Feromônios felinos: o que são e como usar os feromônios sintéticos como terapia comportamental

Feromônios felinos: o que são e como usar os feromônios sintéticos como terapia comportamental

Algumas atitudes dos gatos podem não agradar muitos tutores. Entretanto, os feromônios felinos sintéticos podem ser indicados pelo Médico-Veterinário, auxiliando como terapia complementar na prevenção e correção de certos comportamentos em diversos casos

A utilização do feromônio sintético para gatos pode auxiliar na modificação do estado emocional do animal, reduzindo quadros de ansiedade e estresse, eliminando algumas situações indesejadas, como mordeduras e arranhaduras, além da marcação de território. Sua utilização também pode ser benéfica para as relações sociais, reduzindo brigas e facilitando a adaptação e convívio com outros animais.

Além dos benefícios que afetam de forma positiva o tutor, a utilização desses análogos sintéticos para os felinos pode contribuir e ser muito vantajosa em locais de atendimento veterinário. Neste caso, o controle do estado emocional do animal facilita a realização de procedimentos e torna o momento muito menos estressante para o animal, facilitando inclusive o diagnóstico e avaliação por parte do Médico-Veterinário.

Neste artigo iremos abordar detalhes sobre a relação entre os feromônios e o comportamento felino!

O que são os feromônios felinos

Os feromônios são compostos químicos biológicos e naturais, formados principalmente por ácidos graxos que geram odores específicos e sinais visuais (HENZEL e RAMOS, 2018).

Esses feromônios são secretados ao meio externo, de forma constante ou em locais e horários específicos, pelos diferentes tipos de glândulas presentes na pele do animal e certas membranas mucosas e juntam-se a outros fluídos corporais, como a urina. Isso produz respostas comportamentais e fisiológicas nos animais receptores da mesma espécie (HENZEL e RAMOS, 2018).

Como exemplo, podemos citar um gato que sente medo durante uma consulta veterinária. Ele poderá liberar feromônios de alarme. Assim, serão geradas respostas emocionais e inconscientes em outros gatos que adentrarem o local e detectarem os feromônios que estão presentes no ambiente.

Entretanto, há estímulos apaziguadores, como a aplicação de feromônio sintético para gatos e também a forma de manejo (atendimento cat friendly, por exemplo), além do fornecimento de petiscos e do controle de sons e odores de outros animais. Tudo isso pode amenizar reações adversas.

As funções dos feromônios

Em gatos, os feromônios apresentam funções sociais, sexuais e reprodutivas e de território que são essenciais na comunicação intraespecífica entre os animais da mesma espécie (HENZEL e RAMOS, 2018).

A urina, a secreção vaginal, as fezes e alguns tipos de glândulas representam importantes fontes de liberação de feromônios. A presença dos feromônios é percebida por uma estrutura localizada no palato duro, denominada de órgão vomeronasal, como veremos mais adiante.

Veja mais detalhes das formas de liberação dessas substâncias e suas funções:

Área facial

Nos gatos, as glândulas periorais que estão localizadas nos lábios, queixo, vibrissas e bochechas. Elas são responsáveis por expelir secreções com feromônios.

Os felinos possuem cinco feromônios faciais diferentes, nomeados como F1, F2, F3, F4 e F5, isolados das secreções sebáceas das bochechas. Já nos cães, há também glândulas ceruminosas do ducto auditivo e algumas glândulas sebáceas da orelha.

O gato pode fazer marcações em outros indivíduos ou pontos específicos dos seus locais favoritos esfregando o rosto contra a superfície e liberando os feromônios. Eles também podem realizar essas marcações para detectar e atrair as fêmeas no cio, além de reconhecer os locais por onde passa.

Complexo podal

Nos membros torácicos e pélvicos de gatos e cães estão localizadas as glândulas podais. Ou seja, através dos coxins e da pele da região interdigital, os animais secretam o suor emitido durante as reações de medo.

