Dipilidiose em cães e gatos: diagnóstico, manejo e prevenção do parasito
Links rápidos:
- Conhecendo o Dipilidium caninum
- Como a Dipilidiose pode afetar a saúde dos cães e gatos?
- Diagnóstico de Dipilidiose em cães e gatos
- Possibilidades de tratamento
- A importância do controle de ectoparasitas para a prevenção da dipilidiose em cães e gatos
- Outras recomendações para o controle de verminoses e demais afecções nos pets
A dipilidiose é uma afecção com implicações significativas para a saúde dos pets. Por isso, é imprescindível que o médico-veterinário adote algumas medidas na rotina clínica e saiba como orientar os tutores em relação ao seu controle e prevenção!
A dipilidiose é uma parasitose causada por um cestódeo, que acomete principalmente cães e gatos de todas as idades, podendo também afetar humanos, esporadicamente. Este parasito é transmitido pela ingestão acidental de ectoparasitas, como as pulgas, e representa uma particular importância na Medicina Veterinária devido ao seu impacto na saúde dos animais de estimação e ao seu potencial zoonótico.
O conhecimento detalhado do ciclo de vida do agente etiológico, métodos de diagnóstico, manejo e prevenção são essenciais para o controle eficaz da dipilidiose. Entenda!
Conhecendo o Dipilidium caninum
O Dipylidium caninum, agente etiológico da dipilidiose, é a tênia que mais frequentemente acomete cães e gatos domésticos. É um cestódeo cuja forma adulta possui o corpo em forma de fita, segmentado, de tamanho médio de 50 centímetros de comprimento, pertencente ao filo Platyhelmintes, ordem Cyclophyllidea, família Dilepididae, que parasita o intestino delgado (TAYLOR et al., 2017).

Ciclo do agente: como ocorre a transmissão do Dipilidium caninum?
O ciclo de vida do Dypilidium caninum envolve dois hospedeiros. Os hospedeiros intermediários são geralmente pulgas (Ctenocephalides spp.) e, menos comumente, piolhos mastigadores (Trichodectes canis). Os hospedeiros definitivos incluem cães, gatos e, ocasionalmente, humanos.
Segmentos do parasita, ou proglotes grávidas, recentemente eliminados através das fezes dos hospedeiros definitivos são ativos e podem se arrastar pela região caudal do animal, ou, ainda, podem ser encontrados em sua caminha/coberta.
Cada proglote contém grande número de cápsulas de ovos, que são liberadas após a desintegração do segmento. Os ovos, então, quando ingeridos pelo estágio larval dos hospedeiros intermediários, tornam-se oncosferas que se desenvolvem, juntamente ao hospedeiro, até a forma de cisticercoides. Portanto, o cisticercoide que é a forma infectante do parasita está presente na pulga adulta.
A transmissão do Dypilidium caninum ocorre principalmente pela ingestão acidental de pulgas infectadas contendo os cisticercoides, durante o ato de autolimpeza, lambedura ou quando o animal se coça (BORGES et al., 2022).
Os cisticercoides, então, desenvolvem-se em vermes adultos no intestino delgado do hospedeiro definitivo, desenvolvendo a dipilidiose em gatos e em cães. Este ciclo é crucial para a disseminação e manutenção da infecção (CDC, 2024).

Como a Dipilidiose pode afetar a saúde dos cães e gatos?
A dipilidiose é capaz de afetar indivíduos de todas as idades, causando uma série de problemas de saúde nos cães e gatos. Os cestódeos adultos no intestino desses animais podem levar à subnutrição com consequente perda de peso, pois competem por nutrientes com o hospedeiro.
Além disso, sintomas gastrointestinais, como diarreia, podem resultar em quadro de desidratação e comprometimento geral da homeostase do organismo e do sistema imunológico do paciente afetado (CAMASSOLA et al., 2019; LITTLE et al., 2023).
Há, ainda, a eliminação de segmentos do parasito nas fezes, cuja aparência é bem parecida com grãos de arroz. Em grandes infestações, pode inclusive ocorrer obstrução intestinal.
A presença dos proglotes móveis ao redor da região anal pode causar grande desconforto devido ao prurido gerado, resultando, ainda, no hábito de lambedura excessiva ou até mesmo no ato de “arrastar o bumbum no chão”.
Diagnóstico de Dipilidiose em cães e gatos
O diagnóstico da dipilidiose pode ser realizado tanto por métodos clínicos quanto laboratoriais. Clinicamente, a observação de segmentos móveis do Dypilidium caninum nas fezes ou ao redor do ânus do paciente é indicativo de infestação.
Laboratorialmente, a confirmação é feita através da identificação de ovos ou proglotes do parasita em exames coproparasitológicos, através da utilização do método de Hoffmann, Pons e Janer, que tem como princípio a sedimentação simples (NELSON, COUTO, 2015).
Recentemente, testes de coproantígenos têm sido desenvolvidos para melhorar a detecção de infecções por Dypilidium caninum, oferecendo uma alternativa sensível e específica para a detecção da dipilidiose (LITTLE, S. et al., 2023).
A importância da anamnese durante a consulta veterinária
Uma anamnese detalhada é essencial para o diagnóstico eficaz e o controle das parasitoses, incluindo a dipilidiose. Os médicos-veterinários devem questionar rotineiramente sobre o controle de ectoparasitas e endoparasitas, incluindo a frequência e o tipo de tratamento utilizado.
Perguntas sobre a presença de outros animais na casa, inclusive de outras espécies, o histórico de infestações por pulgas e a introdução de novos pets podem fornecer pistas importantes sobre possíveis falhas no manejo preventivo.
A dependência exclusiva da administração de vermífugos periódicos sem a realização de exames coproparasitológicos pode comprometer a saúde do animal, além de não caracterizar uma forma de prevenção de verminoses (CDC, 2024).
A importância do exame coproparasitológico na rotina clínica
Incluir exames coproparasitológicos no check-up de rotina é fundamental para um diagnóstico preciso de doenças parasitárias como a dipilidiose. O diagnóstico correto permitirá que o médico-veterinário adote tratamentos específicos, evitando o uso indiscriminado de vermífugos, o que pode levar ao desenvolvimento de resistência parasitária (ROUSSEAU et al., 2022).
Vale salientar que a recomendação de vermifugação periódica sem a realização de exames específicos não previne as verminoses e pode mascarar infecções existentes. Adicionalmente, um protocolo de vermifugação de amplo espectro a cada 6 meses também não é capaz de tratar certas afecções, como por exemplo a giardíase.
Possibilidades de tratamento
O tratamento da dipilidiose canina e felina envolve a administração de antiparasitários eficazes, como o praziquantel. É importante tratar todos os animais contactantes, incluindo pets não convencionais, como ferrets e coelhos, que podem necessitar de cuidados específicos devido à toxicidade de certos fármacos.
Em filhotes, é importante seguir protocolos de vermifugação que incluam o controle de ectoparasitas, evitando o uso exclusivo de fármacos como o fembendazol, que pode não ser suficiente para o controle completo da parasitose (YADAV et al., 2019).
A importância do controle de ectoparasitas para a prevenção da dipilidiose em cães e gatos
A infecção por Dipylidium caninum é muito comum e depende da presença contínua dos ectoparasitas hospedeiros intermediários para sua endemicidade (TAYLOR et al. 2017).
Por isso, o controle da infestação por pulgas é essencial na prevenção da dipilidiose e depende do conhecimento sobre o ciclo de vida complexo desse ectoparasita (Figura 2), que envolve estágios de vida no hospedeiro e no ambiente.
Assim, é possível realizar o manejo assertivo a partir da prescrição de métodos eficazes, incluindo o uso de produtos tópicos, orais, coleiras e medidas ambientais para reduzir a população de pulgas e evitar infestações.

