Tricobezoar em gatos: conheça os principais riscos e saiba como prevenir

Tricobezoar em gatos: conheça os principais riscos e saiba como prevenir

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O estresse, a ausência de enriquecimento ambiental e a auto higienização excessiva predispõem ao excesso de ingestão de bolas de pelos; saiba como prevenir e quais os riscos do tricobezoar para os gatos

Os felinos são animais com diversas particularidades, que vão desde as atitudes sociais e comportamentais peculiares até a ocorrência de sensibilidades e reações orgânicas a fármacos específicos.

Entre as particularidades está o hábito da auto higienização, que cria um cenário muito propício para o acúmulo de pelos no estômago e demais estruturas do trato gastrointestinal do gato.

Embora seja um hábito natural muito comum nos felinos, a auto higienização pode ser prejudicial à saúde em alguns casos, pois pode causar obstruções parciais ou completas através da formação de corpo estranho no estômago. Isso ocorre quando a bola de pelo não é totalmente expelida pelo organismo, acumulando e prejudicando o trânsito gastrointestinal (BARRS et al; 1999).

Veja como é importante entender previamente as particularidades dos hábitos naturais dos gatos e os efeitos da domesticação, que são fundamentais para definir estratégias eficazes de prevenção do tricobezoar gástrico felino.

O etograma felino e a ingestão e pelos

Estudos recentes mostraram que a domesticação dos felinos começou no Crescente Fértil, cerca de 10 mil anos atrás, quando a agricultura estava começando. Contudo, o etograma do gato permanece o mesmo (DRISCOLL et al; 2009).

O etograma é uma lista de comportamentos usados pela etologia (disciplina que estuda o comportamento animal) para descrever tendências ambientais em determinadas espécies. Os felinos domésticos precisam se sentir seguros em seu ambiente.

Os tutores devem, portanto, permitir que os gatos exteriorizem seu etograma normal: autolimpeza, hábitos de espreguiçar, momentos de descanso-observação, descanso, exploração, fuga, rolamentos, brincadeiras, interação, alimentação, períodos pós-alimentação e defecação (SILVA; 2015). Também é importante garantir que o gato tenha rotas de fuga com segurança para ter a oportunidade de se esconder e de ficar em posição de recuo ou retirada em caso de estresse.

Muitos gatos têm um estilo de vida que não permite realizar todas as suas necessidades comportamentais. Essa deficiência pode criar um ambiente estressante e resultar em alteração no comportamento natural do animal.

Dentre os comportamentos naturais do felino está a auto higienização. Esse é um hábito comum, mas quando feito em excesso pode ocasionar tricobezoar em gatos, além de diversas alterações gastrointestinais as quais veremos adiante.

A importância da auto higienização para os felinos

A auto higienização oferece muitas vantagens aos gatos, contudo vale destacar:

  • remoção de pelos mortos e sujidades;
  • diminuição da temperatura corporal interna;
  • redução de parasitas.

Durante a auto higienização, os gatos inevitavelmente ingerem os pelos, em função das centenas de papilas existentes na língua. Esses animais possuem papilas cônicas na língua que formam espécies de ganchos voltados para trás. Tais estruturas dérmicas cônicas formam uma penugem sobre a língua áspera dos gatos, atuando como uma espécie de escova de modo a remover os pelos mortos e as partículas presas na pelagem (BARRS et al; 1999).

Durante o dia, um gato pode ingerir espontaneamente 2/3 dos pelos perdidos (liberados) por ele durante a auto higienização, que deverão ser eliminados, preferencialmente, através das fezes.

Vale ressaltar que esse é um hábito normal em felinos. Contudo, o estresse provocado por ambiente restrito, por exemplo, pode levar ao excesso de auto higienização. Como consequência, há um aumento representativo da ingestão de pelos e propensão à formação de tricobezoares (BARRS et al; 1999).

Tricobezoar em gatos: até que ponto a ingestão de pelos é considerada normal?