O complexo podal é essencial para a marcação territorial e produção dos feromônios alarmantes.

Complexo perianal

Na área perianal estão localizadas as glândulas (HENZEL e RAMOS, 2018):

  • supracaudais: permanecem ativas durante o ano inteiro e são mais desenvolvidas nos gatos quando comparado aos cães. Também são essenciais nos comportamentos reprodutivos e podem estar envolvidas na comunicação social entre os pets;
  • circum-anais: são mais desenvolvidas nos cães que nos gatos, estando localizadas ao redor do ânus. Esse grupo também inclui as glândulas de suor modificadas e sebáceas, que desempenham funções essenciais na vida social dos animais. A coloração da região pode potencializar a eficácia do sinal semioquímico;
  • sebáceas dos sacos anais: são mais desenvolvidas em cães. Também são essenciais nos comportamentos reprodutivos e na comunicação social entre os pets.

No complexo perianal, através das fibras musculares presentes no saco anal, também ocorre a liberação de secreções originadas pela fermentação de bactérias anaeróbias e aeróbias.

Complexo genital

O complexo genital inclui as glândulas sebáceas do prepúcio nos machos e da vulva nas fêmeas, além das glândulas mucosas uretrais ou genitais associadas. Mas, ainda não existem muitos estudos que mostrem como ocorre o funcionamento dessas glândulas nos gatos e quais são as suas funções exatas.

Estudos mostram que nos cães os feromônios produzidos no complexo genital estão envolvidos nos comportamentos sociais e principalmente reprodutivos. Portanto, nas cadelas, a produção de metildihidroxibenzoato no período de estro gera uma grande atração nos machos não castrados e também aumenta a receptividade da fêmea ao macho.

Complexo mamário

Em uma recente descoberta foi observado que, logo após o parto, a fêmea produz feromônios que são secretados pelas glândulas sebáceas dos sulcos mamários. A substância pode auxiliar os neonatos a se orientarem, locomoverem e identificarem a fonte de alimento primário, ou seja, a amamentação (HENZEL e RAMOS, 2018).

Urina e fezes

A marcação territorial por urina é o principal comportamento indesejado pelos tutores de gatos e cães. O animal realiza a marcação pulverizando pequenas quantidades de urina em superfícies, geralmente verticais, para sinalizar sua presença de forma eficiente a outros indivíduos da mesma espécie.

O comportamento é mais comum em machos não castrados e pode estar associado a outros comportamentos territorialistas, como arranhaduras no chão.

Tanto a urina quanto as fezes são fontes complexas de feromônios nos animais e, portanto, formas comuns de marcação de território. Porém, a liberação de urina com essa finalidade ocorre com uma frequência muito maior.

Como agem os feromônios nos gatos

O gato percebe os feromônios produzidos e expelidos por outros felinos que estejam presentes no ambiente através do estímulo do órgão vomeronasal, que também é conhecido como órgão de Jacobson. Trata-se de uma estrutura epitelial tubular vascularizada, localizada na parte rostral do palato duro sob o septo nasal. É conectada com a cavidade oral através do ducto incisivo (HENZEL e RAMOS, 2018).

No bulbo vomeronasal, localizado no sistema nervoso, terminam os axônios dos neurônios receptores do órgão de Jacobson, que enviam as projeções nervosas para a amígdala no sistema límbico ou “cérebro emocional” (HENZEL e RAMOS, 2018).

O lúmen do órgão vomeronasal é ativado quando ocorre a percepção dos feromônios. A vasoconstrição possibilita a abertura do lúmen para a passagem de ar, geralmente realizada pela “reação de Flehmen”. Essa reação resume-se ao movimento de levantar os lábios após identificar um cheiro não reconhecido, visando direcionar o odor para o órgão de Jacobson e, assim, facilitar sua identificação (HENZEL e RAMOS, 2018).

