinical Presentation and Diagnosis. Vet. Sci., v.10, n.2, 2023. Acesso em: 15 maio 2025.
KONSTANTINIDIS, A.O. et al.2 Congenital Portosystemic Shunts in Dogs and Cats: Treatment, Complications and Prognosis. Vet. Sci., v.10, n.5, 2023. Acesso em: 15 maio 2025.
PRESA, S.C.B. Diagnóstico de desvio portossistêmico em cães: relato de casos. UFRGS, 2023. Acesso em: 15 maio 2025.
