Relato de Caso: enteropatia crônica responsiva à dieta em um cão
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Compreenda, em detalhes, como o quadro foi conduzido e como alimento Royal Canin® Hypoallergenic fez parte do tratamento do animal.
A doença inflamatória intestinal, que passou por uma atualização na nomenclatura e é chamada no momento de enteropatia crônica, é um distúrbio idiopático que pode se manifestar de forma leve a severa (DANDRIEUX, 2016; DUPOUY-MANESCAU et al., 2024).
Neste artigo, apresentamos, detalhadamente, um estudo de caso que mostra um cão que apresenta enteropatia crônica responsiva à dieta. Trata-se de um dos principais subtipos dentro do espectro das enteropatias crônicas, como veremos mais adiante.
O caso ilustra a importância da abordagem individualizada de cada paciente diante das manifestações clínicas, além do papel da nutrição e de um alimento adequado para o prognóstico favorável.
O que é enteropatia crônica (doença inflamatória intestinal)
A enteropatia crônica em cães, que já foi denominada doença inflamatória intestinal, é definida como um conjunto de distúrbios gastrointestinais de evolução prolongada (≥3 semanas), caracterizados por sinais como vômito, diarreia, náusea, borborigmos, flatulência, dor abdominal e perda de peso. A etiologia multifatorial se caracteriza por resposta imune crônica, ruptura da permeabilidade intestinal e alteração na composição e função da microbiota intestinal, denominada disbiose (DANDRIEUX, 2016; DUPOUY-MANESCAU et al., 2024).
As enteropatias crônicas são atualmente classificadas de acordo com a resposta clínica ao tratamento. Com isso, temos: enteropatias responsivas à dieta, enteropatias responsivas a antibióticos, enteropatias responsivas a imunossupressores e enteropatias não responsivas ou refratárias (DUPOUY-MANESCAU et al., 2024).
Enteropatia crônica responsiva à dieta
A enteropatia crônica responsiva à dieta é um dos principais subtipos dentro do espectro das enteropatias crônicas e objeto do estudo de caso apresentado neste artigo.
A fisiopatogenia dessa enfermidade envolve mecanismos imunológicos e não imunológicos relacionados à hipersensibilidade alimentar, nos quais componentes proteicos ou aditivos presentes na dieta podem desencadear respostas inflamatórias persistentes no trato gastrointestinal (MUELLER & UNTERER, 2018).
Sendo assim, o diagnóstico de enteropatia crônica responsiva à dieta depende de um manejo alimentar conduzido de forma rigorosa, e uma das respostas pode ser utilizando alimentos produzidos com proteínas hidrolisadas. A adesão estrita ao protocolo — exclusividade alimentar, duração adequada e monitoramento clínico minucioso — é fundamental para diferenciar essa afecção de outras enteropatias crônicas (JACKSON, 2023; JACKSON & DEMBELE, 2024).
Leia também: Veja um panorama completo da enteropatia crônica em cães
Cão com enteropatia crônica responsiva à dieta: caso clínico detalhado
A seguir, veremos os detalhes do caso clínico do Loki, um cão macho da raça Pastor Alemão de 1 ano e 3 meses, com 27,8kg, com enteropatia crônica responsiva à dieta hidrolisada, que foi acompanhado pela médica-veterinária doutora Flávia de Nazaré Leite Barros, no setor de clínica médica do Hospital Veterinário da Universidade Federal do Pará, localizado na cidade de Castanhal.
Descrição do caso
O animal foi adotado com o histórico de gastroenterite parasitária por Ancylostoma e pneumonia parasitária por larvas de Ancylostoma, afecções que foram tratadas adequadamente através de um protocolo antiparasitário a base de fembendazol, pamoato de pirantel e praziquantel, administrado por 3 dias seguidos. Posteriormente, foi realizado o protocolo vacinal com vacina múltipla e vacina antirrábica.
O cão recebia um alimento super premium e, a partir de duas semanas em sua casa nova, passou a apresentar fezes pastosas (Figura 1). Nesse momento, foi novamente realizado um protocolo antiparasitário, mesmo com resultado de exame coproparasitológico negativo.

Sucessivas trocas de alimentos
Foi, então, realizada a troca de ração por outra marca super premium. A princípio, o aspecto das fezes normalizou. Entretanto, o paciente voltou a apresentar fezes pastosas e volumosas após três semanas de dieta com esse novo alimento (Figura 2).
O cenário foi se repetindo. Sucederam-se cinco trocas de rações, nas quais o animal começava se alimentando normalmente e rejeitava a ração após três semanas, voltando a fazer grande volume de fezes pastosas.