Após a percepção do feromônio reconhecido, o animal apresenta uma resposta emocional inconsciente que se manifesta independente de quem tenha liberado ou detectado o feromônio. Também não depende de nenhum conhecimento prévio que o animal já possa ter adquirido anteriormente. Tratam-se de respostas alarmantes, sociais, reprodutivas ou apaziguadoras que já são pré-programadas para a espécie (HENZEL e RAMOS, 2018).

Como funcionam os feromônios artificiais

A utilização de feromônios sintéticos disponíveis, criados em laboratório, análogos aos feromônios naturais pode ser recomendada pelo Médico-Veterinário como terapia complementar nos seguintes casos (HENZEL e RAMOS; 2018):

  • marcação urinária ou territorial;
  • arranhadura em locais inadequados, como móveis, tapetes, sofás e camas;
  • período de convalescência ou hospitalização, que pode gerar desequilíbrio emocional, ansiedade e estresse;
  • idas ao pet shop e clínicas veterinárias;
  • transporte para passeios e viagens, idas à clínica veterinária ou mudanças de residência;
  • ambiente que possua outros animais, como clínicas e hospitais veterinários, bem como os abrigos e gatis;
  • introdução de um novo gato na casa ou adaptação do gato antigo;
  • introdução e adaptação de filhotes no novo ambiente;
  • agressividade entre gatos que compartilham e vivem no mesmo território/casa;
  • cistite intersticial ou outras doenças e problemas de saúde;
  • quadros de estresse e ansiedade, como a ansiedade da separação;
  • medo de tempestades, trovões e fogos de artifício;
  • processo de adestramento, sendo mais comum para cães.

Até o momento, não existem análogos sintéticos disponíveis para os feromônios naturais secretados por fontes do complexo genital, urina e fezes. Porém, há produtos oriundos de outras fontes (HENZEL e RAMOS, 2018). Veremos a seguir os tipos de análogos sintéticos que podem ser prescritos para o animal.

Prescrição para os gatos

Atualmente, existem três tipos de correspondentes naturais de feromônios sintéticos para gatos disponíveis no mercado (HENZEL e RAMOS, 2018):

  • facial F3 felino: disponível em spray e difusor. É destinado para gatos e pode ser indicado nas situações de marcação de território por urina, arranhadura excessiva ou inapropriada, casos de hospitalização, cistite intersticial, estresse e adaptação a novos ambientes e animais;
  • maternal apaziguador felino: disponível em spray e difusor. É destinado para gatos e pode ser indicado nas situações de conflitos entre gatos que dividem o mesmo território;
  • interdigital felino (FIS): disponível na forma líquida, em ampolas. É destinado para gatos e pode ser indicado nas situações de arranhaduras em locais inapropriados.

De acordo com cada caso, o Médico-Veterinário pode prescrever o uso do feromônio artificial e a melhor forma para a sua utilização. Atualmente, é possível encontrar apresentações em spray, difusor ou líquido. Além disso, podem ser usados de forma isolada ou associada com outras técnicas, como o uso de fármacos psicotrópicos, adequações no manejo ou outras técnicas.

Além dos tópicos citados e diretamente relacionados ao controle dos índices de estresse dos felinos, é indispensável que o animal tenha um manejo nutricional satisfatório. Uma nutrição adequada é capaz de evitar inúmeras doenças que, consequentemente, acabam gerando estresse ao animal, além de proporcionar bem-estar para o indivíduo.

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Referências bibliográficas

HENZEL, Marcelo; RAMOS, Daniela. O uso dos feromônios sintéticos na clínica veterinária comportamental. São Paulo: APAMVET, v. 9, p. 17-21, 2018. Disponível em: https://www.bvs-vet.org.br/vetindex/periodicos/boletim-apamvet/9-(2018)-2/o-uso-dos-feromonios-sinteticos-na-clinica-veterinaria-comportamental/. Acesso em: 17 mai. 2022.