Lembre-se que a vigilância contínua e o controle de ectoparasitas é fundamental para prevenir a reinfestação e a transmissão, não somente da dipilidiose, mas também de outras doenças, como a micoplasmose.
Outras recomendações para o controle de verminoses e demais afecções nos pets
Consultas periódicas com o médico-veterinário são de grande valia para a saúde dos pets, permitindo a identificação precoce de problemas e a implementação ou o ajuste do manejo de medidas preventivas. Assim, o profissional é capaz de instruir os tutores sobre as necessidades e especificidades de seu companheiro, promovendo uma vida longa e de qualidade.
Além disso, a educação dos tutores sobre a importância de medidas preventivas e o reconhecimento dos sinais clínicos de infestações parasitárias é fundamental para o sucesso do controle de verminoses.
A nutrição adequada, suprindo todas as exigências de cada espécie, faixa etária ou de cada indivíduo, também tem um papel primordial por contribuir com a saúde geral dos animais de estimação, fornecendo nutrientes apropriados para o funcionamento satisfatório de todas as funções do organismo.
Por isso, a Royal Canin® possui uma linha completa de alimentos para cães e gatos, desenvolvida em parceria com pesquisadores especialistas em nutrição animal. Utilize a nossa ferramenta de Recomendação Nutricional para prescrever a melhor nutrição para cada paciente.
Referências:
BORGES, T.B. et al. Zoonoses parasitárias oriundas de fezes de cães no Brasil. Revista Ciência Animal, v.32, n.1, 2022. Acesso em: 22 julho 2024.
CAMASSOLA, J.L.T. et al. Prevalência de Dipylidium spp. em amostras fecais ambientais coletadas de praça no município de Capão do Leão/ RS, no periodo de julho de 2018 até julho de 2019. XXVIII Congresso de Iniciação Científica UFPEL, 2019. Acesso em 22 julho 2024.
CDC. Clinical Overview of Dipylidium. Dog and Cat Tapeworm, 2024. Acesso em: 22 julho 2024.
CDC. Clinical Care os Dipylidium. Dog and Cat Tapeworm, 2024. Disponível em: https://www.cdc.gov/dipylidium/hcp/clinical-care/index.html. Acesso em: 22 julho 2024.
DPDx – Laboratory Identification of Parasites of Public Health Concern. Dipylidium caninum. 2019. Acesso em: 13 setembro 2024.
ELSEMORE, D. et al. Immunoassay for detection of Dipylidium caninum coproantigen in dogs and cats. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation, v.35, n.6, 2023. Acesso em: 22 julho 2024.
LITTLE, S. et al. Diagnosis of canine intestinal parasites: Improved detection of Dipylidium caninum infection through coproantigen testing. Veterinary Parasitology, v.324, 2023. Acesso em: 22 julho 2024.
NELSON, R.W.; COUTO, C.G. Medicina interna de pequenos animais. Rio de Janeiro: Elsevier, 5 ed., 2015.
ROUSSEAU, J. et al. Dipylidium caninum in the twenty-first century: epidemiological studies and reported cases in companion animals and humans. Parasites & Vectors, v.15, n.131, 2022. Acesso em: 22 julho 2024.
ROYAL CANIN. The Dog Encyclopaedia. 2021.
TAYLOR, M.A.; COOP, R.L.; WALL, R.L. Parasitologia Veterinária. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 4ed., 2017.
YADAV, S. et al. Medical management of Dipylidium caninum infected female cat: A case report. International Journal oh Chemical Studies, v.7, n.1, 2019. Acesso em: 22 julho 2024.