Em seguida, o animal passou a receber alimentação natural por uma semana. Não houve resposta clínica, e o paciente começou a apresentar hiporexia, polidipsia, vômitos, persistência de fezes volumosas e pastosas e melena, além de coprofagia (Figura 3).

Loki teve novamente sua alimentação trocada para um alimento comercial para Pastor Alemão da Royal Canin®, apresentando melhora clínica por um mês, mas voltando a apresentar a sintomatologia após esse período.
Passou então a receber ração hipoalergênica comercial contendo proteína hidrolisada de frango. Nesse momento, apresentou melhora clínica por dois meses e, mais uma vez, passou a rejeitar o alimento e apresentar vômitos e fezes volumosas/ pastosas (Figura 4).

Suspeita de reação alérgica
O animal precisou realizar uma radiografia da articulação coxofemoral, para a qual foi anestesiado com propofol dose dependente, por 5 minutos. No entanto, 2 horas pós anestesia, apresentou hematoquezia, que foi relacionada a uma possível reação alérgica ao ovo, componente do propofol. Tal sensibilidade foi testada pelas responsáveis após o fornecimento de um ovo de frango cozido ao animal, que apresentou vômito e diarreia com sangue após o consumo (Figura 5).

Depois desse episódio, o paciente teve piora clínica, perdeu 2 kg no intervalo de duas semanas, chegando ao ECC 3/9 (Figura 6). Então, foi realizado manejo terapêutico com anti-inflamatório esteroidal (prednisolona) administrado uma vez ao dia por sete dias, ao qual o cão respondeu positivamente em 24 horas, voltando a se alimentar, sem apresentar vômitos e com fezes de melhor aspecto.

Por apresentar criptorquidismo bilateral, foi indicada a castração eletiva do animal e, devido ao histórico de vômito e diarreia crônicos, foram solicitados exames de endoscopia e colonoscopia para a pesquisa de enteropatia crônica (a antiga doença inflamatória intestinal, como já mencionamos) (Figura 7).

Resultados dos exames
O laudo da endoscopia digestiva alta do paciente Loki demonstrou:
- esôfago: mucosa de aspecto e coloração normal ao longo do órgão. Presença de líquido em esôfago torácico, nessa mesma porção foi visualizado dilatação. Transição esôfago-gástrica ao nível de pinçamento diafragmático. Cárdia apresentando-se edemaciada;
- estômago: forma, volume e distensibilidade normais. Presença de líquido de estase em quantidade moderada, de coloração normal. Corpo gástrico com mucosa normal, pregas gástricas apresentando edema leve. Manobra de retroversão demonstra cárdia ajustada ao aparelho, fundo gástrico com mucosa sem alterações macroscópicas. Região antral com peristaltismo preservado, presença de pequena quantidade de pelos. Piloro com edema;
- duodeno: não foi possível realizar avaliação devido ao porte do paciente;
- observações: ausência de corpo estranho nos segmentos avaliados. Imagens sugestivas de acalasia (diferencial para megaesôfago), gastrite leve.
Já o laudo da colonoscopia realizada apontou:
- canal anal: pérvio, sem secreção e esfíncter funcional;
- reto: mucosa com aspecto macroscópico normal, distensão e contratilidade mantida;
- cólon: mucosa com coloração normal, edema leve, presença de nematódeos ao longo do órgão, com lesões erosivas esparsas, vascularização e contratilidade mantida;
- válvula íleo cólica: válvula com edema moderado e enantematosa, presença de nematódeo ao redor. Presença de folículos evidentes no interior do ceso.
- observações: não foi visualizado corpos estranhos nos segmentos avaliados. Imagens sugestivas de colite erosiva leve (infestação de endoparasitas – Ancylostoma sp.).
Durante a endoscopia e a colonoscopia foram coletados fragmentos do estômago e do cólon para realização de exame histopatológico complementar, cujo laudo microscópico do patologista evidenciou:
- estômago sem alteração;
- intestino (cólon) com dilatação de criptas com moderada quantidade de detritos basofílicos, infiltrado inflamatório mononuclear leve na lâmina própria.
Tratamento do caso de enteropatia crônica
Diante do laudo histopatológico do intestino (cólon) do paciente, que evidenciou a enteropatia crônica, a médica-veterinária responsável pelo caso escolheu como conduta tratar o animal com ciclosporina por 45 dias e modificar sua dieta, instituindo o alimento Royal Canin® Hypoallergenic, com proteína de soja hidrolisada.
Além disso, foi realizado novo protocolo antiparasitário, uma vez que foi evidenciada infestação de endoparasitas.
Conclusão do caso
Após quatro meses recebendo a dieta coadjuvante hipoalergênica, e há três meses sem a ciclosporina, o cão apresenta-se estável, alimentando-se normalmente, com fezes de consistência normais e volume reduzido (defecando duas vezes ao dia – pela manhã e pela noite), sem vômitos. Além disso, Loki ganhou peso e melhorou seu escore de condição corporal, passando a um ECC 4/9 (Figura 8).