Quando acordados, os gatos dedicam aproximadamente 25 a 30% do seu tempo lambendo sua pelagem e, sendo assim, são mais propensos à formação das bolas de pelos (PANAMAN, 1981).

Enquanto muitos autores consideram que a eliminação de bolas de pelos possa ser um mecanismo normal, também deve-se reconhecer que a frequência da eliminação das bolas de pelos é geralmente uma indicação de ingestão excessiva ou de doença gastrointestinal.

A ingestão excessiva de pelos pode causar obstrução esofágica, do fluxo gástrico ou do intestino delgado (parciais ou completas), além de quadros de constipação ou colite e outras complicações à saúde felina (BARRS et al; 1999), como veremos adiante.

Principais complicações causadas pela ingestão excessiva de pelos

O tutor deverá se preocupar quando essas bolas de pelos não forem eliminadas naturalmente pelo vômito ou fezes. Em alguns casos, a formação de bolas de pelos pode causar complicações, como (MELO; 2022):

  • apatia;
  • cansaço;
  • fraqueza;
  • anorexia;
  • perda de peso;
  • vômitos ou regurgitações;
  • constipação;
  • obstrução intestinal (parcial ou total) nos casos mais graves;
  • óbito (em casos graves de obstrução).

52% dos Médicos-Veterinários já tiveram que tratar alguma obstrução intestinal causada por bolas de pelos e 43% foram obrigados a realizar a cirurgia reparadora (ROYAL CANIN®; 2004*).

Fatores predisponentes

Transtornos comportamentais, estresse, tédio, dor e problemas de pele podem fazer com que um gato se limpe compulsivamente e, com isso, ingira uma quantidade de pelos excessiva. Esses fatores são, portanto, predisponentes à formação de bolas de pelos (MELO; 2022).

A redução do peristaltismo promove o acúmulo de bolas de pelos. Alguns autores sugerem uma deficiência do complexo mioelétrico migratório no gato. Esse complexo cria contrações peristálticas no estômago que se propagam por todo o trato digestivo, auxiliando as partículas não digeridas a transitarem em direção ao cólon. Com isso, a motilidade gastrintestinal reduzida nos gatos predispõe à formação das bolas de pelos (BARRS et al; 1999).

Além disso, a atividade peristáltica varia de indivíduo para indivíduo, sendo que dois gatos da mesma raça com semelhantes hábitos de higienização podem não apresentar a mesma predisposição à formação de bolas de pelos. Outros fatores, como estresse ou inflamação intestinal, são passíveis de piorarem tais efeitos e diminuem a motilidade digestiva (BARRS et al; 1999).

Tricobezoar em gatos: como prevenir?

Várias estratégias devem ser empregadas para auxiliar na prevenção dos tricobezoares em gatos. Dentre elas, vamos destacar a escovação do pelo e a nutrição.

Escovação

O hábito da escovação semanal ou até mesmo diária é uma boa maneira de verificar a condição da pele e pelagem, se não existem feridas, parasitas, bem como remover os pelos mortos. Em um gato com pelagem longa e semi-longa, a escovação é imprescindível e auxilia na prevenção dos tricobezoares nos gatos. O filhote deverá ser habituado à escovação desde os primeiros meses de vida a fim de facilitar esse procedimento no decorrer da vida.

Existem brinquedos que auxiliam na escovação, mas também há diversas opções de escovas disponíveis no mercado para escovar os pelos dos gatos. É essencial que os tutores usem o tipo mais adequado de escova conforme o pelo do gato (CRUZ; 2022).

  • Gatos com pelos longos: são mais indicadas as escovas de pinos, de dentes largos e de dentes curtos. Também é uma boa opção o pente para retirar nós, rasqueadeira e FURminator.
  • Gatos com pelos médios: são mais indicadas as escovas de pinos, de dentes largos, de dentes curtos, rasqueadeira e FURminator.
  • Gatos com pelos curtos: são mais indicadas as escovas de cerdas, de dentes curtos, rasqueadeira e FURminator.

