Tromboembolismo aórtico em gatos

Tromboembolismo aórtico em gatos
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Veja todos os detalhes desse grave problema de saúde que provoca a súbita paralisia dos membros pélvicos dos gatos e pode ser fatal

O tromboembolismo aórtico felino (TAF) é uma enfermidade grave, de etiologia multifatorial, que afeta os gatos. Geralmente, o problema está associado a uma cardiopatia preexistente (MOLINA VM et al; 2012).

Nesse quadro há a formação de um coágulo sanguíneo no coração do animal acometido, que se desprende e se desloca rumo a artéria aorta abdominal. O trombo formado, então, aloja-se na parte mais estreita da bifurcação da aorta, na região da pelve, impedindo o fluxo sanguíneo adequado para os membros posteriores, resultando em paralisia, dor intensa e outras complicações (FIGUEIROA et al; 2014).

O tratamento para o TAF é considerado de emergência, pois causa a paralisia dos membros posteriores e outros problemas e sequelas, incluindo o risco iminente de morte do paciente.

A taxa de mortalidade dos gatos acometidos após 36 horas do início do episódio pode chegar a 28% dos casos. Apesar desse dado alarmante, o rápido diagnóstico e a terapia adequada fazem toda a diferença para um melhor prognóstico de tromboembolismo aórtico em gatos. A taxa de sobrevivência global varia de 36 a 39% dos casos (MOLINA VM et al; 2012), porém, é importante lembrar que no Brasil o tratamento com fármacos eficazes para essa afecção ainda é restrito.

Neste artigo, iremos abordar os principais sinais clínicos, diagnóstico e tratamento do paciente acometido pelo tromboembolismo aórtico felino.

O que é o tromboembolismo aórtico felino?

Como já mencionamos, o tromboembolismo aórtico em gatos é uma grave enfermidade. Nela, ocorre a formação de um trombo no interior do átrio esquerdo, mais precisamente na região das aurículas. O trombo, então, se desprende e passa a ser um êmbolo, migrando pela circulação e se alojando na região de bifurcação da aorta abdominal, que nos felinos é uma região mais estreita anatomicamente.

O processo resulta na redução ou a interrupção total do fluxo sanguíneo nos membros pélvicos do gato, causando dor intensa além de complicações como isquemia, necrose tecidual e outros problemas, podendo levar o animal ao óbito (MOLINA VM et al; 2012).

Essa enfermidade pode acometer os membros pélvicos de forma unilateral ou bilateral. Porém, cerca de 71% dos casos de tromboembolismo aórtico em gatos acomete ambos os membros (LIMA, 2010).

Predisposição racial e fatores predisponentes

Em diversos casos, o TAF está associado a uma cardiopatia preexistente (MOLINA VM et al; 2012). Algumas condições são necessárias para predispor à formação de trombos em gatos com cardiopatias, como lesão endotelial na parede do vaso sanguíneo, que libera serotonina e tromboxanos; estase circulatória e alterações na coagulação (LIMA, 2010).

O tromboembolismo aórtico possui maior incidência em gatos machos, sem raça definida, com idade superior a 7 anos (LIMA, 2010) e com doenças cardiovasculares ou anomalias cardiogênicas.

Isso ocorre porque certos problemas cardíacos podem aumentar o risco de formação de coágulos sanguíneos no coração, como:

  • cardiomiopatia hipertrófica: há um aumento concêntrico na espessura do ventrículo fazendo com que haja uma redução do espaço interno, prejudicando diretamente o fluxo sanguíneo e favorecendo a formação de trombos. Geralmente é o fator mais comum associado ao tromboembolismo aórtico nos gatos. A cardiomiopatia hipertrófica pode acometer todos os gatos, porém há uma predisposição racial para raças como Maine coon, Ragdoll, Sphinx e outras;
  • arritmias cardíacas congênitas ou adquiridas: causam taquicardias ou bradicardias, acumulando volume sanguíneo dentro do coração e favorecendo a formação de coágulos.

Sinais clínicos de tromboembolismo aórtico felino

As principais manifestações clínicas observadas se apresentam em região de membros pélvicos dos animais. Elas são repentinas e com potencial de rápido agravamento quando não há tratamento rápido e adequado. A lista inclui (LIMA, 2010):

  • cianose;
  • pulso fraco ou ausente;
  • ausência de sangramento (por exemplo, corte profundo realizado na unha sem sangramento ativo;
  • sensibilidade ausente ou reduzida;
  • desconforto e dor na musculatura da região (pode haver contratura muscular, necrose e automutilação);
  • paresia (quando o tromboembolismo aórtico faz bloqueio parcial);
  • paralisia (quando o tromboembolismo aórtico faz bloqueio total);
  • alteração na temperatura corporal (os membros pélvicos ficam frios);
  • outros.

Diagnóstico

Como vimos, o exame físico é muito importante para o diagnóstico, pois com ele será possível verificar se o animal apresenta algum sinal clínico característico do tromboembolismo aórtico felino, avaliando a perfusão, a temperatura dos membros e outra possível manifestação da afecção.

É imprescindível realizar o diagnóstico diferencial para descartar lesões ortopédicas causadas por trauma, alterações em disco intervertebral, neoplasias em canal espinhal e coluna vertebral, além de outras afecções.

Os principais sinais que auxiliam no diagnóstico diferencial com problemas ortopédicos são a presença de cianose e membros gelados, causados diretamente pela ausência de circulação na região, o que geralmente não ocorre de forma aguda quando o problema é ortopédico. Sendo assim, é essencial que o Médico-Veterinário realize um exame físico minucioso visando um diagnóstico ágil e assertivo.

