Entenda como a micoplasmose felina pode afetar a saúde e bem-estar dos gatos

Entenda como a micoplasmose felina pode afetar a saúde e bem-estar dos gatos
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Saiba o que é a micoplasmose felina e como deve ser realizado o diagnóstico e o manejo do animal acometido. Confira!

A micoplasmose felina (ou micoplasmose haemotrópica felina – MHF) já foi conhecida como micoplasmose hemotrópica, hemoplasmose felina, hemobartonelose felina ou anemia infecciosa felina (FIA). É uma doença de importância mundial em felinos e que pode ser fatal.

O que é a micoplasmose felina?

A micoplasmose felina é uma doença causada por bactérias do gênero Mycoplasma. A Mycoplasma haemofelis é a bactéria mais comum, porém as bactérias Candidatus Mycoplasma haemominutum e Candidatus Mycoplasma turicensis também podem infectar os felinos.

São bactérias pleomórficas com forma cocóide, gram-negativas, desprovidas de parede celular e epieritrocitário (parasitam a superfície de eritrócitos).

Uma vez dentro do organismo do felino, o Mycoplasma sp adere a superfície dos eritrócitos. A fixação do Mycoplasma sp ocasiona lesão da membrana da hemácia, com consequente redução a meia vida e causando hemólise – intra e extravascular (Figura 1).

Imagem de Mycoplasma spp vista em um microscópio
Figura 1: Mycoplasma spp. na superfície de eritrocitos, aumento de 1000X microscopia ótica. (Ferraz, et.al., 2020)

Formas de contágio

Existem diferentes formas de contágio pelo micoplasma, incluindo:

  • transmissão vertical: da mãe para a prole;
  • transmissão direta: por meio de gatos infectados, através de saliva, gengiva ou garras (por arranhão ou mordida). Gatos machos adultos com livre acesso ao exterior têm maior probabilidade de serem infectados;
  • transmissão por vetores artrópodes: por meio de vetores como ácaros da orelha, pulgas, carrapatos e por mosquitos;
  • transmissão iatrogênica: através da transfusão de sangue.

O papel da pulga na transmissão da micoplasmose para os felinos

Ectoparasitas, como a pulga (Ctenocephalides felis) e os carrapatos (Rhipicephalus sanguineus) podem ser considerados entre os principais vetores da infecção da micoplasmose para felinos.

Principais sinais clínicos de micoplasmose felina

Os sinais clínicos de felinos parasitados com micoplasmose geralmente são subclínicos. Devido a aderência da bactéria à superfície das hemácias, pode levar à sua destruição pelo sistema fagocítico mononuclear, ocasionando um quadro de anemia hemolítica aguda ou crônica, que pode variar de caráter leve a grave.

A hemólise que ocorre na micoplasmose felina pode ser tanto extravascular como intravascular. Quando extravascular, ocorre em órgãos como pulmões, baço, fígado e na medula óssea. As hemácias parasitadas são destruídas e as não parasitadas voltam a circulação. Já a intravascular ocorre pelo aumento da fragilidade osmótica na célula.

Os sinais clínicos de gatos com micoplasmose incluem:

  • taquipneia;
  • letargia;
  • depressão;
  • anorexia;
  • membranas mucosas pálidas;
  • icterícia;
  • emagrecimento;
  • desidratação;
  • esplenomegalia;
  • febre;
  • taquicardia.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico de micoplasmose felina geralmente é acidental, sendo a identificação do Mycoplasma sp feita durante a análise do esfregaço de sangue. O esfregaço apresenta baixa sensibilidade e especificidade.

Exames de biologia molecular como PCR, Real time PCR ou Southern blotting são mais sensíveis e possibilitam detecção e diferenciação dos micoplasmas mesmo em quadros de parasitemia baixa. Estes são indicados para diagnóstico clínico e monitoramento epidemiológicos.

Principais achados nos exames

Os resultados de exames laboratoriais (como hemograma completo, bioquímica sérico e do exame de urina) de gatos com infecções por micoplasma são inespecíficos e influenciados por processos patológicos subjacentes.

As alterações hematológicas encontradas normalmente são anemia em diferentes graus, com regeneração. Achados do esfregaço sanguíneo são hipocromia, anisocitose, presença de corpúsculos de Howell-Jolly, reticulocitose e teste de Coombs positivo. Em alguns casos, animais recém infectados é possível identificar quadro de anemia não regenerativa por não haver tempo suficiente para que a anemia seja classificada como regenerativa.

Os valores de leucócitos (contagem relativa e absoluta) possuem baixo valor diagnóstico, uma vez que podem estar normais, elevados ou baixos. Apesar das plaquetas normalmente estarem dentro dos valores de referência, pode ocorrer trombocitopenia.

Já na bioquímica sérica o médico-veterinário poderá identificar:

  • hiperbilirrubinemia e bilirrubinúria (devido a hemólise);
  • elevação nos valores de enzimas hepáticas ALT e AST;
  • acidose metabólica;
  • azotemia pré-renal.

Diagnóstico diferencial

O diagnóstico diferencial para micoplasmose felina inclui doenças que podem provocar quadros de anemia, anorexia, depressão, incluindo complicações como:

Micoplasmose felina: tratamento e formas de prevenção

O tratamento de felinos com micoplasmose consiste em terapia de suporte e antibióticos. Estas são fundamentais para o sucesso do tratamento e qualidade de vida para os felinos.

O antibiótico de escolha para o tratamento de felino com micoplasmose é derivado das tetraciclinas. Para gatos, a doxiciclina é a droga de escolha por ter menos efeitos colaterais que as demais tetraciclinas nesta espécie – na dose de 5mg/kg BID ou 10mg/kg SID pelo período de três a quatro semanas

Outro grupo de fármacos que podem ser utilizados para o tratamento são as fluoroquinolonas, como:

  • enrofloxacina (em doses mais baixas – 2,5 mg/kg SID, por dez a 14 dias);
  • marbofloxacina;
  • pradofloxacina.

Como os gatos podem desenvolver anemia hemolítica imunomediada, o tratamento com prednisona (2mg/Kg SID por 3 semanas) também pode ser indicado. Estudos recentes demonstraram que o tratamento nem sempre é eficaz e os gatos podem permanecer portadores da micoplasmose durante anos ou até por toda a vida.

Como terapia de suporte há a fluidoterapia e estímulo a ingestão de alimentos. Em quadros mais severos pode ser indicada transfusão sanguínea.

É importante ressaltar que animais tratados e recuperados da infecção podem tornar-se portadores assintomáticos por tempo indeterminado e, possivelmente, pela vida toda.

Como forma de prevenção a micoplasmose temos:

  • uso periódico e correto de medicamentos ectopasasiticidas para prevenção a infecção de pulgas e carrapatos;
  • prevenção através de sorologia e vacinação para FeLV, quando indicado, já que há predisposição para o desenvolvimento da micoplasmose em animais FeLV positivos;
  • castração, pois diminui as saídas a rua e, consequentemente, a possibilidade de brigas.

O papel da nutrição na saúde felina

A nutrição tem papel importante no processo de recuperação de animais com quadros infecciosos como micoplasmose. Isso porque, quando inapetentes é necessário entrar com suporte nutricional diferenciado para os animais, como métodos parenterais ou enterais.

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