Nutrição

O alimento precisa ser composto por um teor adequado de fibras balanceadas entre fermentáveis e não fermentáveis. Isso tem o objetivo de melhorar a motilidade e o esvaziamento gástrico.

As fibras colaboram com a eliminação fecal dos pelos e, assim, limitam naturalmente a formação das bolas. Os tutores de gatos com pelagem longa e semi-longa, principalmente, devem optar por alimentos completos e balanceados com o benefício de ajudar na prevenção das bolas de pelos.

Os resultados de um estudo recente indicaram que o tipo e a quantidade de fibras (psyllium e celulose) presentes na dieta podem aumentar a passagem dos pelos no trato intestinal e reduzir a frequência de vômito de bolas de pelo. Com cerca de apenas 14 dias do uso dessa dieta já foi possível perceber melhoras significativas nos indivíduos (WARA e DATZ; 2021).

A ROYAL CANIN® possui uma linha extensa de alimentos completos e coadjuvantes para gatos e cães nas versões secas e úmidas, entre eles os alimentos Bolas de Pelo, formulados para auxiliar na eliminação dos pelos ingeridos pelo gato. A eficiência do uso exclusivo de HAIRBALL CARE é comprovada após 14 dias de uso: a quantidade de pelos eliminados naturalmente nas fezes é duplicada, auxiliando na menor formação das bolas de pelo.

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Consultas veterinárias de rotina

A proteína é um dos principais constituintes do pelo. Desta forma, a manutenção dos pelos dos gatos exige que a produção de aminoácidos esteja bem regulada (HENDRIKS; 1997), o que pode ser garantido através de um manejo nutricional adequado. Portanto, a alimentação e as consultas veterinárias de rotina são essenciais na prevenção de diversos problemas, incluindo a obstrução por bola de pelo em gatos.

As consultas de rotina são importantes para o acompanhamento da saúde felina e prescrição, pelo Médico-Veterinário, de uma alimentação superior e balanceada que atenda todas as necessidades individuais do gato. Caso contrário, o animal poderá sofrer com a perda e ingestão dos pelos, elevando o risco de desenvolver diversas enfermidades que estão relacionadas à absorção insuficiente de importantes nutrientes, minerais, vitaminas, proteínas e outros.

*Estudo direcionado pela ROYAL CANIN® em 2004, em colaboração com 30 criadores de gatos.

Referências:

WARA, Allison; DATZ, Craig. Cats and Dietary fiber. 2021. Disponível em: https://vetfocus.royalcanin.com/en/scientific/cats-and-dietary-fiber. Acesso em: 14 jan. 2023.

PANAMAN, Roger. Behaviour and Ecology of Free-ranging Female Farm Cats (Felis catus L.). Zeitschrift für Tierpsychologie, v. 56, n. 1, p. 59-73, 1981. Disponível em: https://doi.org/10.1111/j.1439-0310.1981.tb01284.x. Acesso em: 14 jan. 2023.

HENDRIKS, Wouter H. et al. Seasonal Hair Growth in the Adult Domestic Cat (Felis catus). Comparative Biochemistry and Physiology Part A: Physiology, v. 116, n. 1, p. 29-35, 1997. Disponível em: https://doi.org/10.1016/S0300-9629(96)00113-2. Acesso em: 14 jan. 2023.

DRISCOLL, Carlos et al. The Taming of the Cat. Scientific American INC., v. 300, p. 68-75, 2009. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/253955800_The_Taming_of_the_Cat. Acesso em: 14 jan. 2023.

BARRS, V. R. et al. Intestinal obstruction by trichobezoars in five cats. J Feline Med Surg, v. 1, n. 4, p. 199-207, 1999. Disponível em: https://doi.org/10.1053/jfms.1999.0042. Acesso em: 14 jan. 2023.