A importância da nutrição adequada para pacientes com enteropatia crônica responsiva à dieta hidrolisada
A intervenção dietética representa um dos pilares fundamentais no manejo de cães acometidos por enteropatia crônica (ou doença inflamatória intestinal – DII) responsiva à dieta. As dietas com proteínas hidrolisadas são amplamente utilizadas nesses casos, uma vez que a hidrólise enzimática fragmenta as proteínas em peptídeos de baixo peso molecular, reduzindo a disponibilidade de epítopos capazes de induzir respostas imunomediadas (MUELLER & UNTERER, 2018; JACKSON & DEMBELE, 2024).
Além da exclusão antigênica, há evidências de que dietas hidrolisadas exercem efeitos metabólicos benéficos adicionais, como modulação da microbiota intestinal, melhora da integridade da barreira epitelial e alteração positiva do metabolismo lipídico, contribuindo para redução da inflamação local e sistêmica (AMBROSINI et al., 2020; FREICHE et al., 2025).
Baseada em estudos e evidências científicas de que pacientes com enfermidades responsivas à dieta apresentam melhora clínica significativa com a introdução de dietas hidrolisadas, a Royal Canin® desenvolveu a fórmula Hipoallergenic, um alimento coadjuvante indicado para a redução de intolerâncias a ingredientes e nutrientes. Essa solução nutricional possui fontes de carboidratos selecionadas, proteínas hidrolisadas com baixo peso molecular para assegurar que o alimento seja hipoalergênico, além de ácidos graxos para ajudar a manter um sistema digestivo e uma pele saudáveis.
Assim, a Royal Canin® Hypoallergenic, disponível em quatro apresentações, ajuda a apoiar a barreira protetora natural da pele, a regular o trânsito intestinal e a manter uma flora digestiva equilibrada.

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* A escolha do alimento ideal para o paciente deve ser sempre feita pelo médico-veterinário responsável, considerando suas particularidades, condição de saúde e necessidades específicas, promovendo uma nutrição adequada, bem-estar e longevidade.
Referências:
AMBROSINI, Y.M. et al. Treatment With Hydrolyzed Diet Supplemented With Prebiotics and Glycosaminoglycans Alters Lipid Metabolism in Canine Inflammatory Bowel Disease. Front. Vet. Sci., 2020. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32851029/. Acesso em: 03 nov. 2025.
DANDRIEUX, J.R.S. Inflammatory bowel disease versus chronic enteropathy in dogs: are they one and the same? Journal of Small Animal Practice, v.57, 2016. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27747868/ . Acesso em: 04 nov. 2025.
DUPOUY-MANESCAU, N. et al. Updating the Classification of Chronic Inflammatory Enteropathies in Dogs. Animals, v.14, n.5, 2024. Disponível em: https://www.mdpi.com/2076-2615/14/5/681. Acesso em: 01 dez. 2025.
FREICHE, V. et al. An extensively hydrolysed protein-based extruded diet in the treatment of dogs with chronic enteropathy and at least one previous diet-trial failure: a pilot uncontrolled open-label study. BMC Vet. Res., v.21, n.1, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39955592/. Acesso em: 01 dez. 2025.
JACKSON, H.A. Food allergy in dogs and cats; current perspectives on etiology, diagnosis, and management. Journal of the American Veterinary Medical Association, v.261(S1), 2023. Disponível em: https://avmajournals.avma.org/view/journals/javma/261/S1/javma.22.12.0548.xml. Acesso em: 3 nov. 2025.
JACKSON, H.A.; DEMBELE, V. Conducting a successful diet trial for the diagnosis of food allergy in dogs and cats. Vet. Dermatol., v.35, n.5, 2024. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38956779/. Acesso em: 3 nov. 2025.
MUELLER, R.S.; UNTERER, S. Adverse food reactions: Pathogenesis, clinical signs, diagnosis and alternatives to elimination diets. The Veterinary Journal, v.236, 2018. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S1090023318301321?via%3Dihub. Acesso em: 03 nov. 2025.