Uma minuciosa anamnese permite avaliar as manifestações clínicas e desde quando o animal apresenta tais sinais, se o paciente tem algum histórico de doença cardíaca preexistente e outras informações relevantes ao caso.

Exames complementares podem ser solicitados pelo Médico-Veterinário de acordo com cada caso, podendo envolver a realização de eletrocardiograma, ecocardiograma, doppler vascular, radiografias, bioquímicos e outros. O ecocardiograma é essencial para o diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica, possibilitando visualizar as alterações em câmaras cardíacas, como a diminuição do espaço interno.

Tratamento do tromboembolismo aórtico em gatos

O tratamento de escolha para tromboembolismo aórtico em gatos dependerá de cada caso. Para isso, é preciso ainda investigar se há outras enfermidades associadas, qual a idade do paciente, se a oclusão é recente e se o tipo de obstrução é parcial ou total.

  • Obstrução parcial: o gato pode desenvolver uma circulação colateral devido a angiogênese. Nesse caso, o Médico-Veterinário cardiologista irá avaliar as opções de tratamentos viáveis ao paciente e fará o controle também da doença de base (provável cardiomiopatia hipertrófica).
  • Obstrução total: em até 12 horas após a oclusão o tratamento pode ser cirúrgico, mas o profissional responsável pelo paciente deve avaliar também os riscos envolvidos e possibilidade de recidivas, de acordo com a gravidade do quadro, para escolher a melhor técnica para tratar o paciente.

Em casos de cirurgia, quando o membro volta a ser perfundido, pode ocorrer como complicação a hipercalemia em decorrência da isquemia, que concentra um excesso de potássio pela morte celular e que é liberado no organismo do animal após a desobstrução.

O tratamento, portanto, consiste em evitar a progressão do problema através da tentativa de redução/eliminação do trombo, de acordo com a técnica escolhida, além do monitoramento intensivo do paciente para avaliar funcionalidade dos membros afetados, frequência e ritmo cardíacos, progressão ou regressão da insuficiência cardíaca e arritmias, controle de azotemia, desequilíbrio eletrolítico e manejo nutricional (LIMA, 2010). Portanto, o paciente deve ter acompanhamento intensivo .

O uso de medicações para amenizar a gravidade do quadro e o desconforto do paciente é indicado em alguns casos, como (LIMA, 2010):

  • analgesia potente com o uso de fármacos opióides, como o Fentanil;
  • sedação, podendo ser realizada com butorfanol, tendo em vista o quadro cardíaco;
  • uso de anticoagulantes;
  • uso de aspirina (o fármaco evita a agregação plaquetária e pode auxiliar no tratamento desde que a dose utilizada não seja tóxica. Embora ainda não tenha sido totalmente comprovada a eficácia e aplicabilidade em felinos, alguns autores citam que o profissional cardiologista poderá indicar uma dosagem segura para o paciente, caso opte pela recomendação do medicamento);
  • uso de clopidogrel (alguns autores citam que pode ser associado a aspirina em alguns casos, conforme avaliação do quadro, porém a eficácia e aplicabilidade em felinos ainda não foi totalmente comprovada).

Formas de prevenção e recomendações aos tutores

Embora a possibilidade de recidivas do tromboembolismo aórtico seja alta e o prognóstico seja reservado ou ruim, existem medidas preventivas e que visam melhorar a qualidade de vida e bem-estar do animal.

O tutor deve seguir todas as orientações recebidas para que o tratamento preconizado tenha mais chances de ser bem-sucedido. O responsável pelo gato tem extrema importância na prevenção de novos episódios de embolização e também deve fornecer suporte geral ao pet, que inclui:

  • fazer acompanhamento com Médico-Veterinário cardiologista, com consultas e exames de rotina, incluindo exames de imagem como o ecodopplercardiograma principalmente em gatos com idade média e avançada, visando o diagnóstico precoce de doenças cardíacas como a cardiomiopatia hipertrófica;
  • evitar exercícios físicos intensos para animais cardiopatas;
  • evitar agitação ambiental e as situações de estresse;
  • promover o alívio da dor e proporcionar bem-estar em animais acometidos (pode ser recomendado fisioterapia, acupuntura, musicoterapia, uso de feromônios e outros);
  • adequar o manejo nutricional.

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Referências bibliográficas

MOLINA MV et al. Feline aortic thromboembolism: first case reported in Colombia. RCCP, v. 25, n. 4, p. 639-645, 2012. Disponível em: http://www.scielo.org.co/scielo.php?pid=S0120-06902012000400012&script=sci_arttext. Acesso em: 05 set. 2022.

FIGUEIROA, Lizbeth et al. Tromboembolismo aórtico felino: relato de caso. Rev Inv Vet Perú, v. 25, n. 3, p. 438-443, 2014. Disponível em: http://www.scielo.org.pe/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1609-91172014000300013. Acesso em: 05 set. 2022.

LIMA, Sílvia Amélia Ferreira. Tromboembolismo na aorta abdominal em felinos. 2010, p. 1-20. Dissertação – Graduação em Medicina Veterinária – Universidade “Júlio de Mesquita Filho”, Botucatu, 2010. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/119658/lima_saf_tcc_botfmvz.pdf?sequence=1#:~:text=Em%2090%25%20dos%20gatos%20a,dos%20casos%2C%20ou%20unilateralmente%20que. Acesso em: 05 set. 2022.